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Mike Whitney: Itália vai afundar, levando junto a zona do euro?


24/11/2011 - 15h17

November 23, 2011

Rombos na zona do euro

Além do ponto de não-retorno

por Mike Whitney, no Counterpunch

As demandas dos bancos da zona do euro por fundos do Banco Central Europeu atingiram o recorde dos dois últimos anos na terça-feira, no momento em que as preocupações com a dívida soberana [isto é, dívidas de governos] se espalham rapidamente, deixam os mercados praticamente congelados e o BCE se torna a única opção de financiamento para muitas instituições.

– Reuters, 22 de novembro, Frankfurt

O Banco Central Europeu continuou a comprar papéis italianos na terça-feira em uma tentativa de acalmar os mercados e reduzir a fuga de capital da Europa. As taxas de risco das dívidas italiana e espanhola continuaram a crescer, aumentando o custo dos empréstimos para os estados endividados. Ao mesmo tempo, o custo de emprestar em euros no mercado interbancário permaneceu em taxas elevadas, enquanto a medida de stress dos mercados de crédito (Libor) atingiu seu ponto mais alto desde julho de 2010. O que começou como um fogo no perímetro (Grécia) se transformou em um inferno que ameaça consumir a zona do euro.

Aqui está um trecho da newsletter da Roubini Global Economics:

“A dinâmica da dívida italiana se tornou insustentável, com as perspectivas de crescimento bem menor que o esperado e a elevação dos custos para emprestar. Depois de uma forte queda na confiança do mercado e de uma ‘greve’ dos compradores, acreditamos que a Itália será forçada a reestruturar sua dívida soberana. O ambiente de crescente incerteza política na Itália tornou o país incapaz de enfrentar os desafios atuais… Acreditamos que a Itália passou do ponto de não-retorno e será forçada a fazer uma reestruturação de sua dívida talvez ainda em 2012”.

(“Italy: Too Little, Too Late”, Katharina Jungen, Mark Willis, David Nowakowski and Megan Greene, Roubini Global Economics)

Enquanto os bancos têm acesso “ilimitado” aos fundos do Banco Central Europeu, países em crise como a Itália e a Espanha dependem de compras imprevisíveis de seus papéis soberanos no mercado secundário. A dívida soberana da União Europeia não é explicitamente garantida pelo BCE, como são os papéis do Tesouro dos Estados Unidos, garantidos com “crédito e fé completas” pelo Tesouro estadunidense. A fuga de capitais do mercado de papéis da União Europeia prova que os investidores estão mais preocupados com o calote do que com inflação. O que eles querem é alguma garantia de que vão receber seu dinheiro de volta, se todo ele ou não é secundário. O BCE se nega a dar a garantia, o que torna a crise ainda pior.

Deu na Businessweek:

“Os custos de empréstimos para os espanhóis atingiram o recorde dos últimos sete anos, no momento em que o país não conseguiu vender todos os papéis de 10 anos que ofereceu em um leilão… ‘Foi a pior semana da crise da dívida soberana europeia’, Nicholas Spiro, diretor-gerente da Spiro Sovereign Strategy, de Londres, disse numa entrevista à Bloomberg… ‘O contágio está se espalhando como fogo. Não há mais compradores privados para as dívidas italiana e espanhola'”.

(Businessweek)

A liquidez continua a sumir, com os bancos colocando mais de seus fundos no BCE. Isso detonou um congelamento dos empréstimos que certamente vai causar recessão em 2012 ou mais cedo. Os mercados de empréstimos fecharam as torneiras, reduzindo o fluxo de dinheiro para os bancos europeus pela metade só no último ano. Os sinais de um completo aperto do crédito são visíveis em todo lugar. Ainda assim, a Alemanha continua a bloquear a solução que poderia melhorar a situação e acalmar os mercados, que seria permitir ao BCE dar garantias aos papéis da dívida soberana.

Jens Weidmann, membro do BCE e chefe do Bundesbank, da Alemanha, resumiu assim a posição alemã:

“‘O BCE iria além de seu mandato e colocaria em questão sua legitimidade e independência ao assumir o papel de garantidor de último recurso para uma série de estados-membros endividados’, disse Weidmann. Os bancos da União Europeia emprestaram mais de U$ 500 bilhões do BCE, ‘mas dados demonstram que dois terços daquele dinheiro está sendo depositado de volta no BCE'”.

(Reuters)

Isso é indicação de que o mercado onde os bancos pegam financiamento para fazer empréstimos de curto prazo não está mais funcionando direito. Assim, os bancos estão trocando seus créditos por dinheiro do banco central, mas deixam o dinheiro no BCE, na expectativa de que as coisas vão piorar.

De acordo com a Bloomberg:

“‘Os depósitos de bancos estrangeiros no Banco Central [dos Estados Unidos] mais que dobraram para U$ 715 bilhões, de U$ 310 bilhões no fim de 2010, em meio à crise da dívida na Europa, melhorando o status do dólar como moeda de reserva… As pessoas estão correndo para o dinheiro porque notam que há alguma dificuldade no mercado de financiamento dos Estados Unidos’, no momento em que os bancos se livram de seus bens em euro, disse Cahrles St-Arnaud, um estrategista do Nomura Holdings Inc., de Nova York, em uma entrevista por telefone no dia 14 de novembro”.

(Bloomberg)

Assim, as taxas de risco dos papéis estão aumentando, os mercados de crédito estão em crise e o BCE mantém uma política que abre caminho para a catástrofe. O que virá em seguida? Aqui, mais um trecho do relatório do Roubini:

“Não esperamos que a Itália seja capaz de reagir a tempo para enfrentar seu problema da dívida com uma consolidação fiscal adequada e um plano de reforma estrutural. O alto grau de incerteza política tornou o país incapaz de enfrentar seus desafios atuais, como resultado os mercados perderam toda a confiança na Itália… Pelo próximos anos… a Itália e os pequenos países da periferia teriam de implementar reformas dolorosas e esperar por crescimento, com graus variáveis de sucesso. Fracasso em alguns anos exigiria nova reestruturação, e àquela altura os botes de resgate para o fim da zona do euro podem ter sido lançados”.

(“Italy: Too Little, Too Late”, Katharina Jungen, Mark Willis, David Nowakowski and Megan Greene, Roubini Global Economics)

Se a Itália falir, então a zona do euro vai enfrentar um colapso desordenado que vai terminar em uma depressão de vários anos, pontuada por crescente tumulto social.

Ninguém percebeu que isso estava a caminho? Ninguém previu que uma união monetária sem instituições políticas e fiscais tradicionais (isto é, um executivo, um congresso, um judiciário, um departamento de tesouro, um mercado de ações) enfrentaria problemas que poderiam se mostrar insuperáveis, levando à dissolução da união?

Na verdade, a maioria dos economistas questionados numa pesquisa da Reuters, em 1998 (antes do lançamento do euro), identificou os problemas que uma união enfrentaria. Aqui está um trecho da Reuters que demonstra isso:

“Mais de uma dúzia de anos atrás, quando a moeda única europeia nasceu, uma pesquisa Reuters com economistas mostrou que muitos estavam bem cientes dos problemas que hoje ameaçam o euro… ‘Eu estava consciente do problema de ter uma união monetária sem uma união fiscal e escrevi sobre o fato de que baixas taxas de juros para a periferia poderiam criar um boom, mas o que aconteceria quando a bolha estourasse?’

Os economistas escolheram três cenários como os mais prováveis para ameaçar a existência da zona do euro: a saída de um dos membros; resistência nacional contra maior união política; e o perigo de que uma política monetária para todos criasse problemas econômicos… Os orçamentos da periferia da zona do euro eram uma preocupação antes do lançamento do euro…

Uma pesquisa da Reuters de julho de 1998 mostrou que 34 dos 42 economistas ouvidos apoiavam as opiniões dos presidentes do Banco Central Europeu e do Bundesbank [Banco Central alemão] na crença de que as políticas fiscais de alguns países estavam muito descontroladas antes da adoção da moeda única. Os entrevistados também foram consultados sobre os países cujas políticas fiscais estavam muito relaxadas antes do lançamento do euro. Liderando a lista apareceram Irlanda, Espanha e Itália”.

(“Euro zone flaws were clear before its launch: Reuters polls”, Reuters)

Dá para acreditar?  A maioria dos especialistas foi capaz de prever todo o cenário desastroso antes que o primeiro euro fosse impresso, a ponto de identificar os países que eram os mais prováveis causadores de problemas.

Então, por que os definidores da política desconheceram os alertas e foram adiante de qualquer maneira?

Bem, porque é o que as corporações e os gigantes das finanças queriam; um mercado único, com baixo custo de transação. Custos menores significavam lucros maiores e este é o nome do jogo. Infelizmente, maiores lucros não são garantia de viabilidade do sistema. Atualmente, a zona do euro está em fase de derretimento, porque o sistema existente não funciona e não há forma de consertá-lo sem maior integração política. Até agora, não há nenhum movimento nessa frente.

MIKE WHITNEY lives in Washington state. He is a contributor to Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion, forthcoming from AK Press. He can be reached at [email protected]

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7 comentários

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Sebastiana

24 de novembro de 2011 às 22h28

A esquerda e sua conhecida incompetência e demagogia barata estão mesmo destruindo a europa.

Responder

    Jorge Nunes

    26 de novembro de 2011 às 17h10

    Que saiba a esquerda nunca governou a Itália…
    O Berlusconi é da direita, acho que você votaria nele.

lauro oliveira

24 de novembro de 2011 às 22h08

Isto me remete aos anos 80 ano auge do Reaganomics, meu amigo Dâmaso me lembrava que dolar era só papel. Algum dia poderia perder seu valor, da mesma forma como era inflado naqueles dias. Demorou.

Responder

Bonifa

24 de novembro de 2011 às 19h10

Quem pariu Mateus que o embale. Botaram lá o Supermário, pois agora têm que manobrar os cordões com todo o cuidado, senão a marionete desaba.

Responder

Hans Bintje

24 de novembro de 2011 às 18h06

É o sexo, sempre o sexo…

Um pouco de história ( http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMost… ):

"Berlusconi era o festivo festeiro com uma corte de mulheres subservientes.

Ao longo de seus 17 anos de 'reinado', o empresário ofuscante, dono de um império midiático que sufocou o espaço da informação na Itália, foi aos poucos se revelando o ridículo protagonista de uma ópera bufa, com suas festas bunga-bunga, seus abusos de poder, mas que assim mesmo capitalizava um certo machismo eufórico da direita italiana: era o homem forte, o que trouxera 'estabilidade' à cena política, o que projetava uma imagem de uma 'Itália triunfante'.

Deu no que deu. Na bipolaridade do humor político, depois da euforia vem – não a bonança, mas a depressão. (…)

Por essas e por outras, Berlusconi e sua Força Itália querem que o asceta Mário Monti desempenhe suas funções de consolidar o purgante na economia e na política italianas – as medidas recessivas impostas pelo Consenso de Bruxelas – e deixe o poder rapidamente, convocando eleições. A mesma idéia tem a Liga Norte, embora por motivos um pouco diversos: Umberto Bossi pensa que, com mais tempo, inclusive com influência no governo, o Partido Democrata (PD) e a coalizão de partidos que lidera poderão se organizar melhor. Uma eleição antecipada não deixaria espaço para tanto. Ao mesmo tempo, uma Força Itália abalada favoreceria o crescimento da Liga Norte dentro do próprio campo da direita.

O PD deseja o contrário: que Monti ocupe o resto do mandato de Berlusconi, até 2013. Poderia assim se reorganizar participando do governo. De início, Monti parece pensar dessa forma, alegando que eleições prematuras poderiam continuar 'desestabilizando' a Itália, com resultados fatais para a Zona do Euro e a União Européia como um todo.

É nesse quadro depressivo que Monti prometeu nomear seus doze apóstolos da recessão. Que podem, por isso mesmo, revelarem ser não apenas os quatro, mas os doze cavaleiros do Apocalipse."

Responder

FrancoAtirador

24 de novembro de 2011 às 16h50

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SENSACIONAL!!!
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Como um grego ensina a um alemão a História das dívidas

Por João José Cardoso, no Aventar.eu

Um cidadão alemão escreveu uma carta aberta aos gregos, publicada na revista Stern.
Um grego, Georgios P. Psomas respondeu-lhe pondo os pontos em todos os iis.
Ambas foram traduzidas pelo Sérgio Ribeiro e encontrei uma versão em inglês.
Esta roca de correspondência já data de 2010.
Georgios conta-nos aquilo que toda a imprensa europeia cala.
Merece ser lida, sobretudo por todos aqueles que têm tratado os gregos como culpados de tudo, incluindo o pecado original. e vou aqui transcrever os dois textos:

http://aventar.eu/2011/11/07/como-um-grego-ensina

Responder

Clemente

24 de novembro de 2011 às 15h30

Taí o estado em que aquele coisa ruim do berlusconi deixou a velha Itália. O maluf italiano, debochado, inescrupuloso, mafioso, foi lá colocado pelos italianos, afinal Mussolini também o foi o que mais uma vez prova que não há democracia sem um povo esclarecido, atuante.consciente.

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