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Moniz Bandeira: “Sociedade norte-americana está dividida e desorientada”


17/11/2010 - 13h54

por Luiz Alberto Moniz Bandeira, em La Onda Digital, via Vermelho

As eleições parlamentares americanas ocorridas no dia 3 de novembro deixaram o presidente Barack Obama e o Partido Democrata em uma situação extremamente difícil ao perderem a maioria no Congresso para os republicanos.

Em entrevista a revista uruguaia La Onda Digital, o cientista político e analista internacional, Luiz Alberto Moniz Bandeira, analisa as perspectivas de Obama após esse fracasso. O intelectual brasileiro também fala sobre a crise econômica global na Europa e na América Latina.

Moniz Bandeira, 74 anos, nasceu na Bahia e atuou por vários anos como jornalista e ativista político. Formado em Direito e doutor em Ciências Políticas pela USP, é professor universitário no Brasil e no exterior, especializado em política internacional.

La Onda Digital: Afirma-se que o recente derrota dos democratas nas eleições legislativas norte-americanas deve-se ao fracasso das políticas econômicas de Obama. Você acredita que Obama já está politicamente acabado?

Moniz Bandeira: A derrota eleitoral do presidente Barack Obama era perfeitamente previsível. Sua política, em geral, era muito inconsistente. Não conseguiu – ainda – realizar metade das suas promessas de campanha. Conseguiu aprovar somente a reforma do sistema de segurança social e da regulação do sistema financeiro, o que desagradou os republicanos.

Mas por outro lado, intensificou a guerra no Afeganistão, a retirada das tropas do Iraque foi parcial, ou melhor, uma piada, uma vez que os Estados Unidos continuam a ocupar o país com 50 mil soldados. Ninguém pode dizer que está politicamente acabado. Na política você não pode dizer isso. Dependerá das circunstâncias.

La Onda Digital: O que vai acontecer com os EUA?

Moniz Bandeira: A crise é uma crise global profunda, mas o epicentro está localizado nos Estados Unidos. Os próximos anos serão muito difíceis, tanto economica e financeiramente quanto social e politicamente. A sociedade está profundamente dividida e confusa. A crise é, talvez, muito pior do que a desencadeada pelo crash de 1929. Agora, com a desvalorização do dólar, acontece algo semelhante a crise do início do anos 1930.

Nos Estados Unidos, milhões de investidores empobreceram e milhares de bancos e outras instituições financeira tornaram-se insolventes. O grande grupo bancário J. P. Morgan, com seus vastos recursos, foi afetado, os créditos esgotaram-se e os Estados Unidos não foram capazes de financiar o pagamento de dívidas da Alemanha.

O crack de 29 de outubro de 1929, em Nova York, difundiu-se e afetou profundamente os países europeus, evidenciando o profundo entrelaçamento das suas economias no sistema capitalista mundial.

França, Inglaterra e todos os países da Commonwealth (exceto o Canadá), a Irlanda, os países escandinavos, a Austrália, Nova Zelândia, Iraque, Portugal, Tailândia e alguns países sul-americanos (Brasil, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela), acompanhados Grã-Bretanha, abandonaram o padrão ouro em 1931.

A desvalorização do dólar está à beira de deflagrar uma guerra cambial, que abrange, na realidade, a guerra comercial, como ocorreu em 1930. E o que pode acontecer nos Estados Unidos também é imprevisível. A situação é muito repentina, em rápido processo de mutação.

A injeção de 600 bilhões de dólares, feita pela FED para fornecer liquidez suficiente para o mercado e dar ao país maior competitividade no mercado internacional não vai resolver os problemas dos EUA. A depreciação do dólar não fará necessariamente a economia dos EUA crescer. Irá ao certame do Mercosul, terão que aumentar as tarifas aduaneiras para impedir o dumping que os EUA querem promover no mercado mundial. A guerra comercial, como resultado da guerra cambial, será um desastre.

La Onda Digital: A baixa presença dos cidadãos nas urnas mostra que os jovens e os afrodescendentes não votaram em massa nesta ocasião, como quando Obama foi eleito presidente. Eles estão desapontados com Obama?

Moniz Bandeira: Sim, os jovens e os afrodescendentes estão obviamente desapontados com o tímidas reformas do presidente Barack Obama, que não se afastou, de modo geral, da linha política do ex-presidente George W. Bush. Não houve mudança significativa em sua política internacional. Apesar de algumas pálidas iniciativas em relação à Cuba, manteve a política de Bush em relação a Israel e a questão palestina. Ele recuou e aceitou o golpe militar em Honduras.

E também intensificou operações no Afeganistão, onde durante os dois anos de seu governo (2009-2010), 741 soldados norte-americanos morreram, mais do que nos oito anos anteriores, desde que o presidente George W. Bush começou a guerra em 2001, e cuja soma foi de 620 vítimas. Até agora, para 2010, o total de soldados americanos mortos no Afeganistão é de cerca de 1371 e a guerra continua.

La Onda Digital: Nos Estados Unidos e na Europa, a crise econômica está fazendo a extrema direita ganhar posições e avançar eleitoralmente. Os setores progressistas não têm um projeto viável para sair da crise da economia?

Moniz Bandeira: A crise econômica está levando a direita, mas não a direita radical, a ganhar posições eleitorais, embora alguns governos tenham de fazer certas concessões em certos casos, tais como a imigração. Mas o avanço da direita é devido ao fato de que também os partidos que seriam considerados  progressistas e de esquerda não oferecem nenhuma solução para os problemas da atualidade.

A crise econômica ainda é muito grave e ainda não acabou, o que faz intensificar as lutas sociais em quase todos os países europeus. Mas a verdade é que os partidos de centro-direita e de centro-esquerda quase não se diferenciam e os partidos mais de esquerda, vivem no passado, historicamente ultrapassados, e suas propostas não são coerentes com as novas circunstâncias econômicas, sociais e políticas apresentados no século XXI.

A classe trabalhadora segue existindo, mas não é o mesma do tempo de Marx e Lênin. O desenvolvimento tecnológico tem mudado a estrutura do capitalismo e das próprias classes sociais.

La Onda Digital: O pensamento norte-americano é o pensamento único?

Moniz Bandeira: Eu não acho que o pensamento americano pode se tornar o pensamento único. A crise econômica e consequentemente social, irá produzir diferenças políticas e de maneiras de pensar. As circunstâncias em que os povos vivem são muito diferentes e não aceitarão o pensamento americano. E além disso, é necessário ter claro que os EUA estão em uma acentuada decadência, o que pode durar décadas ainda, mas é inevitável que mais cedo ou mais tarde o seu domínio imperial chegará ao fim.

La Onda Digital: Diz-se que os setores republicanos que agora ascendem ao Congresso buscarão uma reforma conservadora, o que significa via livre para as guerras no Irã e no Afeganistão e a promoção do livre mercado. Será que isso pode ser possível com Obama?

Moniz Bandeira: O Departamento de Defesa dos EUA empregava em outubro de 2009 um total de 193.674 de contractors (mercenários contratados por empresas privadas militares – Militares Empresas Privadas [PMCs]) – no Iraque e no Afeganistão, o número equivale ao de soldados regulares, de acordo com o serviço de pesquisa do Congresso.

No entanto, menos de 5% dos mercenários eram americanos e uma quantidade menor ainda, de iraquianos. Os restantes 88% vieram de outros países, tais como Fiji, Chile, Nepal e Nigéria. O que acontece é uma terceirização da guerra, a guerra como negócio para grandes empresas, mas mesmo assim, há um limite, porque a crise econômica e financeira não vai permitir que o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, o Pentágono, continue a gastar recursos para financiar companhias militares privadas.

Quanto à promoção do livre mercado, o governo dos EUA vai insistir apenas para expandir seus negócios e reduzir seus déficits comerciais permanentes. Contudo não sei se vai ter êxito completo, porque países como Brasil e Argentina e outros irão resistir. Se eles aceitassem, seria suicídio nacional, o fim das suas indústrias e, inclusive, de sua agricultura, porque a dos EUA é subsidiada.

La Onda Digital: Alguns vencedores na eleição dos EUA apoiaram o golpe em Honduras, mostraram-se hostis aos governos da Venezuela e da Bolívia, propõem militarizar a fronteira com o México e paralisar toda a abertura proposta a Cuba. Podemos esperar um novo período de confronto com a América do Sul?

Moniz Bandeira: Tensões na América do Sul tendem a se incendiar. E uma potência é mais perigosa quando está perdendo a sua hegemonia, como ocorre com os Estados Unidos, quando expande o seu poder, seu domínio em outras regiões.

La Onda Digital: Dada a recente vitória do de Dilma no Brasil e a morte de Kirchner na Argentina, podemos esperar mudanças no curso da integração sul-americana?

Moniz Bandeira: O triunfo de Dilma Rousseff no Brasil e a morte de Kirchner não vão produzir mudanças no processo de integração da América do Sul. A morte de Kirchner, infelizmente, é uma grande perda, mas acho que Cristina Kirchner vai conduzir o progresso com Dilma Rousseff.





9 comentários

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Pedro

18 de novembro de 2010 às 16h54

Acho que essa vitória dos republicanos é como a de Pirro: vai lhes servir para muito pouco. Para atos tresloucados, talvez seja necessário nos prepararmos para enfrentá-los. O capitalismo em crise não dará sustentação aos republicanos senão para os seus atos bélicos e de bandidos que são. Eles nem pensam mais em agir politicamente. É mais ou menos o que vimos aqui nas eleições: atos de desespero e ameaças de violência. A história nos é favorável. Não percamos a oportunidade de mostrar que um outro mundo é a única coisa possível.

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José Sabino

18 de novembro de 2010 às 14h58

Azenha,

a única coisa abundante nos EUA são dólares. Imensamente abundande. E sobre isso o articulista não mencionou uma palavra. O que falta agora, apenas, é se desenvolver uma tecnologia que permita que as cédulas de dólares se tornem comestíveis (edible, em inglês), para solucionar a falta de comida americana e de vários outros locais.

O pueril

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Eduardo Oliveira

18 de novembro de 2010 às 12h45

Quando o presidente norte-americano ( Obama) foi eleito, acredito que a maior parte dos brasileiros sorriu de alegria para a nova condução da sociedade norte americana, e a expectativa era que ele regeria às loucuras do anterior presidente. A política bélica continua crescente como busca frenética do equilíbrio econômico, expondo a sociedade norte americana a instabilidades de toda ordem e neuroses coletivas, alem de intolerâncias ao povo americano no mundo. A administração Obama tem que ter, alem da identidade a intuição. Sua administração não pode se contaminar com a insana administração anterior quando impôs democracias e subestimou historias, tradições valores e costumes.Aquela administração Buch entra no ralo da historia assim como Nero para Roma. O Obama pode muito mais e o tempo do jogo administrativo ainda lhe é favorável.
Eduardo

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ana cruz

18 de novembro de 2010 às 07h20

A assombrosa cifra de 34 milhões de pessoas que foram classificadas como portadoras de "insegurança alimentar"

Que a direita dos USA para seu bem não repita a rainha Maria Antonieta com a frase "S'ils n'ont plus de pain, qu'ils mangent de la brioche" ("Se não têm pão, que comam brioches").

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José Manoel

17 de novembro de 2010 às 23h10

Azenha: Bem feito!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eses merecem mais castigo pela frente por tudo que fizeram em nível global!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ainda quero vê-los falidos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Bonifa

17 de novembro de 2010 às 22h55

A nosso ver, Moniz Bandeira não está vacinado contra um pecado que a esquerda mais afoita comete com tranquilidade no Brasil e também nos EUA. Lá, evidentemente, não sendo caracterizado a priori sequer como pecado de esquerda. Mas o pecado é o mesmo. Todos cometem o mesmo pecado. Julgam que o camarada quando chega lá em cima, pega nas mãos o poder supremo e é capaz, imediatamente, de transformar tudo o que existe. Superestimam o pode de um presidente. Não podemos esquecer de que nem um mísero celular queriam deixar que Obama tivesse, quando ele assumiu. E não podia ler jornais, a não ser as notícias selecionadas e recortadas por uma "equipe" da Casa Branca. O indivíduo tem que ser como o Lula, para transpor um terreno minado e cheio de armadilhas, conseguindo o que o Lula conseguiu. Agora imagine o terreno ser completamente bloqueado por um milhão de armadilhas muito maiores do que as que Lula encontrou. Assim é o panorama que se oferece a Obama nos EUA. O pior obstáculo nem está no Congresso americano. Um milhão de monstros cabeludos se concentram por todo o tecido social, enfiando suas garras por toda parte, desde a grande imprensa até os jornais escolares. Não é que Obama seja fraco ou equivocado. Obama precisa desesperadamente do socorro proveniente da própria sociedade americana, ou estará completamente dominado pelos monstros.

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Giovani Montagner

17 de novembro de 2010 às 20h44

a eleição para presidente dos estados unidos já começou, a sarah palin foi candidata a vice do john maccain e essa semana estreou um programa de tv sobre ela (http://tlc.discovery.com/tv/sarah-palin-alaska/). depois dessa última eleição e das atitudes do obama, não duvido de nada.

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iamoraes

17 de novembro de 2010 às 19h51

Azenha, pelamôdideus leia isso:
http://www.huffingtonpost.com/anis-shivani/the-pr…

Requer mais talento em traducao do que eu tenho. Essa eh a doutrina dos EUA hoje.

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ZePovinho

17 de novembro de 2010 às 19h40

O Paraíso de onde jorra leite e mel está passando por momentâneas dificuldades.Como foi o site Cubadebate que divulgou a notícia,naturalmente que se trata de mais uma mentira esquerdista para manchar o nome do Paraíso que fica acima do Rio Grande:
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia…

Cinquenta milhões de estadunidenses passaram fome em 2009

Informação oficial divulgada nesta semana revela que cerca de 15% dos lares dos Estados Unidos experimentaram uma escassez de alimentos em algum momento, devido à pobreza e à falta de recursos financeiros.

Isso é equivalente a cerca de 17 milhões de residências, ou aproximadamente 50 milhões de pessoas, indica um relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA na sigla em inglês) na segunda-feira (15).

A cifra recorde inclui cerca de 17 milhões de crianças.

Os resultados também revelaram que cerca de um quinto da população estadunidense participou de pelo menos um programa federal de assistência alimentar em 2009.

A assombrosa cifra de 34 milhões de pessoas que foram classificadas como portadoras de "insegurança alimentar" conseguiu obter os benefícios do Programa de Assistência de Nutrição Suplementar (SNAP), conhecido antes como cupom de alimentos (Stamp food) na média mensal do ano passado.

Cerca de seis milhões de lares também relataram ter recebido alimentos de emergência de um serviço de armazenagem de alimentos gratuitos. A cifra duplicou desde 2007.

Segundo o USDA, os mais afetados pela fome são os negros e os latinos.

A segurança alimentar diminuiu de maneira constante nos Estados Unidos desde que a recessão econômica começou oficialmente em fins de 2008

Fonte: Cubadebate

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