VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Obama “de esquerda” vence o debate por pontos


17/10/2012 - 01h53

por Luiz Carlos Azenha

Vi ao vivo os dois debates entre os candidatos a presidente dos Estados Unidos. O de ontem à noite pela Fox News.

No primeiro Obama estava sonolento, abatido e desatento. Foi nocaute do republicano Mitt Romney.

Ontem, Barack venceu por pontos.

O formato do segundo debate foi agradabilíssimo. Depois de engessarem continuamente os confrontos, atendendo aos ditames de marqueteiros e assessores políticos, os norte-americanos fizeram uma inflexão pela liberdade de movimento e de atuação dos candidatos. Os perguntadores de ontem representavam todos os segmentos da sociedade estadunidense e houve vários momentos de debate direto entre Obama e Romney.

É preciso ressaltar que as regras, nos Estados Unidos, são fixadas pela Comissão Sobre Debates Presidenciais, um organismo independente das emissoras de TV. As emissoras optam por transmitir ou não. Como é um evento de prestígio, todas as principais acabam transmitindo.

É uma fórmula que deveria ser adotada no Brasil, já que transfere poder das concessionárias e das assessorias dos candidatos para o público (pelo menos em tese).

Como programa de TV, o debate de ontem foi ótimo.

Obama encarnou o candidato “esquerdista”.

Romney atacou o preço da gasolina — que se aproxima dos 4 dólares o galão nos Estados Unidos, o equivalente a R$ 2,20 por litro, uma enormidade — lembrando que quando Obama assumiu o combustível no custava U$ 1,80 por galão. Obama respondeu que, quando assumiu, os preços de gasolina estavam baixos porque os Estados Unidos estavam em recessão profunda, resultado de políticas parecidas com as que o republicano propõe agora. Ou seja, carimbou Romney de George W. Bush.

Conseguiu transformar uma estatística negativa num argumento incriminador para o adversário. Guardadas as devidas proporções, Bush Jr. está para as eleições norte-americanos como Kassab está para as de São Paulo.

Foi apenas uma das várias estocadas de Obama, que conseguiu colocar Romney na defensiva. Por exemplo, o presidente acusou o republicano de pregar o corte dos investimentos na Planned Parenthood, a entidade de planejamento familiar que recebe verbas federais. Os conservadores, que se opõem ao aborto, miram na entidade tanto quanto na PBS, a TV pública dos Estados Unidos, alegando que colocar dinheiro em ambas é desperdício. Obama também fez referência rápida ao Big Bird, o Garibaldo da Vila Sésamo, que sofreria com a perseguição republicana ao orçamento da PBS.

O presidente também atacou a plataforma econômica de Romney, argumentando que ele daria prioridade aos 2% do topo da pirâmide, contra os 98%. O republicano propõe a manutenção dos cortes de impostos para os mais ricos, implantado por George W. Bush. Talvez o democrata tenha mencionado os 98% para não se misturar com os 99%, sempre citados por movimentos como o Occupy Wall Street (à esquerda, mas nem tanto, podem ter pensado os assessores de Obama).

A força de Romney nos debates está em estatísticas que, de fato, impressionam: há hoje  nos Estados Unidos 23 milhões de desempregados e 47 milhões de pessoas dependentes dos Food Stamps, a versão deles do Bolsa Família.

O republicano teve a oportunidade de enfatizar várias vezes sua plataforma de classe média: independência energética (carvão, gás, energia nuclear e perfuração em águas profundas), corte de impostos para a classe média bancado por redução de isenções fiscais, enfrentamento da China nas negociações comerciais, aumento do comércio com a América Latina e investimento em pequenas empresas.

O fato é que os dois candidatos lutam pelos eleitores independentes, que são o fiel da balança num eleitorado dividido. Obama, neste segundo debate, deu uma guinada à esquerda justamente para enfatizar suas diferenças com aquele que seria o candidato dos ricos, elitista na política econômica, extremista em questões sociais e continuador de Bush Jr.

Uma das eleitoras indecisas que estavam na plateia fez o preâmbulo de uma pergunta que, em minha opinião, reflete bem o estado do eleitorado: disse que estava insatisfeita com o governo Obama, mas que não queria voltar à era Bush. É da resposta a este dilema que sairá o resultado da eleição. Curiosamente, para vencer Romney precisa encarnar um slogan da campanha de Obama em 2008, o da “mudança na qual é possível acreditar”.

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9 comentários

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Renato

17 de outubro de 2012 às 15h12

Azenha defendendo os EUA, por isso Campinas está chovendo.

Responder

ZePovinho

17 de outubro de 2012 às 10h25

Enquanto o debate rolava,a candidata do partido verde foi em cana porque queria entrar e,imaginem,na “democracia” americana apenas dois partidos mandam:

http://www.aporrea.org/internacionales/n216366.html

Policía de EEUU arresta en pleno debate a la candidata presidencial Jill Stein
Por: RT.com | Martes, 16/10/2012 09:01 PM

16710/12.-La policía estadounidense ha arrestado a la candidata presidencial del Partido Verde, Jill Stein, junto a su compañera de fórmula, Cheri Honkala, en el marco del debate presidencial de esta noche en la Universidad Hofstra, en la ciudad de Nueva York.

La policía local arrestó a Stein y a su compañera, después de que ambas intentaran entrar sin autorización previa en el recinto donde se llevará a cabo el debate presidencial, entre los candidatos del Partido Demócrata y Republicano, Barack Obama y Mike Romney, respectivamente.

Actualmente las dos mujeres se encuentran bajo custodia policial.

El martes pasado Stein tachó el debate presidencial de “falso”. “Estamos aquí para llevar el valor de los excluidos de nuestra política en este debate falso, esta burla a la democracia”, proclamó Stein.

No es la primera vez que la Policía norteamericana arresta a Stein y a su compañera de campaña. A principios de agosto pasado la candidata presidencial fue detenida luego de manifestarse frente a un banco en Filadelfia en contra de las ejecuciones hipotecarias.

Stein, de 62 años de edad, es una doctora titulada en Harvard y candidata del Partido Verde, a la que ‘The New Yorker’ definió como “la candidata de Occupy”, el movimiento de protesta. Stein promulga una agenda progresista tanto en empleo como en políticas energéticas y medioambientales, así como en sus propuestas económicas y sociales.

Responder

    razumikhin

    17 de outubro de 2012 às 18h28

    O Brasil tem hoje alguns poucos partidos de esquerda. O resto é de aluguel. Há dúvidas?

    Mário SF Alves

    18 de outubro de 2012 às 16h14

    Se eu morasse lá, com certeza, votaria nela.

Geraldo

17 de outubro de 2012 às 10h16

Bom dia, Azenha. Acho suas análises muito sensatas, mas tem um pequeno equívoco numa conversão: 4 dólares equivalem aproximadamente 8,10 reais e não 2,20. Seria bom corrigir. Abs.

Responder

    Luiz Carlos Azenha

    17 de outubro de 2012 às 10h20

    A conta tá certa, faltou incluir que era 2,20 por litro de gasolina (8 sobre 3,7). Obrigado pela correção.

Bonifa

17 de outubro de 2012 às 09h56

O aumento do comércio com a América Latina, em tese, é uma ótima meta. Mas comércio envolve negociações e estas envolvem diplomacia, que por sua vez envolve respeito mútuo. Atualmente com governos democráticos, a América Latina hoje se diferencia muito do antigo continente comandado por governos oligárquicos representantes de uma reduzida elite econômica. São governos nacionais, que estão atentos aos interesses de seu país como um todo e de seus povos, e não mais atentos apenas aos interesses de uma reduzida elite. Neste caso, as negociações entre EUA e AL, especialmente América do Sul, demandam uma nova postura de Washington, adequadaà nova realidade, que inclui não mais privilegiar politicamente as correntes conservadoras que foram vencidas no continente.

Responder

    Theles

    17 de outubro de 2012 às 11h22

    Vale destacar que esse “trade shares” com a américa latina serão feitos com acordos bi-laterais com cada país, e não com o Mercosul por exemplo.

FrancoAtirador

17 de outubro de 2012 às 09h28 Responder

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