TV italiana revela em primeira mão a trama internacional da indústria do amianto

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Fachada da Corte de Cassação em Roma, último grau da Justiça italiana. Imagens: Recortes do documentário ''A Oferta do Diabo'', do Report/RAI3

Por Conceição Lemes

Todo domingo, em horário nobre, a RAI 3 (Radiotelevisione Italiana) leva ao ar o programa Report. É de jornalismo investigativo.

Em 4 de janeiro de 2026, o Report exibiu pela primeira vez o documentário L’ Offerta del Diavolo, (em português, A Oferta do Diabo), do jornalista Sacha Biazzo.

O Diabo é o bilionário suíço, Stephan Schmidheiny, ex-acionista majoritário da empresa italiana Eternit Genova.

A família Schmidheiny foi dona do império Eternit por quase um século. No Brasil, esteve de 1939 até o final da década de 1980. Na prática, porém, seu domínio e influência estendeu-se oficialmente até final dos anos 1990 através da participação de suas empresas.

O próprio Schmidheiny, considerado o magnata do amianto, esteve na fábrica da Eternit em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, hoje desativada.

A Oferta do Diabo é uma reportagem de fôlego, magistral.

Um furo jornalístico, que revela as relações promíscuas entre Schmidheiny, o pedófilo Jeffrey Epstein, um ex-agente da Mossad e altas autoridades do governo de Israel.

O Report, com base em e-mails confidenciais, reconstrói o papel de cada um deles para tentar influenciar o resultado do julgamento de Schmidheiny, no Supremo Tribunal ou Corte de Cassação em Roma, último grau da Justiça italiana, em 2014.

Em 2013, o bilionário suíço havia sido condenado pelo Tribunal de Turim a 18 anos de prisão devido à morte de 3 mil pessoas, entre trabalhadores e familiares, vítimas do cancerígeno amianto.

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”Os investigadores determinaram que Schmidheiny e seus executivos tinham conhecimento dos perigos do amianto desde a década de 1970 e, por esse motivo, em 2013, os juízes de apelação (segundo grau da justiça italiana) condenaram o bilionário suíço a 18 anos de prisão. Mas foi justamente nesse ponto que o julgamento se transformou em uma intriga internacional, que envolveu até mesmo membros do serviço secreto israelense”, narra Sacha Biazzo logo no início da reportagem.

Fernanda Giannasi, fundadora da Abrea (Associação Brasileira de Expostos ao Amianto), foi entrevistada por Sacha.

O jornalista quis saber se as associações de vítimas do amianto haviam recebido algum tipo de apoio da Fundação Avina, criada por Schmidheiny após abandonar o amianto. Uma típica prática de greenwashing,  para reabilitação de imagem com apelo ecológico.

“Não, não. Me disseram que esse não era um assunto que interessava à Avina. Nenhum dos projetos era voltado às pessoas, eram apenas para as rãs e qualquer outra bobagem”, contou-lhe a ativista, símbolo da luta contra o amianto no Brasil.

”Tanto no filme como na nossa experiência aqui, Brasil, os lobbies são extremamente bem remunerados, enquanto o trabalhador empregado vale pouco, o doente menos ainda”, afirma Fernanda Giannasi ao Viomundo.

O documentário tem 42min37s de duração.

Reportagem: Sacha Biazzo.

Colaboração: Luigi Scarano e Cristiana Mastronicola.

Pesquisa de imagens: Tiziana Battisti

Edição: Andrea Masella

Arte gráfica: Giorgio Vallati

Para assistir A Oferta do Diabo, em italiano, clique aqui.

A transcrição da tradução ao português foi feita por Fernanda Giannasi e Ricardo Lorenzi. 

As imagens são recortes do vídeo do programa Report, da RAI3.

A OFERTA DO DIABO

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, 15/07/2025: “Não entendo por que o caso Jeffrey Epstein interessaria a alguém. É bem chato. É repugnante, mas é chato, e não entendo por que continua acontecendo.”

Sacha Biazzo (em áudio): Trump afirma que os documentos confidenciais sobre o financista bilionário Jeffrey Epstein não contêm nada de interessante, mas tentou até o último minuto impedir sua publicação. Mas o que constrange a Casa Branca não são apenas as fotografias de encontros com meninas menores de idade, mas também as evidências de que Epstein estava no centro de uma rede de influência internacional que incluía altos funcionários do governo israelense e agentes secretos do Mossad.

Meghnad Bose, professor de Jornalismo Investigativo  da Universidade de Memphis/EUA: O que a grande mídia ignorou em grande parte é um segundo aspecto do que esses “arquivos de Epstein” revelam: o papel geopolítico de Epstein, o papel que ele desempenhou como um articulador de poder entre a política e os negócios, e a interseção da política e dos negócios com a elite global. E, mais importante, com o governo israelense e políticos israelenses poderosos.

Sacha Biazzo (em áudio): Mas Epstein nunca teve tempo de esclarecer esses relacionamentos, porque, após ser preso em 2019 por tráfico sexual de menores, ele morreu pouco depois na prisão, oficialmente por suicídio. E a única evidência disponível é aquela contida em documentos sobre Epstein divulgados pelo governo dos EUA, mas em grande parte censurados.

Meghnad Bose: O Departamento de Justiça divulgou uma versão bastante censurada dos arquivos; por exemplo, há um documento com mais de cem páginas, com todas as páginas censuradas.

Sacha Biazzo (em áudio): Mas o Report [programa de jornalismo investigativo da RAI 3 aos domingos em horário nobre] agora pode revelar pela primeira vez que a rede israelense, que incluía Epstein, operou em diversas ocasiões na Itália, tentando influenciar o resultado de um dos maiores mega-julgamentos dos últimos vinte anos: o desastre da Eternit.

Giacomo Mattalia, advogado das vítimas do amianto – Caso Eternit: Este é um mega-julgamento porque há muitas vítimas; há muitas vítimas porque, como dissemos antes, é um desastre.

Sacha Biazzo (em áudio): Este desastre ambiental foi causado pelas fibras de amianto liberadas pelas fábricas da Eternit, que causam mesotelioma, uma forma incurável de câncer de pulmão, em quem as inala.

Giacomo Mattalia: É uma sentença de morte. Ou seja, estamos falando de uma pessoa que, em determinado momento, encontra uma ampulheta e, ao virá-la à sua frente, diz: “Esta areia é tudo o que lhe resta para viver”.

Sacha Biazzo (em áudio): Os condenados à morte não foram apenas os trabalhadores da fábrica de Casale Monferrato [na região norte-italiana do Piemonte], mas também milhares de moradores das áreas vizinhas, tanto que mais de 6.000 pessoas (polo ativo da lide) representaram as vítimas no julgamento.

Daniela Degiovanni, médica oncologista: Para os trabalhadores da Eternit, aquele câncer tinha nome e sobrenome.

Luigi Scarano, jornalista: Qual era o nome e sobrenome desse tumor?

Daniela Degiovanni: O nome e sobrenome que todos sabiam me dizer, mesmo não sendo médicos, era Stephan Schmidheiny.

Sacha Biazzo (em áudio): Stephan Schmidheiny é o bilionário suíço que dirigia a Eternit, a multinacional que produzia e exportava produtos de amianto no mundo todo. Os investigadores determinaram que Schmidheiny e seus executivos tinham conhecimento dos perigos do amianto desde a década de 1970 e, por esse motivo, em 2013, os juízes de apelação (segundo grau da justiça italiana) condenaram o bilionário suíço a 18 anos de prisão. Mas foi justamente nesse ponto que o julgamento se transformou em uma intriga internacional, que envolveu até mesmo membros do serviço secreto israelense.

Sigfrido Ranucci, apresentador do Report: Na década de 1990, Schmidheiny ocupou cargos nos conselhos de administração da UBS, da Nestlé e até mesmo da empresa que produzia os relógios Swatch. Mas, acima de tudo, ele era o dono da Eternit. Em junho de 2013, foi condenado a 18 anos de prisão por desastre ambiental intencional (doloso), sendo também obrigado a indenizar milhares de demandantes. Foi uma das primeiras sentenças no mundo a condenar criminalmente a alta administração de uma empresa multinacional por desastre ambiental estrutural e de longo prazo. Se confirmada pela Suprema Corte, essa condenação poderia ter desencadeado muitos outros julgamentos na Europa.

Da esquerda para a direita: Heinz Pauli, Ehud Barak, Avner Azulay e Sigfrido Ranucci, apresentador do programa Report, da RAI3

E foi nesse contexto que o braço direito de Schmidheiny, Heinz Pauli, escreveu para Avner Azulay, um agente do Mossad que atuava na Europa, que por sua vez envolveu Ehud Barak, ex-primeiro-ministro israelense, figura-chave da inteligência militar israelense, o homem que mais tarde fundou a Paragon, empresa que produziu o software usado para espionar jornalistas e ativistas italianos. O contato de Barak era Jeffrey Epstein, o homem por trás dos escândalos sexuais. 

Ao estudar as centenas de milhares de e-mails, descobrimos uma rede que entrelaçava os interesses de políticos, finanças, a indústria da vigilância e até mesmo julgamentos, inclusive aqui na Itália. E Barak agiu, juntamente com ex-agentes do Mossad, para salvar Schmidheiny, referido nos e-mails pela sigla STS, de uma condenação definitiva pelo Supremo Tribunal (a chamada Suprema Corte ou Corte de Cassação em Roma, último grau da Justiça italiana). Mas o plano não era apenas salvá-lo da condenação pelo Supremo Tribunal, mas também garantir-lhe, em caso de emergência, um período de clandestinidade.

Sacha Biazzo (em áudio): Nos e-mails confidenciais que obtivemos, descobrimos que os colaboradores mais próximos de Schmidheiny estavam trabalhando para impedir a todo custo que o dono da Eternit fosse preso. O bilionário suíço acabara de ser condenado a 18 anos de prisão na Corte de Apelação e, se a sentença fosse mantida pela Suprema Corte, ele corria o risco de passar décadas atrás das grades. Assim, em 16 de setembro de 2013, antes que os advogados da Eternit recorressem da condenação à Suprema Corte, o financista suíço Heinz Pauli, braço direito de Schmidheiny, solicitou a intervenção de um ex-agente de alto escalão do Mossad, Avner Azulay, que havia sido o oficial de ligação na Europa do poderoso serviço secreto israelense.

E-mail de Heinz Pauli para Avner Azulay, em16/09/2013:  Prezado Avner, estou lhe enviando uma atualização completa sobre os desenvolvimentos recentes — a sentença, bem como um resumo dos argumentos apresentados antes da entrada do recurso no Tribunal de Cassação em Roma. Atenciosamente, Heinz Pauli.

Sacha Biazzo (em áudio): O ex-agente do Mossad, Azulay, alertou imediatamente Ehud Barak, ex-primeiro-ministro israelense, sobre o problema italiano e encaminhou a ele os documentos de defesa de Schmidheiny, que consideravam a decisão de Turim (Corte de Apelo) absurda e apresentavam Schmidheiny como um salvador de vidas humanas.

E-mail de Avner Azulay para Ehud Barak, 19/09/2013:

Shalom e boas festas, Ehud. Agradeceria se você pudesse confirmar o recebimento deste e-mail. Atenciosamente, Avner.

E-mail de Ehud Barak para Avner Azulay,19/09/2013: Avner, boas festas novamente. Recebi e vou ler. Ehud.

Sacha Biazzo (em áudio): Ehud Barak, além de Primeiro-Ministro, também foi chefe do Estado-Maior e diretor da Inteligência Militar Israelense. Após deixar a política, começou a trabalhar com segurança cibernética, cofundando a Paragon, empresa cujo software foi usado para espionar empresários, jornalistas e ativistas italianos. E foi justamente a Barak que Stephan Schmidheiny, dono da Eternit, recorreu em busca de ajuda quando enfrentava o risco de prisão.

E-mail de Avner Azulay para Ehud Barak, 20/09/2013: Ehud, estou lhe enviando mais material que fala por si só.

E-mail de Avner Azulay para Ehud Barak, 21/09/2013: O prazo para apresentar o recurso em Roma é 31 de outubro de 2013, Avner.

Sacha Biazzo (em áudio): O tempo está se esgotando: a defesa do bilionário suíço precisa apresentar um recurso ao Supremo Tribunal dentro de um mês. Antes que a justiça possa seguir seu curso, um plano precisa ser desenvolvido para ajudar o poderoso bilionário. O braço direito do dono da Eternit, portanto, escreve para o ex-agente do Mossad. O assunto é extremamente confidencial, tanto que, em suas trocas de e-mails, o grupo nunca usa o nome de Schmidheiny, mas apenas a sigla STS.

E-mail de Heinz Pauli para Avner Azulay, 20/09/2013: Prezado Avner, estou lhe encaminhando uma análise dos principais advogados do STS que estão cuidando da recente decisão. Estamos indo para Tel Aviv e mal posso esperar para vê-lo. Seria ótimo se pudéssemos reservar um tempo para uma discussão criativa sobre a questão italiana.

Sacha Biazzo (em áudio): O grupo decide passar imediatamente para a fase operacional e, portanto, organiza uma reunião na cidade israelense para elaborar uma solução criativa para todos os problemas de Schmidheiny. O ex-agente da inteligência estatal israelense oferece seus serviços, mesmo que a família Schmidheiny tenha feito negócios na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, sob o regime nazista de Adolf Hitler.

Massimo Aliotta, advogado e fundador da Associação de Vítimas do Amianto na Suíça: Durante a Segunda Guerra Mundial, havia uma fábrica da Eternit em Berlim, onde prisioneiros de guerra também trabalhavam.

Maria Roselli, jornalista suíça e autora de “A Mentira do Amianto”: Comecei a procurar uma dessas mulheres forçadas a trabalhar. E decidi levá-la de volta a Berlim para ver a fábrica onde ela havia trabalhado durante a Segunda Guerra Mundial. Ela olhou e disse: “Aqui havia guardas com fuzis, aqui estavam os guardas com cães.” Perguntei a ela de quem era a fábrica, e ela respondeu: “Claro, dos nazistas alemães.” E então eu lhe expliquei: “Veja, o capital por trás disso também era da família Schmidheiny.”

Sacha Biazzo (em áudio): Apesar do envolvimento dos Schmidheiny com o Terceiro Reich, o ex-primeiro-ministro judeu Ehud Barak, por meio do ex-agente do Mossad Avner Azulay, ofereceu diversas opções para ajudar o bilionário suíço. Em sua reunião em Tel Aviv, eles chegaram a discutir “descarrilhar o trem” [mudar drasticamente os rumos] da justiça italiana, como fica evidente nos e-mails que obtivemos. Mas Schmidheiny e seus advogados temem que interferir com os magistrados italianos possa ser contraproducente e, portanto, propõem uma nova estratégia aos israelenses.

E-mail de Heinz Pauli para Avner Azulay, 04/10/2013: STS acredita que o único caminho promissor, neste momento, é trabalhar discretamente nos círculos sociais romanos, conversando de forma não agressiva com formadores de opinião e explicando que uma decisão negativa do Supremo Tribunal poderia prejudicar a Itália como um todo, no sentido de que assustaria a comunidade internacional de investimento e negócios, desencorajando-os a fazer business na Itália por anos.

Sacha Biazzo (em áudio): A estratégia, portanto, envolve o uso de influência nos círculos sociais romanos por meio do ex-embaixador israelense na Itália. Mas, se os esforços do lobby israelense não forem suficientes, o grupo também está se preparando para a eventualidade mais extrema. Se Schmidheiny for condenado pelo Supremo Tribunal, Ehud Barak, o ex-primeiro-ministro israelense, teria que garantir a segurança do bilionário suíço, oferecendo-lhe uma maneira de escapar da prisão por parte da polícia italiana.

E-mail de Heinz Pauli para Avner Azulay, 04/10/2013: Mais adiante, em alguns meses, assim que a decisão for conhecida, precisamos lançar uma iniciativa internacional e tentar persuadir as autoridades italianas a revogar, revisar ou anular a decisão da Suprema Corte, conforme o caso. Se a pena de prisão for confirmada e STS for obrigado a residir confinado na Suíça, ele teria interesse em discutir sua segurança com você, em relação a um possível mandado de prisão europeu.

Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, Avner Azulay, ex-agente do Mossad, e Sigfrido Ranucci, apresentador do Report

Sigfrido Ranucci, apresentador do Report: Então, como vimos, os homens de Schmidheiny de alguma forma arquitetaram uma solução criativa para evitar a prisão do chefe da Eternit e, por esse motivo, recorreram a ex-agentes do Mossad, como Avner Azulay, que então essencialmente envolveu Ehud Barak, ex-primeiro-ministro israelense e figura-chave na inteligência militar israelense. Qual é a estratégia criativa?

Heinz Pauli, o bilionário Stephan Schimdheiny e Sigfrido Ranucci, apresentador do Report

Em resumo, o primeiro passo foi trabalhar secretamente nos círculos e salões importantes da sociedade romana — aqueles frequentados por políticos, empresários e magistrados, tentando disseminar a ideia de que uma decisão negativa da Suprema Corte prejudicaria a Itália como um todo e assustaria a comunidade internacional em relação a futuros compromissos e investimentos. Havia também um Plano B, caso o primeiro não desse certo. Em suma, a ação subsequente à decisão da Suprema Corte visava administrar com segurança a situação de fugitivo de Schmidheiny.

Mas não era a primeira vez que o chefe da Eternit recorria à inteligência. Quando enfrentou o problema de gerenciar a crise de informação há 40 anos, contratou uma grande agência de comunicação, a que respondia a Guido Bellodi. Mas o que significava? Que ele espionou suas vítimas, aquelas que foram posteriormente afetadas pelo amianto, e até mesmo, em certa medida, o judiciário.

Em 2005, a polícia judiciária apreendeu um conjunto de documentos conhecido como “a Bíblia” nos escritórios dessa mesma empresa de comunicação. Dentro havia instruções sobre como se comportar nessas questões, inclusive para influenciar a opinião pública e enganar os magistrados. E foi exatamente isso que aconteceu. Ficou conhecido na história como o “Manual Bellodi”, em homenagem ao especialista em comunicação que Schmidheiny havia contratado.

Sacha Biazzo (em áudio): Como apurado pelas investigações da promotoria de Turim, o empresário suíço já havia estabelecido um sistema para influenciar a opinião pública italiana e enganar potenciais investigações judiciais por meio do especialista em relações públicas Guido Bellodi. Os métodos de Bellodi só vieram à tona em 2005, quando a polícia judiciária apreendeu em seu escritório o que ficaria conhecido como o “Manual Bellodi”.

Laura D’amico, advogada das vítimas do amianto – Caso Eternit: O Manual Bellodi demonstra claramente a preocupação de Schmidheiny em desviar a atenção das autoridades judiciais de si mesmo. Ele não apenas tentou desinformar e negar os riscos do amianto, como também de controlar. Em outras palavras, o sujeito não conhecia limites de forma alguma.

Sacha Biazzo (em áudio): No cerne do método Bellodi estava um sistema para resistir à pressão de potenciais investigações da imprensa e judiciais, que se baseava em quatro níveis de contenção para impedir que o nome de Schmidheiny viesse à tona.

Paolo Rivella, consultor da Procuradoria da República em Turim – Caso Eternit:  A primeira linha escolhida por Bellodi era dizer: esta era uma empresa italiana; se alguém cometeu um erro, foram os técnicos e gerentes italianos. Se essa linha de defesa fosse violada, a segunda linha recuava, que era dizer que era um problema suíço, mas não envolvia Stephan Schmidheiny. A quarta linha de defesa era a STS, era Stephan Schmidheiny; isso absolutamente não podia ser discutido, não podia existir. (Nota da Tradutora: não há uma discussão sobre a terceira linha; lembra as 4 teses do cachorro dos advogados americanos sobre um ataque promovido por um cão na defesa de seu dono: não tenho um cão; sim eu tenho, mas ele não te atacou; eu tenho um cachorro que te atacou, mas não causou nenhum ferimento grave; okay, ele te feriu, mas a culpa foi da vítima, que provocou o cão).

Sacha Biazzo (em áudio): Então, no manual de Bellodi, o nome Schmidheiny nunca aparece? Só tem referência a STS?

Paolo Rivella: Só a STS, exatamente. Acho que não quiseram usar a SS, que seria Stephan Schmidheiny, por razões óbvias, porque...

Sacha Biazzo (em áudio): Para levar adiante sua missão, Bellodi havia criado um grupo de espiões espalhados por toda a Itália, que chegaram a se infiltrar na associação de vítimas do amianto, por meio de Maria Cristina Bruno, uma jornalista que posteriormente teve sua licença cassada.

Rosalba Altopiedi, Procuradoria da República em Turim – Caso Eternit: Uma infiltrada a mando de Bellodi, uma espiã que espionava as reuniões da associação de vítimas e fazia relatórios.

Bruno Pesce, cofundador da Associação de Familiares e Vítimas do Amianto (AFeVA): Qualquer coisa que ela quisesse saber, porque pelo menos uma vez por mês tinha que reportar.

Luigi Scarano, jornalista: Por quanto tempo Maria Cristina Bruno frequentou as reuniões?

Bruno Pesce: Por 21 anos.

Luigi Scarano: Ela espionou por 21 anos?

Bruno Pesce: Sim.

Sacha Biazzo: Alô, Drª. Bruno?

Maria Cristina Bruno, ex-colaboradora de Guido Bellodi: Sim, quem fala?

Sacha BiazzoOlá, sou Sacha Biazzo, do Report, Rai 3. Escute, estamos tratando do caso em que você esteve envolvida, certo? Dizem que você atuou como uma espécie de espião para Schmidheiny; você chegou a ser expulsa da Ordem dos Jornalistas.

Maria Cristina BrunoNão, veja bem, eu não sei de nada.

Sacha Biazzo:Como não sabe de nada?

Sacha Biazzo (em áudio): Mas os espiões de Schmidheiny chegaram a mirar na promotoria de Turim, com o objetivo de obter informações antecipadas sobre as ações dos magistrados. Como demonstra este documento inédito do manual de Bellodi, já na década de 1990, espiões italianos a serviço do bilionário suíço também tinham como alvo o procurador de Justiça Raffaele Guariniello, que investigou o caso Eternit.

Sacha Biazzo: Ele também tinha espiões em Turim?

Paolo Rivella:  Ele também tinha pelo menos um espião em Turim; encontrei um rastro de uma pessoa denominada “Osservatorio Torino” (Observatório Turim).

Sacha Biazzo: A espionagem em Turim tinha como alvo membros do poder judiciário?

Paolo Rivella: Espionar especificamente o Dr. Guariniello, isso ficou muito claro.

Sacha Biazzo (em áudio): A partir de documentos descobertos pelos investigadores, sabemos que Schmidheiny gastou uma enorme quantia de dinheiro para manter essa campanha de espionagem que durou décadas, em comparação com o que ele ofereceu posteriormente às famílias das vítimas para que retirassem o processo contra ele.

Laura D’amico: O funcionário da empresa — se me permitem a expressão grosseira — valia um pouco mais, o cidadão que morria valia menos. Ambos não valiam praticamente nada.

Assunta Prato, Associação dos Familiares e Vítimas do Amianto (AFeVA): Eu não aceitei. Tenho três filhos. Dividir 30.000 Euros por quatro é como cuspir na nossa cara. Verdadeiramente um insulto, porque é vergonhoso.

Sacha Biazzo (em áudio): Schmidheiny também fez uma oferta semelhante ao município de Casale Monferrato, prometendo-lhes dinheiro se retirassem o processo na justiça. A proposta ficou conhecida como a “Oferta do Diabo”.

Daniela Degiovanni, oncologista: Eu trabalhava em oncologia e estava imersa no sofrimento. Quando me disseram que era a “Oferta do Diabo”, pensei com meus botões: “Eles estão errados, não podem ter oferecido esmolas por tudo o que está acontecendo aqui”. Foi nesse momento que a cidade realmente correu o risco de entrar em uma virtual guerra civil.

Sacha Biazzo (em áudio): Mas se nenhum desses métodos funcionou, os homens de Schmidheiny bolaram uma solução “criativa”, desta vez recorrendo a uma estratégia diversionista complexa (de desviar do assunto principal).

Paolo Rivella, consultor da Procuradoria da República em Turim – Caso Eternit: A falta de escrúpulos de Bellodi quando diz e quando escreve: “Poderíamos tentar uma estratégia perigosa e difícil de convencer os Verdes e ambientalistas a se oporem ao uso de amianto em vagões de trem. Precisamos ter cuidado, porque se formos nós que estivermos fornecendo esse material, tudo vai desmoronar e ficaremos em situação pior do que antes. Mas se pudéssemos fazer isso, transferiríamos o foco da controvérsia de nós para outrem”. E então ele conclui: “Poderia haver outra estratégia, mas é tão delicada que precisamos discuti-la pessoalmente.”

Sigfrido Ranucci, apresentador do Report: Schmidheiny tentou influenciar a opinião pública criando uma rede de espiões que também operava próxima ao Ministério Público. Depois, tentou comprar o silêncio da comunidade, oferecendo ao município de Casale Monferrato o que ficou conhecido como a “Oferta do Diabo” para não fazer parte da lide (polo ativo) no processo. Em resumo, ele havia criado um esquema muito mais caro do que o equivalente às suas ofertas para evitar o processo, para comprar o silêncio de suas vítimas e para tirar do processo aquelas instituições que haviam se incluído como coparticipantes ou litisconsortes na ação.

Então, enquanto suas vítimas continuavam a inalar fibras de amianto e a morrer de mesotelioma, após o fechamento da empresa Eternit, Schmidheiny se travestiu com uma aura de filantropo verde. Criou uma série de fundações cujo objetivo era salvaguardar o meio ambiente. Ele comprou 120.000 hectares no Chile, mas, segundo o povo indígena Mapuche, essas terras foram adquiridas por meio de intimidação, durante a ditadura de Pinochet, com tortura e até assassinatos. No entanto, na década de 1990, ele se tornou particularmente ativo na área ambiental. Chegou a ser nomeado consultor sênior para negócios e indústria da Secretaria-Geral da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), a Rio 92.

Em seguida, liderou a criação do Conselho Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, “Sviluppo Sostenibile”, uma organização que engloba mais de 160 empresas, entre as indústrias mais importantes do mundo. E, durante esses mesmos anos, em 1994, criou a Fundação Avina, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento sustentável do planeta, especialmente na América Latina. Ele incentivou alianças entre a sociedade civil, ativistas e a indústria. Com uma obsessão: salvar as rãs.

Sacha Biazzo: Enquanto na Itália ele tentava conter a crise de sua reputação causada pelo desastre da Eternit, no resto do mundo, Schmidheiny tentava forjar uma nova identidade para si mesmo. A partir da década de 1990, o bilionário suíço começou a se apresentar como um defensor do ambientalismo, protestando contra as mudanças climáticas e o consumo de carne.

Stephan Schmidheiny, patrão/dono da Eternit: Isso diz respeito ao futuro do nosso planeta e como ajudar a salvá-lo.

Sacha Biazzo (em áudio): Para obter o reconhecimento internacional como filantropo e pioneiro no abandono do uso do amianto, ele criou uma série de fundações com supostos objetivos humanitários. A mais famosa é a Fundação Avina, que, segundo fontes da imprensa, investiu centenas de milhões de dólares em projetos de desenvolvimento sustentável na América Latina.

Sacha Biazzo: As associações de vítimas do amianto nunca receberam nenhum tipo de apoio?

Fernanda Giannasi, ativista, Associação das Vítimas do Amianto no Brasil:  Não, não. Me disseram que esse não era um assunto que interessava à Avina. Nenhum dos projetos era voltado às pessoas, eram apenas para as Rãs e qualquer outra bobagem.

Sacha Biazzo: Então, um projeto para proteger rãs?

Fernanda Giannasi: Projetos sem importância alguma. Desculpe, não sou muito afeiçoada às rãs, então isto não me interessa.

Sacha Biazzo: Mas a hipótese investigativa é que ele ocultou os lucros da Eternit, e, portanto, da produção de amianto, em fundações como a Avina, que oficialmente lidam com o meio ambiente, e que ele também usou para limpar sua imagem, para evitar ser alvo de uma possível condenação civil?

Paolo Rivella, consultor da Procuradoria da República em Turim – Caso Eternit: É verdade, é isso mesmo. A questão do amianto era para evitar morrer sangrando pelas indenizações. Abandonar o radar sempre foi uma de suas paixões.

Sacha Biazzo (em áudio): Mas se você olhar com atenção, podemos ainda encontrar alguns vestígios. A Fundação Avina, assim como outras empresas da família Schmidheiny, aparece no Offshore Leaks, o maior banco de dados de empresas registradas em paraísos fiscais da América Central para evitar pagar impostos. Um vestígio bastante óbvio, mas que deve ter passado despercebido por inúmeros jornalistas investigativos que tiveram suas investigações ambientais financiadas pela fundação de Schmidheiny.

Julio Saguier, proprietário do jornal “La Naciòn”, da Argentina: Eu puxo meus cabelos quando alguém critica Schmidheiny e acho que o que ele está passando é muito injusto.

Sacha Biazzo (em áudio): A paixãoda Avina pelo jornalismo investigativo, no entanto, desaparece quando chegamos à sua sede em Zurique.

Sacha Biazzo: Podemos falar com alguém da Fundação Avina?

Funcionário da AvinaCom quem você quer falar?

Sacha Biazzo: Qualquer pessoa.

Funcionário da Avina: O que você quer da Avina?

Sacha Biazzo: Você trabalha para a Avina?

Funcionário da Avina: Estou sentado no escritório da Avina agora.

Sacha Biazzo: Então você trabalha para a Avina?

Funcionário da Avina: Escute, o que você quer?

Sacha Biazzo: Gostaria de falar com você. Podemos entrar?

Funcionário da Avina: Não, estou descendo.

Sacha Biazzo: Ok, obrigado.

Funcionário da Avina: Não. (apontando para a câmera)

Sacha Biazzo: Ok, ok, sem câmera, tudo bem.

Sacha Biazzo: Mas por que está fechando a porta? Por que você tem medo da imprensa?

Sacha Biazzo (em áudio): Mas nem mesmo essa nova imagem do filantropo, construída por meio da Fundação Avina, apaziguou os juízes de Turim, que condenaram Schmidheiny a 18 anos de prisão. Somente o Supremo Tribunal (Corte de Cassação) se interpôs entre o bilionário suíço e a prisão. Enquanto o grupo do ex-agente do Mossad conspirava nas sombras para burlar o sistema judiciário italiano, milhares de vítimas, aguardando decisão do Supremo Tribunal, viam neste veredito seu último recurso para finalmente obter justiça.

Laura D’amico, advogada das vítimas do Amianto – Caso Eternit: Lembro-me bem daquela audiência no Supremo Tribunal, daquelas horas e horas de espera e ansiedade. Advogados e representantes de associações de vítimas do amianto também vieram do Brasil, da Suíça, da França, pois havia grande expectativa.

Alberto Matano, apresentador da Tg1, 19/11/2014: Julgamento da Eternit, surpresa no Supremo Tribunal. O Procurador-Geral solicita que a condenação proferida em apelação seja anulada devido à prescrição [Reato, isto é o crime considerado prescrito]. As famílias das 3.000 vítimas estão consternadas.

Sacha Biazzo (em áudio): Contra todas as expectativas, em novembro de 2014, o Supremo Tribunal (Corte de Cassação) anulou as condenações anteriores e declarou o crime prescrito, acolhendo integralmente o argumento da defesa de Schmidheiny.

Da esquerda para a direita, Viktoria e Stephan Schmidheiny, procurador Raffaele Guariniello e Romana Blasotti Pavesi (já falecida), ex-presidente da Associação de Familiares e Vítimas do Amianto

Viktoria Schmidheiny, esposa de Stephan Schmidheiny: Viva Stephan!

Raffaele Guariniello, procurador de Justiça de Turim – 19/11/2014: Mas como as vítimas e suas famílias podem aceitar a expressão “prescrição”? Isso não é justiça.

Romana Blasotti Pavesi (falecida), ex-presidente da Associação de Familiares e Vítimas do Amianto – 19/11/2014: É difícil de engolir, muito difícil mesmo. Fiquei muito decepcionada com a Corte de Cassação, muito mesmo.

Daniela Degiovanni, oncologistaTodas as nossas esperanças foram frustradas. A partir daí, comecei a entender que talvez nunca mais conseguíssemos justiça.

Rosalba Altopiedi, consultora da Procuradoria da República em Turim – Caso Eternit: Isso realmente pôs fim às reivindicações totalmente legítimas por justiça que esta comunidade vem defendendo há muitos anos.

Sacha Biazzo (em áudio): Para as famílias de milhares de vítimas do amianto na Itália e em todo o mundo, foi uma ferida que ainda luta para cicatrizar.

Giuliana Busto, atual presidente da Associação de Familiares e Vítimas do Amianto (AFeVA): Lembro-me de que voltamos para casa de ônibus naquela mesma noite. Não havia mais ninguém que tivesse força para dizer uma palavra; havia um silêncio verdadeiramente arrepiante.

Sacha Biazzo (em áudio): A própria acusação no processo, representada pelo procurador-geral adjunto do Supremo Tribunal, Francesco Mauro Iacoviello, havia solicitado a prescrição. Ele já havia estado no centro de controvérsias sobre conclusões judiciais como as do ex-primeiro-ministro da Itália, Giulio Andreotti, e Marcello dell’Utri. Uma declaração que ele fez causou alvoroço, chegando a questionar o crime de cumplicidade em associação com a máafia. No julgamento da Eternit, ele fez outra declaração, afirmando em seu discurso final que a lei (o Direito) deveria prevalecer sobre a justiça.

O jornalista Sacha Biazzo, por interfone, tenta entrevistar Francesco Iacoviello, ex-procurador-geral adjunto do Tribunal Superior

Sacha Biazzo: Houve alguma pressão sobre os juízes e magistrados para essa decisão?

Francesco Iacoviello, ex-procurador-geral adjunto do Tribunal Superior (Corte de Cassação): Absolutamente não. Minhas filhas são jornalistas. Eu entendo o seu trabalho e o aprecio imensamente, mas, por favor, compreenda minha discrição.

Sacha Biazzo: Posso perguntar por quê? Pois agora você…

Francesco Iacoviello, ex-procurador-geral adjunto do Tribunal Superior (Corte de Cassação): Não, não. Porque acredito que a função judicial implica necessariamente confidencialidade. Os documentos falam por si.

Sacha Biazzo: Mas agora você está aposentado, certo?

Francesco Iacoviello: Sim, sim, agora estou.

Sacha Biazzo: Então, se você quiser…

Francesco Iacoviello: Não, absolutamente não.

Sacha Biazzo: Muitos nos disseram, com genuína dor, o que sentiram ao ouvir as palavras que o senhor proferiu em seu discurso de encerramento no Supremo Tribunal, certo? Que às vezes a lei é mais forte que a justiça, o senhor reitera essas palavras?

Francesco Iacoviello: Mas acho que são palavras óbvias, porque… o Direito é que…. faz o Direito. Com licença, desejo-lhe um bom trabalho.

Sacha Biazzo (em áudio): Após a reunião no outono de 2013, a troca de e-mails entre os homens de Schmidheiny e os israelenses foi interrompida por quase um ano. Mas na manhã seguinte à decisão do Supremo Tribunal, a correspondência foi retomada. O braço direito de Schmidheiny, Heinz Pauli, agradece ao ex-agente do Mossad, Avner Azulay, pelos serviços prestados por ele e pelo ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak.

E-mail de Heinz Pauli para Avner Azulay – 20/11/2014: Prezado Avner, gostaria de lhe informar que ontem à noite a Corte de Cassação anulou a sentença anterior dos dois tribunais de Turim que haviam condenado STS a 18 anos de prisão. Atualmente, estamos em um pequeno hotel nas montanhas da Suíça, mantendo um perfil discreto enquanto aguardamos a tempestade passar. Também em nome de Stephan Schmidheiny, gostaria de expressar minha profunda gratidão pela ajuda que você ofereceu e pelos esforços que você fez para apoiar a causa do STS. Muito obrigado pelo seu apoio. Heinz Pauli

Sacha Biazzo (em áudio): O ex-agente do Mossad, Azulay, informa o ex-primeiro-ministro Barak, que então o agradece.

E-mail de Avner Azulay para Ehud Barak – 20/11/2014: Olá Ehud, fim da história! Tudo o que fizemos foi oferecer nossos serviços. Atenciosamente, Avner.

E-mail de Ehud Barak para Avner Azulay – 20/11/2014: Avner, obrigado. Desejo a ele e aos outros tudo de bom. Atenciosamente, Ehud Barak.

Sigfrido Ranucci, apresentador do Report: Não sabemos em que consistiam os serviços do ex-agente do Mossad, Azulay. E como também não sabemos quais serviços foram disponibilizados por Barak, o ex-primeiro-ministro israelense e figura-chave da inteligência militar israelense. Porém, o que emerge desses e-mails é perturbador.

Em resumo, privar os familiares das milhares de vítimas que inalaram fibras de amianto e aquelas que ainda estão vivas de justiça não é um erro, é um horror. O que sabemos é que, por um lado, temos e-mails nos quais ex-agentes do Mossad se congratulam porque um empresário condenado a 18 anos por desastre ambiental, em suma, saiu impune. Por outro lado, temos um pedido de absolvição por prescrição apresentado pelo Procurador-Geral Adjunto do Tribunal de Cassação, Francesco Mauro Iacoviello.

Em resumo, Iacoviello, que esteve envolvido em outras decisões controversas, a começar pelo julgamento do ex-primeiro ministro Andreotti, onde datou o crime de envolvimento com a máfia como sendo de 1980. Depois, houve o caso do recurso para o Tribunal de Apelação de Marcello Dell’Utri, que havia sido acusado de envolvimento externo com a máfia. Dell’Utri seria posteriormente condenado em definitivo. Há também a absolvição do juiz Renato Squillante, que havia sido acusado de pressionar outros magistrados em relação a certas sentenças, incluindo o julgamento de Imi-Sir (rumoroso processo de corrupção).

Segundo Iacoviello, as contas bancárias encontradas no exterior, contendo dinheiro, não comprovavam corrupção em sua função como magistrado, mas sim que ele atuava como ”intermediário entre particulares”.(Nota da tradutora:  pessoa que atua como elo entre duas partes (vendedor/prestador e comprador/tomador) com o objetivo de facilitar uma transação comercial, financeira ou de prestação de serviços, sem adquirir o produto ou serviço para si).

Iacoviello não quis se pronunciar sobre o caso Eternit. Nem o presidente do painel. No entanto, sabemos que o Painel também incluía relatores e outros membros de integridade moral inquestionável. Então, qual é a verdade? Não temos as ferramentas para dizer, mas sabemos uma coisa com certeza: a rede de ex-agentes do Mossad e Barak interveio para salvar um outro bilionário da prisão, Mark Rich.

Sacha Biazzo (em áudio): Mark Rich era um empresário americano inescrupuloso com ligações a Israel e facilitador de operações de inteligência israelenses. Nos Estados Unidos, Rich foi indiciado por 65 acusações e enfrentou uma pena de 300 anos de prisão; foi considerado o maior caso de evasão fiscal da história americana.

Marc Rich, Avner Azulay, Ehud Barak e então presidente Bill Clinton que perdoou o bilionário do petróleo, considerado um dos seis fugitivos mais procurados dos EUA

TG EURONEWS: Juntamente com Donald Trump, são os únicos dois chefes de governo a aparecerem em fotos e documentos comprometedores ao lado do financista pedófilo Jeffrey Epstein.

Meghnad Bose, professor de Jornalismo Investigativo – Universidade de Memphis: Na época, Marc Rich era um empresário que apoiava a causa israelense, o que levou Ehud Barak, então primeiro-ministro de Israel, a, por assim dizer, interceder pelo indulto de Rich. Foi um dos indultos concedidos por Bill Clinton em seu último dia de mandato.

Sacha Biazzo (em áudio): Enquanto Rich evitou a prisão, Schmidheiny ainda não concluiu seu processo judicial na Itália. Em abril passado, ele foi novamente condenado pelo Tribunal de Apelação de Turim, desta vez a 9 anos e 6 meses de prisão pelo homicídio culposo dos moradores de Casale Monferrato e dos trabalhadores da Eternit. As vítimas aguardam mais uma vez a sentença final da Corte de Cassação. Schmidheiny, como fez naquela ocasião, desapareceu do radar, tornando-se uma espécie de fantasma.

Os rumores sobre seu paradeiro atual são contraditórios; alguns o situam na Costa Rica, mas nossas fontes locais apontam para onde tudo começou: Hurden, um pequeno istmo no Lago de Zurique, uma espécie de enclave de baixos impostos que atraiu bilionários do mundo todo ao longo dos anos. Até mesmo Alex Karp, o fundador da Palantir, empresa de software e serviços de informática americana, comprou uma casa lá.

Adrian Knoepfli, jornalista e historiador suíço: Todas essas pessoas buscam belas paisagens e baixos impostos, e é por isso que Hurden é um lugar tão especial. E depois há o lago. Provavelmente não sobrou um único apartamento ou casa para pessoas comuns alugarem.

Sacha Biazzo (em áudio): Muitas das fundações e empresas ligadas a Schmidheiny estão sediadas neste paraíso mais fiscal do que natural, desde a sede da Fundação Avina até a agência de arte Daros, incluindo a empresa financeira Acorma, cujo ex-presidente, Frank Gulich, coordenou a equipe jurídica de Schmidheiny perante a Suprema Corte de Cassação. No entanto, ninguém aqui parece conhecê-lo.

Sacha Biazzo: Estamos procurando o Sr. Schmidheiny. Você já o viu?

Transeunte: Não.

Sacha Biazzo: Estamos procurando o Sr. Schmidheiny.

Morador de Hurden: Eu não sei.

Sacha Biazzo: Você nunca o viu?

Morador de Hurden: Eu nem sei como ele é, não sei de nada. Adeus.

Sacha Biazzo: Não vejo, não ouço, não falo.

Sacha Biazzo (em áudio): Após nossa chegada, esta vila de uma rua só, aos pés dos Alpes Suíços, se transforma repentinamente em uma fortaleza digna de um filme de máfia, onde ninguém vê, nem ouve. As fundações de Schmidheiny chegam a negar conhecer seu fundador.

Funcionário da Avina/AcormaOlá.

Sacha Biazzo: Olá, estamos procurando o Sr. Stephan Schmidheiny.

Funcionário da Avina/AcormaNão há nenhum Schmidheiny aqui.

Sacha Biazzo: Avina? A Fundação Avina?

Funcionário da Avina/Acorma: Não é aqui. O que você quer que eu diga?

Sacha Biazzo: Você não sabe quem ele é?

Funcionário da Avina/Acorma: Não.

Sacha Biazzo (em áudio): E, no entanto, de acordo com os registros suíços, a casa de Schmidheiny fica bem em frente, do outro lado da rua, neste endereço aparentemente anônimo em que tentamos bater.

Sacha Biazzo: Estamos procurando o Sr. Schmidheiny.

Heinz Pauli, financista e braço direito de Schmidheiny: Ele não está aqui.

Sacha Biazzo: Estamos procurando o Sr. Schmidheiny.

Heinz Pauli: Por quê?

Sacha Biazzo: Somos jornalistas italianos.

Heinz Pauli: Ele não mora aqui, adeus!

Sacha Biazzo: Descobrimos que este é o endereço dele.

Sacha Biazzo (em áudio): A pessoa que abre a porta tem um rosto familiar. Mesmo depois de tantos anos, conseguimos reconhecê-lo. É ele: Heinz Pauli, o braço direito do bilionário suíço que atuava em conjunto com o ex-agente do Mossad, Azulay. Assim como Azulay, Heinz Pauli também trabalhou para Marc Rich, o bilionário com ligações com Israel e foragido na Suíça, que, graças à intervenção do lobby israelense ativado por Azulay e Barak, escapou de uma possível pena de 300 anos de prisão.

Sacha Biazzo: Sr. Pauli! Desculpe, não o reconheci.

Heinz Pauli: Vá embora ou chamarei a polícia!

Sacha Biazzo: Sr. Pauli, certo? Só tenho uma pergunta!

Heinz Pauli: Não! Não! Não! Cale a boca!

Sacha Biazzo: Por que você contatou um ex-agente do Mossad para influenciar o julgamento na Itália contra o Sr. Schmidheiny? Você contatou o Sr. Azulay, um ex-agente do Mossad, e  tentou influenciar no processo italiano, na Corte de Cassação! (Pauli bate a porta na cara do jornalista do Report).

Sigfrido Ranucci, apresentador do Report: Então, Schmidheiny nos informou, por meio de seu advogado, que Heinz Pauli é seu amigo, mas que ele nunca teve qualquer mandato oficial, nem mesmo informal, para realizar qualquer atividade para proteger seu caso na justiça e, portanto, nem para contatar a Azulay ou o Sr. Barak. Ele também nega ter pagado qualquer quantia em dinheiro para esse fim. Schmidheiny então se recusou a falar conosco, o que é uma pena, pois, afinal, uma questão permanece sem solução: ele também enfrenta um segundo julgamento na Itália, o Eternit 2. O veredito será proferido pela Corte de Cassação nos próximos meses. Em abril de 2025, Schmidheiny foi condenado, em apelação, a nove anos e seis meses de prisão por homicídio culposo pelas 258 pessoas que morreram entre 1989 e 2014, e pelas mortes de 392 vítimas da exposição às fibras de amianto na região de Casale Monferrato. Resumidamente, a sentença da apelação também reduziu as indenizações para apenas cinco milhões de euros para o município de Casale Monferrato, quinhentos mil euros para a Presidência do Conselho de Ministros e algumas dezenas de milhares de euros para cada vítima individual, incluindo associações e familiares das vítimas. Isso porque, segundo os juízes da apelação, o empresário previu a possibilidade de os trabalhadores desenvolverem doenças graves e fatais, mas aceitou o risco que pudesse verificar-se.

Em resumo, como ocorreu há doze anos, o prazo de prescrição paira sobre as ações judiciais. Se o Supremo Tribunal de Cassação não se pronunciar até junho, é provável que Schmidheiny consiga escapar impune mais uma vez. Uma questão, porém, permanece em aberto: aquela que surgiu a partir dos e-mails que compartilhamos esta noite. Será possível que uma rede de agentes do Mossad possa influenciar o judiciário? Voltaremos a este assunto com outros documentos exclusivos, mas, enquanto isso, é dever de cada cidadão defender a integridade e a independência do judiciário contra qualquer interferência política, vinda de qualquer outro país.

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