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Breno Altman: Quem tem domínio de fato, na democracia, é o povo


30/10/2012 - 16h48

Muitos analistas da imprensa tradicional estão atônitos. Tentam fugir às óbvias conclusões sobre o processo eleitoral. Ora ensaiam dar ênfase a uma suposta fragmentação do voto, ora dirigem olhos para uma eventual terceira via na polarização nacional, com a ascensão do PSB. Não passam de manobras diversionistas. A aposta que faziam era derrotar o PT e diminuir gravemente seu peso político. Perderam, e feio. O artigo é de Breno Altman.

por Breno Altman, em Carta Maior

Os resultados das eleições municipais, concluído o segundo turno, evidenciam sólido avanço do Partido dos Trabalhadores. Apesar de alguns importantes insucessos localizados (como Salvador, Recife e Fortaleza), a agremiação atingiu vários objetivos estratégicos.

O PT sagrou-se como a legenda mais votada do primeiro turno, com 17,3 milhões de sufrágios e um crescimento de 4% sobre 2008. Aumentou em 15% o número de prefeituras que irá governar (634 contra 550). Deu salto de 16% para 20% no total do eleitorado sob sua gestão municipal. Acima de tudo, pelo peso político e simbólico, reconquistou o governo da cidade de São Paulo.

Apesar de aparente dispersão da hegemonia sobre o poder local, com o surgimento do PSD de Kassab e a expansão do PSB de Eduardo Campos, a pedra de toque das eleições concluídas nesse domingo foi o fortalecimento do maior partido da esquerda, em contraposição ao encolhimento de seu principal antagonista à direita, o PSDB.

Os tucanos perderam massa de votos (queda de 5,02%, de 14,5 para 13,8 milhões), além de número de prefeitos (de 787 para 704) e vereadores (de 5,9 para 5,2 mil). Foram surrados no sul e sudeste do país, que antes consideravam sua fortaleza. E foram duramente golpeados na sua principal cidadela: além de perderem a capital paulista, estão cercados pelo cinturão vermelho que se consolidou na área metropolitana de São Paulo.

Muitos analistas da imprensa tradicional estão atônitos. Tentam atropeladamente fugir às óbvias conclusões sobre o processo eleitoral. Ora ensaiam dar ênfase a uma suposta fragmentação do voto, ora dirigem olhos para uma eventual terceira via na polarização nacional, com a ascensão do PSB. Não passam de manobras diversionistas. A aposta que faziam era derrotar o PT e diminuir gravemente seu peso político. Perderam, e feio.

A estratégia antipetista repousava no julgamento do chamado “mensalão”. Estabeleceu-se acosso midiático jamais visto sobre a corte suprema, para buscar a degola de líderes históricos da sigla governista, apresentados à opinião pública, diuturnamente, como bandidos com sentença transitada em julgado pelos mais impolutos homens e mulheres da nação.

O espetáculo de exceção foi além de seu limiar processual. Os votos de vários ministros, ao vivo e em cores, constituíram-se em declarações moralmente condenatórias contra o PT e o governo Lula.

À oposição de direita e aos grandes veículos de comunicação, somou-se, no palanque das denúncias contra dirigentes petistas, a maioria do STF. O centro da disputa política, com o julgamento, trasladou-se para o tribunal, com a expectativa de sacramentar institucionalmente a existência do esquema para compra de apoio parlamentar entre 2003 e 2005. Desde as vésperas do golpe militar não se via tamanha operação de desgaste contra um partido.

O que se esperava, quando a deliberação togada chegasse às ruas, era o derretimento do PT. Na pior das hipóteses, ao menos um sensível encolhimento e a derrocada na tentativa de conquistar a maior cidade brasileira. No auge da ofensiva, não faltaram vozes que vaticinavam o ocaso da liderança de Lula. Mas as forças de direita viram ruir seus sonhos e tomaram uma tunda histórica.

Os áulicos do reacionarismo ainda não entendem o que se passou. O porquê da patuleia não dar bola para o julgamento na hora de votar. A mídia corporativa é obrigada a engolir, pela terceira vez, o fel de sua progressiva insignificância na formação de almas e mentes. Não conseguem aceitar que os pobres da cidade e do campo, secularmente condenados pela oligarquia à ignorância, ao desespero e à exclusão cultural, sejam capazes de forjar sua própria consciência de classe.

Os dez anos de governo petista, com seus altos e baixos, mudaram a vida de milhões. De dezenas de milhões. Pela primeira vez a multidão de miseráveis viu sua vida melhorar, de forma estável e duradoura. Aumentaram a renda, a oferta de trabalho, o acesso à educação e moradia, o sentimento de autoestima. Os vínculos de identidade com o partido responsável por essas mudanças, e principalmente com seu maior líder, foram se consolidando.

Os despossuídos, que antes eram majoritariamente reserva de mercado para distintos projetos políticos das elites, vão passando a ter lado, o seu próprio lado. A identificar amigos e inimigos, lógicas em conflito, a verdade dos fatos. Esse processo dolorido, mas enraizado, fabrica um escudo contra a manipulação midiática. E serviu de vacina contra o julgamento do “mensalão”.

Enormes massas de eleitores, apesar de expostos à chacina contra líderes petistas na corte suprema, não compraram gato por lebre. Não aceitaram a agenda que a direita lhes quis impor. Mesmo sensibilizados com o discurso anticorrupção, intuem sua falsidade nesse episódio, sua utilização como instrumento político-eleitoral.

De múltiplas formas, compreenderam que seria algo contrário a seus interesses, que poderia ameaçar o partido e o governo que abriram as portas para a emergência dos pobres como protagonistas do desenvolvimento.

Os conservadores estão, assim, desacorçoados com a indiferença do povaréu diante do espetáculo no qual empenharam todas as suas energias. De alguma maneira, ao menos simbolicamente, foi o julgamento do julgamento. Como disse um eleitor essa madrugada, na rede social: quem tem o domínio do fato, na democracia, é o povo.

Breno Altman é jornalista, diretor do site Opera Mundi e da revista Samuel

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18 comentários

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FrancoAtirador

31 de outubro de 2012 às 08h53

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JOSÉ GENOÍNO ASSUMIRÁ CARGO DE DEPUTADO FEDERAL EM 2013

Saiu no Blog Limpinho & Cheiroso:

De acordo com informações que circularam na terça-feira, dia 30, José Genoíno se prepara para voltar à Câmara dos Deputados.

Como suplente de Carlos Almeida, que se elegeu prefeito de São José dos Campos e toma posse em janeiro, Genoíno voltará a ser parlamentar.

“O Genoíno é o suplente e vai assumir. Sem problema nenhum”, afirmou o presidente do PT, Rui Falcão.
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As verdades sobre a “confusão” na votação de Genoíno noticiada pela mídia

Do Blog Limpinho & Cheiroso

Como umas das cerca de 100 pessoas que estavam na porta da Universidade São Judas, em São Paulo, na tarde de domingo, dia 28 – portanto, testemunhas do que a imprensa está chamando de “agressão a jornalistas” durante o voto do ex-deputado federal José Genoíno –, não podemos nos omitir diante da prevalência da versão mentirosa que tem circulado como real.

Não é verdade que militantes petistas discutiam com militantes do PSDB na porta da universidade. Não havia militantes do PSDB na porta, mas apenas um casal identificado com adesivo do PSDB, acompanhado de uma criança, que passou todo o tempo ao lado do Vesgo, do programa Pânico, provocando os petistas. O humorista entregava ao casal cartazes alusivos ao “mensalão” para que fossem fotografados com ele. Assim, havia forte suspeita de todos os que acompanhavam o movimento que o casal havia sido contratado para provocar. Tanto que, com exceção dele, nenhuma outra pessoa foi hostil ao grupo de mulheres do PT que lá estava e que, de fato, pelas tantas, passou a trocar ofensas e xingamentos com o casal – único momento em que a polícia foi chamada para intervir. A suspeita de que o casal estava lá para provocar ficou mais evidente quando, com a chegada de mais petistas, ele decidiu ir embora, ela justificando: “Ah, vamos embora que o homem não vai vir votar não.” Foram sob os gritos de “contratada, contratada” e reagiram rindo.

Não é verdade que, ao sair do carro, o ex-deputado José Genoíno recebeu do grupo de apoiadores uma bandeira do Brasil para cobrir o rosto e não ser fotografado, como escreveu o jornal O Globo, em matéria assinada por uma jornalista não esteve no local. A bandeira foi ofertada a ele para que se enrolasse nela. Não fosse assim, não teriam sido publicadas tantas fotos dele, sempre de rosto descoberto.

Não é verdade que houve vandalismo. Antes de o ex-deputado José Genoíno chegar para votar, um representante dos apoiadores dele conversou com representante da diretoria da universidade e questionou se ela desejava que a polícia fizesse uma espécie de corredor para garantir mais segurança. Ela recusou, afirmando que “Genoíno era um eleitor como outro qualquer”.

Não e verdade que uma senhora que chegou para votar foi derrubada por militantes petistas, também como afirmou a imprensa. A senhora chegou – não à toa vestida de vermelho – para “apoiar e dar um abraço no Genoíno”. Ela havia participado, duas semanas antes, da reunião dos amigos de 68, em que estiveram, entre outros, Genoíno e José Dirceu. Ela caminha com o auxílio de uma bengala e, na entrada tumultuada dos militantes, caiu e foi socorrida imediatamente por vários deles. Alguns cinegrafistas se aproximaram e uma suposta jornalista perguntou a ela quem a havia empurrado: “Foram os fotógrafos, que passaram correndo”, afirmou. Mas isso não saiu em nenhum jornal! Além dessa senhora, uma jovem foi derrubada também pelos fotógrafos, e um cinegrafista, que estava no meio do tumulto, caiu. Nenhuma pessoa que entrou para votar sofreu qualquer lesão.

Não é verdade que houve “pancadaria” – palavra também recorrente na “grande mídia”. Houve, sim, o empurra-empurra típico das aglomerações, e a até agora alegação de agressão de um dos humoristas do programa CQC, que fez todo tipo de provocação e se postou (ele mesmo admite) diante do veículo onde supunha que Genoíno estivesse (ele já havia ido embora àquela altura). No calor do conflito, com os ânimos acirrados, a insistência do humorista em falar com o ex-deputado teria irritado alguns militantes, o que, se ficar provado, terá sido o único incidente da manifestação.

Assinam: Austriquiliano Lucena, Daniela Antunes, Danylo Bomtempo, Natalina Ribeiro, Marcia Barral e Sergio de Carvalho.

http://novobloglimpinhoecheiroso.wordpress.com/2012/10/30/as-verdades-sobre-a-confusao-na-votacao-de-genoino-noticiada-pela-midia/

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Fabio Passos

30 de outubro de 2012 às 20h59

A derrota histórica do PiG é assunto por toda a rede.

Confiram o Bob Fernandes:

“Outra vez a opinião pública derrotou a opinião publicada”
http://terramagazine.terra.com.br/bobfernandes/blog/2012/10/30/outra-vez-a-opiniao-publica-derrotou-a-opiniao-publicada/

Os golpistas se estreparam. rsrs

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Fabio Passos

30 de outubro de 2012 às 20h19

A Casa Grande tinha certeza que derrotaria Lula e o PT embalada pela fraude eleitoreira do julgamento do mensalão.

É um barato ver a cara de tacho dos golpistas.
No STF o clima é de velório.

eu
eu
eu
o PiG se… deu muito mal. rsrs

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abolicionista

30 de outubro de 2012 às 20h16

Falou e disse. Texto irretocável!

Responder

Flávio Prieto

30 de outubro de 2012 às 19h52

Tá tudo descaroçado … ops … desacorçoado! kkk Mas é, tentam explicar o inexplicável, por sua lógica estreita. Nem com bombardeio diário do PIG, notícia falsa de pedido de apreensão de passaportes de petistas na manchete de O Globo (a PGR não quer falar e o STF diz que não recebeu tal pedido), nem com tudo isso obtiveram sucesso em sua campanha suja, com direito a boato de cancelamento do ENEM. A ‘Bala de Prata’ também é o povo! Mais uma charge tosca no meu bloguinho:

http://salafehrio.blogspot.com.br

Obrigado pelos acessos. Valeu!!!

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Antonio

30 de outubro de 2012 às 19h31

Perfeita, sintetisa em poucas palavras o que vemos e sentimos.
Quanto aos analistas atônitos com o resultado e frustração das suas esperanças de derrotarem o PT, atendendo aos reclamos dos seus patrões, penso que aquilo que dizem ser salário, mas não passa de trocado que lhes compra a consciência, também gera uma névoa que os impede de enchergar a realidade.
Precisamos de uma oposição consciente, não do bando de cachorros raivosos aboletados nas executivas do PSDB e do DEM.

Responder

Maura Dias - BH

30 de outubro de 2012 às 19h24

Exatamente …fazendo cumprir a Constituição Brasileira de 1988.

A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos…

Parágrafo único: Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

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antonio

30 de outubro de 2012 às 19h16

Ótimo artigo.

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Gabriel Cavalcanti

30 de outubro de 2012 às 19h09

Irretocável análise! Mesmo com a ação midiática de todos os dias, produzida pela imprensa marrom, o povo brasileiro oPTou pela soberania na hora de escolher seus prefeitos e vereadores, reagindo nas urnas!

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