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Lincoln Secco: PSDB e Eduardo Campos só têm chance em 2014 se houver ”crise catastrófica”


02/11/2012 - 12h19

por Rodrigo Vianna e Juliana Sada, no Escrevinhador

O resultado das eleições municipais trouxe novidades e novos atores ao cenário político. O balanço mostra o crescimento do PSB nas capitais; o avanço do PT em redutos tucanos; a entrada do PSOL na disputa majoritária; um bom desempenho do PSD… Junto das novidades, vieram as dúvidas sobre a disputa de 2014.

O Escrevinhador conversou com o historiador e professor da USP Lincoln Secco sobre o desempenho do PT nestas eleições, o espaço de ação da oposição e a disputa de 2014.

Para Secco, autor do livro “História do PT”, as políticas sociais do governo federal possibilitaram a diminuição do poder dos coronéis nas pequenas cidades do interior do nordeste e o crescimento do PT nestes locais.

Sobre 2014, o historiador não tem muitas dúvidas: a oposição e até mesmo Eduardo Campos só têm chance em 2014 caso “o governo estiver numa crise catastrófica”. Ao falar do PSDB, é categórico: “ele não tem nada a oferecer à população”.

Confira a seguir a íntegra da entrevista.

No Nordeste, o PT perde terreno nas capitais, mas parece avançar nos pequenos municípios. Por quê?

Desde que Lula implementou suas políticas sociais o PT ampliou sua presença em regiões mais pobres do Nordeste. O PT já tinha  uma poderosa marca social oriunda de suas gestões municipais e do próprio discurso recorrente de suas lideranças a favor dos  mais pobres. Só que a influência petista esbarrava nos vestígios de coronelismo que ainda havia. O aumento do salário mínimo e os programas Luz para Todos e Bolsa Família mudaram a vida das mães de família e o comércio local das pequenas cidades. A mulher recebe os recursos diretamente numa conta bancária, sem  mediação do político local.

No Sul e Sudeste parece dar-se o inverso: PT é forte nas cidades grandes e, apesar de eleger mais prefeitos nas pequenas, não consegue ainda rivalizar com PMDB e PSDB. Por quê?

Os dois Estados mais populosos do Brasil são governados pelo PSDB: São Paulo e Minas Gerais. Uma produção industrial e agropecuária forte e uma classe média tradicional estabelecida impediram historicamente o PT de se posicionar na liderança.

Basta visitar uma pequena cidade do Oeste paulista e outra do interior da Bahia para ver a diferença. O impacto das políticas sociais de Lula foi muito menor nos Estados mais desenvolvidos. Ali, o PT tem mais força nas cidades médias e grandes, onde a periferia é extensa e os problemas crônicos da saúde, transporte e habitação por vezes inclinam o eleitorado à esquerda.

O que significa o avanço de Eduardo Campos?

Campos é um político absolutamente tradicional e que divide com outras oligarquias o PSB. Não vejo nada de mais nisso. Tanto ele quanto Aécio Neves são vazios programáticos. Nada têm a oferecer à população que seja diverso do que já é feito pelo PT.

Campos é da base do governo e em nenhum momento criticou Dilma Rousseff. Ele pode ser candidato à presidência fora do campo político governista? Pode. Mas só seria eleito se o governo estiver numa crise catastrófica, ou se a oposição encontrar um programa alternativo, o que ela tenta desde 2002.

O PT terá que ir cada vez mais ao centro para se manter no poder?

O PT já se deslocou para um discurso moderado. Mas as oscilações do PT dependem da conjuntura e dos grupos políticos que o confrontam. A política brasileira desde 2005 se tornou muito polarizada. A grande imprensa retrocedeu aos tempos do Primeiro Reinado ou ao menos do lacerdismo, com o uso de uma linguagem desproporcional ao “perigo” que o PT representaria. Acuados, até mesmo membros do PT repetem a ideologia rasteira do republicanismo e dizem  que a alternância  no poder é necessária. Ora, quem vence e permanece no poder numa democracia só o faz porque o povo quer. Ninguém diz que a Suécia é uma ditadura por ser governada há decênios pela Social Democracia. No presidencialismo a rotatividade deve ser da pessoa, para que ela não personalize demais o poder, mas não do partido.

Há espaço para oposição à esquerda?

Num horizonte político visível, não. O  espaço para uma alternativa que consiga captar os descontentes com o PT e com a oposição de direita está aberto e em disputa. Heloísa Helena e Marina Silva já o ocuparam. Mas para uma esquerda radical o importante seria crescer na base social do PT e não só na classe média tradicional. Ela erra ao reproduzir o discurso moralista que o PT fazia no passado. O PT podia porque tinha ampla base social operária e nas periferias dos grandes centros. Ele tinha algo mais a dizer. Atualmente, só  uma inesperada aceleração histórica pode dar alguma voz à extrema esquerda.

E dentro do próprio PT, há espaço para as correntes mais à esquerda?

Como todo grande partido organizado, o PT vai manter uma ala esquerda. Mas enquanto o partido estiver no governo federal, a esquerda petista se manterá adormecida pelo medo da derrota eleitoral do partido e pela participação que tem no próprio governo.

Com o acerto de Lula na indicação de Haddad, sua influência crescerá internamente?

A influência de Lula não precisa crescer mais (risos). E se você se refere ao novo prefeito de São Paulo, é claro que ele passa a  comandar o PT municipal e se projeta para o futuro em outros cargos. Mas é muito cedo para pensar nisso.

Os tucanos têm futuro se deixarem SP de lado e escolherem Aécio Neves em 2014?

O regionalismo paulista dos tucanos é um problema. Mas não foram os candidatos Serra ou Alckmin que perderam as eleições presidenciais. Foi o partido! Ele não tem nada a oferecer à população e só poderá ganhar mediante uma crise de proporções graves ou por um golpe de mão. Aécio Neves é um político que une certa “juventude” para um político de carreira a uma velhice política cansativa. É uma pessoa sem ideias. Como candidato terá boa votação provavelmente. Mas simplesmente por encarnar o voto oposicionista que é grande, mas insuficiente.

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19 comentários

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André Luis

20 de abril de 2013 às 13h15

Os jornalistas e nós grande público sabemos menos do que supomos. Eduardo Campos é esperto, e esta sondando cada detalhe de sua candidatura, quer entrar para ganhar. Acho que ele vai surpreender e tomar inumeos votos da Dilma, antes de chegar a ser presidente. Ele vai surpreender e causar estragos. Meu voto é dele sem sombra de duvidas. É um cara calmo, tranquilo, não tem aquela oratoria que ja enganou tanto os eleitores. Prefiro votar num cara assim, não sabe falar direito mais é correto em suas açoes e seus planos. Tem interesse em fazer, começando pelos mais pobres, pois foi isso que herdou do avô. Não é chegado a gastos, luxos e fortunas; não ambiçoes vaidosas, voluveis ou vazias, como fama, estar na mídia, e capas de revistas, perdendo tempo com fotos ao lado de celebridades. É o melhor do momento, precisamos aproveitar. Dilma caiu de para quedas e nao nos serve!

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[…] Lincoln Secco: PSDB e Eduardo Campos só têm chance em 2014 se houver ”crise catastrófica” Rui Falcão, a Globo e o mensalão do PSDB […]

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04 de novembro de 2012 às 23h02

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03 de novembro de 2012 às 20h53

[…] Lincoln Secco: PSDB e Eduardo Campos só têm chance em 2014 se houver ”crise catastrófica” Rui Falcão, a Globo e o mensalão do PSDB […]

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Alexandro Rodrigues

03 de novembro de 2012 às 01h33

O PT tem que começar o processo de desconstrução da farsa que é Eduardo Campos já! Ele é o parasita onde a doença chamada “PIGelitismo” se instalará e tentará voltar ao comando do país!

Eduardo Campos, o menino de engenho, será o anti-Lula!

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Francisco

02 de novembro de 2012 às 21h10

O PT tem que analisar com lupa o que aconteceu em Sergipe e na Bahia. Edvaldo (PC do B) e Deda “queimaram” o PT talvez de maneira definitiva no estado. Só voltarão, porque a total falta de alternativa e porque João Alves já esta em idade de aposentar.

No caso da Bahia, com algumas diferenças a questão é a mesma: ser do PT não resolve. tem que “governar PT”.

Mal governo é pior que não governar, mal governar “queima” o partido e estoura a rejeição. Não foi a rejeição que derrotou Serra?

Pois é…

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Vlad

02 de novembro de 2012 às 18h06

Verdade.
Só que não precisa ser “catastrófica”, não.
Observem os resultados das eleções e verão que basta que 5% ou 6% do eleitorado que estava dum lado mude e está feita a grande caca, que é pior que a “pequena caca” onde nos metemos.

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Urbano

02 de novembro de 2012 às 17h03

O balaio de gato da oposição ao Brasil para 2014 é formado, mais precisamente, pelo eduardo moita, o jabarrabás vãsconselhos, a tunganagem, o demo e os partidecos molequinhos de recados.

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fernando

02 de novembro de 2012 às 16h01

Não acho tão simples a eleição assim,,,

1- a Dilma não tem a popularidade e o carisma do Lula..

2-bom aprovamento do governo não significa percentual de votos.

3-perdemos a eleição desse ano no Nordeste e Norte , onde foi o grande reduto eleitoral nosso na eleição presidencial.

4-No sul e são paulo , o eleitorado é conservador e tende a votar no candidato da oposição.

5- o Haddad na cidade de SP ganhou a eleição pelo pifio governo do Kassab e sua desaprovação.

6-Uma coalização Aécio-Campos-mais toda grande imprensa, traria problemas no eleitorado mineiro e no nordeste….

não sou negativista, sou realista, quem acha que a eleição esta ganha esta redondamente enganado.

sem falar no processo que a midia esta orquestrando para destruir a imagem do Lula.

a Midia foi responsavel por 3 segundos turnos na ultimas eleições presidencias, e ainda tem gente que acha que a globo não influe em nada.

se a eleição estiver equilibrada ela pode definir a eleição sim.

SOLUÇÃO

seria a aprovação da lei de regulamentação da Midia, e que o pais cresça na casa dos 5% nesses dois ultimos anos que faltam de governo.

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    Lucas Costa

    03 de novembro de 2012 às 08h10

    Os peessedebistas de São Paulo deixarão Aécio sair candidato? Se sim, duvido que Eduardo Campos aceite ser vice de Aécio. O contrário, Aécio vice de Eduardo, seria factível? Os peessedebistas de São Paulo deixariam seu partido lançar um candidato a vice, mineiro, de um político nordestino?

    O Eduardo Campos tem mesmo força para sair candidato sozinho, sem o PSDB? É meio complicado. Não menosprezemos o sujeito… Ele não é fraquinho feito o Aécio. O horizonte do sujeito parece ser 2018. Daqui para lá o terreno pode estar perfeito para ele pôr as asinhas de fora.

    fernando

    04 de novembro de 2012 às 10h03

    a questão é que na pratica essa aliança, ja aconteceu nas eleições munipais de 2012 entre PSDB- PSB.

    tudo vai depender do espaço que o governo Dilma dará ao “novo” PSB extremamente fortalecido nessas eleições.

    tudo vai depender da campanha de desgaste do governo DILMA e da desconstrução da imagem do presidente LULA, orquestrada pela grande midia.

    se eles tiverem chance de unidos vencerem as eleições acho que isso pode ocorrer…

    em 2018 com o LULA bem de saúde, ele é o candidato natural do PT, dai as chances do Eduardo Campos, são nulas.

    a grande chave do problema é o PMDB, que apesar de ser o maior partido do País, entra em toda eleição dividido, algumas alas sempre apoiam a oposição, e não são poucas não.

    A aliança Aécio – Campos, por mais remota que possa parecer , pode vir a se realizar, não podemos negar isso.

    lembrando que o vice do PSB, poderá ser o Ciro Gomes, ou seu irmão, esses dois possuem forte laço politico com Aécio. E isso evitaria que a imagem de Eduardo Campos se desgasta-se… existem inumeras possibilidades no desenho politico, e a direita esta articulando todas elas.
    nada esta definido dependerá desse 1 ano e meio que vira até a definição das alianças.

    e do espaço que o PSB exigira nessa atual conjuntura dentro do governo DILMA.

FrancoAtirador

02 de novembro de 2012 às 15h41

.
.
De tudo fica uma certeza:

Sem o apoio do PMDB ou do PSB,

a coligação PSDB/DEM/PPS

não vence a eleição nacional.
.
.

Responder

FrancoAtirador

02 de novembro de 2012 às 15h12

.
.
Destaque:

“Quem vence e permanece no poder numa democracia
só o faz porque o povo quer.
Ninguém diz que a Suécia é uma ditadura
por ser governada há decênios pela Social Democracia.
No presidencialismo a rotatividade deve ser da pessoa,
para que ela não personalize demais o poder,
mas não do partido”.

(Lincoln Secco, historiador e professor da USP)
.
.

Responder

sandro

02 de novembro de 2012 às 14h46

Estamos tão acostumados com crises pré-fabricadas que nem nos indignamos
mais. Se não for algo que tire o sonho de prosperidade dos cidadãos mais
simples, será dificil bater o PT .

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tiago carneiro

02 de novembro de 2012 às 14h27

Não tem problema. A globo e seus amigos marrons fazem uma boa crise aparecer.

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