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Mino Carta: No Brasil, quem escreve a história são os perdedores


23/11/2012 - 14h12

Odair Cunha pede o indiciamento de Policarpo Jr., mas já começa a fraquejar, diz Mino 

por Mino Carta, em CartaCapital

O diretor da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Jr., e o contraventor Carlinhos Cachoeira, que acaba de ser condenado por formação de quadrilha e tráfico de influência, mantiveram uma longa relação baseada na troca de favores. Verdade factual.

Há provas irrefutáveis de que Cachoeira executou grampos a pedido de Policarpo Jr. e organizou a operação para monitorar os movimentos de José Dirceu, cujos resultados geraram uma capa da semanal da Abril. Provado está também que o ex-senador Demóstenes Torres ganhou as célebres páginas amarelas de Veja, prontas a apresentá-lo como um varão de Plutarco, em atenção a uma solicitação de Cachoeira. Investigações da Polícia Federal revelaram que, durante a feliz parceria, o profissional e o contraventor mantiveram mais de 200 conversações pelo telefone.

Situações similares em outros países provocaram a expulsão de jornalistas não somente de suas redações, mas também, e sobretudo, das próprias entidades da categoria. Por ter formulado acusações falsas, um diretor de redação italiano pagou recentemente pela culpa do seu jornal e foi condenado a alguns anos de reclusão. No Reino Unido, Rupert Murdoch teve de sair do país por ter praticado façanhas muito parecidas com aquelas cometidas pela Veja de Policarpo Jr.

No Brasil, causa surpresa, se não espanto, o fato de que o deputado Odair Cunha, relator da CPI do Cachoeira, peça o indiciamento do diretor da sucursal abriliana entre o de outros cidadãos sob suspeita, encabeçados pelo governador Marconi Perillo. Solicita também investigação a respeito do procurador-geral da República Roberto Gurgel. Ao todo, 46 nomes, e muitos jornalistas, embora sem a ressonância de Policarpo Jr. Donde já me apresso a preparar meu coração e meus ouvidos para a tradicional ladainha, a denunciar o assalto à liberdade de imprensa. Como é do conhecimento até do mundo mineral esta, nas nossas latitudes, corresponde à liberdade dos barões midiáticos e dos seus sabujos de agirem como bem entendem. Manipulam, omitem, mentem.

Quando a verdade factual dos comportamentos de Policarpo Jr., e portanto da Veja e da Abril, veio à tona faz meses, até um Marinho se moveu do Rio no rumo de Brasília para um encontro com o vice-presidente da República, Michel Temer, a fim de alertá-lo sobre os riscos que a mídia da casa-grande sofreria caso o parceiro de Cachoeira fosse chamado a depor na CPI. Logo, uma figura graúda da Abril seguiu-lhe os passos para reproduzir o alerta. Se havia um plano de convocar Policarpo Jr., este abortou. Temer sabe mexer seus pauzinhos.

De todo modo, a mídia está de prontidão. Alinhados, como sempre do mesmo lado, os jornalões agora acusam o relator da CPI de ter cedido às pressões do seu partido, o PT, que dúvida! Ora, ora, acabamos de viver, nós, de uma forma ou de outra privilegiados, as consequências do processo do chamado “mensalão”. Vimos o Supremo Tribunal Federal, representante do terceiro poder da nossa democracia, perpetrar desatinos jurídicos sem conta, ao usar, inclusive, uma interpretação inaplicável nas circunstâncias. Tratou-se de um julgamento eminentemente político. Nele o STF curvou-se às pressões da mídia em vez de atentar para os sentimentos da maioria da população, desinteressada do êxito da demanda. Nesta edição leiam, a propósito, a instrutiva coluna de Marcos Coimbra.

Não pretendo afirmar, com isso, que o PT no poder não se portou como os demais partidos. Chegou ao cúmulo de imitar os tucanos dos tempos da Presidência de Fernando Henrique Cardoso. Sim, portou-se e imitou, mas a maioria dos brasileiros está mais atenta aos resultados dos governos Lula e Dilma. Para a mídia, entretanto, só pesam os interesses da casa-grande, e a determinação apoia-se com firmeza inaudita na desfaçatez e na prepotência, de sorte a me arriscar a um vaticínio: o pedido de indiciamento de Policarpo Jr., este no mínimo, vai naufragar no oblívio. Donde, as raposas podem sossegar.

Há coisas que não entendo. Consta que a história é escrita pelos vencedores, no entanto, na hora de vazar as informações básicas a respeito do seu relatório, o valente Odair Cunha, que, aliás, começou a fraquejar no dia seguinte à divulgação do relatório, entregou o ouro ao Jornal Nacional da Globo. O qual, está claro, nada falou a respeito de Policarpo Jr. No fundo, até os senhores do poder petista, salvo exceções, gostam de aparecer no vídeo global ou nas páginas amarelas de Veja.

Observem: houvesse eleições presidenciais hoje, Dilma Rousseff esmagaria qualquer competidor da oposição. E Lula ganhou anteontem a parada paulistana ao levar Haddad à prefeitura contra o cada vez mais preparado José Serra. Não consigo escapar ao costumeiro diálogo com os meus botões. Será que, neste singular, insólito, quem sabe único país chamado Brasil, os vencedores atuam como perdedores e vice-versa?

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11 comentários

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Erminia Maricato: A terra urbana permanece refém dos interesses do capital imobiliário « Viomundo – O que você não vê na mídia

26 de novembro de 2012 às 00h26

[…] Mino Carta: No Brasil, quem escreve a história são os perdedores […]

Responder

Izabel Noronha: O projeto educacional defendido por Cláudia Costin não é aquele que Brasil necessita « Viomundo – O que você não vê na mídia

25 de novembro de 2012 às 09h41

[…] Mino Carta: No Brasil, quem escreve a história são os perdedores […]

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pina

24 de novembro de 2012 às 19h27

Muito boa analise sobre o PT…

lamentável a postura do partido, pequeno burguês.

Responder

Ricardo Lima Vieira

24 de novembro de 2012 às 08h56

A respeito da última frase do penúltimo parágrafo do texto de Mino, lembro que, semana passada, fomos brindados com um texto da ministra Marta Suplicy na terceira página da Folha de S. Paulo. Não adianta, mesmo. O PT apanha do pig mais que o Maguila contra o Foreman, e, tal qual cachorrinhos fiéis, próceres dele estão sempre prontos a “balançar o rabo”, entre uma bofetada e outra. Está claro que a política é “jogo de cintura”, imprópria para “estômagos fracos”, mas, onde termina o “jogo de cintura” e começa a infâmia? As “luzes” da mídia de esgoto encantam tanto assim políticos que imaginam poder conviver civilizadamente com a “imprensa livre” em nossa “democracia”?

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J Souza

23 de novembro de 2012 às 19h51

Acusações contra o PT são “provas” de crime. Acusações contra a mídia golpista, o ministério público e o PSDB são perseguições… Sei!

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Panino Manino

23 de novembro de 2012 às 19h40

Sério, francamente, que deem logo um golpe e expulsem todos os petistas deste país.
Se é para ficar com esse comportamento vergonhoso e covarde, vão embora, saíram logo, desistam. É muito mais irritante ver todo esse discurso vazio de mudar o país e no fundo não ter coragem nem de tentar.

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Gerson Carneiro: O grito de “pega ladrão!” « Viomundo – O que você não vê na mídia

23 de novembro de 2012 às 15h53

[…] Mino Carta: No Brasil, quem escreve a história são os perdedores […]

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MariaC

23 de novembro de 2012 às 15h45

Enquanto isso milhares estão ligados na Copa das Confederações, e batendo no peito que são politizados e elitizados, milhares estão trabalhando no notebook em casa e fora do horáio, para sobreviver, e batendo no peito que são politizados, milhares estão nas construções, nas lanchonetes, e nem sabem que a política existe. Por isso, você que tem tempo tem responsabilidade.

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ZePovinho

23 de novembro de 2012 às 15h39

http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com.br/2012/11/indiciamento-de-gurgel-tem-provas.html

Indiciamento de Gurgel tem provas irrefutáveis. PSDB quer pizza.

O Procurador-Geral da República Roberto Gurgel reclama de seu indiciamento no relatório do deputado Odair Cunha (PT-MG), na CPI do Cachoeira. Chamou de “revanchismo”. Porém, sem nenhuma razão, pois o deputado apenas cumpriu o seu dever, de forma irretocável.

Se não indiciasse o Procurador-Geral estaria dando um “jeitinho”, aliviando, e produzindo “pizza”.

No fim do texto publico a íntegra do trecho do relatório que trata do indiciamento. Não adianta Gurgel chamar de “revanchismo”. A única saída para ele seria rebater objetivamente ponto por ponto as provas irrefutáveis (o que parece ser impossível, pelas próprias tentativas anteriores).

As provas são tão irrefutáveis, que o Procurador-Geral entrou com mandato de segurança no STF pedindo em caráter liminar a proibição de outros procuradores investigá-lo, através do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público). Ora, quem, inocente, se recusaria a ser investigado por seus próprios pares? Imaginem um General se recusar a responder um IPM (Inquérito Policial Militar), diante de algum episódio nebuloso. Com que moral ele poderia continuar comandando suas tropas?

Antes de irmos ao texto do relatório, cabe alguns comentários:

1. Foi o próprio Gurgel quem despertou as suspeitas sobre si mesmo, ao paralisar as investigações da Operação Vegas, em 2009, quando esta caiu em suas mãos. Poderia ter admitido erro, pelo menos. Em vez disso apresentou explicações que caíram em contradição e, infelizmente, a emenda saiu pior do que o soneto, confirmando que algo de muito errado foi feito.

2. É imperioso ao crime organizado infiltrar-se nas entranhas do Estado, arregimentando agentes estatais encarregados do efetivo combate à criminalidade. O alto poder de corrupção do crime organizado, fazendo com que pessoas do Estado participem da atividade, causa inércia, ou melhor, paralisação estatal no combate ao crime.

Quando Gurgel paralisou a investigação da Operação Vegas, independentemente de qual tenha sido a sua intenção, ficou exposta uma vulnerabilidade da Procuradoria à influência da organização criminosa. Isso é algo muito grave para ser varrido para baixo do tapete, e a instituição Ministério Público é a maior interessada em não deixar margem para qualquer tipo de dúvidas que possa macular sua imagem, independente de pessoas que estejam no cargo de chefia. É o próprio Procurador-Geral quem deveria pedir uma investigação sobre este seus atos que suscitaram dúvidas, para o próprio bem da instituição que comanda.

3. O relator provou com a análise da cronologia dos fatos, com os depoimentos dos delegados federais, com as respostas por escrito do próprio Roberto Gurgel, e com as leis e regras a que um Procurador-Geral deve obediência, que houve infração.

Está certo o relator, e está errado os parlamentares que querem blindar Gurgel, retirando seu indiciamento do relatório. Isso é fazer pizza com coisa muito séria, diantes de provas robustas e que o Procurador-Geral não conseguiu refutá-las.

A íntegra do trecho que indicia o Procurador-Geral está no link:
https://docs.google.com/open?id=0B13_ezCNW4WzV1FMdHRPV3Vtd2c

Responder

abolicionista

23 de novembro de 2012 às 15h35

O que é Veja? É aquele tabloide do “boimate”?

Responder

Regina Braga

23 de novembro de 2012 às 14h44

Se o Caneta sair da CPMI…vou aderir ao Perigo e processar o relator.Odair para de TEMER o grupinho e mantém uma postura de homem adulto.

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