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Márcia Denser: A crônica não-anunciada do colapso neoliberal


16/09/2011 - 13h46

por Márcia Denser, em O Congresso em Foco

O colapso do neoliberalismo tornou-se crônico e, só não se anuncia oficialmente, devido à oposição da mídia hegemônica que detém o monopólio da negação do óbvio, dificultando a saída da crise e tornando o debate uma farsa, um jogo de cartas marcadas. Esta é a posição do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos debatedores que, esta semana em Sampa, discutiram no Seminário “Neoliberalismo, um colapso inconcluso”, promovido pela Carta Maior e PUC-S.Paulo, e que contou com a participação ainda de Emir Sader (Uerj), Samuel Pinheiro Guimarães (Itamaraty), Ignacy Sachs (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais – Paris), Ladislau Dowbor (PUC-SP), entre outros.

E Belluzzo vai mais longe ao afirmar que o consenso em torno de certas ideias de dominância financeira – idéias que estão na origem da atual crise – não seria possível sem sua difusão massiva pela mídia. Não se trata de uma teoria conspiratória. Isso se deu através de um processo social em que as camadas dominantes impõem as idéias dominantes (como eu mesma já afirmei em várias colunas).

Ele adverte que não se pode perder a dimensão da luta social, como ela se desenvolve e como maneja os símbolos, os significados, as palavras. Tome-se como exemplo da queda da taxa de juros brasileira: isso produziu espanto em certos jornalistas, em outros, indignação. As mais escandalizadas foram aquelas pessoas que sempre ouviram o contrário, “que era um perigo, que seria a ruína”. O fato é que as ideias têm uma força material enorme  – a força material das idéias dominantes.

O sociólogo Norberto Elias afirmava – e com razão – que é muito difícil desconstruir um consenso como este, daí o papel crucial da luta social e política. Ou alguém ainda acha que a crise vai se resolver automaticamente por si própria? Não há tal magia. É preciso formular alternativas. A solução dita ‘normal’ é previsível, segundo o economista americano Doug Henwood, que assina a newsletter sintomaticamente chamada ‘Left Business Observer’.

Henwood foi encarregado de escrever sobre Wall Street, antes e depois da crise. É muito fácil, diz ele: Antes da crise, Wall Street era o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Depois da crise, Wall Street continua sendo o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Não é estranho? Como se Wall Street NÃO FOSSE o próprio centro do furacão!

Henwood comenta que um repórter que te entrevista sobre política monetária e ouve algo contrário a esses interesses aqui e ali, hesita em publicar, e se o faz, enche o texto de ressalvas. Afinal, esse jornalista – que não sabe pensar por si mesmo – foi condicionado durante anos a repetir sempre o mesmo mantra. A seguir a cartilha neoliberal como única fonte de pensamento (do Pensamento Único, claro).

Aliás, o neoliberalismo foi a ideologia mais bem sucedida da História Mundial, e por várias razões, sobretudo a partir do monopólio tecnológico – não é que seja boa ou dê certo, a não ser para os ricos; ao contrário, ideologicamente, é desastrosa, suicida e perversa, tanto para o homem como para o planeta.

Belluzzo conclui que o problema da mídia  no mundo inteiro é o monopólio das empresas que veiculam a visão dominante. Elas são a classe dominante. Nos anos 50 e 60 na Europa, por exemplo, havia uma mídia diversificada, que expressava posições políticas distintas, como ‘Avanti!’, ‘La Unità’. Havia debate político. Hoje não há debate: o que você tem é uma farsa!

Falando em farsa e pra não dizer que não falei dos onze anos do Onze de Setembro e sua Fajutíssima Gerra ao Terror – cruzes, fazem onze anos que a multiplicação de trouxas no mundo tem crescido de forma exponencial! – arremato com algumas conclusões de Slavoj Zizek (constantes em “Bem-Vindo ao Deserto do Real!”) que afirmava já em 2001: a verdadeira catástrofe político-ideológica do 11 de Setembro foi européia (confirmando a diversidade jornalística também européia aludida por Belluzzo) – o resultado do 11 de Setembro foi um fortalecimento sem precedentes da hegemonia americana em todos os aspectos. E a Europa sucumbiu à chantagem ianque: “O que está em jogo agora não são diferentes opções econômicas ou políticas, mas nossa própria sobrevivência – na guerra ao terrorismo, ou vocês estão conosco ou estão contra nós”.

Esta é a verdade da globalização: pós-Berlim, a construção de novos muros isolando os europeus prósperos do fluxo de imigrantes. Tem-se a tentação de ressuscitar aqui a velha oposição “humanista” marxista entre “relações entre coisas” e “relações entre pessoas”: na celebrada livre circulação aberta pelo capitalismo global, são as “coisas” (mercadorias), é o dinheiro que circula livremente, ao passo que a circulação de “pessoas” é cada vez mais restrita.

“O que “eles” (norte- americanos e europeus adesistas) não contavam era com a Crise de 2008 e com a ainda pior que vem por aí. E respondendo a uma colunista (cujo nome realmente me escapa, porque não dou cartaz pra trouxa) aqui do Congresso em Foco: Banco Central independente “de quem”, cara pálida? BC independente do governo do próprio país – isto é, de qualquer governo de qualquer país –, ergo sob a égide dos EUA. Me poupe. Tás igualzinha àquele “jornalista-autista” retro referido por Doug Henwood da ‘Left Business Observer’. Pra seu governo, a única liberdade, seja de país,seja pessoal, é a econômica (os americanos que o digam!). Desatrelar (e desregular) o BC das leis federais é entregar o país novamente ao bom e velho Consenso de Washington!

Leia também:

Maria da Conceição Tavares: Vivendo a treva, nas mãos dos ultra-liberais

Wallerstein: Sobre a decadência dos EUA

Mayana Zatz: É ético selecionar embriões de um determinado sexo?

Alipio Freire: “Sorria, você está sendo filmado”

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20 comentários

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Mário SF Alves

18 de setembro de 2011 às 11h20

Respondendo ao Bonifa:
Sim, Bonifa, pode até ser que os caras não saibam pensar por si mesmos; entretanto, mais do que pensar por si próprios, há o condicionamento de corações e mentes por padrões/normas/ideários dos quais não se pode fugir. E se o fazem, estão automaticamente fora do acordo/arranjo/esquema ou mercado. Afinal, pensamento único é isso mesmo; é puro mantra feito sob medida para exorcisar os contrários. E, em tempos atuais, com todo o poder de fogo da informática, torna-se a forma mais velada e dissimulada de autoritarismo até hoje inventada.

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Martin

17 de setembro de 2011 às 23h52

Muito bom!! …Mas a "palhaçada psicopata" do 11 de setembro de 2001 recém "comemorou" seus 10 anos. E creio que as gerações futuras terão as imagens dessa data como ilustrações no epitáfio do neoliberalismo.

Att.
Martin

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Marinho

17 de setembro de 2011 às 23h28

Troca o Cd Eunãosabia. O que você tem já está arranhado.

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Roberto Locatelli

17 de setembro de 2011 às 18h39

O fato é que nenhum sistema político ou econômico é eterno. Aliás, todos já nascem contendo em si mesmos a semente que os destruirá. Assim é desde o início dos tempos. Não será diferente com o capitalismo, por mais que os neoliberais sonhem em manter o sistema eternamente.

Francis Fukuyama, assessor de Bush, chegou a escrever, anos atrás, que estávamos vivendo "o fim da História", pois nada mais mudaria na civilização humana. Haviámos chegado ao ápice da evolução com o neoliberalismo. Mas, como vimos, a História tem engrenagens gigantes que pulverizam qualquer pedra que se colocar entre elas, na tentativa de parar o tempo.

O capitalismo terminará, de uma forma ou de outra. Podemos substitui-lo por um sistema mais avançado. Ou podemos assistir sua degeneração em barbárie.

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Augusto

17 de setembro de 2011 às 16h56

Com relação a tal colunista, acho que não adianta nem perder tempo, porque é óbvio que essa pessoa, assim como muitas outras, é remunerada pelos interessados na independência do BC. Aliás, muita gente faz isto: vai par aos EUA consegue um título PhD (lá pagando consegue-se qualquer coisa), volta para o Brasil e se oferece a esses grupos para escrever o que quiserem, em troca, oferece a sua suposta "credibilidade" acadêmica. Tá cheio de gente no Brasil que vive disso. O que eles escrevem não vale nada. E todo mundo sabe, mas a coisa toda funciona porque a mídia é o principal instrumento a serviço dos rentistas e dos bancos. E a mídia se encarrega de vocalizar o que esse povo escreve ou fala. Vejam o exemplo da Leitão. Trata-se de um ignorante naquilo que ela mesma tenta explicar: economia. Mas e daí? Para aquilo que a Globo quer, ela serve.

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William

17 de setembro de 2011 às 13h45

Sugestão para corrigir o texto.
Estamos em 2011, então faz 10 anos do episódio ocorrido nos EUA em 11 de setembro de 2001, e não "onze anos" como consta, neste momento (17/09/2011), no texto postado.

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Pedro

17 de setembro de 2011 às 11h28

De tudo se conclui que o capitalismo está se desintegrando, e como não poderia ser diferente, a sua mídia com ele. A forma assalariada do trabalho já não está dando conta do atendimento das necessidades que surgiram nos últimos tempos. Ou alguém acha que o nazismo e fascismo são invenções ou criações de mentes enlouquecidas? Podem até ser, mas enlouquecidas pela crise geral da civilização capitalista. Mudanças sociais é o que se impõe.

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EUNAOSABIA

17 de setembro de 2011 às 10h02

Pedro Brasileiro

Não diga isso a esses auto enganados, eles não suportam 30 segundos de verdade, eles pensam que o socialismo, bem como seu irmão gêmeo o comunismo genocida ainda existem.

Saca só um dos """debatedores"""….Emir Sader…. dá pra levar a sério isso???

Leva o Leandro Damião….como debatedor econômico seria melhor que esses tipos, são uns despropositados mesmo… essa turma aí sonha com a reconstrução do muro de Berlin, são os estalinistas neanderthais que vivem e curtem o bem bom do capitalismo liberal, mas que para efeito de manutenção de suas aparências, tiram uma onda de "anti imperialistas, anti capitalistas""…. e sabe-se lá mais o quê???

Pergunta pra essa gente onde eles passam suas férias…. se na Disney ou na Sibéria??? se em Manhatan ou numa mina de carvão da Coréia do Norte??? quem sabe se bronzeam num canavial cubano…

Não passam de demagogos, gente que mente acima de tudo para si mesmo.

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    Leider_Lincoln

    17 de setembro de 2011 às 15h49

    Tragam diazepan, lexotan e haloperidol para o cidadão, gente: o surto desta vez está mais intenso!

    Julio Silveira

    17 de setembro de 2011 às 17h04

    Pessoal, as vezes acho que pego pesado nas criticas mas o faço por que sempre estive politicamente ao lado dos atuais representantes deste governo e não gosto de ver desvios de rota direcionada para essa direita que o nosso Robo representante se alinha, sequer um milimetro.
    Portanto se alguem perceber que eu cheguei perto de alguma coisa assim com minhas criticas, eu autorizo, me ponham numa camisa de força. Obrigado.

    Marta

    17 de setembro de 2011 às 19h05

    Viche!! O cara é a favor da crise. Além de louco ésuicida. Vade retro.

    Cesar Constantino

    17 de setembro de 2011 às 22h52

    O problema nem é o Pedro Brasileiro ser a favor da crise, mas o completo desconheciemnto que ele possui sobre o que ele fala! Percebe-se que esta cara nunca leu nem um parágrafo de Adam Smith, Stuart Mill, Gramsci, Marx, Keynes. Ele faz juízo de valor sobre o comportamento dos outros, mas não consegue analisar absolutamente nada! Parcee até invejinha ou frustração!

    Polengo

    18 de setembro de 2011 às 01h42

    É, não dá pra levar o Emir Sader a sério.
    Basta levar você a sério.

    Mas você nem sabia…

Leonardo

17 de setembro de 2011 às 09h54

"O fato é que as idéias têm uma força enorme" – Esse trecho do texto é sucinto e brilhante, expressa bem o peso da ideologia – difundido pelos veículos de mídia – as tentativas incessantes de mascarar o desgaste da escola neoliberal e dos governos que com ela se amancebaram.
"o monopólio da negação do óbvio" tem muita força, mas não há farsa que se sustente por muito tempo.
Se houve a decadência do stalisnismo, da mesma forma hoje se vê a decadência dos ideais ditos ocidentais democráticos, pois a existência de Guantánamo, a guerra contra o terror, o USA Patrioty Act, a crise financeira de 2008 e que vem até hoje causando estragos, tudo isso assinala que o love entre democracia e capitalismo já se transformou num folhetim digno de novela para o Aguinaldo Silva.

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Mario SF Alves

16 de setembro de 2011 às 20h40

Azenha,
Que texto, meu caro. Valeu cada segundo de leitura.
Abs., Mario

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Fabio_Passos

16 de setembro de 2011 às 20h30

Achei sensacional esta de que a mídia detém "o monopólio da negação do óbvio".
É assim mesmo. Mesmo diante da ruína do neoliberalismo ainda vemos os pascácios da globo, veja, fsp e estadão repetindo os mantras da idiotia neoliberal.

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    EUNAOSABIA

    16 de setembro de 2011 às 22h07

    Sei.

    Pedro Brasileiro

    17 de setembro de 2011 às 00h02

    Colapso do Neoliberalismo? Ta louco? O liberalismo nunca vai morrer, o que morreu o socialismo.

Bonifa

16 de setembro de 2011 às 18h38

"Henwood comenta que um repórter que te entrevista sobre política monetária e ouve algo contrário a esses interesses aqui e ali, hesita em publicar, e se o faz, enche o texto de ressalvas. Afinal, esse jornalista – que não sabe pensar por si mesmo – foi condicionado durante anos a repetir sempre o mesmo mantra. A seguir a cartilha neoliberal como única fonte de pensamento (do Pensamento Único, claro)." Este é o procedimento jornalístico que bem caracteriza a ditadura midiática no Brasil. Ela vem do salve-se quem puder oriundo do próprio Neoliberalismo. A justificativa do profissional, da defesa do seu emprego a todo custo. E a propriedade ditatorial neoliberal-doutrinária de todos os meios de comunicação, a qual pode jogar na rua da amargura, num piscar de olhos, até mesmo o melhor profissional, desde que se recuse a rezar pela Doutrina.

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16 de setembro de 2011 às 17h54

O discreto charme da burguesia :
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/senhora-…

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