VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

André Singer: O combate à pobreza com manutenção da ordem


10/09/2012 - 14h04

Lulismo mudou o cenário e vai durar, diz ex-porta-voz

Livro do cientista político André Singer sustenta que o fenômeno criou um ‘realinhamento eleitoral’ e partidos terão de se adaptar

09 de setembro de 2012 | 3h 02

GABRIEL MANZANO – O Estado de S.Paulo

Para seus fiéis, o lulismo é símbolo do resgate dos pobres e trouxe uma nova era à política brasileira. Para adversários, há nele muito de propaganda e seu destino é sumir quando seu protagonista sair de cena. Entre os dois extremos, o cientista político André Singer acaba de lançar o livro Os Sentidos do Lulismo – no qual sustenta que o fenômeno é mais profundo. É fruto de um importante realinhamento eleitoral no País, que obriga ao reposicionamento de outras forças políticas. E mais: tem uma longa vida pela frente.

Em plena guerra eleitoral, com mais de 20 partidos disputando 5.565 prefeituras, azarões liderando pesquisas e completa ausência de debate ideológico, o livro chega como uma boa provocação. “O lulismo é recente e seu sentido histórico não se fixou”, adverte o autor, que foi porta-voz de Lula no primeiro mandato. Ele relata, com fartos números e tabelas, como foi a construção desse novo “ismo” e qual peso ele terá na história do País.

Primeiro, as amplas políticas sociais iniciadas em 2003 beneficiaram um imenso subproletariado que era conservador e passou a apoiar o presidente. Segundo, o mensalão afastou a classe média de Lula. Surge então uma nova paisagem política. “No lulismo a polarização se dá entre ricos e pobres, não entre esquerda e direita”, avisa o autor. E o novo realinhamento eleitoral “tornou necessário o reposicionamento das esquerdas e de outros segmentos ideológicos”.

Reformismo fraco. Como se percebe, o cerne do estudo é o impacto de políticas sociais no quadro eleitoral. Ou seja, vão se decepcionar os que esperam de suas 276 páginas críticas ao mensalão, ao abandono dos ideais socialistas, a acordos pouco republicanos. Mas não faltam provocações.

Para começar, ele define o lulismo como “mudança e permanência” e “combate à pobreza com manutenção da ordem”. O movimento só se firmou por ter adotado o “reformismo fraco” — um conjunto de políticas moderadas, “sem confrontar o capital”. Reformismo fraco é, por exemplo, dar crédito consignado em vez de taxar as fortunas.

É dar reajustes modestos ao salário mínimo. É não mexer na legislação financeira. E é, por fim, jogar para o futuro o desafio maior da redução das desigualdades. Não por acaso, o subtítulo do livro é “Reforma Gradual e Pacto Conservador”.

Segundo o autor, o lulismo só deu certo porque, entre 2003 e 2008, o Brasil foi beneficiado pelos bons ventos da economia mundial, que abarrotaram os cofres do Tesouro e permitiram a Lula, ao mesmo tempo, ser generoso com os pobres e “acalmar” os meios financeiros mantendo superávits altos e inflação baixa. Mas é um erro, diz ele, reduzir o lulismo a um reflexo da economia mundial.

“Foi a fortuna da conjuntura internacional e a virtù de apostar na redução da pobreza com ativação do mercado interno que produziu o suporte material do lulismo”, afirma o autor.

As teses de Singer são promessa de polêmica. “Lulismo é um conceito equívoco”, adverte o cientista político Aldo Fornazieri. Rigoroso na conceituação de um “ismo”, ele diz que Lula “não deixou nem teve intenção de legar um corpo doutrinário dessa natureza”. Seu colega Rudá Ricci escreveu que o fenômeno “é difuso’ e “se desgasta na falta de nitidez”. Para o historiador Carlos Guilherme Mota, o lulismo “ficou historicamente datado”, pois criou “uma visão conciliadora da vida social” que ele prefere chamar de neopopulismo.

Singer se defende: a vitória de Dilma Rousseff em 2010 já é uma evidência do realinhamento de que fala no livro. A grande ameaça, de fato, seria uma forte crise econômica, se ela interrompesse as políticas sociais – que, afinal, já duraram uma década.

Leia também:

Maria do Rosário: Campanha promove ódio contra a comunidade LGBT

Leandro Fortes: Mais um surto político de catapora infantil

Marcos Coimbra: Pesquisas confirmam quadro previsível

Vladimir Safatle: A perda de hegemonia da esquerda

Cuba, sem o bloqueio informativo da mídia

Miguel do Rosário: O ódio contra a democracia

Mauro Santayana: Getúlio e a Nação dos brasileiros

Gilson Caroni Filho: 7 de setembro, as margens ainda são plácidas?

Laurindo Leal Filho: Criminalizar a política é convite ao golpismo

Joel Leite: Chávez, de novo; feito o Roosevelt

Janio de Freitas: Apresentação das defesas fez ruir pretensas provas da acusação

Mino Carta: Que diriam Brizola e Ulisses de como ficaram seus partidos?





14 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Barão de Itararé: Querem sufocar a blogosfera « Viomundo – O que você não vê na mídia

12 de setembro de 2012 às 11h01

[…] André Singer: O combate à pobreza com manutenção da ordem […]

Responder

Elton

11 de setembro de 2012 às 07h35

Tai coisa interessante. Será que houve atrito entre os intelectuais quando foram nomeadas rodovias como nomes de ditadores? Uma coisa que não veremos nesse BraZil é uma humilde rua com o nome de Lula, por um simples motivo. Ele não pode servir de exemplo, não se deve encorajar outros proletários a fazer o mesmo pois será insustentável para a “DEMOcracia”. Quanto ao lulismo o chefe de estado que visa governar em prol de seus próprios anseios não passa de um mitômano como foi o cheiroso sociólogo F.H.C. Esse pode dar “palestra” (Palestra-falar mal do Brasil) em ingrêis cobrar em dollar, também pode fazer livros afinal é um intelectual, cientista politico.

Responder

Fabio Passos

10 de setembro de 2012 às 23h10

O sucesso do primeiro presidente do Brasil com origem e compromisso de classe com a maioria pobre e trabalhadora foi novidade excelente para nossa nação acostumada aos fracassos dos representantes da Casa Grande.

Lula é nosso Nelson Mandela.

Lula é uma cunha que a esquerda precisa saber usar para avançar e derrubar de uma vez o apartheid social.

A “elite” branca e rica sabe muito bem o risco que Lula representa para seus privilégios indecentes e interesses retrógrados.
Esta é a razão do ódio que o PiG tem do nordestino-pau-de-arara-analfabeto-metalúrgico-pobretão-sem-dedo… Lula mostrou ao povo que deve acreditar em si mesmo e que merece governar.

Poder para o povo pobre!

… e a “elite” branca, rica e ladra se borra toda.

Responder

Laurindo Leal Filho: Síndrome de Jango, aos 50 anos « Viomundo – O que você não vê na mídia

10 de setembro de 2012 às 21h38

[…] André Singer: O combate à pobreza com manutenção da ordem […]

Responder

Francisco

10 de setembro de 2012 às 20h18

No sentido que Paul Singer dá ao termo, o “lulismo” só pode ter um uso “revolucionário”: se essa expansão da renda e do acesso à informação e, em alguns casos, ao conhecimento, for instrumentalizado para uma ação politica maior e mais autonoma. Para a ampliação do sentido de comunidade.

Ora, e aqui começa a critica que se pode fazer aos dez anos de PT no poder. Nem o curriculo escolar das Academias Militares foi mexido. Lá o Golpe ainda é “revolução”. Nas escolas civis de ensino médio brasileiras, João Goulart ainda “mereceu” o Golpe.

Se tivessemos liberais de fato no país (e não os coronéis que temos), eles estariam atônitos com o fato dos curriculos escolares não fazerem um ataque total à idéia de ditadura, de tortura e de regime de excessão. Fazendo a apologia total da democracia, da constitucionalidade, dos direitos humanos, das minorias e do poder popular. Enfim, da república e da cidadania.

Se tivessemos liberais de fato, eles estariam aterrorizados com a fragilidade social da república e da democracia.

Os atentados a gays que andam acontecendo são “A” prova dos limites do “lulismo”. As estradas, os portos, o comércio exterior vão ficar ótimos, mas… e as pessoas?

Cadê o homem novo republicano (não vou nem me atrever a clamar pelo “homem novo socialista”…)! Cadê o cidadão que vai segurar os tanques da nossa “Praça da Paz Celestial”, “no braço”. Quantos Lamarcas e Marighellas teremos em estoque? Quais as garantias de que os Marinho somados aos Mesquita não podem novamente atentar contra a democracia?

O que foi feito para impedir que 190 milhões sejam pautados por dez ou quinze familias de bossais? A rigor? Nada!!!

E há o razoavel risco desta nova classe média não passar de um amontoado de alienados consumistas. Blasê e pernosticos de “nada”. Enfim, aquilo que Marx chamava de “jeunese doureé” (“juventude dourada” ou “playboyzinho”)

O “lulismo” praticamente já cumpriu a sua missão histórica e ela não foi nada, nada aproveitado. Um partido de esquerda é bem mais (muito mais) que um partido “que trabalha bem” ou “gera emprego”.

Essas coisas “gerenciais”, era para qualquer partido burguês fazer a contento. A armadilha histórica para o PT é que o PSDB é tão ruim, tão ruim, que esse espaço de mero “tocador de obra” e “resolvedor de crise mundial”, mostra-se muito necessário e muito absorvente.

O PSDB atrapalha o país de muitas formas. Mas o PT precisa ter um Congresso que avalie onde esta e para onde quer ir, sob risco de não ir a lugar nenhum.

Responder

Ninja

10 de setembro de 2012 às 18h07

Uma coisa é certa à respeito do “reformismo fraco” da presidência de Lula: ele não é fácil de avaliar.

Mas sobre a Dilma, uma coisa é certa: ela não avançou em nada, pelo contrário, trouxe recuos imperdoáveis. Privatarias massivas da previdência, aeroportos, portos marítimos, rodovias e ferrovias,;cortes de impostos patronais; quase completa paralização da reforma agrária; corte de gastos com a política social; arrogância com os protestos de sindicalistas e índios; reaproximação com o imperialismo euro-ianque na política externa; apoio dissimulado às reformas do código florestal, etc. Pelo jeito, não é a oposição de direita ou de esquerda que está afundando o “lulismo”, é a própria “base aliada” e a sucessora do Lula.

Responder

francisco.latorre

10 de setembro de 2012 às 17h53

estadinho. é opusdei. vaticano. ratzinger.

continua em campanha.

pra enterrar lula. e o lulismo. e o pt.

..

aguardo outra resenha. sobre o trabalho do singer.

deu pra ver o que a reação espera que pensemos..

o de sempre. lula a decepção.

truque raso. e primário.

‘fez muito não fez tudo’. papo de cunhada.

cola em certa esquerda. rasa. e primária.

..

Responder

Luiz Fortaleza

10 de setembro de 2012 às 17h31

É uma perspectiva analítica, claro, passível de concordâncias e discordâncias, mas não desprezível. Qto essa mania de militantes alienados teoricamente atacar intelectuais, é resultado do pragmatismo da luta militante.

Responder

    Vlad

    10 de setembro de 2012 às 21h27

    Exato. E não precisa ir longe. Logo acima do seu comentário está a ilustração, em tons carnavalescos, do seu ponto de vista.

    º,..,º

João Vargas

10 de setembro de 2012 às 17h07

Concordo quando ele diz que o lulismo não confrontou o capital.Pelo contrário, o crédito consignado com taxas elevadíssimas de juros alimentou o capital. a Dilma parece estar indo mais fundo neste ítem, baixando as taxas e limitando os ganhos extratosféricos dos bancos.

Responder

Tomas Noku

10 de setembro de 2012 às 16h53

Faz isto às custas do que rouba por mês dos aposentados atingidos pelo Fator Previdenciário. Pessoas que trabalharam, não roubaram. E justamente quando mais precisam, vêem suas vidas dificultadas. Muitos
voltam a trabalhar em atividades menores, continuam a pagar o INSS e, por incrível que pareça, não têem direito a seguro desemprego, PIS, etc.
Existem abusos ? Claro que sim, e são de conhecimento público como aposentadorias de mais de 30 mil reais, Então que se acabe com estes abusos.
Neste ano a presidentona deu aumento menor que a inflação aos aposentados que ganham mais de um salário mínimo.
Ela já tem a de presidente garantida, assim como o traidor dos aposentados e trabalhadores da iniciativa privada, tem, entre outras…
E o lucro dos bancos ?
E as grandes fortunas ? Dinheiro do BNDES para elas…
E o preço das coisas nos supermercados ?
Não estão fazendo nada mais que o básico. Nem o que a Constituição manda elçes estão fazendo.

Responder

Pedro

10 de setembro de 2012 às 16h01

Todo esse blá blá blá sociológico é bem coisa de intelectual que quer se ocupar com suas verdades.

Responder

    Matt

    10 de setembro de 2012 às 17h27

    E sociólogos são “doutrinadores esquerdistas” que afastam os homens da Verdade do Livre-Mercado e da Verdadeira Religião (seja ela qual for). Amém, Lula!

Dialética

10 de setembro de 2012 às 15h11

Sim, sim, sim

E a campanha das Semanas Sociais da Igreja Católica é

Que Estado queremos?
E pra quem?

Acho que vivemos uma época de rupturas.

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding