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Amy Goodman: Os 99% que ocuparam Wall Street


01/10/2011 - 01h19

Internacional| 30/09/2011 | Copyleft

Os 99% que ocuparam Wall Street

Duas mil pessoas ocuparam Wall Street no dia 17 de setembro. A sua mensagem era clara: “Somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”. Se dois mil ativistas do movimento conservador Tea party se manifestassem em Wall Street, provavelmente haveria a mesma quantidade de jornalistas cobrindo o acontecimento. Mas o interesse da mídia em divulgar protestos contra Wall Street parece ser bem menor. O artigo é de Amy Goodman.

Amy Goodman – Democracy Now, via Carta Maior, sugerido pelo Franco Atirador

Se dois mil ativistas do movimento conservador Tea party se manifestassem em Wall Street, provavelmente haveria a mesma quantidade de jornalistas a cobrir o acontecimento. Duas mil pessoas ocuparam de fato Wall Street no dia 17 de setembro. Não levavam cartazes do Tea party, nem a bandeira de Gadsden com a serpente em espiral juntamente com a ameaça “Não te metas comigo”. Mas a sua mensagem era clara: “Somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”, diziam. Ali estava uma maioria de jovens a protestar contra a especulação praticamente incontrolável de Wall Street, que provocou a crise financeira mundial.

Um dos multimilionários mais conhecidos de Nova York, o presidente da Câmara, Michael Bloomberg, comentou sobre o momento que vivemos: “Muitos jovens saem da universidade e não encontram trabalho. Foi isso que aconteceu no Cairo e em Madri. Não queremos este tipo de distúrbios aqui”. Distúrbios? A Primavera Árabe e os protestos na Europa trataram-se disso?

É provável que, para desilusão do presidente da Câmara Bloomberg, o que aconteceu no Egito e na Europa seja justamente o que inspirou muitas pessoas a ocupar Wall Street. Em comunicado recente, a coligação de organizações que protestam em Nova York informou: “No sábado, realizámos uma assembleia geral com duas mil pessoas. Na segunda-feira, às 20h, ainda estávamos ocupando a praça, apesar da constante presença policial. Estamos construindo o mundo que queremos, tomando por base as necessidades humanas e a sustentabilidade, no lugar da ganância das empresas”.

Falando de Tea Party, o governador do Texas, Rick Perry, tem provocado polêmica durante os debates presidenciais republicanos com a sua declaração de que o elogiado sistema de segurança social dos Estados Unidos é “um esquema do tipo Ponzi”. Charles Ponzi dedicou-se a fraudar milhares de pessoas em 1920 com a promessa enganosa de que receberiam enormes ganhos a partir de investimentos. Um típico esquema Ponzi consiste em tomar o dinheiro de vários investidores e pagá-los com o dinheiro de novos investidores, em vez de pagar a partir de ganhos reais. O sistema de segurança social dos Estados Unidos é de fato sério: tem um fundo confiável de mais de 2,6 mil milhões de dólares. O verdadeiro esquema que ameaça o povo norte-americano é a insaciável ganância dos bancos de Wall Street.

Entrevistei um dos organizadores do protesto “Ocupemos Wall Street”. David Graeber é professor em Goldsmiths, Universidade de Londres, e é autor de vários livros. A sua obra mais recente é “Dívida: os primeiros 5.000 anos”. Graeber assinala que, no meio da crise financeira de 2008, renegociaram-se dívidas enormes de bancos. No entanto, pouquíssimas hipotecas receberam o mesmo tratamento. Graeber disse: “As dívidas entre os mais ricos ou entre governos podem sempre ser renegociadas e, de fato, sempre foi assim na história mundial. Não estão gravadas em pedras. Em termos gerais, quando os pobres têm dívidas com os ricos, automaticamente as dívidas convertem-se numa obrigação sagrada, mais importante do que qualquer outra coisa. A ideia de renegociá-las é impensável”.

O presidente Barack Obama propôs recentemente um plano de criação de emprego e maiores esforços para reduzir o défice público. Uma das propostas é o chamado “imposto sobre os milionários”, que conta com o apoio do multimilionário e partidário de Obama Warren Buffet. Os republicanos denominaram o imposto de “guerra de classes”.

Graeber explica: “Durante os últimos 30 anos vimos os mais ricos da nossa sociedade liderarem uma guerra política contra todos os demais, e esta é considerada a mais recente disputa, uma medida totalmente disfuncional do ponto de vista político e económico. Esse é o motivo pelo qual os jovens simplesmente abandonaram qualquer ideia de recorrer aos políticos. Todos sabemos o que acontecerá. Os impostos de Obama são uma espécie de simulação com carácter populista, que todos sabem que será rechaçado. Na realidade, o que provavelmente vai acontecer é que haverá mais cortes nos serviços sociais”.

Lá fora, na manhã fria de quarta-feira, os manifestantes iniciaram o quarto dia de protestos com uma marcha no meio de forte presença policial. Fizeram soar a campainha de abertura da “bolsa do povo” às 9h30, exactamente na mesma hora em que soa a campainha da Bolsa de Nova York. Enquanto os banqueiros continuam seguros dentro dos seus bancos resgatados, lá fora, a polícia prende manifestantes. Num mundo justo, com uma economia justa, caberia perguntar: quem deveria estar passando frio lá fora? Quem deveria ser preso?

(*) Artigo publicado em “Democracy Now” em 22 de Setembro de 2011. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Texto em espanhol traduzido para o português por Rafael Cavalcanti Barreto, e revisto por Bruno Lima Rocha para Estratégia & Análise

Leia também:

A ocupação da Praça da Liberdade, em Washington

Mike Whitney: O castelo de cartas está desabando





16 comentários

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A rotina golpista de uma imprensa voraz « Blog do EASON

23 de outubro de 2011 às 15h40

[…] A fatia brasileira das elites brancas – que passaram a ser chamadas mundialmente de “1%” (veja aqui) têm aquele velho rancor do PT pelas últimas 3 eleições perdidas. E como a sardinha da […]

Responder

Antonio Carlos de O.

06 de outubro de 2011 às 21h36

Sensacional, vibrante, essencial o blog.

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FrancoAtirador

02 de outubro de 2011 às 11h32

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#OccupyWallStreet

EUA: Protestos em Wall Street contra a polícia e situação económica do país

[youtube aN7-al4I5Ts http://www.youtube.com/watch?v=aN7-al4I5Ts youtube]

Foram mais de mil os que se juntaram a protestar na Big Apple.

O movimento já batizado de “ Ocupar Wall Street” dura há cerca de quinze dias. A crise económica, os resgates financeiros de 2008 e o elevado desemprego estão na base das reivindicações.

“A economia está a chocar contra nós todos.

As pessoas estão a morrer de fome e não têm trabalhos. Andamos pelas ruas de Manhattan e há mais pessoas sem-abrigo do que podíamos imaginar. O mal-entendido disto tudo é que a América pensa que nós estamos bem. Mas nós não estamos bem. Mais pessoas precisam de se juntar, como estamos a fazer aqui, pelos nossos direitos e pelo que merecemos como seres humanos”.

O movimento já passou pelo centro da cidade e tem como destino o departamento de polícia de Nova Iorque, depois de há uma semana a revolta se ter inflamado com a detenção de 80 pessoas, na sequência dos protestos que já duram há 15 dias.

EuroNews
01/10 11:03 CET

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FrancoAtirador

02 de outubro de 2011 às 11h22

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Polícia prende 700 pessoas em protesto contra bancos em Nova York

Mais de 700 pessoas foram presas em Nova York quando protestavam contra o que chamam de "ganância do sistema financeiro" no sábado.

Os manifestantes do protesto Occupy Wall Street (algo como "Ocupem Wall Street", o coração financeiro nova-iorquino) cruzavam a ponte do Brooklin quando foram detidos pela polícia.

"Não é justo que nosso governo ajude as grandes corporações e não as pessoas", disse à BBC um dos manifestantes, Henry-James Ferry.

Ele contou que soube do protesto quando, um dia, deparou-se com uma manifestação do movimento. Indignado com a situação, resolveu "voltar para protestar todo dia".
Centenas de manifestantes permanecem ocupando a região de Zuccotti Park, localizada não muito longe de Wall Street.
Em apoio, uma série de pequenos protestos também foram realizados em outras cidades americanas.

Na sexta-feira, cerca de 2 mil pessoas do movimento já haviam se dirigido em passeata para protestar contra a repressão policial aos protestos.

"Não somos anarquistas. Não somos vândalos. Sou um homem de 48 anos de idade", queixou-se um dos manifestantes, Robert Cammiso, para a BBC.

"Este não é um protesto contra a polícia de Nova York. É um protesto de 99% da população contra o poder desproporcional de 1% que controla 50% da riqueza do país."

BBC Brasil
Atualizado em 2 de outubro, 2011 – 07:54 (Brasília) 10:54 GMT

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Roberto Takata

02 de outubro de 2011 às 02h48

Presidente da Câmara é mesma coisa que prefeito em NYC?

[]s,

Roberto Takata

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Francisco

02 de outubro de 2011 às 02h08

Genial (e sinal dos tempos…) é Nova York aprender a fazer democracia com o Cairo…

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José de Almeida

02 de outubro de 2011 às 02h08

Não é hora de apoiarmos esses rebeldes e bombardearmos os Estados Unidos, para livrar o povo norte-americano de 30 anos da ditadura dos banqueiros?

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SILOÉ-RJ

02 de outubro de 2011 às 00h28

WALL STREET!!!! Agora a praça TAHRIR é aqui!!!

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FrancoAtirador

01 de outubro de 2011 às 22h03 Responder

FrancoAtirador

01 de outubro de 2011 às 21h40

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Polícia de Nova York detém 80 pessoas em protestos contra a crise

A Polícia de Nova York prendeu 80 pessoas que protestavam com o movimento chamado "Occupy Wall Street", neste sábado (24). A manifestação contra a crise econômica não é única ação no país. Há pouco mais de uma semana acontece um acampamento no sul de Manhattan contra o sistema financeiro americano, a corrupção e a "avareza" das companhias dos EUA..

As detenções deste sábado aconteceram em uma praça central do sul da cidade, Union Square, onde também a polícia da cidade tinha desdobrado vários agentes.

Segundo os organizadores do protesto, citados por "The New York Times", os detidos são 85 pessoas. Deles, cinco disseram que tinham sido borrifados com spray de pimenta. As manifestações foram coordenadas por um grupo de ativistas nova-iorquinos denominado "General Assembly", informa esse jornal.

A maioria dos "indignados" nova-iorquinos que protesta contra a crise econômica global permanece acampada em dois parques privados do sul da cidade, onde podiam ficar se tivessem a autorização de seus proprietários.

Após os incidentes, vários manifestantes voltaram para suas zonas de camping, segundo o jornal nova-iorquino.

Esta semana foram detidas outras 16 pessoas por terem pintado grafitis ou usarem máscaras como a que aparece no filme "V de Vingança" (2006), pois segundo um porta-voz oficial, a lei do estado de Nova York que data de 1845 proíbe que duas ou mais pessoas usem máscaras em uma mesma concentração.

E os EUA ainda afirmam ser o país da democracia que libertará o Oriente Médio de ditadores e ditaduras… Pelo visto a máxima americana só vale mesmo nos filmes de Hollywood!

[youtube rxnQFO6048M http://www.youtube.com/watch?v=rxnQFO6048M youtube]

Lawrence O´Donnel, apresentador de uma emissora de TV alternativa, mostra em seu programa “The last World” a cena de um jovem sendo agredido. Ele questiona: “Por que os policiais estão batendo neste rapaz?”

Em seguida, Lawrence reapresenta a mesma cena em câmera lenta e explica: “Os policiais estão batendo no jovem porque ele está armado com uma câmera de vídeo”. Outra cena do programa mostra duas mulheres gritando muito após terem sido atingidas por spray de pimenta. Lawrence condena a brutalidade: “As pessoas são inocentes, pacíficas, não podem ser agredidas nem presas”.

O que causa espanto ainda maior, acrescenta o jornalista, é a falta de reação de quem assiste ao espetáculo de horror de braços cruzados. “Ninguém faz nada a favor dessas pessoas”, denuncia, afirmando que a violência policial contraria a lei, é crime. Diz ainda que a ação policial tem uma explicação: o governo sabe que a manifestação não terminará enquanto a população nas ruas não for ouvida.

Um internauta posta o programa de Lawrence no Youtube e pede: “Por favor, transformem isto num viral”, explicando que tem poucas linhas para expressar o horror que está ocorrendo nas ruas. Ele assina “moodyblueCDN” na postagem.

Abaixo do vídeo, segue o comentário: “E aqui vamos nós aos bastidores de Matrix”, comparando a bem engendrada política imperialista ao enredo do filme de ficção científica, no qual os personagens têm os destinos traçados por máquinas e só podem romper esse circuito de manipulação quando surgir o salvador.

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FrancoAtirador

01 de outubro de 2011 às 21h33

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ENQUANTO 99% PROTESTAM, 1% BEBE CHAMPANHE EM WALL STREET

[youtube 2PiXDTK_CBY http://www.youtube.com/watch?v=2PiXDTK_CBY youtube]

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Dinha

01 de outubro de 2011 às 11h52

Se não fossem os blogs sujos e não saberia desse protesto. Não passou nada até agora na tv.

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Regina Braga

01 de outubro de 2011 às 11h36

Com a democracia americana,batendo e jogando spray de pimenta…manipulando a mídia e até criando problemas no facebook…alguém em sã consciência ,ainda acredita no democrata Obama…Um cidadão americano foi assassinado no Iêmem,sem julgamento…assim,assim! Existem os tea party assumidos e os tea party fantoches…ambos com monopólio midiático.

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Indio Tupi

01 de outubro de 2011 às 11h16

Aqui do Alto Xingu, os índios recomendam a leitura e a audição das declarações de Warren Buffett, constantes do "link" abaixo:
http://www.washingtonpost.com/blogs/plum-line/pos

Alguém deveria traduzir para publicação no Viomundo.

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João PR

01 de outubro de 2011 às 10h49

Ué!! Mas a grande mídia mostrou tanto as manifestações populares no Egito, Sìria e Líbia.

Por que será que não mostraram as do Bahrein, e agora a manifestação em Wall Street??

Tem PIG por tudo quanto é lado! Cadê a Fox, "tão defensora" das liberdades individuais? Cadê o Instituto Millenium, que não se pronuncia a respeito? E o Estadão? E a Folha? E a Vênus Platinada??

Tem mais é que ter uma Ley dos Medios por aqui.

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Pedro Luiz Paredes

01 de outubro de 2011 às 03h03

Agora eu quero ver, ou tem democracia ou não tem.

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