Homens encapuzados ameaçam líder da greve da Federal de Rondônia: “Você vai morrer”

Tempo de leitura: 4 min

por Conceição Lemes

Na entrevista que o professor Estevão Rafael Fernandes concedeu ao Viomundo sobre a greve na Universidade Federal de Rondônia (Unir), ele denunciou a “visita” à casa de uma aluna, por homens encapuzados, que gritaram de um carro “você vai morrer!”. Denunciou também que ela foi seguida em outras ocasiões em Porto Velho.

Pois esta estudante é Talyta Soares, 25 anos, faz Psicologia e foi uma das primeiras a aderir ao movimento. Também integrou a comissão que foi ao Ministério da Educação (MEC), em Brasília, denunciar as irregularidades na instituição e negociar para que não houvesse intervenção.

Viomundo – Talyta, você fez parte da comissão que foi ao MEC discutir a situação da Unir. Quando isso aconteceu e com quem se reuniram?

Talyta Soares – Em 11 de outubro. Éramos dois estudantes, dois professores, representantes da reitoria e a bancada de deputados federais e de senadores de Rondônia. No MEC, nós apresentamos a nossa denúncia ao secretário de Educação Superior (Sesu), Luiz Cláudio Costa.

Viomundo – O que denunciaram?

Talyta Soares – A precaríssima situação da universidade e as irregularidades envolvendo a atual administração. Para comprovar o que estávamos falando, levamos um dossiê de 1.500 páginas, contendo as principais denúncias.

Viomundo – O que o secretário da Sesu fez ?

Talyta Soares — No mesmo dia, ele marcou uma reunião para Porto Velho, que aconteceu no dia 17 de novembro. Apesar de convidado, o reitor não compareceu. Nessa reunião, os estudantes de cada curso apresentaram os problemas existentes e os professores fizeram as suas principais denúncias. Diante disso, Luiz Cláudio, que esteve presente, formou duas comissões. Uma de apoio à Unir, para avaliar e atender as pautas do movimento. A outra, de sindicância, para investigar as denúncias.

Viomundo – O professor Estevão me contou que pessoas encapuzadas passaram pela sua casa, gritaram… É isso mesmo?

Talyta Soares – Sim. Era uma quarta-feira, chovia bastante, um carro Corollla preto parou na frente da minha casa e buzinou. Como estava chovendo, não fui até o portão. Quando abri a porta para olhar quem era, o vidro do carro abaixou e eu vi dois homens encapuzados. Não sei se tinha mais gente no banco de trás, porque o vidro era fumê. Aí, o homem que estava ao volante gritou pra mim “você vai morrer”. Fechei imediatamente a porta e liguei pra um dos meus professores.

Viomundo – Em que dia isso aconteceu?

Talyta Soares – 16 de novembro, mesmo dia em que deixaram os bilhetes com ameaça de morte no campus.

Viomundo – Aconteceu uma vez só?

Talyta Soares – De virem à minha casa, sim. Mas esse mesmo Corolla me seguiu pelo menos mais duas vezes; seguiu também outros estudantes. Outros carros até anteontem estavam também seguindo mais estudantes. Colegas e professores tiveram carros quebrados, pneus furados; a moto de um estudante teve o cabo cortado.

Viomundo – Você acha que tem conexão com a tua ida a Brasília?

Talyta Soares – Tudo indica que não só com a ida a Brasília mas também com a participação no movimento.

Viomundo – Que providências adotou?

Talyta Soares – Denunciei prontamente à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal (MPF), em Rondônia. Também, desde então, não fico sozinha em casa nem saio sozinha. Já dormi na casa de amigos…

Viomundo – Você também recebeu aquele bilhete com ameaça de morte, falando do rio?

Talyta Soares – Pessoalmente, não, mas o meu nome estava lá, era o primeiro da lista de alunos,  e os bilhetes foram distribuídos por todo o campus da Unir.

Viomundo – Qual o objetivo desse bilhete?

Talyta Soares – Intimidar as pessoas que têm sustentado a greve.

Viomundo – Em relação ao bilhete, que medidas vocês adotaram ?

Talyta Soares – Fizemos denúncias nas polícias Civil e Federal e no MPF.

Viomundo – E agora que o reitor renunciou, a greve acaba?

Talyta Soares – A greve continua até a posse da vice-reitora, a professora Maria Cristina Victorino de França, no cargo de reitora. Está prevista para segunda-feira. Até lá vamos pintar as paredes internas da reitoria e deixar tudo limpo, para isso já começamos a arrecadar dinheiro. Nós queremos entregar o prédio totalmente em ordem.

Viomundo – E depois, como fica o movimento?

Talyta Soares – Não acaba. Tirar o reitor foi o nosso primeiro passo. Nós queremos, agora, paridade nos votos, que os conselhos aconteçam de fato, queremos transparência na utilização dos recursos e que a Unir seja tratada realmente como universidade. Teremos de cuidar dos nossos processos. O delegado me disse que vou ser processada por invasão de prédio público e outras coisas mais.

Viomundo – O fato de “terem renunciado” o reitor não é uma prova de que o movimento é legítimo e vocês estão com razão? Por que então o processo? Acha justo?

Talyta Soares – Concordo com o teu raciocínio, não acho justo sermos punidos porque fizemos greve para denunciar os desmandos do reitor. Agora, o delegado me disse que eu vou ser processada. O fato é que, com ou sem processo, vamos continuar nossa batalha para garantir qualidade, ética e transparência na Unir.

Leia também:

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Comentários

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Guanabara

Ela ser processada não quer dizer que é culpada. Precisamos tirar esse vício de associação que o PIG faz com a mente das pessoas.

Marat

Uma moça, assim linda, não merece morrer! Além de linda é idealista, algo quase que inexistente nestes tempos bicudos!

Sr.Indignado

Pois é. Vcs acham que esse problema é só na UNIR? Tá na hora de fazer uma investigação nas administrações das universidades federais. Não é lá, o único lugar que se tem medo.
Vamos falar dos horários de trabalho, da qualidade, dos concursos, da falta de verba, do sucateamento. Tem lugar de primeira, tem lugar q se luta, ainda, e tem lugar abandonado.

assalariado.

Até onde entendi, esta situação terá que ser atacada no minimo em duas frentes.

1) A nivel policial. Tem que prender este sujeito (o reitor), que não foi na reunião por que? Passou a ser o principal suspeito por estas ameaças, junto com sua gangue.

2) Se articular a nivel estudantil/ professores, e sindicatos dos funcionários da Universidade. Chamar representantes da UNE e, se articular, com as varias entidades estudantis que possa existir no Estado/ cidade.

3) ?!, …

Saudações Socialistas.

cronopio

Um já foi, só falta o outro.

LENE

FORÇA TALYTA. MUITA CORAGEM.
AS PESSOAS DE BEM E QUE SE ENVERGONHAM DESSA CORRUPÇÃO ESTÃO TORCENDO POR VOCÊ.

Lucas Villa

"Quiseram me derrubar pelo fato de eu ser gay, afirma ex-reitor da Federal de Rondônia"
http://noticias.uol.com.br/educacao/2011/11/25/qu

Klaus

Começou a apelação:
http://noticias.uol.com.br/educacao/2011/11/25/qu

FrancoAtirador

.
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UM EXEMPLO DE LUTA E CORAGEM!

Congratulações aos estudantes, professores e funcionários da UNIR.
.
.

Julio Silveira

Finalmente a diversidade.

Prof. UNIR

Grande talyta, meus parabéns!!!!!

Bruno

Assumiram de vez que a faxina era para derrubar a Dilma. http://www1.folha.uol.com.br/poder/1011924-lider-

Mello

Parabéns, Talyta! Não se deixe abater por processos, pois ao final a Justiça lhe será feita. Só tenho uma dúvida: gostaria de saber se a UNE participou do movimento, pois não li nada sobre isso. Creio que a UNE tem a responsabilidade de proteger os alunos nestas circunstâncias.

    Eduardo Vieira

    Infelizmente a UNE tem deixado um pouco de lado o movimento estudantil nas universidades públicas, principalmente fora dos grandes centros.

Roberto Locatelli

É preciso exigir que a polícia investigue.
É preciso que os estudantes e professores estejam sempre com as câmeras dos celulares a postos.

ZePovinho

Os "capitalistas' brasileiros só sabem roubar o governo e vomitar o maltrapilho discurso de que não querem a intervenção do Estado na vida dos cidadãos.O que eles querem,na real,é continuar a roubar os cofres públicos sem a intervenção da Polícia Federal,TCU e CGU.

    EUNAOSABIA

    Onde se lê capitalistas, leia-se "governo do PT".

    Perfeito.

    Gene Harder

    Você quer dizer: FHC. Que eu me lembre, quem comprou reeleição pra continuar a vender o patrimônio a preço de banana era o ladrão fela da p*uta do FHC, que vendeu as teles a preço de banana, e hoje pagamos a tarifa mais cara do mundo.

Alessandro

Só no Brasil mesmo.A greve comprova o mau uso do dinheiro público e ainda os participantes vão ser processados.Não compreendo muitas coisas em nossa justiça.

Reg

Espero que não aconteça nada de mal a ela, aos outros alunos e professores.
Que o MPF, PF e polícia civil prendam quem os ameaça.
Chega de mortes.

Eduardo Vieira

Ninguém deve ser punido por fazer uso de seus direitos civis. Simples assim.

Quando era estudante da UFMS, os próprios funcionários da universidade ligados ao reitor é que quebravam mesas e cadeiras após a ocupação – para passar a imagem de baderneiros, maconheiros e mimados para o restante da população.

O que a Polícia Federal, MPF e o juiz que julgar o caso tem de ter necaso é razoabilidade. Qual crime é pior? Deviar milhões da universidade, ou ter uma ou duas cadeiras quebradas (pelos seguranças) para se fazer essas denúncias?

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