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Marcos Coimbra diz que pesquisa Datafolha “parecia de encomenda”


15/08/2012 - 16h46

Resultados de encomenda

por Marcos Coimbra

Correio Braziliense – 15/08/2012

Na primeira aula do curso de pesquisa de opinião, o aluno aprende as coisas básicas da profissão. Uma é ter cuidado com as perguntas indutivas.

É esse o nome que se dá às que são formuladas com um enunciado que oferece informação ao entrevistado antes que ele responda.

Há diversos tipos de indução, alguns dos quais muito comuns. Quem não conhece, por exemplo, a pergunta chamada de “voto estimulado”, feita habitualmente nas pesquisas eleitorais? Ela pede ao respondente que diga em quem votaria, tendo em mãos uma lista com o nome dos candidatos.

É claro que, assim procedendo, avalia-se coisa diferente do “voto espontâneo”.

Para diminuir o risco de que a indução conduza os entrevistados a uma resposta, recomenda-se evitar que o pesquisador leia nomes. Mesmo inadvertidamente, ele poderia sugerir alguma preferência, seja pela ordem de leitura, seja por uma possível ênfase ao falar algum nome. Daí, nas pesquisas face a face, o uso de cartões circulares, onde nenhum vem antes.

Essa cautela — e outras parecidas — decorre da necessidade de ter claro o que se mede. Sem ela, podemos confundir o significado das respostas.

Dependendo do nível de indução, o resultado da pesquisa pode apenas refletir a reação ao estímulo. Em outras palavras, nada nos diz a respeito do que as pessoas genuinamente pensam quando não estão submetidas à situação de entrevista.
Para ilustrar, tomemos um exemplo hipotético.

Vamos imaginar que alguém quer saber se as pessoas lamentaram a derrota da equipe de vôlei masculino na disputa pela medalha de ouro na Olimpíada. A forma “branda” de perguntar talvez fosse começar solicitando que dissessem se souberam do resultado e como reagiram — sem informar o placar.

Outra, de indução “pesada”, seria diferente. A pergunta viria a seguir a um enunciado do tipo “O Sr./A Sra. ficou triste ao saber que o Brasil perdeu para a Rússia, depois de liderar o jogo inteiro e precisar apenas um ponto para se sagrar campeão olímpico?”

Nessa segunda formulação, ela não somente induz um sentimento (mencionando a noção de “tristeza”), como oferece um motivo para ele (a ideia de ter estado perto de alcançar algo desejável).

É muito provável que os resultados das duas pesquisas fossem diferentes. Na primeira, teríamos a aferição da resposta espontânea — e mais real. Na segunda, a mensuração de uma reação artificialmente inflada. Em última instancia, fabricada pela própria entrevista.

É o que aconteceu com a recente pesquisa do Datafolha sobre os sentimentos da opinião pública a respeito do “mensalão” e seu julgamento.

Contrariando o que se esperaria de um instituto subordinado a um jornal, não deixa de ser curioso que decidisse fazer seu primeiro levantamento sobre o assunto 10 dias depois do início do processo no Supremo. Dez dias depois de ter sido pauta obrigatória nos órgãos da “grande imprensa”. Dez dias depois de um noticiário sistematicamente negativo — como aferiram observadores imparciais.

Preferiu pesquisar só depois que a opinião pública tivesse sido “aquecida”. Foi à rua medir o fenômeno produzido.

Não bastasse a oportunidade, a pesquisa abusou de perguntas indutivas, que tendiam a conduzir os entrevistados a determinadas respostas. Como diz a literatura em língua inglesa, fornecendo-lhes “pistas” sobre as respostas “corretas”.

Mas o mais extraordinário foi seu uso editorial, na manchete que ressaltava que a maioria desejava que os acusados fossem “condenados e presos”.

Parecia de encomenda: embora o resultado mais relevante da pesquisa fosse mostrar que 85% dos entrevistados sabiam pouco ou nada do assunto, o que interessava era afirmar a existência de um desejo de punição severa.
E quem se importa com o que estabelecem as normas das boas pesquisas!

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19 comentários

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Lewandowski absolve João Paulo Cunha e provoca a corte sobre os R$ 7 milhões destinados à mídia « Viomundo – O que você não vê na mídia

24 de agosto de 2012 às 23h04

[…] Marcos Coimbra diz que pesquisa Datafolha “parecia de encomenda” […]

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José Antônio

24 de agosto de 2012 às 16h57

Vou além do Marcos Coimbra para afirmar sem medo de errar, que a maioria das pesquisas desses institutos do PIG, na verdade nem chegam às ruas, essas pesquisas são feitas entre quatro paredes e eles dão o resultado que lhes convém. Nunca fui pesquisado e não conheço ninguém que já tenha participado de pesquisa, principalmente pesquisa eleitoral. O PIG se uniu para dar o golpe no único Presidente opérário que esse país já teve, com essa história de mensalão, mas o povo deu a resposta nas urnas e reelegeu LULA e, em seguida elegeu DILMA. O povo não aceita mais formadores de opinião, como bem disse o Presidente LULA, hoje o povo tem a sua própria opinião.

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Leandro Fortes: Condenar Dirceu, o único e verdadeiro drama do julgamento do “mensalão” « Viomundo – O que você não vê na mídia

20 de agosto de 2012 às 17h26

[…] Marcos Coimbra diz que pesquisa Datafolha “parecia de encomenda” […]

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Bonifa

17 de agosto de 2012 às 01h26

Joaquim Barbosa não partiu de uma visão integrada do todo do processo, absolutamente necessária para a decorrência do julgamento de cada um. Pior: Ele quer que todos os outros ministros façam como ele, aceitem esta forma absurda de julgar, e votam atrás dele a cada pedaço de voto seu, como cordeirinhos. Ele partiu diretamente para o julgamento dos réus, de um por um, dando a entender que concorda com toda a visão integrada da Procuradoria, a já célebre visão do “O mais atrevedido esquema…” . O advogado José Carlos Dias interferiu para dizer que todos os advogados estavam perplexos diante desta falta de visão integrada, mas não foi sequer ouvido. Joaquim Barbosa desprezou flagrantemente as alegações finais dos advogados. Dormiu na primeira sessão. E nas outras dava a entender que já sabia de tudo e não precisava ouvir mais nada. Nós, que estamos vendo tudo, é que já sabemos de tudo. E não precisaríamos mais ouvir o voto lamentável do lamentável ministro Joaquim Barbosa.

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    Marcelo de Matos

    17 de agosto de 2012 às 08h03

    Barbosa quis bancar Dom Quixote, mas, está agindo como Sancho Pança. O foco de sua atuação é a condenação do PT, em especial de José Dirceu. Contentar-se-ia, porém, com a condenação de João Paulo Cunha em razão dos R$ 50 mil – “lavagem de dinheiro”. Como efeito colateral (talvez indesejado pelo relator), teríamos a condenação de Marcos Valério e seus sócios, excluídos, logicamente, aquele tal Clésio Andrade, ex-governador mineiro, e o também tucano Eduardo Azeredo. Se Cunha for condenado, essa terá sido uma vitória de Pirro de Sua Excelência. O advogado Alberto Rollo, especialista em Direito Eleitoral ouvido pelo UOL, declarou que a candidatura de Cunha já está registrada no TRE/SP e, se condenado no STF, não será enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Como diria Shakespeare – muito barulho por nada.

    Marcelo de Matos

    17 de agosto de 2012 às 08h06

    Eu postei uma resposta aqui e ela não está aparecendo. Se respondo de novo aparece: Parece que você já disse isso.

Urbano

17 de agosto de 2012 às 00h36

Para quererem fazer a Nação inteira de idiota, têm de ser estreitos de juízo demais. É muita camelice.

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Jotace

16 de agosto de 2012 às 23h04

Caro Azenha,

Desculpa pelos dois temas fora de pauta. O primeiro deles é pra te agradecer e a toda a equipe responsável pelo vídeo ‘O arquipélago da música’. Maravilhoso presente, Excelente na produção, cenografia, som, reportagem e edição…Agora o segundo tema, sobre o artigo de Stédile ‘Três projetos para a América Latina’. Trata-se do comentário que segue e que, por motivos desconhecidos, não pude introduzir apesar de haver tentado duas vezes… Grato, abs, Jotace

Admirável o artigo do Stédile. Uma análise percuciente de grandes problemas da nação, a reforma agrária do MST. a exclusão do agronegócio criminoso e o que deve ser feito para a plena integração da classe trabalhadora ao justo resgate da merecida condição econômico-social. Mas tem algo especialmente profundo: a pregação dos movimentos sociais, a partir da organização e mobilização das bases, a fim de que possam ser promovidas as necessárias transformações na sociedade e nos poderes secularmente desgastados e corrompidos, cujos representantes são eleitos pelo povo. De fato, não há outro caminho que não seja o do socialismo através da mobilização popular, organizada, para que se eliminem a corrupção, o entreguismo, o alheiamento do povo brasileiro às grandes questões nacionais. Jotace

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[email protected]_2

16 de agosto de 2012 às 21h39

Duro é o Ministro Joaquim Barbosa acreditar na Veja, no PIG-PGR e na enquête da Falha…

:/

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Rodrigo Leme

16 de agosto de 2012 às 21h06

Falou, falou, falou, não fundamentou nada. Além do desvio ético sério (dá pra levar o Vox Populi a sério, sendo que o PT é um de seus maiores clientes?), ainda por cima ignora a regra de qqer um que trabalha com informação: fundamento.

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Marcelo de Matos

16 de agosto de 2012 às 20h06

Gente: o Marcos Coimbra é diretor do Vox Populi, não é? Pois tem notícia do Ibope bombando por aí: Serra e Russomano estão empatados em 26% e Hadadd subiu 3 pontos. Em segundo turno entre Serra e Russomano o segundo venceria.

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Francis

16 de agosto de 2012 às 20h04

É vivendo e aprendendo. Obrigado Mestre Coimbra.

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augusto2

16 de agosto de 2012 às 11h34

o Fato é que desde platao e socrates existiam -ou eram consideradas- no universo duas especies de pensamentos ou realidades: a Verdade e a Mentira.
De uns 300 ou duzentos anos pra cá, sao tres: a verdade, a mentira e a estatistica.

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FrancoAtirador

15 de agosto de 2012 às 20h14

.
.
O DATAFRIAS É “MAIS OU MENOS” CONFIÁVEL

Além das perguntas indutoras do instituto de pesquisa dos Frias,
chama a atenção a proposição de respostas dúbias aos entrevistados,
considerando que passíveis de dupla interpretação pela subjetividade,
isto é, entre o “sim” e o “não” há sempre o uso de um meio-termo, como “um pouco” e “mais ou menos”, deixando margem ao intérprete deduzir o que quiser, tanto positiva quanto negativamente.

Por exemplo, em relação à Presidência da República, ao STF, ao Congresso Nacional, aos Partidos Políticos e à Imprensa, o DataFrias formulou a seguinte questão:

“P.3 Você diria que confia muito, ‘CONFIA UM POUCO’ ou não confia.”

40% dos pesquisados respondeu que “CONFIA UM POUCO” no Congresso, 41% nos Partidos, e mais da metade na Presidência (52%), no STF (51%) e na Imprensa (51%).

Ora, quem “CONFIA UM POUCO” também “DESCONFIA UM POUCO”.

Parece “pouco ou muito” óbvio?
.
.
Outra proposição dos Frias, na mesma linha de pesquisa, disse respeito ao “mensalão”:

“P.4 Você tem conhecimento do caso conhecido como “mensalão”, ocorrido durante o governo Lula ?
(SE SIM) Você diria que está bem informado, “MAIS OU MENOS INFORMADO” ou mal informado sobre o mensalão ?”

Quase metade respondeu que estava “MAIS OU MENOS INFORMADO” (44%).

É como dizer que a mulher está MAIS OU MENOS grávida e que o homem é MAIS OU MENOS heterossexual.

MAIS OU MENOS VERDADE, MAIS OU MENOS MENTIRA.

É OU NÃO É?

TALVEZ…
.
.

Responder

    João

    15 de agosto de 2012 às 20h25

    seu esforço de comparar “mais ou menos informado” com “mais ou menos grávida” é de emocionar!

    é bobagem, mas o seu esforço será recompensado…

    rsrsrs

lulipe

15 de agosto de 2012 às 18h58

É como alguém da Record criticando a Globo ou vice-versa…Apenas interesses……Às vezes um pouquinho de inveja!!!!

Responder

    Bonifa

    17 de agosto de 2012 às 01h41

    Pelo visto, todo o time de Trolls foi convocado para fazer plantão. Estão afiando a língua para defenderem o Gurgel e o Joaquim.

José Balbino Almeida

15 de agosto de 2012 às 18h52

Fala com absoluto conhecimento de causa, disso ele entende muito bem, mas muito bem mesmo.

Responder

    João

    15 de agosto de 2012 às 20h22

    perfeito!

    em “pesquisa encomendada”, Marcos Coimbra é dotô!


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