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Venício Lima: Ética e credibilidade de uma profissão


03/09/2011 - 13h17

DEBATE ABERTO

Ética e credibilidade de uma profissão

Apenas algumas semanas depois do escândalo provocado pelas revelações de ações criminosas do tablóide “News of the World” na Inglaterra, o tipo de jornalismo reiteradamente praticado pela revista Veja acende uma perigosa luz amarela no campo da comunicação.

Venício Lima, na Carta Maior, em 01.09.2011

Desde o dia 7 de julho pp. a Comissão de Ética (CE) do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) tem em suas mãos um pedido de abertura de processo por violação do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros contra o jornalista Gustavo Ribeiro da sucursal de Brasília da revista Veja. O pedido foi protocolado por um dos membros da comissão que redigiu o novo Código de Ética em vigor desde 2007 e também um dos fundadores do Movimento Pró-Conselho de Comunicação Social no Distrito Federal (MPC), o jornalista Antonio Carlos Queiroz.

O pedido original tinha por base a matéria intitulada “Madraçal no Planalto” sobre a Universidade de Brasília e seu reitor, publicada na Veja com data de capa de 6 de julho.

Tanto do ponto de vista técnico como ético, a referida matéria é um exemplo acabado de mau jornalismo. Editorializada e adjetivada, a matéria não cumpre as regras elementares básicas do jornalismo e foi desmentida por “fontes” cujos nomes nela aparecem, além de ter recebido repúdio quase unânime da própria comunidade acadêmica da UnB. Mais ainda. Uma das “fontes” e articulador da matéria de Veja, conhecido adversário político do atual reitor, publicou em seu blog o seguinte post:

“Parabéns à revista VEJA por este inestimável serviço ao Brasil, mostrando o que faz o reitor Zé do MST (ligado ao PT) com a educação superior no país. Está agora na hora da oposição (DEM, PSDB e PPS) colocar a boca no trombone! — PS: Ajudei a VEJA com essa reportagem (tem uma declaração minha na 4. página), eu e mais de 20 professores, lógico que apenas alguns apareceram”.

Jornalista não sindicalizado

No dia 9 de agosto pp. a CE respondeu ao jornalista Antonio Carlos Queiroz informado haver decidido pela não abertura do processo tendo em vista que Gustavo Ribeiro “não é filiado ao SJPDF”.

Trata-se de um equívoco da CE de vez que a filiação aos sindicatos da categoria não é requisito para o exercício profissional e o Código de Ética, por óbvio, se aplica a toda a categoria, não somente aos jornalistas sindicalizados. Aliás, está escrito no próprio CE:

Art. 17. Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.

Parágrafo único – Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.

O equívoco da CE motivou um recurso impetrado pelo jornalista Antonio Carlos Queiroz no SJPDF solicitando a reconsideração da decisão.

Reincidência

Enquanto se aguardava uma resposta da CE ao recurso, o mesmo jornalista Gustavo Ribeiro, aparece novamente como um dos responsáveis por matéria aparentemente envolvendo práticas ilícitas, publicada na mesma revista Veja com data de 31 de agosto pp. Trata-se, como se sabe, de matéria de capa sob o título “O Poderoso Chefão” sobre o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que padece dos mesmos vícios da matéria anterior sobre a UnB. O jornalista está agora sendo formalmente acusado de tentativa de invasão de domicílio e falsidade ideológica pelo Hotel Naoum de Brasília, onde escritório de advocacia associado ao ex-ministro José Dirceu mantém um apartamento alugado.

Naturalmente o novo episódio envolvendo o jornalista Gustavo Ribeiro provocou o encaminhamento de um “agravo” à CE do SJPDF.

O que está em jogo?

Apenas algumas semanas depois do escândalo provocado pelas revelações de ações criminosas do tablóide “News of the World” na Inglaterra, o tipo de jornalismo reiteradamente praticado pela revista Veja acende uma perigosa luz amarela no campo da comunicação.

O Grupo Abril, ao qual pertence a revista Veja, criou recentemente o IAEJ – Instituto de Altos Estudos em Jornalismo que, em parceria com a ESPM, oferece o Curso de Pós-Graduação com Ênfase em Direção Editorial “um programa sem precedentes no Brasil, (que) tem a ambição de contribuir para a melhoria da imprensa no país”.

Por óbvio, matérias como as referidas acima não são publicadas sem o conhecimento da direção da revista e, portanto, não são de responsabilidade apenas dos jornalistas envolvidos. Trata-se de uma determinada visão de jornalismo e de seu papel que confrontam toda a retórica liberal sobre a liberdade de imprensa na democracia.

Está na hora das organizações sindicais darem o primeiro passo e aplicarem exemplarmente o Código de Ética da profissão se pretendem zelar pela dignidade profissional mínima que sustente a credibilidade dos jornalistas.

E está mais do que na hora dos próprios empresários de mídia e do Estado brasileiro dialogar sobre a inadiável necessidade de uma ampla e democrática regulação do setor. Não dá mais para “fazer de conta” que no Brasil é diferente do resto do mundo e que aqui a mídia será sempre um poder acima de todos os outros.

A ver.

Professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.

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10 comentários

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Tomudjin

04 de setembro de 2011 às 17h53

Hoje em dia até as prostitutas se prostituem.

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Silvio I

04 de setembro de 2011 às 12h21

As medidas e sanções que a SJPDF, se podem comparar com a excomunhão dada por um Bispo, a um ateu. O ateu vai morrer de dar risadas, e Gustavo Ribeiro vai fazer o mesmo, já que nem sócio ele é.O que nos necessitamos urgente, e a lei dos médios, a qual parece que já se está dando outro nome. Continuamos sendo governados por uma elite, não política si não social,que o único que interessa, são seus bolsos.Necessitamos a urgente entrada em ensina da justiça.Sabemos que ela atua si alguém, solicita que ela atue.Não existe em este pais um advogado que faça isso?Os todos estão na mesma rodinha?

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FrancoAtirador

04 de setembro de 2011 às 10h05

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A mídia oligárquica familiar mercantil

não se satisfaz em ser o quarto Poder

Ela quer ser o único e absoluto Poder.
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Maria Fulô

04 de setembro de 2011 às 08h05

"E está mais do que na hora dos próprios empresários de mídia e do Estado brasileiro dialogar sobre a inadiável necessidade de uma ampla e democrática regulação do setor"

Brincou, né? Pois se a matéria toda desemboca justamente na visão de jornalismo deturpada dos donos e não (somente) dos jornalistas, como é que se vai dialogar com essa gente? Aqui no Brasil, o chamado PIG, que se auto-denomina um partido de oposição, não faz o que faz por falta de diálogo e sim por vontade política. Estão engajados organicamente no PSDB (e seu interlocutor preferencial é José Serra) e isso significa forjar, mentir, inventar "reportagens" apenas para reforçar a percepção de que o PT e os trabalhadores não são qualificados para dirigir a Nação. Com essa legislação que aí está, é muito facil para eles fazerem o que bem entenderem e nem desculpas pedir. Isso tem que acabar e a hora é agora…

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    marcelo

    04 de setembro de 2011 às 13h01

    É importante sempre evidenciar o conflito entre os interesses dos grupos de mídia e os interesses de uma população que parece querer avançar na realização de seus direitos e tornar-se senhora de seu destino. Agora, sem trazer essa massa para dentro desse conflito, corre-se o risco de apenas obter um "acordão". Esse não seria um desfecho de todo ruim para essas corporações comerciais de mídia. Talvez até faça parte da estratégia deles… A pergunta que não cala é: estamos vivendo um processo que requer abordagem reformista ou revolucionária?

Tartufo da Silva

04 de setembro de 2011 às 07h37

"It`s now or never" famosa adaptação americana do "Sole mio" para Elvis, é a ordem do dia para enquadrar o PIG. Obrigado VEJA por ser o que é e ter permitido que o processo conhecido como "ley de medios" se inicie. Liberdade de Imprensa existe para favorecer o leitor e não o dono do jornal.

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FrancoAtirador

03 de setembro de 2011 às 20h32

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O Godfather Civita e seus afilhados, e afiliados, vão deixando um rastro de crimes por onde passam.
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Responder

Leider_Lincoln

03 de setembro de 2011 às 18h01

A Veja afinal de contas, precisava de um jornalista do mesmo nível [evidentemente não é um elogio] de Diego Escotesguy (http://mariafro.com.br/wordpress/2010/09/12/igual-ao-audio-do-grampo-do-senado/)...

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Renato Lira

03 de setembro de 2011 às 15h00

A mídia-esgoto, na defensiva, parte pro ataque e já tá falando em "ataque a liberdade de imprensa" e "PT quer regular a mídia".

Já vi no MSN e ouvi na CBN.

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