Por Jordan Michel-Muniz*
“A guerra é a continuação da política por outros meios“, Carl von Clausewitz, 1832.
“A política é a arte do possível“, Otto von Bismarck, 1867.
“A política é a expressão mais concentrada da economia, sua generalização e fim“, Lenin, 1920.
“A política é a guerra continuada por outros meios“, Michel Foucault, 1997.
Alguma destas citações supera as demais? Todas dão o que pensar…
Elas destacam ideias complementares, apesar da aparente contradição, quando Foucault inverte o dito de Clausewitz.
Foucault mira em fase histórica anterior a Clausewitz e diz que este trocou a ordem fática, querela aqui irrelevante: ambos os pensamentos se concatenam numa espiral sem-fim de violência, ponto a que voltarei.
Guerra, política e economia interagem de modo inseparável e formam pares com cobiça, poder estatal e impostos, respectivamente.
Para dissimular este inter-relacionamento há décadas governos contam com mídias corporativas, especialmente a televisão.
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Tais meios de intoxicação de massas sustentam três farsas: agressão ‘justa’, democracia ‘liberal’ e ‘livre’ mercado, isto é, manipulam guerra, política e economia.
Nestas expressões ilusórias devemos pôr os termos ‘justa’, ‘democracia’ e ‘livre’ sempre entre aspas, como inautênticos na comunicação hegemônica, simples avatares de práticas ausentes.
Guerra com cobiça, política junto a poder estatal e economia ligada a impostos: cada elemento destes pares funda-se em violências, basta refletir sobre seu funcionamento, exercício que quem está lendo pode fazer.
Por exemplo, como a palavra diz, impostos não são dádiva, mas obrigação extraída à força, se necessário: antes, pelos vitoriosos nas guerras; hoje, pelo Estado, controlado pelos vencedores, e não me refiro às eleições, mas à luta de classes.
Basta ver que mais da metade do orçamento brasileiro vai para o pagamento da dívida pública, segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, desdenhando carências na saúde, educação, moradia…
Dinheiro que o povo é forçado a dar aos ricos, os quais ao recolher impostos proporcionalmente insignificantes ficam com muito para emprestar, num círculo vicioso: poupam o que não pagam ao fisco, investem em títulos da dívida e embolsam altíssimos juros, multiplicando sua riqueza, que voltam a emprestar…
Tributos eram devidos pelos vencidos, impérios enriqueceram assim.
Às vezes, evitar a morte exigia maior contribuição: submeter-se à escravidão.
A servidão persiste, para sobreviver, agora remunerada por salários miseráveis. Quase todo o trabalho fica de graça para o patrão (mais-valor) – tributo cobrado aos derrotados pelo capital.
Assim alguns poucos acumulam fortunas, dominam o Estado e garantem taxação irrisória.
Não desviei da guerra para a economia política, só exemplificava uma das imposições associadas aos pares da tríade guerra, política e economia, de acordo com o exercício que sugeri, relativo à violência estrutural do Estado.
Aliás, tal expressão – economia política – ilustra como termos contraditórios podem ser complementares, conforme indiquei no início em relação aos quatro pensamentos citados.
No grego antigo, de Sócrates, Platão e Aristóteles, economia era o cuidado do lar, atribuído às mulheres, e política a administração da cidade, que cabia aos homens.
O que antes soava paradoxal tornou-se padrão: fundir economia e política – unir o privado ao público e, sem abolir o multimilenar machismo, a tarefa da esfera feminina à da masculina.
Falta acrescentar ao corpo social assim composto a guerra, pois no universo capitalista economia e política valem-se dela. Várias obras apontam tal nexo.
Marx, na Crítica da economia política, subtítulo de O capital, diz: “O capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros, da cabeça aos pés”.
Na época atual, Éric Alliez e Maurizio Lazzarato, em Guerras e capital, reforçam a denúncia: “a guerra, a moeda e o Estado são as forças constitutivas ou constituintes […] do capitalismo”.
Daí a complementaridade dos quatro pensamentos iniciais.
Contudo, uma objeção surge: se tantos países vivem em paz, como o Brasil, por que digo que economia e política são indissociáveis não só entre si, mas de guerras?
Vivemos numa pseudopaz, explicam Alliez e Lazzarato, “que resulta de uma guerra contínua no seio de todas as populações do mundo” (em itálico, no original).
“Guerra é qualquer combate com ou sem armas” (Houaiss), do confronto armado entre países ou no interior de nações (guerra civil) à luta de classes.
Sócios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ampliam esta tipologia graças à repetição incessante nas mídias, forjando nomes enganosos, como guerra às drogas, guerra ao terror, guerra aos migrantes ‘ilegais’…
Em cada uma a denominação adequada é guerra aos pobres, porém disfarçam para matar de maneira ininputável, simulando servir à lei.
Alguém já viu um migrante milionário ser expulso ou preso como ilegal?
Assassinatos executados por nações ricas contra países pobres, como os dos africanos Patrice Lumumba (1925-1961) e Thomas Sankara (1949-1987), não são terrorismo?
Não é terrorismo a cobiça pelo petróleo ao atacar instalações nucleares do Irã (2025) e sequestrar Nicolás Maduro e Cília Flores?
Alguém sabe de policiais chutando portas de casas em condomínios de luxo, como ocorre em barracos de favelas por suspeita de tráfico de entorpecentes?
Estas ações fazem guerra aos pobres e, como tal, desnudam a luta de classes.
Insisto nos fatos: não incito a classe trabalhadora a iniciar guerras mundo afora; ocorre o oposto, ela está sob ataque global incessante, resta saber se reagirá, e quando.
Luta de classes que a esquerda em geral renegou, aderindo às disputas fragmentadas de outro engodo – a guerra cultural –, que vai das artes e da cultura como produto ao feminismo, antirracismo e pauta de gênero, para lembrar temas centrais.
O capital rege e manipula a guerra cultural, para encobrir o pano de fundo, a luta de classes.
Daí a impropriedade da designação, pois a cultura é arma, ferramenta, meio de manobra e anteparo no campo da guerra realmente travada, dos ricos contra os pobres.
Claro que questões identitárias importam, são parte do enfrentamento com o capital, dado o “profundo vínculo ideológico entre racismo, viés de classe e supremacia masculina”, como salientou Angela Davis.
Entretanto, a defesa de minorias e a proteção das identidades não devem substituir o embate amplo ou estreitar a agenda política, nem converter o espírito pragmático de Bismarck – da “política como a arte do possível” – em conformismo.
Ele recorreu à trama da guerra cultural (Kulturkampf) para implantar as liberdades civis e alcançar a supremacia do Estado contra a Igreja Católica.
Apelar à cultura para dominar e chamar isto de guerra não é, portanto, algo novo.
Aquela guerra cultural foi luta político-econômica, devido à Igreja possuir mais terras e propriedades que qualquer nobre, com as quais passava do plano espiritual ao da autoridade secular sobre aspectos‑chave da sociedade.
E foi luta de classes, visto que os direitos políticos e liberdades destinavam-se a poucos.
A “arte do possível” depende da conjuntura político-econômica, que esquerdas no poder engolem passiva e conciliadoramente, em vez de enfrentar o capital e proteger a classe trabalhadora.
Quanto à última, o Brasil está, sim, em duradoura guerra, e os despossuídos continuam perdendo para os ricos oligarcas, até porque mudam os governos mas não o engano de supor que a classe trabalhadora pactua em igualdade com o capital.
Nisto ocultam a injustiça da carga tributária que recai sobre os pobres, impõem austeridade fiscal e cortam direitos sociais: saúde, educação, moradia, água, saneamento, aposentadorias…
A luta de classes assola o planeta, uma “guerra ininterrupta”, já diziam Marx e Engels no Manifesto Comunista.
Talvez haja raras exceções, como o Butão, que escapou ao colonialismo.
Obviamente não há guerra aos pobres entre indígenas não aculturados, nas “sociedades contra o Estado” de que fala Pierre Clastres, pois nelas inexiste estratificação social e acúmulo de bens.
Afora os casos excepcionais, nota-se a onipresença da guerra imposta ao trabalho pelo capital.
Alliez e Lazzarato, na obra referida, veem nisto “guerra civil generalizada” dos ricos contra os pobres, uma “guerra civil fractal, transversal”, porque “se (re)produz indefinidamente, segundo um mesmo modelo, porém em diferentes modalidades e em diferentes escalas do real”.
Quem nega esquece a confissão de Warren Buffett, bilionário dos EUA: “Claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está lutando, e estamos vencendo”.
Recusar o nome de guerra ao ataque à classe trabalhadora camufla a despossessão implícita na conversão forçada do trabalho em mercadoria depreciada. Mas a discordância é tão fútil quanto espantar as moscas sem se livrar dos dejetos.
Aludir à maioria dos povos ‘vivendo em paz’ para contestar a inseparabilidade de guerra, política e economia conduz à cegueira quanto à origem e manutenção das desigualdades sociais.
Morar em residências que a polícia não arromba nem invade impunemente representa privilégio que os desfavorecidos pela guerra, política e economia adorariam compartilhar.
Quem não sofre diariamente as piores consequências talvez se dê ao luxo de ignorar esta luta e chamar de guerra apenas confrontos com balas, bombas, canhões, drones, mísseis…
Certamente neles também funciona a tríade guerra, política e economia, como nas muitas guerras civis tramadas na África para continuar saqueando seus ricos recursos naturais após o desmonte do colonialismo.
Sobram casos de multinacionais que fornecem armas e munições aos dois lados de lutas intestinas, em troca de minérios subavaliados, num escambo mortífero.
Outro expediente comum são as milícias de extremistas ‘religiosos’, formadas, treinadas, armadas e introduzidas nas antigas colônias pelos que almejam manter a espoliação.
Extremismo gera caos para derrubar governos insubmissos, como a Otan fez ao destruir a Síria, ou permite explorar minerais a preço vil, tática da França em Burkina Faso, Mali e Níger, para de novo comprar urânio por 1% (um por cento!) do valor de mercado. Comprar? Não, roubar.
Se o colonialismo europeu fabricou ‘descobrimentos’ para se apossar de terras alheias, o neocolonialismo trama estes ‘encobrimentos’ para perpetuar a pilhagem.
Tampouco faltam guerras entre países, embora na quase totalidade delas o correto seja dizer: entre a Otan e o resto do mundo.
Digo Otan por reciprocidade ao seu artigo quinto, no qual um ataque armado contra qualquer membro da aliança equivale a atacar a todos.
Então, simetricamente, se um dos membros agride outro país, isto vira agressão da Otan, pois o armamento é da Otan. Nunca admitirão tal princípio, dão o tapa e escondem a mão.
O golpe de Estado dos EUA na Ucrânia em 2014 causou guerra por procuração da Otan com a Rússia, utilizando ucranianos, e o bombardeio ao Iêmen em apoio ao Quarto Reich Sionista (Israel) foi violência da Otan.
O mesmo vale se lacaios europeus dos EUA não se envolvem ativamente, como no sequestro de Maduro e no bloqueio a Cuba, ou se dão suporte logístico, patente no bombardeio ao Irã (2025).
Guerra ao Irã prestes a reiniciar, novamente com amparo da Otan, incluindo mídias corporativas que disseminam farsas desta aliança terrorista.
Mossad (agentes israelenses) e CIA armaram e organizaram revoltosos no Irã com terminais da Starlink, prevendo o corte da internet, em mais uma tentativa de tomar o poder.
Deu certo em 1953, quando depuseram Mosaddegh, o primeiro-ministro e chefe do governo, para rapinar o petróleo que ele nacionalizara, centralizando o mando no déspota Reza Pahlavi. Desde a revolução em 1979 cessou o roubo do ouro negro.
Mas não desistem, qualquer desculpa serve. A Otan alega desrespeito aos direitos humanos enquanto impõe duro bloqueio econômico ao Irã, privando o país até de medicamentos básicos.
Falam na liberdade das mulheres iranianas, na historieta em que heróis da Otan salvarão donzelas iranianas dos vilões xiitas.
Porém, desprezam as dezenas de milhares de mulheres palestinas – avós, mães, jovens, meninas, bebês – assassinadas ou mutiladas por Israel, seu cúmplice genocida no colonialismo.
Para elas não galopam os cavaleiros andantes da Otan.
Agora veículos de desinformação do anglo-eurocentrismo difundem que a repressão ao complô urdido por Mossad e CIA provocou 30 mil, 50 mil, 100 mil mortos… De onde tais números?
Há provas? Publicaram fotos de mortos da pandemia de covid! As fraudes provêm de ONGs patrocinadas pela Otan – que conveniente, não? E os corpos? Fossas coletivas neste volume seriam visíveis por satélites.
Novo ataque ao Irã é iminente, pelo investimento dos EUA em posicionar navios, aviões, baterias antiaéreas…, não só em termos monetários, mas pelo capital político: “dar uma chance à paz” nunca foi o plano. E o pedófilo Trump necessita tirar o foco dos arquivos Epstein.
Vidas iranianas, Conselho de Segurança da ONU e direito internacional que se danem. Pouco importam mulheres, direitos humanos ou doentes no Irã.
Se bem que China e Rússia enviaram navios ao Estreito de Ormuz, em desafio contido, sutilmente justificado por um treinamento conjunto.
No fim de janeiro (2026) ambas firmaram pacto estratégico abrangente com o Irã, uma tríplice aliança cujo escopo se desconhece, segundo noticiou o Middle East Monitor.
Os EUA são 4,2% da humanidade, consumindo cerca de 20% da produção petrolífera global – precisaríamos de cinco Terras se todos queimassem combustíveis fósseis com esta voracidade.
Lideram a extração, 13,8 milhões de barris por dia, mas gastam diariamente 20,5 milhões, então carecem de 6,7 milhões todo dia, sem os quais explodiriam revoltas. Agrava o quadro a previsão de esgotamento das suas reservas em oito anos.
Como feito antes no Iraque e usualmente, a guerra na Síria nutriu-se de petróleo, roubo mantido com os degoladores que os EUA instalaram no governo ao expatriar Bashar al-Assad.
Roubar é o que buscam na Venezuela e Irã, latrocínios alçados à política de Estado!
Instalar governo títere no Irã permitiria aos EUA privar a China deste petróleo e fechar caminhos essenciais à Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), ou Nova Rota da Seda, vital ao crescimento econômico chinês.
Desmontaria igualmente a conexão ferroviária transcontinental na qual Rússia, Azerbaijão e Irã puseram o equivalente a 25 bilhões de dólares, ligando São Petersburgo aos portos iranianos de Bandar Abbas e Chabahar, e daí por mar a Mubai (Índia), evitando o Canal de Suez e baixando muito custo e risco.
Existem vários interesses político-econômicos comuns em jogo para Irã, China e Rússia.
As cartas estão na mesa.
Os EUA querem roubar petróleo, passarão do blefe ao ataque?
Difícil eludir a confluência de guerra, política e economia sem a utopia da igualdade dos povos.
Com a tríade volto à contradição aparente dos quatro pensamentos iniciais, como prometi: o que surge se substituirmos o termo política do dito de Clausewitz pela definição que dela faz Foucault?
Esta junção remete às guerras sem-fim do capital: “A guerra é a continuação da guerra por outros meios”.
Ah, e o funeral do título?
É o da morte dos 500 anos de dominação do anglo-eurocentrismo.
EUA e União Europeia continuam poderosos e violentos, porém suas vontades – a infame ‘ordem mundial baseada em regras’ – perderam a força coercitiva.
“Um fantasma ronda a Europa” (Marx e Engels), e não é o do comunismo.
A hegemonia anglo-eurocêntrica está morta, apenas seu espírito ainda assombra nações servis que temem ser independentes.
Que reajam e sacudam o jugo, ou continuarão irrelevantes, Brasil incluído.
Um mundo multipolar nos espera. Disto falarei em breve.
*Jordan Michel-Muniz é ativista social, mestre e doutor em Filosofia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e pesquisa temas ligados à geopolítica, democracia e às injustiças.
Este texto não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




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