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Wallerstein: Americanos cansados da guerra?


07/10/2011 - 21h46

Cansaço da guerra nos Estados Unidos?

As mais recentes sondagens nos Estados Unidos mostram oposição à permanência no Afeganistão. Os analistas estão a falar de “cansaço da guerra”, já que é difícil afirmar que os EUA tenham sido vitoriosos nalgum dos três conflitos em que está envolvido.

por  Immanuel Wallerstein, no Esquerda.Net

Os Estados Unidos estão actualmente envolvidos em três guerras no Médio Oriente – no Afeganistão, no Iraque, e agora na Líbia. Washington tem bases por todo o mundo, em mais de 150 países. Tem actualmente relações tensas com a Coreia Norte e com o Irão, e nunca excluiu uma acção militar. A guerra no Afeganistão, quando começou, em 2002, tinha um apoio muito forte da opinião pública dos EUA e também um grande apoio noutros países. Quando começou, em 2003, a guerra do Iraque teve quase o mesmo apoio da opinião pública dos Estados Unidos, mas muito menos noutros países. Agora, na Líbia, os Estados Unidos estão a meio caminho. Menos de metade do público dos EUA apoia a intervenção, e há muito mais oposição no resto do mundo.

As mais recentes sondagens nos Estados Unidos mostram oposição não só à operação líbia mas também à permanência no Afeganistão. Os analistas estão a falar de “cansaço da guerra”, já que é difícil afirmar que os Estados Unidos tenham sido vitoriosos nalgum desses conflitos. O conflito líbio está a caminho de um longo pântano. No Afeganistão, todo o mundo está a tentar imaginar uma solução política, que teria de envolver a entrada dos Taliban no governo e, talvez mesmo a curto prazo, assumindo a totalidade do poder. No Iraque, os Estados Unidos têm prevista a retirada das suas tropas no dia 31 de Dezembro. Ofereceram-se para deixar mais tempo 20 mil soldados, desde que o governo iraquiano o solicite, e o faça muito em breve. O primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki poderia ser tentado a aceitar, mas os sadristas disseram-lhe que, se o fizer, vão retirar-lhe o apoio e o seu governo cairá.

O mais interessante, contudo, é o que provavelmente vai acontecer no próximo ano na política interna de Estados Unidos, à medida que se aproximar a eleição presidencial. Desde 1945, o Partido Republicano sempre se apresentou na campanha como o partido que apoia fortemente os militares e acusou o Partido Democrático de ser fraco. Os democratas sempre reagiam procurando provar que não foram fracos e que na prática não houve grande diferença na política real que foi posta em prática, qualquer que fosse o partido a ocupar a Presidência. De facto, as maiores guerras – a da Coreia e a do Vietname – foram ambas começadas sob presidentes democratas. O Partido Democrata sempre teve um grupo, considerado a sua ala esquerda, crítico em relação a estas guerras, e este grupo continua a existir e a protestar. Mas, entre os políticos eleitos, esses democratas sempre foram uma minoria, que era praticamente ignorada.

O Partido Republicano era mais unido em torno de um programa de constante apoio aos militares e às guerras. Raros foram os políticos republicanos que mostraram uma visão diferente. A origem destes últimos é a ala libertária do partido, e a pessoa mais importante a defender estas opiniões foi o senador Ron Paul do Texas. Ele foi também um dos poucos políticos que disseram que o apoio ilimitado dos Estados Unidos a Israel é uma má ideia.

Eis onde estamos, neste momento, no que diz respeito à corrida à presidência. Barack Obama será o candidato democrata. Ninguém o desafia dentro do partido. O cenário republicano é bem diferente. Há dez a doze candidatos à nomeação, e não há um favorito claro. A corrida está bastante aberta.

O que isto significa para a política externa? Ron Paul está a tentar conseguir a nomeação. Em 2008, ele não tinha quase nenhum apoio. Agora, a campanha está a correr melhor. Em parte por causa das suas posições fortes quanto à política fiscal, mas as suas opiniões quanto à guerra estão a atrair a atenção. Além do mais, um novo candidato entrou na arena. Trata-se de Gary Johnson, o antigo governador republicano do Novo México. Também libertário, ele é mais forte ainda nas questões da guerra do que Paul. Johnson pede a retirada total e imediata do Afeganistão, do Iraque e da Líbia.

Considerando que o apoio aos vários candidatos potenciais está muito espalhado, haverá indubitavelmente programas de televisão de debate entre os candidatos republicanos. Se Johnson fizer da questão da guerra a sua grande bandeira de campanha, vai garantir que todos os candidatos republicanos terão de se dirigir a ele.

Uma vez que isto aconteça, vamos descobrir que os chamados republicanos do Tea Party estão profundamente divididos em relação ao envolvimento na guerra. Subitamente, todos os Estados Unidos estarão a discutir esta questão. Barack Obama descobrirá que a posição centrista que procurou manter se deslocou subitamente para a esquerda. Para permanecer centrista, ele também terá de ir à esquerda.

Chegaremos a um marco decisivo da política dos Estados Unidos. A ideia de que as tropas devem voltar para casa vai aparecer como uma séria possibilidade. Alguns espumarão de raiva porque os Estados Unidos estarão assim a demonstrar fraqueza. E de certa forma é verdade. É parte do declínio dos Estados Unidos. Os políticos dos Estados Unidos terão de recordar que para travar guerras é preciso um grande apoio da opinião pública. E nesta combinação de pressões geopolíticas e económicas que todos sofrem, o cansaço da guerra é um factor muito importante de hoje em diante.

Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net

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15 comentários

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Carlos Cruz

09 de outubro de 2011 às 19h23

Se espremer os EEUUAA só sai sangue…(de inocentes!). Uma nação construida atraves de guerra, racismo e ódio a outros povos. O Mundo mudou e eles não.

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Jorge Nunes

08 de outubro de 2011 às 23h01

Acho impressionante a cara de pau do republicanos.

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Pedro Luiz Paredes

08 de outubro de 2011 às 10h58

Se eles tivessem cansados da guerra não teriam feito a festa dos republicanos nas eleições intermediárias.
EUA – a civilização mais doente de todos os tempos.

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    Marcio H Silva

    08 de outubro de 2011 às 22h11

    A mais Perigosa de todos os tempos.

Julio Silveira

08 de outubro de 2011 às 10h27

O povo americano, que culturalmente cultuam armas como deusas, estão cansados é de perder grana.
Para eles viver é um eterno duelo, e gostam disso, faz parte da sua cultura, se pudessem ganhar alguma recompensa. Se perdem a recompensa e ainda correrem o risco de serem enforcados na luta, é o pior dos mundos.

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    simas

    09 de outubro de 2011 às 04h52

    … qdo não haviam guerras, eles se exercitavam exterminado índios. E cultivavam, tbm, o bang-bang. Ou não foram, mtos, os filmes, a literatura?… Se acham lindos, fortes, donos da verdade e inteligentes. A sua democracia é propagandeada, assim, no tal "american way of life", ou do nada, heim? A II Grde Guerra foi a oportunidade surgida, pra se lançar à conquista do mundo, criando, até, esses esboços de um novo "reich". Não defendem, incondicionalmente, Israel; são os mantenedores, junto com a Inglaterra, dessa cabeça de ponte, num lugar, último, em q os judeus poderiam se estabelecer; pois, de lá não foram expulsos; ou de lá não dispersaram?… Poxa! Pq não criaram um estado judeu no Arizona, por exemplo? Não! Tinha de ser por lá, e garantir a presença americana; essa, sim, incondicional… Enqto dissiminavam a maneira de viver, americana, com a presença e a inteligência, judaica, assumia a dianteira tecnológica do mundo; deslanchava com sua indústria poderosíssima de guerra… Nota, q com o controle da tecnologia, desenvolveu outra guerra… a das estrelas e derrotou, fragorosamente, o império russo e o comunismo, internacional. E, antes, ajudou a reconstruir a Europa; só pra ganhar uma linha de defesa, diante do comunismo… Loucura, tudo isso? Francamente, a elite dominante, americana, percorreu todos os caminhos pra chegar onde está, sem poupar esforços – acho, até, q colocou toda sua esquadra no Pacífico, a esperar pelos japoneses e, assim, conseguir motivar o povo pra um esforço de guerra, ímpar.,.. Ou um governo q invade o Iraque, da maneira como fez, não é capaz de tudo?… E em se perdendo, agora; seria uma ilusão acreditar na decadência. É a sociedade q tem todos os fundamentos, modelos pra sair dessa, ao meio de um mundo, em baixa, completo esvaziamento. Ou não foi sempre, isso, por q se propugnou?,,, Liderar o mundo, sozinhos. Não escondem.

Marcelo de Matos

08 de outubro de 2011 às 09h25

Não entendo (entre outras coisas) de política internacional, mas, como hoje é sábado, farei uma pequena lucubração ou sabatina do que aprendi nesses anos todos. Os grandes impérios do mundo sempre tiveram algum território ou país que não conseguiram dominar. A Rússia foi um deles e derrotou Napoleão, repetindo a façanha, nos tempos da URSS, com Hitler. O Afeganistão é outro: a URSS não conseguiu dominá-lo, fato que se repete agora com os EUA. Quando a URSS invadiu o Afeganistão eu trabalhava em uma empresa em São Paulo e um fato ficou na minha memória. Um colega entrou na minha sala, nervoso, com a revista Veja na mão – Você viu que sacanagem? A URSS invadiu o pequeno Afeganistão! Passados anos, extinta a URSS, a Rússia oferece seu território para manobras das tropas ianques que invadiriam o mesmo Afeganistão. A Veja não viu sacanagem nisso. O território russo facilitaria as coisas para os ianques, mas, os russos, e nós outros, já sabíamos que eles não teriam êxito.

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pall kunkanen

08 de outubro de 2011 às 01h15

Ron já foi candidato a presidente pelo partido libertário em 1988, como podemos ver aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Libert%C3%A1

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Marat

07 de outubro de 2011 às 23h39

De que adianta os poucos estadunidense inteligentes e pacifistas desejarem parar suas guerras, se quem manda naquele hospício são os mercadores da guerra, os traficantes, os bandidos, os corruptores? Eles sempre endossam esse discursinho dos inocentes úteis, para que os seus empregados nas redes de TVs pelo mundo tentem enganar os incautos com essas balelas. Cada enganadinha na TV, e pronto: podem despejar mais umas 20 toneladas de bombas em bairros civis. As mortes não são divulgadas, e assim vão ganhando tempo para roubar mais e mais!

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mukk0

07 de outubro de 2011 às 23h37

Eles só estão contra as guerras por que começou a afetar seus queridos bolsos. Se eles não estivessem com o pé na jaca economicamente como estão, eles estariam apoiando até atacar o Irã e a China por quaisquer motivos fictícios que lhes convierem. Há pouco mais de 100 anos eles estão atacando outras nações soberanas com desculpas humanitárias e não apresentaram nenhum arrependimento até agora.

Eu nunca consegui me recordar um período longo em que eles ficaram sem atacar um outro país, seja economicamente, politicamente ou fisicamente. E eu também nunca percebi do povo estadunidense alguma atitude de que toda esta hostilidade seja uma coisa anormal.

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Polengo

07 de outubro de 2011 às 22h56

Ué, eles não se fizeram em cima das guerras?
Nada mais lógico que se acabem nelas também.

Responder

    Marat

    08 de outubro de 2011 às 22h30

    Caro Polengo, tenho nojo daquela sociedade drogada e decadente, que sempre encontra em suas sujas guerras, um elemento econômico para alimentar sua sórdida economia. Ah, se um árabe joga um avião em suas reservas de petróleo…

dukrai

07 de outubro de 2011 às 22h03

vou esquecer que fiquei acordado de madrugada acompanhando a apuração da eleição que elegeu o Obama, transferir o meu título para o México (não confundir com velho México), adotar o slogan do Tiririca, "pior que tá não fica" e votar no Gary Johnson.

Responder

    Marat

    08 de outubro de 2011 às 22h33

    Essa foi Dukrai… – rsrsrs – mas você, eu, e todo o mundo sabemos que o Obama é um estadunidense, e, como tal, sempre se curvará à lógica do destino manifesto. Vejo pouquíssima diferença entre republicanos e "democratas": uns são um pouco mais, outros um pouco menos, assassinos e ladrões. Enquanto isso, fazem questão de manipular a impren$$$a de modo a dizer que a China é que é o perigo… cada mentirinha contra a China, e mais uma tonelada de bombas em bairros civis da Líbia, do Afeganistão, do Iraque, e de quem ousar se levantar contra esses bandidos!

    dukrai

    09 de outubro de 2011 às 22h52

    é, véi, se enganei-me com as quatro patas nesse caso, você, eu e todo mundo rs


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