VIOMUNDO

Diário da Resistência


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Gerson Carneiro: Revivendo infância em cidade pobre da Bahia


14/08/2013 - 14h37

por Gerson Carneiro, do Haiti, especial para o Viomundo

Tenho um amigo nos Estados Unidos, que frequentemente vai ao Haiti com um grupo de evangélicos levar um pouco de ajuda humanitária. Este ano, ele me convidou.

E cá estou em Porto Príncipe, capital do Haiti, onde cheguei na segunda-feira 12, 16h do horário local. Vim direto para acampamento, onde ficam principalmente estrangeiros.

Impressões iniciais.

O primeiro choque foi térmico. Estava úmido, porém abafado com temperatura de 30 graus positivos.

Do aeroporto até o acampamento, em um trajeto que durou cerca de 40 minutos em função do trânsito caótico, experimentei sensações que me remeteram a diversos lugares. O cenário, odores, o povo nas ruas.

Inicialmente pareceu que eu acabara de chegar à cidade de Feira de Santana e também ao garimpo do Socotó, região de Campo Formoso, na Bahia. Depois pareceu estar na periferia em Salvador, precisamente no bairro de Cajazeiras. Em seguida, na Índia ou Paquistão, quando comecei a cruzar com os Tap-Tap, veículos enfeitados, muito coloridos, que compõem o transporte público no Haiti.

A presença de soldados da ONU é marcante. Em seus tanques, com armamentos pesados, de diversas nações do mundo. Há bases militares da Jordânia, Bangladesh, Índia, Filipinas, Argentina, Peru, Paraguai, Suiça … e até do Nepal. Curioso. Pensava que no Nepal só havia monges. Mas há exército também. E eles também brigam.

O contingente maior de soldados estrangeiros é do Brasil.

Só não há soldados norte-americanos, em que pese ser muito grande a embaixada norte-americana aqui no Haiti.

Todos os soldados estrangeiros estão aqui para garantir a paz institucional, governamental. Crimes e confusões civis comuns eles não se envolvem. Essa tarefa cabe aos policiais locais certamente pouco remunerados, o que é uma barreira a mais para que tenham disposição para resolver coisas mais sérias, me contou um simpático haitiano.

Observei o olhar do povo. Expressa simpatia. Se há algo que nada consegue tirar do povo é sua simpatia espontânea.

Há beleza na cidade de ruas esburacadas aonde se faz lama quando chove, e muita poeira quando não. Alguns animais transitam dando a sensação de um enorme Sítio do Pica-Pau Amarelo. E na alvorada, um lindo coral de galos. Nem sei dizer há quanto tempo não ouvia um só galo cantar. Aqui eu ouço um coral. Os grilos também gostam de se exibir.

As casas simples espalhadas ao pé da montanha são uma atração fascinante. E lá no alto estão as mansões dos ricos. No Haiti os ricos moram no alto dos morros. Aqui eles não negam que estão por cima.

Disse lá no início que o primeiro choque foi térmico. Talvez será o único, pois tenho a sensação de estar revivendo minha infância em uma cidade pobre no interior da Bahia.

Hoje vou colocar o pé na rua, ter contato direto com o povo, e sair da impressão para a realidade. Vamos lá.

PS: Não vim em avião da FAB. Minha viagem foi inteiramente custeada pela minha ING (Indivíduo Não Governamental), da qual sou e presidente e único financiador.

Pedi ajuda a alguns amigos do twitter, que generosamente colaboraram com cerca de R$ 600, e fiz uma breve campanha no meu trabalho. Isso me  possibilitou preencher uma mala com donativos (creme dental, escova dental, sabonete e absorventes higiênicos) e bancar o transporte dela, cerca de 30 quilos ao custo de 125 dólares. Aproveito para dizer que estou feliz e emocionado com a solidariedade de vocês. Muito obrigado.

A minha ideia é todo dia, sempre que possível, mandar um relato para vocês. Sempre que possível, porque, no acampamento, cada um só pode usar computador 30 minutos por dia, além disso frequentemente falta energia elétrica.

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



23 comentários

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Gerson Carneiro: Alegria em meio ao inferno - Viomundo - O que você não vê na mídia

22 de agosto de 2013 às 20h19

[…] Gerson Carneiro: Revivendo infância em cidade pobre da Bahia […]

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Genivaldo Neiva: Você quer saber de onde nascem os bandidos? - Viomundo - O que você não vê na mídia

16 de agosto de 2013 às 13h43

[…]  Gerson Carneiro: Revivendo a infância em cidade pobre da Bahia […]

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Gerson Carneiro: No Haiti, não há espaço para a soberba - Viomundo - O que você não vê na mídia

16 de agosto de 2013 às 11h51

[…] Gerson Carneiro: Revivendo infância em cidade pobre da Bahia […]

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ma.rosa

15 de agosto de 2013 às 21h24

É muito prazeroso ler o teu texto, Gerson. Continue nos brindando com outros relatos desta viagem!

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Hélio Pereira

15 de agosto de 2013 às 20h38

Parabéns Gerson.

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ccbregamim

15 de agosto de 2013 às 20h18

estamos contigo, irmão.
bjcc!

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Bacellar

15 de agosto de 2013 às 20h02

Massa pa porra rei.

Responder

Fátima Oliveira

15 de agosto de 2013 às 18h43

Gerson, o que você diz é que no fundamental a cara da pobreza é sempre igual, em todo o mundo. Está certíssimo. E nós, sertanejos nordestinos, bem sabemos o que significa. Entendo que sua ida ao Haiti é prenhe de significados.

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Urbano

15 de agosto de 2013 às 17h58

Creio que no Haiti não haja petróleo como no Iran e Iraque, nem nióbio, ferro, urânio, muita água doce como no Brasil.

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Elias

15 de agosto de 2013 às 16h23

Belo relato de um correspondente de guerra. Sim, guerra: Solidariedade X Egoísmo. Parabéns, Gerson Carneiro! Os 30 quilos de donativos são importantíssimos. Mas sua presença no Haiti está acima de qualquer valor. E seu texto leve e solto sugere que poderá nos trazer um bom livro sobre essa experiência.

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Carlos Ribeiro

15 de agosto de 2013 às 12h26

Golaço, Gerson!

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FrancoAtirador

15 de agosto de 2013 às 11h51

.
.
Los Hermanos
(Atahualpa Yupanqui)

Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.
En el valle, la montaña,
en la pampa y en el mar.

Cada cual con sus trabajos,
con sus sueños, cada cual.
Con la esperanza adelante,
con los recuerdos detrás.

Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.

Gente de mano caliente
por eso de la amistad,
Con uno lloro, pa llorarlo,
con un rezo pa rezar.
Con un horizonte abierto
que siempre está más allá.
Y esa fuerza pa buscarlo
con tesón y voluntad.

Cuando parece más cerca
es cuando se aleja más.
Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.

Y así seguimos andando
curtidos de soledad.
Nos perdemos por el mundo,
nos volvemos a encontrar.

Y así nos reconocemos
por el lejano mirar,
por la copla que mordemos,
semilla de inmensidad.

Y así, seguimos andando
curtidos de soledad.
Y en nosotros nuestros muertos
pa que nadie quede atrás.

Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar,
y una novia muy hermosa
que se llama ¡Libertad!

(http://letras.mus.br/atahualpa-yupanqui/849453)
(http://www.youtube.com/watch?v=SUaaJvcUOrA)

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    Hélio Pereira

    15 de agosto de 2013 às 20h36

    Gostei desta Musica,ela é tão boa como o artigo do Gerson Carneiro.

Eunice Feitosa

15 de agosto de 2013 às 11h02

Manda aí véio. Beleza de iniciativa!

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josé fernandes

15 de agosto de 2013 às 10h34

isso é iluminação…pelos menos o começo. o mundo precisa disso..

Responder

renato

15 de agosto de 2013 às 09h34

Gerson, você é uma inspiração para novos e velhos jornalistas.
E tem um olhar de mundo, Gerson você me representa.
Ontem mesmo lembrei de você. Por onde anda o Gerson.
Que grata surpresa. Que seu coração lhe Guie. E Deus também.

Responder

Romanelli

15 de agosto de 2013 às 08h06

PARABÉNS Gerson pela inciativa

Responder

Ceiça Araújo

14 de agosto de 2013 às 21h05

Atitudes positivas! Eis do que o mundo precisa! Orgulhosa de você, Gerson Carneiro! Um abraço para você e para esse povo sofrido.

Responder

Carlos Pereira

14 de agosto de 2013 às 20h44

Gerson, tenha sempre presente que para os haitianos há uma ocupação brasileira no Haiti. E é verdade. Ainda que sobre a chancela da ONU. A sua presença significa a solidariedade de brasileiros para com o povo haitiano. Nada a ver com a oucupação brasileira no Haiti.

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Kadu

14 de agosto de 2013 às 20h41

Gerson, tá valendo cara! Depois que se vai, deliberadamente, a um lugar miserável o nosso olhar sobre o mundo muda. E nos sentimos mais gente

Responder

edir

14 de agosto de 2013 às 16h52

Legal, corajoso e solidário é o que está faltando na humanidade nos dias de hoje.

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Mardones

14 de agosto de 2013 às 16h33

Muito interessante esse primeiro dia do diário do Gerson no Haiti. E eu estava Gil. k k k

Claro que o Haiti é aqui. Mas os pobres estão menos pobres. Já os ricos…

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Hans Bintje

14 de agosto de 2013 às 15h03

Azenha:

Eu sempre elogio vocês quando relatam honestamente o que observam.

Como fazer isso é difícil !!!

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