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Emir Sader: A crise da hegemonia no Oriente Médio


03/02/2011 - 15h41

Blog do Emir Sader

A hegemonia do capitalismo no mundo se assentou na industrialização, que promoveu sua superioridade econômica, com todos os seus outros desdobramentos – tecnológicos, culturais, políticos. Esse processo se apoiou centralmente no petróleo como fonte energética, sem que a Europa ocidental – seu núcleo original – pudesse contar com petróleo.

A hegemonia norte-americana consolidou o estilo de consumo da civilização do automóvel – a mercadoria por excelente do capitalismo norte-americano –, que acentuou o papel do consumo de petróleo. Embora os EUA tivessem petróleo, seu gasto excessivo fez com que suas fontes se aproximassem cada vez mais do esgotamento, além de que o montante que sempre precisaram os fez se somarem aos países que dependem da importação do petróleo.

Estava assim inscrito no estilo de vida ocidental, a dominação dos países árabes, para dispor de petróleo a preços baratos. Esse esquema encontrou seu primeiro grande obstáculo com o surgimento de regimes nacionalistas, em países fundamentais na região, como o Egito e o Irã. Os problemas convergiram na crise de 1973, em que se uniram o aumento do preço do petróleo com a reivindicação do Estado palestino e a oposição dos governos árabes unidos a Israel.

Diante da crise, os EUA passaram a operar em duas direções: intensificar os conflitos que dividissem o mundo árabe – como a guerra Iraque-Irã – e buscar formas de conseguir a presença permanente de tropas norte-americanas na região – obtida a partir da primeira guerra do Iraque.

O enfraquecimento dos governos árabes e da sua unidade interna foi acompanhada da cooptação do governo do Egito – depois da morte de Nasser, primeiro com Sadat (o primeiro a normalizar relações com Israel) e depois com Mubarak, o que fez desse pais o aliado fundamental dos EUA no mundo árabe, recebendo a segunda maior ajuda militar de Washington no mundo, logo atrás de Israel.

A diversificação das fontes de energia – com a importação de gás da Rússia – alivia um pouco a demanda de petróleo, mas incorpora a dependência de um país que tampouco aparece como confiável para a Europa. Mais seguro é o controle politico e militar da região pelos EUA, como garantia para a Europa. Os países europeus não participaram das guerras do Iraque – com exceção da Inglaterra -, mas as financiaram, pelos serviços que os EUA lhes prestam.

A eventual perda do Egito como eixo do controle politico da região seria gravíssimo para os EUA – além da queda do ditador aliado na Tunísia e outros desdobramentos em países com governos similares na região. Além de que poderia contribuir decisivamente para romper o isolamento de Gaza, liberando a entrada via Egito, até aqui tão bloqueada como aquela controlada por Israel.

A impotência norte-americana diante das formas tradicionais de intervenção militar confirma a decadência da hegemonia dos EUA, nesse caso em uma região e em um país-chave para seu sistema de dominação. Está claro que Obama já abandonou a possibilidade de sobrevivência de Mubarak, concentrando-se agora numa transição que permita a cooptação de quem vier a sucedê-lo. É um tema aberto, que pelo menos revela que a alternativa aos regimes ditatoriais da região não reside obrigatoriamente em forças islâmicas – argumento utilizado na lógica do mal menor de apoio a esses ditadores.

Em condições culturais renovadas, o nacionalismo árabe pode renascer, agora articulando uma nova unidade de governos progressistas, anti-EUA e pró palestinos na região – a pior das possibilidades para Washington -, mas plenamente possível, pela intervenção espetacular dos povos desses países.

Emir Sader, sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP – Universidade de São Paulo.





9 comentários

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Bonifa

07 de fevereiro de 2011 às 19h07

Não há como incentivar e promover o apodrecimento dos outros sem também apodrecer. E aquele que promove a corrupção do outro, é mais corrupto que ele, porque é menos inocente. E corrupto e podre, mesmo o maior dos gigantes cedo ou tarde desaba.

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Adelina

05 de fevereiro de 2011 às 18h42

Parabéns pelo texto Sr. Emir, conciso e preciso.
Obrigada por iluminar nossas mentes!

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alexandre/sp

04 de fevereiro de 2011 às 18h35

Ta tudo certo,mas só uma correção faltando,ao meu ver. O governo de transição JÁ ESTÁ cooptado pelos EUA,pois será o vice ou o premiê do "novo faraó",que está mais para múmia. Outra opção,à mesa,é alguem da câmara (o presidente da Casa),mas esta terá que ser eleita em setembro,o que leva a uma transição até lá…com uma das referidas figuras.Ou com Baradei,que já é meio dos "home".
Resta ao povo garantir os 20% de cadeiras para a Irmandade.

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Wyllison

04 de fevereiro de 2011 às 07h52

Esse texto mostra a importância da eleição da Dilma, o olho dos EUA estavam voltados pro Pré-sal, ainda bem que os tucanos entregadores do patrimônio brasileiro, na forma de José Serra, não venceu.

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FrancoAtirador

04 de fevereiro de 2011 às 00h49

.
MuBARAK CAIRÁ ou SERÁ DERRUBADO.

Questão de tempo.
.

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Niveo Roberto Campos

03 de fevereiro de 2011 às 22h56

No Oriente Médio encontra-se um "nó górdio" histórico do mundo ocidental.
Criado pela ONU, Inglaterra, EUA.

Niveo Campos Souza

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luis santos

03 de fevereiro de 2011 às 22h35

Mister Sader, li que o senhor faz parte da equipe da minstra Ana de Holanda. Poderia aproveitar a oportunidade e nos explicar e esclarecer de vez essa polêmica toda sobre direitos autorais, Hildebrando etc…?

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ebrantino

03 de fevereiro de 2011 às 22h21

O que dizer? repetir -: òtimo texto, como sempre vindo do :::Emir.
Ebrantino

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Polengo

03 de fevereiro de 2011 às 21h04

Ótimo texto, como sempre.

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