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Dr. Rosinha: A ignorância continua


22/11/2012 - 12h06

por dr. Rosinha, especial para o Viomundo

Participei em Cádiz, nos dias 08, 09 e 10 de novembro, da Assembleia Parlamentar Euro-latino-americana (Eurolat). Ela foi criada em outubro de 2006, em Bruxelas, e é constituída por 150 Parlamentares, 75 da Europa e 75 da América Latina.

Em Cádiz, além da Eurolat, participei de outras atividades, como um almoço de trabalho no sábado, dia 10. Participaram do almoço parlamentares da América e da União Europeia, dirigentes de ONGs e Fundações. Prefiro não citar os nomes. Fui e, sinceramente, lá pelas tantas, fiquei na dúvida se deveria ter ido. Agora (domingo, 11, no avião de retorno), no momento em que escrevo, vejo que foi importante ter comparecido. Não pelo conteúdo da reunião, mas para saber o que pensa parte da intelectualidade, ou dos políticos europeus.

A mesa do almoço era retangular, portanto todos se viam. Todos à mesa eram militantes de esquerda, talvez um ou outro de centro-esquerda. Verdes (PV europeu), socialistas, comunistas e sociais-democratas. Mas esse não é o caso.

A reunião começou com a exposição de um intelectual europeu, creio que militante de uma ONG. Falou sobre a exploração mineradora na América Latina. Sua exposição foi bastante crítica aos Estados latino-americanos, por não cobrarem das mineradoras todos os impostos procedentes, e pelas consequências, sociais e ambientais, da mineração. Afirmou que os Estados da América Latina poderiam cobrar as mesmas alíquotas dos europeus. Concordo. Porém olvidou de tecer críticas às empresas e a qualquer um dos Estados-membros, ou à própria União Europeia, que estimulam e usufruem dessas mineradoras.

Enquanto ele falava, e pelo que falava, lembrei-me do padre Fabián Vásquez. Fabián é equatoriano e veio por um tempo viver no Brasil. Certa vez, me mostrou um livro e me chamou a atenção para o artigo de um velho xamã. Num dos trechos, dizia-se mais ou menos o seguinte: quando os europeus chegaram à América, nada descobriram a não ser a própria ignorância. Ignoravam a existência de outros povos, de outras culturas, de outros continentes.

Neste almoço de trabalho, em Cádiz, lembrei-me deste trecho. Mais uma vez, um intelectual ignora a conjuntura, não só da América, mas da própria Europa, e reúne-nos para afirmar, ou mostrar, nossos erros, sem tecer nenhum comentário sobre o que está ocorrendo na Europa. Nada falou da grave crise econômica do capitalismo, tampouco dos problemas sociais dela decorrentes.

Na exposição, o intelectual também chamou a atenção para a fome e a corrupção na América. Citou, sem dar cifras, os famélicos do continente. Ignorou, ou omitiu, as políticas públicas, principalmente do Brasil, de combate à fome e à miséria. Não satisfeito, questionei-o.

Em resposta ao meu questionamento, o intelectual disse que não importam as cifras, mesmo que os que passam fome correspondessem a apenas um por cento, já seria preocupante. Concordo: ninguém deve passar fome. Mas qual é a razão da fome? Será que a Europa nada tem a ver com a fome da América? Será que as grandes empresas e os bancos europeus que vêm sugar nossas riquezas nada têm a ver com a fome dos latino-americanos? Será que parte da fome de hoje na América Latina não é também fruto da conjuntura mundial, na qual os governos europeus preferem socorrer os grandes bancos e empresas capitalistas em prejuízo do social?

Pelas ruas e praças de Cádiz, principalmente em frente às igrejas, há vários pedintes. Pelas roupas que usam, dá para ver que são pobres recentes, pois a roupa é a última a gastar. A pobreza chega primeiro ao estômago, depois à roupa. São homens, alguns jovens, desempregados (o desemprego entre a juventude espanhola passa de 50% em algumas regiões), com roupas de “classe média”, que pedem esmolas para dar de comer à sua família, principalmente aos seus filhos.

Como há 500 anos, alguns europeus continuam ignorantes em relação à América.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente brasileiro do Parlamento do Mercosul. No twitter: @DrRosinha

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15 comentários

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vítima de empresa espanhola

23 de novembro de 2012 às 17h08

Caro Dr. Rosinha
Excelente sua análise, sua ida foi proveitosa, fico grata!
Pelo visto, os mesmos exploradores que nos prejudicam ainda ousam nos apontar o dedo, esquecendo-se de suas próprias deficiências, seja qual for o lado deles no balcão (governantes, intelectuais ou instituições da sociedade civil).
Sobre o mesmo evento em Cádiz, permita-me recomendar a leitura do texto “O Brasil e a Espanha – a lisonja e a cautela”, no blog de Mauro Santayana, no qual ele também comenta sobre as críticas que recebemos e ao mesmo tempo sobre a superioridade que insistem em proclamar, como se só eles soubessem nos oferecer soluções. Observemos os problemas com empresas espanholas no Brasil, por exemplo. São financiadas por terceiros, administram mal e pelo visto venderão tudo para a China (já começaram a fazer isso). Como sou pessoalmente vítima de uma delas, que não respeita a legislação trabalhista brasileira, concordo com Santayana quando diz: “Somos solidários, sim, com o povo ibérico, mas nada nos obriga a ser solidários com o Santander, a Telefónica, a Iberdrola, que nos exploram, nem com uma monarquia que começa a divertir, com seus escândalos e gafes, o jet-set internacional.”

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Alexandro Rodrigues

23 de novembro de 2012 às 11h49

Depois de anos e anos de racismo e xenofobia, tratando brasileiros, argentinos, paraguaios e os demais povos da América do Sul como lixo, esses vagabundos espanhóis e portugas vem falar em cooperação, em aproximação, em irmandade? Logo agora que estão quebrados, que quase 30% de sua juventude está sem perspectiva?

Claro, o Brasil, o país mais bondoso do mundo, já se prepara para flexibilizar a entrada destes canalhas por aqui. Enquanto isso? Preparem Classe C. Vocês terão que continuar tirar os sapatos para entrar entrar em terras ibéricas!

Brasileiro é um povo trouxa por opção!

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Mardones Ferreira

23 de novembro de 2012 às 08h52

Imagina se os reunidos fossem de direita e extrema direita. k k k k

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Pedro luiz

23 de novembro de 2012 às 07h54

Dr. Rosinha. É isso mesmo. A arrogância dos EUA e da Europa é soberba em relação À America, A Africa. Essa soberba é cultural, principalmente.Que digam os imigrantes Europeus que vieram para esse país com a patrocínio do Estado.O objetivo era “branquear” nosso país, principalmente no SUL.

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Francisco

23 de novembro de 2012 às 01h49

Haverá um momento em que nós nos daremos conta de que música sinfônica (que eu gosto e é bonita, particularmente Bach) é nada mais que música folclórica de um lugar específico do mundo, que ópera (que é bonita e eu gosto, particularmente de Wagner) é uma maneira própria de bumba-meu boi e que a ciência européia (que eu gosto e é minha profissão) é tão somente uma das formas de conhecer, no sentido profundo do termo, a natureza.

Até lá, o que os europeus pensam ou deixam de pensar ainda vai nos importar, mesmo sendo, em si, tão desinportante. Se eles se horrorizam com os nossos pesadelos, eles ficariam petrificados com o que eu penso sobre Hitler, eugenia, Barclay e Goldman Sachs…

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Mário SF Alves

22 de novembro de 2012 às 20h42

Dentre os milhares de fatos ocorridos hoje no mundo. Entre os milhares de fatos-notícia em potencial. Dentre os milhares de fatos tristes; entre os milhares de fatos alegres, um fato mais triste que os muitíssimos outros fatos muitíssimo tristes: o agravamento do estado de saúde de Luis Fernando Veríssimo, um intelectual de verdade. Um intelectual do qual me orgulho.

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    Scan

    22 de novembro de 2012 às 21h44

    Somos dois.
    Parece que a esposa dele teve os mesmos sintomas, mas reagiu.
    Terá sido envenenamento de algum tipo?
    Realmente uma pena o LFV nesse estado.

E. S. Fernandes

22 de novembro de 2012 às 20h21

Caro Dr. Rosinha, gostaria muito de poder, um dia, ter um retrato nosso.
Não canso de conferir-te o meu voto.
Meu sincero respeito.

Mas, como aprendeu com o padre equatoriano, isso é normal entre os gorvernantes europeus: ignorância em relação aos outros; eurocentrismo; e arrogância. No fundo, penso eu, o sonho dos poderosos europeus de hoje são os mesmos dos dos seus antepassados: colonialismo.

A verdade é que estão a deriva. Perdendo, ao menos de modo relativo, mas as passos largos, importância no cenário global. Mas pior do que isso é que estão, da perspectiva social, se abrasileirando. A mentalidade colonialista europeia, contudo, segue a mesma.

Para falar a verdade, nada disso me espanta. O que me espanta são nossas elites locais, ao menos parte importante dela (como a da mídia), totalmente alinhavada com a mentalidade do complexo de vira lata, desdobramento complementar e nativo da mentalidade colonialista deles.

Sei que foi a trabalho, o que é importante. Mas nossa luta é aqui. São as oligarquias daqui que sempre querem entregar o nosso ouro para as de lá. Eles é que são os nossos adversários políticos, culturais e materiais.

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assalariado.

22 de novembro de 2012 às 18h45

Sr. Rosinha, em se tratando de esquerda e semi esquerda numa mesma mesa, fico preocupado mas, não surpreso, com esses tipo de discursos, no fundo, no fundo, em favor do capital e não do social. Os “defensores” dos assalariados e dos pobres da europa, nada mais são que trabalhadores com barriga vazia, arrotando caviar, porém, sem se aperceberem, será? É esse tipo de discurso ideologico de esquerda aburguesada que questiono, seja aonde for. Esses reacionários é a qual chamo de social democratas, travestidos de socialistas.

Os assalariados europeus e os também explorados da eurozona, se perderam no tempo e nas ideias. Não adianta falar em situação social degradante, sem antes colocar em pauta a libertinagem e a devassidão dessa ideologia macabra dos donos do capital, que hoje governam o mundo, juntos com os gerentes da vez. O Estado do bem estar social alcançado pelos paises capitalistas imperialistas, ladrões das riquezas alheia, é a razão do Estado do mal estar social em suas colonias. Brasil, incluso! Basta pegar a planilha de custos e lucros das empresas transnacionais/ multinacionais em nossas terras, assim veremos, o quão esses “esquerdistas” são e estão ignorantes, alienados e midiotizados, pelo PIG, agora, mundializado.

Oras, será que as multidões do G-7, estão tão manipulados quanto a origem da pobreza e da fome pelo mundo? Os povos e suas nações do bem estar social (G7), jamais se lembram ou se lembrarão que, o nosso Estado do mal estar nasceu devido a exploração capitalista e saqueamento imposto a outros povos/ nações, através de muito sangue derramado pelas guerras de dominação dessa ideologia burguesa, por agora, cavando suas próprias sepulturas. Pelo jeito ainda não perceberam que o governo da vez, nada mais é que, um gerente de luxo, administrador das crises do capital, que mais uma vez, as midias do capital vos ensinam ser crise de governos. Sim, o capital tem várias roupagens, esta oculto no “Estado de Direito”,também, através da carta magna. Esta é uma crise do modo de produção capitalista e que, essa situação na europa, sirva para nos alertar, quando da derrocada final do capitalismo mundial. Nessa dia, será efeito dominó.

Pelo jeito, a Eurozona, vai cair primeiro que os EUA. Assim seja!

Rumo ao Socialismo.

Responder

Antonio

22 de novembro de 2012 às 18h14

Esta é uma triste realidade, muitos “dão de dedo” e enchem o peito prá falar “do outro “, mas não olham para as próprias misérias e defeitos, este é um retrato da civilização atual, muito hipócrita e cínica.

O deputado Dr. Rosinha no Brasil e o Presidente Mujica no Uruguai são políticos que procuram viver em coerência com seus discursos, coisa muito rara hoje em dia.

Responder

Mário SF Alves

22 de novembro de 2012 às 17h45

Ora, doutor, com todo o respeito, mas, intelectual?!! Será?!! Se bem que, pensando melhor, esse filme a gente já viu e conhece bem; tivemos um príncipe deles por aqui. O que rolou, o impacto negativo causado, foi – no mínimo – um trauma de intelectual sui generis; só agora as coisas começam a entrar de novo nos eixos. Ainda bem, aos poucos a intelectualidade brasileira vai se recompondo, e a lição, tomara, seja inesquecível.

“Na exposição, o intelectual também chamou a atenção para a fome e a corrupção na América. Citou, sem dar cifras, os famélicos do continente. Ignorou, ou omitiu, as políticas públicas, principalmente do Brasil, de combate à fome e à miséria. Não satisfeito, questionei-o.”

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Roberval

22 de novembro de 2012 às 17h19

Precisa avisar para essa parcela de europeus que eles precisam olhar para dentro de si mesmos. Sem se conhecer, não reconhecerão o outro e morrerão no obscurantismo aprisionados pelos próprios egos.

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strupicio

22 de novembro de 2012 às 17h08

a crise nao é da “Europa”.. Portugal, Espanha, França, Itália, são o mundo latino, do atraso, do catolicismo retrogrado, da contra reforma e do fascismo (sim, a França tb…eles estavam mais felizes que pinto no lixo com os nazistas em casa, a historia da “resistência’ é um engodo construído a posteriori)..enfim essa parte do mundo não nos é estranha.

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Helder

22 de novembro de 2012 às 16h58

E a mais de 500 anos nós aturamos a exploração européia em nosso país, em nosso continente.

Até quando?

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