Paulo Kliass: Juros trilionários, cartão de visita da perpetuação da injustiça social

Tempo de leitura: 5 min

Por Paulo Kliass*    

Agora é oficial. Os números estão disponíveis nas páginas do governo brasileiro na internet.

Até então, trabalhava-se com estimativas e projeções. E o acumulado dos últimos 12 meses apontava para uma aproximação de casa decimal para chegarmos ao valor.

A partir de 30 de janeiro de 2026, porém, com a divulgação do boletim do Banco Central (BC) contendo as Estatísticas Fiscais consolidadas para o exercício de 2025, sabe-se que a administração pública brasileira realizou despesas com o pagamento de juros da dívida pública em valor superior a um trilhão de reais.

De acordo com as informações divulgadas pelo banco, o volume total de gastos com a transferência de recursos aos detentores de títulos do endividamento do governo federal foi de R$ 1,008 trilhão.

Como diria o Presidente Lula em seus momentos de maior inspiração, nunca antes na História deste País o volume de despesas financeiras ao longo de um exercício fiscal alcançou tal patamar. Uma loucura!

Esse montante de 2025 foi 6% mais elevado do que o registrado em 2024, quando o total havia chegado a R$ 950 bilhões.

Como os registros são apontados mensalmente, vale ressaltar que os períodos do segundo semestre foram bem mais elevados do que os primeiros seis meses do ano.

Talvez a principal razão seja a elevação continuada da Selic a cada nova reunião do Comitê de Política Monetária no ano (saindo de 13,25% para 14,25% e depois para 14,75%), permanecendo no nível de 15% a partir de julho.

Isso significa que o impacto da referência de remuneração financeira sobre o estoque crescente da dívida pública foi muito mais potente no período julho a dezembro do que o período janeiro a junho do ano passado.

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Juros de R$ 1 trilhão: nunca antes na História deste País

Assim, no primeiro semestre o volume de juros alcançou R$ 417 bi e saltou para R$ 591 ao longo dos últimos seis meses. Isso representou um crescimento de 42% entre os dois períodos. Apenas a título de comparação, em 2024 a diferença entre os dois semestres foi de 9%, saindo de R$ 455 bi para R$ 496 bi. Desta forma, o segundo semestre de 2025 representou um crescimento de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior.

DESPESAS COM JUROS – 2024 e 2025  –  (bilhões R$)

Fonte: BC

Tal mudança de patamar no volume de despesas financeiras ocorridas ao longo do terceiro mandato do Presidente Lula representou também um maior nível de comprometimento desse tipo de gasto no total do Produto Interno Bruto (PIB).

O gráfico abaixo apresenta a média anual desse tipo de dispêndio como porcentagem do Produto, segundo os diferentes governos.

Assim, o que se percebe é que durante o primeiro triênio de Lula 3 esse índice alcança 6,6%, com tendência de manutenção desta média ou mesmo de alta quando forem divulgadas as estatísticas para 2026. Trata-se, portanto, de mais um recorde jamais antes ocorrido para tal variável relevante de política econômica.

Durante os três primeiros anos do atual mandato, a porcentagem observada foi 50% mais elevada do que a média do período 1997/2022, quando os registros apontam para uma média 4,3%. Esses dados confirmam que a lógica da austeridade fiscal e da prioridade concedida ao atendimento dos interesses do financismo se manifesta de forma inequívoca na implementação do programa econômica do governo.

DESPESAS COM JUROS / PIB (%) – média anual

Fonte: STN/MF

Por outro lado, o valor apontado pelo BC para o mês de dezembro também significa um valor recorde.

Nunca antes na série histórica mantida pelo órgão um período de 30 dias alcançou os R$ 122 bi do último período mensal do ano passado. Isso representou uma elevação de 27% sobre os R$ 96 bi do último mês de 2024. Esse montante caracteriza uma despesa de R$ 5,5 bi por dia útil daquele mês.

Apenas a título de comparação, avaliemos o objetivo apresentado a Lula por Fernando Haddad para a realização de superávit primário no presente ano.

A meta é de 0,25% de saldo positivo nas contas não-financeiras do Orçamento e foi incorporado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) em seu artigo segundo.

Em termos monetários, esse percentual representa R$ 34 bi. Ou seja, em apenas 6 dias de dispêndios com juros em dezembro, o governo gastou mais do que o grande esforço nacional de compressão de gastos sociais e investimentos para cumprir uma meta irresponsável que ele mesmo se colocou como torniquete.

O principal argumento utilizado pela equipe econômica para a continuidade da política de austericídio refere-se à conhecida cantilena do “não temos recursos”.

Repetida à exaustão, em uma tentativa de transformar a mentira e a falácia em verdade, essa narrativa não se sustenta nem mesmo quando são apresentados os dados oficiais dos órgãos da administração pública federal. Ao contrário do que afirmam aqueles que tentam enganar a população pouco afeita ao manuseio das estatísticas da área econômica, os recursos existem e são de magnitude trilionária.

Recursos existem: falta vontade política

Uma das manifestações de tal disponibilidade encontra-se no saldo da chamada “Conta Única do Tesouro Nacional”.

Trata-se dos valores que estão à disposição do Executivo para serem gastos com o atendimento do conjunto das necessidades do governo e de suas políticas públicas. Os valores oficiais relativos ao encerramento de 2025 só serão divulgados ao longo do primeiro trimestre. Mas com certeza não serão inferiores aos R$ 1,6 trilhão apurados em 2024 e 2023.

Ou seja, os recursos existem e estão imobilizados contabilmente na interface entre Tesouro Nacional e BC.

A intenção é justamente não gastar em contas não-financeiras, para que sobrem recursos para pagamento de juros. Afinal, para esse tipo de despesa não existe limite, nem teto, nem contingenciamento. Esse é o espírito do Novo Arcabouço Fiscal e da política de austeridade irresponsável.

Lula não conseguiu cumprir quase nenhuma de suas principais promessas de campanha em 2022.

Não revogou de fato a essência austericida do Teto de Gastos do Temer, pois o mesmo foi substituído pelo Teto do Haddad.

Não reverteu a privatização da Eletrobrás, permitindo que o processo de transferência do patrimônio público e das atribuições do Estado na área da energia elétrica permanecesse nas mãos do capital privado.

Não conseguiu concretizar o mote repisado por diversas ocasiões e que pretendia fazer 40 anos em 4.

Não vai deixar um legado de seu terceiro mandato que fosse caracterizado por fazer mais e melhor do que realizou nos dois primeiros, entre 2003 e 2010. E o principal obstáculo para tanto tem sido a desculpa esfarrapada do arcabouço fiscal.

O mais dramático de toda esta novela da política econômica de inspiração neoliberal e conservadora é a naturalização do patamar das despesas com juros no nível trilionário.

Transforma-se em algo banal e inescapável a transferência de tamanho volume de recursos do Orçamento Geral da União para um grupo seleto e privilegiado de nossa sociedade.

Juros trilionários é o suprassumo condensado da desigualdade econômica e da concentração de renda e patrimônio. Em poucas palavras, é o cartão de visita da perpetuação da injustiça social.

* Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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