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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Rolf Kuntz: Indústria está sendo corroída por doença brasileira

22 de março de 2012 às 13h44

por Rolf Kuntz, no Estadão, sugestão de Bruno Delazari 

Não há doença holandesa por aqui. A indústria do Brasil está sendo corroída por uma doença inequivocamente brasileira. Longe de ser uma praga, como em outros países dotados de recursos naturais, a exportação de produtos básicos tem sido uma bênção para um país assolado por uma combinação de paralisia política, fisiologismo, populismo e incompetência governamental.

Exemplo de entrave político: se tivesse o apoio de uma base decente e confiável, o governo federal conseguiria facilmente, por exemplo, encerrar a guerra dos portos, uma versão degenerada do conflito fiscal entre Estados. Essa guerra é movida por meio de incentivos à importação, um estúpido protecionismo às avessas. Resultado: concorrência predatória e exportação de empregos.

Para renunciar a essa aberração, governadores cobram, com apoio de suas bancadas, compensação do poder central, como se estivessem negociando um direito. Essa é uma boa ilustração dos problemas enfrentados pelo Executivo no lodaçal político de Brasília – ampliado e aprofundado pelo próprio governo federal com sua estratégia de alianças com os piores.

Mas o governo tropeça e escorrega mesmo sem a colaboração de seus aliados e de um Congresso pouco envolvido com as questões de interesse nacional. Peca, em primeiro lugar, pela demora em reconhecer os problemas importantes. Erra, em seguida, quando tenta contornar a agenda necessária para tornar o País mais eficiente. Pressionado pelos fatos, acaba agindo. Age na direção certa, mas de forma incompleta, como quando se dispõe a eliminar os encargos sobre a folha de salários. Age também na direção errada, quando amplia o protecionismo e quando negocia, por exemplo, cotas para a importação de veículos mexicanos. É grotesco impor ao México um acordo semelhante àqueles impostos pelo governo argentino ao Brasil. Isso nunca melhorou a indústria argentina, nem tornará mais eficiente a indústria brasileira. É apenas malandragem barata, uma forma de contemporizar e evitar um trabalho mais sério.

Enquanto o governo, sob pressão, tenta resolver com ações de pequeno varejo problemas do atacado, os sinais de alerta se acumulam, cada vez mais assustadores. Do começo do ano até 18 de março, o valor exportado, US$ 45,6 bilhões, foi apenas 6,4% maior que o de um ano antes, enquanto o gasto com a importação, US$ 44,4 bilhões, foi 9,7% superior ao de igual período de 2011. Embora os consumidores se mostrem mais cautelosos, a demanda interna continua avançando mais velozmente que a oferta de bens industriais.

A diferença, como no ano passado, continua sendo compensada pela importação. Sem isso – é sempre bom lembrar -, a pressão inflacionária seria muito mais forte. O Banco Central teria maior dificuldade para proporcionar a redução de juros desejada pela presidente da República e cobrada com insistência por dirigentes da indústria e seus aliados do neopeleguismo trabalhista.

Mas atribuir os males da produção brasileira principalmente à taxa Selic e ao câmbio é quase uma demonstração de fetichismo. O câmbio é relevante, sem dúvida, mas há informações mais que suficientes sobre o descompasso entre a produtividade brasileira e a de países tanto emergentes quanto desenvolvidos. No ano passado, a economia brasileira cresceu menos que a alemã, a indonésia, a coreana, a mexicana, a turca e, obviamente, a chinesa e a indiana. O Brasil também cresceu menos que todos os países da América do Sul e da América Central, com exceção de El Salvador, segundo estimativa preliminar da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). Vários desses países também foram afetados pela valorização cambial.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acaba de fornecer novos dados sobre o desempenho comercial do setor em 2011. Segundo o levantamento, as importações supriram 19,8% dos bens industriais comercializados no mercado interno. Esse coeficiente, um recorde, foi 2 pontos porcentuais superior ao de 2010. Também o coeficiente de exportação aumentou 2 pontos e chegou a 19,8%, mas esse avanço resultou principalmente do bom desempenho do setor extrativo. No caso da indústria de transformação, o peso das exportações ficou em apenas 15%, 6,6 pontos abaixo do nível atingido em 2004.

Atribuir o enfraquecimento da indústria ao bom desempenho do agronegócio e da mineração, como se isso explicasse o problema cambial e toda a perda de competitividade das manufaturas, é uma evidente fantasia. Não tem sentido falar de doença holandesa. A mineração e o agronegócio acumularam competitividade durante anos e são relevantes na cadeia produtiva da indústria. A doença econômica é brasileira, mesmo, e seu foco principal é Brasília.

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12 Comentários escrever comentário »

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Marat

23/03/2012 - 11h50

O Rolf Kuntz sempre escreveu e escreve em meios de comunicação da direita. Lógico que ele jamais escreveria algo favorável ao PT ou qualquer outro partido dito de "esquerda". Por outro lado, não consigo entender direito essa gente: Quando um governo dito de esquerda abre tantas e tantas concessões para a direita, ele ainda continua sendo massacrado? Que mais eles querem, a cúpula do PSDB/PFL no primeiro escalão, para lamber as botas dos donos dos mercados mundiais?

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Anônimo do Prado

22/03/2012 - 20h43

Grande Rolf Kuntz. Espero que o próximo seja Sardenberg.

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damastor dagobé

22/03/2012 - 20h06

agora..que tem algo muito errado em continuarmos exportando café em grão..e importando café moído..isso tem

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Sami

22/03/2012 - 19h30

Ué, mas o Estadão não faz parte da imprensa golpista?

Ah esses pogreçistas. Só é imprensa golpista quando dizem o que eles não gostam de ouvir.

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Francisco

22/03/2012 - 19h01

E o pré-sal ainda nem começou a "bombar"…

O que os giovernos petistas (o anterior e esse) precisam enfiar na cabeça é que o golpe foi em 1964 (meados do século passado). A sociedade brasileira é outra e se as providências forem discutidas, tomadas e divulgadas adequadamente, SEJAM QUAIS FOREM, o povo sustentará os mandatos que elegeu. Sem medo de ser feliz. Ponto final!

O PT tem medo até de dar pum! Assim fica dificil!! É medo de clube de oficial (da reserva!), é medo do PMDB, é medo da banca internacional, é medo de governador oligarca, é medo da rede Globo…

O PT tem que ter medo é de quem o elegeu!!!

As coisas certas a serem feitas são sabidas e ressabidas, cabe transformar, pô!

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Leonidas de Souza

22/03/2012 - 18h43

Como atacar os grandes problemas estruturais com um Congresso que só pensa em fazer política e defender seus próprios interesses e com a ajuda da grande Mídia politizada e que também só pensa em eleições.
O governo bem que esta fazendo um esforço tremendo para melhorar a gestão pública, trocando políticos por administradores sempre que possível.
Nosso Congresso perdeu a já pouca vergonha na cara e partiu para a chantagem mais que explicita.
Por mais que falem mal das Medidas Provisórias, o verdadeiro poder esta nas mãos do Congresso, privilégio concedido pela Constituição de 1988, cuja inspiração era o regime parlamentarista. Ficamos com o pior dos dois mundos.
Como fazer uma Reforma Tributária se os governadores não conseguem se entender em apenas um imposto, o ICMS. Nem vou falar da divisão dos royaltes do petróleo que já virou ameaça de guerra inter estadual.

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Carlos Malaquias

22/03/2012 - 17h04

Como assim a selic não tem nada a ver com o desempenho da indústria? É o óbvio ululante da economia que juros elevados significam baixo investimento no setor produtivo. Com retornos elevados e garantidos oferecidos pelo governo, que empresário (homo economicus) arriscará recursos nas plantas industriais? Que incentivo têm os bancos para baratear os empréstimos? E sem dinheiro correndo para o setor de produção, como garantir produtividade? O caminho "certo" (seria mais fácil?) é diminuir os encargos sobre o trabalho do que reduzir o rentismo. Simples assim.

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Remindo Sauim

22/03/2012 - 16h54

Continuo afirmando. Toda esta choradeira é para os industriais mamarem nas tetas do governo. Eles mesmos é que trazem os produtos da China e depois botam a culpa no governo. Choradeira simples e pura.

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jaime

22/03/2012 - 16h51

Pau Brasil, açúcar, ouro, café, agora soja e mineração. Não esquecer do petróleo, sim. Manufaturados de alta tecnologia, lá por 2 mil e oitocentos (talvez). A antiga União Soviética tinha o programa espacial, metalurgia pesada, tecnologia armamentista de ponta; para o reles consumidor, nada. E deu no que deu.

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Willian

22/03/2012 - 15h43

Luz, afinal!

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leandro

22/03/2012 - 15h25

Corretíssimo. O governo tem que parar de tapar o sol com a peneira e agir antes que nos tornemos uma grande fazenda com algumas minas extrativistas, aí o desemprego vai vir e forte. Agronegócio e extrativismo não gera grande número de empregos e ainda assim, o que gera é em sua maioria de baixa especialização.

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