Pedro Pinho: Eleição e instrução, vitais para a construção da cidadania

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Bloco dos Bonecões desfila nas ruas do Pelourinho, centro histórico de Salvador. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Por Pedro Augusto Pinho*

”Irene Preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:

— Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”.
(Manuel Bandeira, “Irene no Céu”, “Libertinagem”, 1920).

Talvez o prezado leitor não tenha se dado conta do quanto regrediu a instrução e o conhecimento da população brasileira desde 1990, apesar dos governos de Leonel de Moura Brizola no Estado do Rio de Janeiro (1983-1987 e 1991-1994), da criação dos Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e da construção da infraestrutura educacional e marco cultural da cidade do Rio de Janeiro, o Sambódromo.

Pois se nem o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul, que tiveram um construtor de escolas como Brizola conseguiram escapar do retrocesso, imagine estes outros estados:

São Paulo, governado pelo leiloeiro de escolas públicas Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Paraná, que tem à frente o terceirizador de escolas Ratinho Júnior (PSD), que se autodenomina ”Parceiro da Escola”.

Santa Catarina, governado por Jorginho Mello (PL), que proíbe a adoção de cotas e outras ações afirmativas pelas Instituições de Ensino Superior públicas.

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Minas Gerais, gerido pelo governador Romeu Zema (Partido Novo), que une a gestão privada à missão educacional e implementação de escolas cívico-militares no projeto “Mãos Dadas”, para o ensino fundamental, confundindo instrução pública com segurança pública.

O resultado desse quadro educacional nos legará governos estaduais piores dos que temos hoje. Também, a partir de 2027, um congresso que às bancadas do boi, da bala e da bíblia se somará a dos bandidos, integrada por membros e lideranças de várias organizações criminosas.

Tudo isso por absoluta falta de informação, capacitação intelectual e de discernimento dos eleitores.

O Brasil Central – Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul – é o mundo do agro, que é ”pop” na tela da Globo, e de importante participação na bancada do boi.

Mas há significativas diferenças entre os três atuais governadores.

Goiás, onde o governador Ronaldo Caiado (União Brasil), semelhante ao colega mineiro, confunde educação pública com segurança pública. Em Mato Grosso do Sul, o governador Eduardo Riedel (PSDB) coloca a distribuição de material escolar como parte importante, senão a mais relevante do processo educacional.

Ambos não imitam o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), que, em 2025, contratou 1.500 professores para rede estadual, sendo a faixa etária até 14 anos correspondente a 22% da população. Ou seja, um professor para cada 560 alunos, desde o maternal/creche, foi contratado a se incorporar aos 34.500 já existentes na educação básica, majoritariamente atuantes nas áreas urbanas.

Das 27 unidades federativas do Brasil, a Região Norte abriga sete estados, a Nordeste nove, a Centro Oeste, quatro, incluído o Distrito Federal, a Sudeste quatro e a Sul, três.

E os partidos políticos que dominam os poderes federativos são o PSD (cinco), o PT (quatro), a União Brasil, o MDB, os Progressistas e o PSB, com três cada, o PL e o PP (dois cada) e um para o Novo e o Solidariedade.

É a fotografia pré-eleitoral, no início de fevereiro/2026, para constatarmos mais retrocesso ou, nos surpreendendo, melhora na compreensão dos eleitores sobre os candidatos.

EDUCAÇÃO, TECNOLOGIAS E A SOCIEDADE HUMANA

“Está no caixão, exposto
como uma mercadoria.
À mostra, para vender,
quem antes tudo vendia”
(João Cabral de Melo Neto, “Velório de um Comendador”, “terceira feira”, “Serial”, 1961)

Em 11 de julho de 1997, teve lugar em Cartagena (Colômbia), o Seminário “Educação na Era da Informação: uma agenda para ação na América Latina e Caribe”.

Ele foi organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), pela Universidade dos Andes e pelo Global Information Infrastructure Commission (GIIC), estabelecido em 1995, em Bruxelas, com forte ligação a International Telecommunication Union (ITU).

Nele esteve presente Claudio de Moura Castro, assessor do BID para Educação, no Departamento de Desenvolvimento Sustentado. Que frase inicia as Recomendações do Seminário?

“A nova era da informação requer que os governos de todos os países estabeleçam políticas que assegurem o acesso a tais tecnologias e a competência em sua utilização”.

Seguem-se, então as “Recomendações aos Países” que poderiam ser sintetizadas numa frase: nada façam sem autorização (sic).

Para que a instrução?

Coloquemo-nos 500 anos antes do nascimento de Cristo (a.C.), na cidade de Qufu, no sudoeste da província de Shandong, atual República Popular da China. Lá vivia Mestre Kong, Kong Fu Zi, que os catequizadores jesuítas, nos século XVII/XVIII, latinizaram seu nome para Confúcio.

A filósofa e sinóloga francesa Anne Cheng, que traduziu “Os Analectos” do mandarim para o francês, escreveu que Confúcio, “antes de mais nada” foi um educador. “E dos raros nomes que sobreviveram na cultura geral, se tornando figura universal, como Buda, Sócrates, Cristo ou Marx”.

E por quê? “Porque com ele acontece algo decisivo, produz-se um salto qualitativo, não apenas na história da cultura chinesa, mas na reflexão do homem sobre o homem”.

Hoje constatamos uma regressão civilizatória. Não seremos ingênuos de apontar um caminho político ou determinada imposição tecnológica, cultural. O que está ocorrendo?

Um gênio que desvenda estes caminhos é o neurologista brasileiro Miguel Nicolelis (1961).

Nicoleis é o fundador do Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (Macaíba, Rio Grande do Norte), membro das Academias de Ciência da França e do Brasil, seus trabalhos com o Hospital Xuanwu, em Pequim, colocaram pacientes em estágio de paraplegia completa caminhando pelas ruas da China, por seus próprios meios.

E, desde 2020, com seu livro “O Verdadeiro Criador de Tudo, como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos”, vem nos alertando sobre os limites e perigos da informática, mais recentemente da “inteligência (?) artificial”.

Porém, é um trabalho de cientista, que começa década antes com “Muito Além do Nosso Eu” (2011) e “Made in Macaíba” (2016).

Que caminho percorrerá o homem digitalizado?

Do zero-um. Nada entre eles, como, em recente debate, afirmou Nicolelis: nada neste universo de existências entre o zero e o um para a mente humana, analógica.

Mas é evidente que a escravidão esteve sempre na perspectiva da plutocracia, daqueles egoístas que veem o mundo só para eles.

Para nós, que somos também democratas, o mundo é de todos e com todos participando, com inclusão. O mundo de Irene, de Manuel Bandeira, não do Comendador, de João Cabral.

Mas para que todo conjunto possa atuar em favor da civilização humana, da solução dos seus problemas, é indispensável a institucionalização do Estado.

O Estado é indispensável para a convivência democrática e satisfatória entre os habitantes. Como bem sintetizou Xi Jin Ping: seu objetivo é transformar a China no melhor lugar para o chinês viver.

QUEM PENSA CORRETAMENTE COM DIARREIA?

Miguel Nicolelis assinala que, comparado com os chipanzés, o cérebro humano encontra-se em um estado bem imaturo quando do nascimento da espécie, necessitando de pelo menos duas décadas para atingir o seu tamanho adulto.

Além disso, embora todos os nossos neurônios já estejam formados quando do nosso nascimento, três ou quatro décadas são necessárias para a substância branca atingir a maturidade.

E diagnostica (“O verdadeiro criador de tudo”, Capítulo 4): “O demorado processo de maturação explica por que os seres humanos são mais vulneráveis a doenças mentais, como esquizofrenia e autismo, durante os primeiros anos pós-natal e a adolescência”. “Nosso cérebro se modifica, tanto anatômica como funcionalmente, em resposta a tudo com que interagimos, quer durante o aprendizado de novas habilidades, quer quando modificações relevantes ocorrem no nosso corpo ou durante os nossos engajamentos sociais” .

A importância da comunicação de massa, dos sites de convivência, da “telinha da Globo”, é que você pode estar sendo modificado de modo a se tornar irreversível.

Voltamos então ao Estado. Quanto mais institucionalizadas forem as funções típicas do Estado e menor for a influência do dinheiro e da tecnologia, mais independente, mais capaz de responder por si mesmo o nosso homo sapiens será capaz.

Nicolelis desenvolve, como genial cientista que é, seu trabalho voltado para o ser humano.

Não temos maior pretensão do que aplicar na sociedade, como administradores, o mesmo desejo do Presidente da China: fazer do Brasil o melhor lugar para o brasileiro viver.

E o primeiro passo é conquistar a liberdade, aquela que nos dá condição de enfrentar interesses estrangeiros, mesmo conduzidos por brasileiros, por ignorância, por ganância, pela sensação de poder.

E sendo assim livres, certamente seremos mais sábios, nosso cérebro mais amadurecido, e viveremos mais felizes. O que resultará certamente na escolha de melhores representantes.

“Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava”.
(Cruz e Souza, “Livre”, “Últimos Sonetos”, 1905).

*Pedro Augusto Pinho, administrador e petroleiro aposentado.

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