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Metrô em São Paulo: Os sintomas do sucateamento


10/10/2012 - 21h18

Política| 10/10/2012 | Copyleft

Panes no metrô paulistano: sintomas do sucateamento

Falhas no sistema vêm sendo mais constantes que no ano passado. Segundo Narciso Soares, do Sindicato de Metroviários de São Paulo, o processo de terceirização de serviços dos trens, a falta de investimento do governo estadual paulista na contratação de funcionários e manutenção e as Parcerias Público-Privadas (PPPs) são fatores que contribuem para o que ele chama de “sucateamento do sistema de transporte público por parte das gestões tucanas”. A reportagem é de Isabel Harari e André Cristi.

Isabel Harari e André Cristi, na Carta Maior

São Paulo – Trens em velocidade reduzida ou parados por vários minutos entre uma estação e outra, aumento do tempo de espera nas plataformas, portas que não abrem. Em 2012, o paulistano vem sofrendo ainda mais com as constantes falhas no metrô de São Paulo. Entre janeiro e maio deste ano, por exemplo, foram canceladas 170% mais viagens programadas pelo sistema em relação ao mesmo período de 2011, segundo dados do Serviço de Informação ao Cidadão (SIC), disponibilizados no site do Metrô (Companhia do Metropolitano de São Paulo).

Na grande maioria dos casos, as falhas não são decorrentes de erros humanos e sim do próprio sistema metroferroviário – e impedem o “despacho”, ou seja, a partida dos trens. A consequência prática é o aumento do tempo de espera nas plataformas e a maior lotação dos vagões. De acordo com os dados do SIC – que constam de um relatório obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo em julho – o número de falhas entre janeiro e maio deste ano é ligeiramente maior do que o mesmo período do ano passado – 23 a 20 –, mas as ocorrências geraram mais do que o dobro de cancelamentos de saída de trens: 496 em 2012, 184 em 2011. Ou seja, as panes neste ano têm sido de mais gravidade.

Os problemas variam da não abertura das portas dos vagões ao choque de trens na Linha-3 Vermelha que ocorreu em maio deste ano, fruto de uma falha nos freios. Em 23 de agosto, por exemplo, por causa de um mau funcionamento no sistema de tração, as linhas 1, 2 e 3 circularam com velocidade reduzida. A situação restringiu a entrada de passageiros nos trens, superlotando as estações. O problema foi solucionado cerca de uma hora depois.

Segundo Narciso Soares, do Sindicato de Metroviários de São Paulo, o processo de terceirização de serviços dos trens, a falta de investimento do governo estadual na contratação de funcionários e manutenção e as Parcerias Público-Privadas (PPPs) são fatores que contribuem para o que ele chama de “sucateamento do sistema de transporte público por parte das gestões tucanas”. O PSDB está à frente do estado desde 1994.

Em 2000, o metrô paulistano transportava cerca de 2,4 milhões de pessoas por dia; um ano depois, tinha em seus quadros 7.300 trabalhadores. Hoje, são 4 milhões de usuários, mas o número de funcionários aumentou para apenas 8.600 – além disso, sua extensão cresceu consideravelmente, com a inauguração de novos trechos e estações. Com o aumento da demanda, uma manutenção mais efetiva e mais recorrente é imprescindível para o bom funcionamento do sistema. No entanto, muitas das funções são terceirizadas, como a limpeza e o recolhimento de tarifas.

“Isso gera uma queda de qualidade, pois se deixa de lado todo o know-how dos metroviários e se contrata empresas que não têm nenhum conhecimento, que estão interessadas no lucro. Para elas, quanto menos gastos, melhor”, critica Narciso, funcionário do Metrô há oito anos.

Em São Paulo, a malha metroviária estende-se por 74 km, enquanto na Cidade do México são 201 km e em Nova York, 1.056 km. Entre 2003 e 2011 o governo do estado de São Paulo anunciou que investiria R$ 17,1 bilhões no metrô; no entanto, apenas R$ 9,8 bilhões, 57% do prometido, foram despendidos. O valor gasto em 2011 foi de R$ 1,3 bilhão, treze vezes mais que a cifra de 2003 (R$ 99,9 milhões), segundo notícia do portal Terra de maio deste ano.

Para o deputado estadual Simão Pedro (PT), o alto investimento nos trens, que deveria ser destinado a novas linhas e manutenção das demais, perde-se em meio aos desvios de verba, pagamentos de propina, obras superfaturadas e muitas vezes desnecessárias. “O Metrô sofre esses impactos em função de grandes desvios de dinheiro, que passa pelo pagamento de propina e serviços não realizados – as cláusulas estão ali para enganar. É o privado controlando e gerenciando um sistema altamente lucrativo”, denuncia.

A situação mais precária, porém, é a dos funcionários. “Hoje se faz muita hora-extra no Metrô, ninguém vive sem. Se todos os metroviários resolverem não fazer hora-extra durante dois dias, o Metrô para. Tem dinheiro, o problema é definir prioridades”, denuncia Altino de Melo Prazeres Júnior, presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. De acordo com ele, “falta dinheiro do governo – qualificação existe, mas faltam funcionários”. Já Narciso explica que não há resposta do governo em relação à contratação de novos funcionários. “A empresa [Metrô] coloca claramente que há um déficit de pessoas, mas não consegue contratar porque o governo não abre vagas.

”

Uma greve dos metroviários estava marcada para o dia 4, mas, atendendo a um pedido do TRT (Tribunal Regional do Trabalho), foi adiada para o dia 24, caso as negociações não avancem. Os trabalhadores reivindicam uma divisão mais justa da PR (Participação dos Resultados), que, segundo o sindicato, é destinada de forma desigual, beneficiando os funcionários de altos cargos, cujo salário líquido já é mais elevado. Em carta aberta à população, o sindicato também exige a melhora da jornada de trabalho e a equiparação dos salários.

“A população sofre a política do governo estadual, que privilegia os ricos. O sufoco do metrô lotado e a falta de investimento é um retrato da política do governador [Geraldo] Alckmin para os transportes públicos”, diz o texto.

A negligência do poder público em relação ao transporte coletivo também pode ser observada na esfera federal, com a falta de investimentos nas últimos gestões.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) destinou à área de transportes apenas 0,3% do PIB, enquanto no governo Lula (PT) o investimento foi de 0,4% – em ambos os casos, a prioridade foi o modal rodoviário, em detrimento do sistema metroferroviário. “A bandeira principal é pelo investimento de 2% do PIB nacional no transporte público”, defende Altino.

O presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo critica ainda a diminuição do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre a produção de automóveis determinada pelo governo federal nos últimos anos. Para ele, a medida contribuiu para o aumento da venda de veículos privados. “A grande medida hoje, para salvar a economia, é diminuir o IPI. Esse foi o grande investimento do Estado. Isso é uma transferência de dinheiro do Estado para a indústria privada. Mais uma vez se priorizou o transporte privado. Por que não se investiu esse dinheiro em construção de quilômetros de metrô?”, reclama.

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15 comentários

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Ildefonso Murillo Seul Batista

12 de outubro de 2012 às 06h59

O mal desse governo, seja ele de tendencia Opus Dei, ou seguidor do Malafaia, é que ele acredita na falácia da empresa estatal ineficiente e deixa de investir nelas. Ai ela realmente se torna mais que ineficiente torna-se inviável. O exemplo mais gritante disso foi a decisão do Opus Dei de alijar toda a competencia da engenharia do Metrô SP para fazer a Linha Amarela no sistema Turn Key que é outra falácia apregoada pelos empresários. Produziram uma GRANDE CRATERA, o buracão de Pinheiros, mataram sete pessoas e não aprenderam.

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abolicionista

11 de outubro de 2012 às 14h56

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120329_economist_metrosp_ac.shtml

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José Eduardo

11 de outubro de 2012 às 14h15

O PSDB é sinônimo de ruína. Tudo o que eles tocam vira lixo! Mas o pessoal do sindicato também está correto quando afirma que o Gov. Federal também tem parte da culpa ao priorizar o transporte individual.

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Zezinho

11 de outubro de 2012 às 08h31

“Em 2000, o metrô paulistano transportava cerca de 2,4 milhões de pessoas por dia; um ano depois, tinha em seus quadros 7.300 trabalhadores. Hoje, são 4 milhões de usuários, mas o número de funcionários aumentou para apenas 8.600 – além disso, sua extensão cresceu consideravelmente, com a inauguração de novos trechos e estações. Com o aumento da demanda, uma manutenção mais efetiva e mais recorrente é imprescindível para o bom funcionamento do sistema. No entanto, muitas das funções são terceirizadas, como a limpeza e o recolhimento de tarifas.”

Este parágrafo é suficiente para ver quão verdadeira é a acusação.
A limpeza e o recolhimento de tarifas é o grande vilão da história. O fato do número de usuários haver dobrado é irrelevante, o que importa é que a proporção de empregados cresça na mesma proporção to número de usuários.

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    abolicionista

    11 de outubro de 2012 às 14h55

    Uma sugestão, compare o metrô de São Paulo com o da Cidade do México, que cresceu muito mais do que São Paulo e começou a construir seu metrô ao mesmo tempo. O metrô da Cidade do México tem mais de 200 km.
    “Um artigo publicado nesta quinta-feira pela revista The Economist afirma que, apesar dos avanços representados pela inauguração da Linha 4 do metrô, o sistema de transporte público de São Paulo ainda é insuficiente para atender a demanda da maior cidade da América do Sul.

    A revista afirma que a Linha 4 liga, pela primeira vez, áreas como a Avenida Paulista e a Faria Lima, já transporta 550 mil passageiros por dia e representa economia de meia hora para muitos usuários que se deslocam da periferia para o centro da cidade.

    ‘Os 71 Km da rede de metrô de São Paulo são minúsculos para uma cidade de 19 milhões de habitantes. Isso dificilmente seria digno de nota em outras cidades internacionais.’, diz o texto.
    ‘O metrô da Cidade do México tem mais de 200 Km de extensão. O de Seul, quase 400 Km. Até mesmo Santiago, com um quarto do tamanho de São Paulo, tem uma rede de metrô 40% maior’, diz a revista.”

    Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120329_economist_metrosp_ac.shtml

    Zezinho

    11 de outubro de 2012 às 16h34

    Se vê pelo andamento das obras do PAC que o PT sabe como fazer.

    abolicionista

    11 de outubro de 2012 às 17h29

    É difícil ficar sem argumentos, né? Pior do que isso é tentar tirar um assunto da manga, como uma daquelas cápsula de fumaça do Batman!rs

    O fato é que o metrô de SP não cresce por dois fatores: falta de vontade política e má administração, não necessariamente nessa ordem, simples assim. E o exemplo de outras megalópoles como Cidade do México prova que poderia ser diferente.

Marcio Oliveira

11 de outubro de 2012 às 07h58

Sugiro que este blog e outros verifiquem as condições de Guarulhos que mesmo tendo o maior aeroporto da América Latina ainda não tem um transporte publico de massa, seja metrô ou trem que ligue o Aeroporto a cidade de São Paulo, o aeroporto foi inaugurado em 1985 e até hoje não temos um trem ou metrô que faça a ligação, já são 27 anos e é claro que independente do aeroporto a população que ultrapassa 1 milhão tem direito a este tipo de transporte, fazemos uma alusão a tão sonhada Arena Corinthians depois de 102 anos já tem 60% de sua construção pronta, será que tremos que esperar também 102 anos para ter o metrô ou o trem no aeroporto de Guarulhos ?

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Regenste

11 de outubro de 2012 às 07h27

Mais importante que tudo e não mencionado na matéria:

Há um atraso de mais de um ano na troca do software de gerenciamento do fluxo de trens e das vias.

De um sistema de software e hardware, antigo e seguro que funciona, que é dominado e conhecido pelos funcionários do Metro, com muitas travas anti-acidentes (como p.ex. aquela usada pelo operador que impediu um acidente na linha vermelha há menos de um ano atrás), está-se tentando fazer a transição para um sistema que está sendo pago pelo Metro e desenvolvido por uma empresa francesa (creio que a Alstom) com características não totalmente conhecidas e não validadas pelo CCO (Centro de Controle de Operações).

Parte dos problemas e atrasos se devem a testes em curso.

Agrava a situação a existência de 2 cabeças o velho e bom CCO e o novo e desconhecido Centro de Controle da Linha Amarela… alguma hora este duplo comando vai dar m*.

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Marat

10 de outubro de 2012 às 23h46

Já faz muito tempo que o Metrô de SP está péssimo, especialmente em épocas de eleição (será que há desvio de verba?): Trens lotados, espera maior, quebras, falhas, lavagem cerebral com as massivas e chatas mensagens dos condutores, como se o gado (oops) povo fosse totalmente estúpido e ignorante.
Sabe o que os defensores do PSDB dizem? Que são sabotagens, que os metroviários são petistas e sabotam o Metrô… cabe ressaltar que nenhuma sabotagem é tão devastadora a SP quanto votar no PSDB!

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    Willian

    11 de outubro de 2012 às 11h39

    Não é que o metrô piore especificamente na época da eleições. É que, em razão da campanha eleitoral, aqueles que são contrários ao candidato da situação se movimentam para dar mais visibilidade aos problemas que realmente existem nele. Campanha eleitoral, entende?

    Marcos C. Campos

    11 de outubro de 2012 às 15h52

    mais visibilidade ? como ? Pro usuário ? Pro eleitor ?
    Essa é base da campanha eleitoral do PSDB em São Paulo: a culpa é do PT.

    flavio

    11 de outubro de 2012 às 16h46

    este willian é um dos cachorrinhos amestrados dos tucanos…ele só entra para puxar a sardinha para o psdb.

    Marat

    11 de outubro de 2012 às 20h41

    Prezado William, nunca pensei nisso, sabia? Então quer dizer que a piora do que já é péssimo é culpa da oposição? Vai me dizer que os arrastões também? a matança da polícia e contra policiais também? O péssimo sistema de ensino também?… Ora, faça-me o favor!

edson tadeu

10 de outubro de 2012 às 23h29

OLHA EU NAO DUVIDO NADA DE TUDO ISSO ESTAR ACONTECENDO PORQUE O PSDB ESTEJA DESVIANDO DINHEIRO PUBLICO PARA BOTAR NA CAMPANHA DE JOSE SERRA, E ATE DESVIOS DE DINHEIRO PARA PARAISOS FISCAIS, ESSE ALCKMIN NAO JOGA LIMPO DE JEITO NENHUM, ALIAS NEM ELE NEM O SERRA. vamos ver se em 2014 tomamos o governo do Estado e assim se faça uma auditoria para chamar esses larapios a responsabilidade.

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