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Dr. Doom, a Grécia e o euro: Divórcio doloroso, mas necessário


24/09/2011 - 10h00

Greece should default and abandon the euro

por Nouriel Roubini*, o Dr. Doom, no Financial Times

A Grécia está emperrada no círculo vicioso da insolvência, da baixa competitividade e do contínuo aprofundamento da depressão. Exacerbada pela austeridade fiscal draconiana, a dívida pública do país está a caminho de representar 200% do PIB. Para escapar, a Grécia precisa dar início a uma moratória ordeira, abandonar voluntariamente o euro e trazer de volta o drachma [moeda nacional].

O recente acordo para trocar a dívida da Grécia oferecido pela Europa foi uma trapaça, que deu muito menos alívio ao país que o necessário. Se você analisar os dados e levar em conta os grandes incentivos do plano dados aos credores, o verdadeiro alívio da dívida grega é próximo de zero. A melhor opção atual do país é rejeitar o acordo e, sob a ameaça de moratória, renegociá-lo em melhores condições.

Ainda assim, mesmo que a Grécia brevemente recebesse um alívio real e significativo de sua dívida pública, não retomaria o crescimento econômico, a não ser que restaurasse sua competitividade rapidamente. E sem a retomada do crescimento, a dívida grega vai continuar insustentável. O problema, no entanto, é que todas as opções que podem restaurar a competividade da economia grega requerem uma depreciação real da moeda.

A primeira destas opções, um profundo enfraquecimento do euro, é improvável enquanto os Estados Unidos estiverem economicamente fracos e a Alemanha super-competitiva. Uma rápida redução dos custos unitários do trabalho, através de reformas estruturais que aumentem a produtividade acima dos salários, também é improvável. A Alemanha levou dez anos para restaurar sua competitividade desta forma; a Grécia não pode esperar uma década em depressão.

A terceira opção é uma rápida deflação dos preços e salários, conhecida como “desvalorização interna”. Mas isso levaria a cinco anos de depressão crescente, o que tornaria a dívida pública ainda mais insustentável.

Logicamente, assim, se estas três opções não são possíveis, o único caminho que resta à Grécia é deixar a zona do euro. O retorno a uma moeda nacional e uma grande desvalorização restaurariam rapidamente a competividade e o crescimento, como aconteceu na Argentina e em vários mercados emergentes que abandonaram o câmbio atrelado.

Naturalmente, este processo será traumático. O problema mais significativo seriam as perdas de capital das instituições financeiros no coração da zona do euro [N.do T.: Que controlam um grande estoque de dívida grega]. Da noite para o dia, as perdas estrangeiras em dívidas do governo, dos bancos e de empresas da Grécia disparariam. Ainda assim, estes problemas poderiam ser superados. A Argentina fez isso em 2001, quando “pesificou” as dívidas em dólar. Os Estados Unidos fizeram algo similar, em 1933, quando depreciaram o dólar em 69% e repeliram o padrão ouro. Uma “drachmasificação” das dívidas em euro seria necessária e inevitável.

Os bancos e investidores da zona do euro também sofreriam grandes perdas no processo, mas estas perdas seriam gerenciáveis — se as instituições forem recapitalizadas adequada e agressivamente. Evitar uma implosão do sistema bancário grego, pós-saída do euro, no entanto, pode infelizmente exigir a imposição de medidas no estilo argentino — como feriados bancários e controle de capital — para evitar consequências sobre as quais não se tenha controle.

Realisticamente, os danos colaterais vão acontecer, mas poderiam ser limitados se o processo de saída da Grécia da zona do euro fosse controlado e se apoio internacional fosse dado para recapitalizar os bancos gregos e financiar a difícil transição para o equilíbrio fiscal e externo. Há quem argumente que o PIB real da Grécia será muito menor em um cenário de saída da zona do euro do que num cenário de dura desvalorização interna. Mas é uma lógica internamente falsa: o poder real de compra da economia grega e de sua riqueza cairiam de qualquer forma, junto com a desvalorização interna. Através de depreciação real e nominal, a saída da zona do euro vai restaurar crescimento imediatamente, evitando uma deflação depressiva de uma década de duração.

Aqueles que argumentam que o contágio vai puxar outros países para a crise também não querem enxergar a realidade. Outros países periféricos enfrentam problemas com a sustentabilidade de suas dívidas e com a competitividade, no estilo grego; Portugal, por exemplo, pode eventualmente ter de reestruturar sua dívida e deixar o euro.

Economias ilíquidas mas potencialmente solventes, como as da Itália e da Espanha, vão precisar de ajuda da Europa, independentemente da Grécia deixar ou não a zona do euro; na verdade, uma corrida contra a dívida pública da Itália e da Espanha a esta altura é quase certa, se apoio para manter a liquidez não for dado. Os recursos oficiais atualmente  desperdiçados em resgatar os credores privados da Grécia poderiam então ser usados para salvar esses países e os bancos de outros lugares da periferia da Europa.

A saída grega pode trazer benefícios secundários. Outras economias em crise da zona do euro terão a oportunidade de decidir por conta própria se querem ou não seguir a Grécia ou continuar com o euro, com todos os custos da escolha. Independentemente do que fizer a Grécia, os bancos da zona do euro agora precisam de recapitalização rápida. Para isso um novo programa da União Europeia será necessário e não um baseado em estimativas obscuras ou testes-de-stress forjados. A saída da Grécia poderia catalizar esta política.

As experiências recentes da Islândia, assim como as dos países emergentes nos últimos 20 anos, mostram que uma reestruturação ordeira e uma redução da dívida externa pode restaurar a sustentabilidade dos pagamentos, a competitividade e o crescimento. Como naqueles casos, os danos colaterais resultantes da saída da Grécia serão significativos, mas podem ser contidos.

Como num casamento falido que requer divórcio, é melhor que haja regras que tornem a separação menos custosa para os dois lados. Romper e se divorciar é doloroso e custoso, mesmo quando as regras existem. Não se enganem: um saída ordeira do euro será dura. Mas assistir a uma implosão desordenada da economia e da sociedade gregas será muito pior.

*Nouriel Roubini is Chairman of Roubini Global Economics, professor at the Stern School, New York University and co-author of ‘Crisis Economics’. A longer version of this article can be found on the RGE website

Tradução: Luiz Carlos Azenha

Leia também:

França: O risco de falência dos bancos

A Grécia, forçada a abandonar a zona do euro

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23 comentários

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Cleber

26 de setembro de 2011 às 18h11

Essa saída monetarista está soando como se o Dr. Doom tivesse algo investido na Grécia.

Responder

beattrice

26 de setembro de 2011 às 16h32

A tão decantada "quebra" na Argentina foi a base sobre a qual se reestruturaram os movimentos sociais e os valores históricos daquela sociedade.
O que seria mais valioso? Manter Menem e a herança menemista em pé enquanto o país desmoronava?
Viva a Grécia e abaixo o EURO, essa trapaça sobre a a qual se estruturou uma Europa germânica e que rasga contratos sociais para defenter os contratos rentistas.

Responder

marcos

26 de setembro de 2011 às 00h19

apesar do roubini ser uma pessoa muito inteligente, ele não está levando em consideração certas questões…

Ao ao contrario da argentina ( e outros paises de terceiro mundo, incluindo o brasil) a grecia não tem a agropecuaria pra puxar ela do buraco, infelizmente não a muito o que os gregos possam fazer nessa situação, a solução grega não vai ser decidida em atenas, mas em berlim, porem a covardia da Merkel esta piorando uma situação que por si só já é pessima

O segundo ponto é referente a Alemanha… se o euro sofrer uma forte desvalorização a industria do mundo inteiro pode ir pro saco, pq a industria alemã é competitiva demais, mesmo com o euro sendo uma moeda forte a alemanha talvez seja o unico pais no mundo que consegue bater de frente com a china (na realidade as politicas alemãs são razoavelmente parecidas com a chinesa no que concerne a industria e exportação).
Tenho certas duvidas se o mundo suporta uma alemanha com uma moeda subvalorizada, ja basta a china como fator de desequilibrio mundial

Responder

    beattrice

    26 de setembro de 2011 às 16h34

    Deve então a Europa submeter-se aos caprichos monetários alemães e à sandice histórica de Berlim?
    Francamente.

    marcos

    26 de setembro de 2011 às 19h05

    eu não disse isso, é claro que é uma vergonha o que esta acontecendo

    Só que se a alemanha não tomar vergonha na cara e agir a europa inteira vai pro saco

Marcio H Silva

25 de setembro de 2011 às 23h17

trocando em miúdos, os dirigentes gregos tem de decidir se vão ajudar os banqueiros ou o povo.

Responder

Roberto Locatelli

25 de setembro de 2011 às 19h48

O mundo e o capitalismo: divórcio doloroso, mas necessário.

Responder

assalariado.

25 de setembro de 2011 às 16h49

Interessante, o autor deste texto, em nenhum momento, propõe que, o Doutor Mercado, que causou esta balburdia social, grega, e porque não dizer, mundial, que se apresente, assuma esta crise, e é claro, que pague esta conta. Ou seja, quem provocou esta crise foram os detentores do capital, financeiro e industrial, também conhecida como burguesia capitalista. Esta alternativa geralmente, os especialistas economicos burgueses, papagaios falante e porta vozes do capital, sempre se "esquecem". Então tá, os verdadeiros causadores destas crises continuam invisiveis nos noticiarios da imprensa burguesa. Jamais confessarão.

Responder

    marcos

    26 de setembro de 2011 às 09h53

    Se vc pensar que a maioria dessas empresas de noticias na verdade fazem parte de empresas muito maiores, por ex. a alguns anos ( não lembro se foi no canada ) um grupo financeiro foi comprando os meios de comunicação do pais, só que esse grupo tb era dono das industrias militares do pais, e tb de muitas outras empresas…logo ja dá pra ter uma ideia de como funciona a coisa

    E não devemos esquecer que esses especialistas recebem muito bem pra "fazer" esses artigos, como ficou comprovado na crise da islandia

    só acrescento que esse conceito de crise é muito relativo, pq quem esta se ferrando nessa historia é só da classe media pra baixo…os ricos estao deitando e rolando em cima de lucros astronomicos

FrancoAtirador

25 de setembro de 2011 às 15h02

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Os gregos, assim como os demais povos explorados,

têm de fazer o que os islandeses fizeram:

Mandar os banqueiros tudo à M.
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Responder

    tiagotc

    25 de setembro de 2011 às 22h59

    Você poderia me indicar algo para eu ler a respeito disso (dos Islandeses mandando os bancos à M.)? Gostei do seu comentário, mas meu conhecimento sobre a Islândia é muito precário, por isso gostaria de saber mais sobre isso.

    FrancoAtirador

    26 de setembro de 2011 às 01h58

    .
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    Islândia, um país que pune os banqueiros responsáveis pela crise

    A grande maioria da população ocidental sonha desde 2008 em dizer "não" aos bancos, mas ninguém se atreveu a fazê-lo. Ninguém, excepto os islandeses, que levaram a cabo uma revolução pacífica que conseguiu não só para derrubar um governo e elaborar uma nova Constituição, mas também enviar para a cadeia os responsáveis pela derrocada econômica do país. Crise financeira e econômica provocou uma reação pública sem precedentes, que mudou o rumo do país. O artigo é de Alejandra Abad.

    Alejandra Abad – El Confidencial, via Carta Maior

    Na semana passada, nove pessoas foram presas em Londres e em Reykjavik (capital da Islândia) pela sua responsabilidade no colapso financeiro da Islândia em 2008, uma profunda crise que levou a uma reação pública sem precedentes, que mudou o rumo do país.
    Foi a revolução sem armas da Islândia, país que hospeda a democracia mais antiga do mundo (desde 930), e cujos cidadãos conseguiram mudar com base em manifestações e panelas. E porque é que o resto dos países ocidentais nem sequer ouviram falar disto?
    A pressão da cidadania islandesa conseguiu não só derrubar um governo, mas também a elaboração de uma nova Constituição (em andamento) e colocar na cadeia os banqueiros responsáveis pela crise no país. Como se costuma dizer, se você pedir educadamente as coisas é muito mais fácil obtê-las.
    Este processo revolucionário silencioso tem as suas origens em 2008, quando o governo islandês decidiu nacionalizar os três maiores bancos – Kaupthing, Landsbanki e Glitnir…
    Enquanto os bancos e as autoridades locais e estrangeiras procuravam desesperadamente soluções econômicas, o povo islandês tomou as ruas, e com as suas persistentes manifestações diárias em frente ao parlamento em Reykjavik provocou a renúncia do primeiro-ministro conservador Geir H. Haarde e do governo em bloco.
    Os cidadãos exigiram, além disso, a convocação de eleições antecipadas, e conseguiram. Em abril, foi eleito por um governo de coligação formada pela Aliança Social Democrata e Movimento Esquerda Verde, chefiado por uma nova primeira-ministra, Johanna Sigurdardottir.
    Ao longo de 2009, a economia islandesa continuou em situação precária (fechou o ano com uma queda de 7% do PIB), mas, apesar disso, o Parlamento propôs pagar a dívida de 3.5 bilhões euros à Grã-Bretanha e Holanda, um montante a ser pago mensalmente pe as famílias islandesa durante 15 anos com juros de 5,5%.
    A mudança trouxe a ira de volta dos islandeses, que voltaram para as ruas exigindo que, pelo menos, a decisão fosse submetida a referendo. Outra nova pequena grande vitória dos protestos de rua: em março de 2010 a votação foi realizada e o resultado foi que uma esmagadora de 93% da população se recusou a pagar a dívida, pelo menos nessas condições.
    Isso levou os credores a repensar o negócio, oferecendo juros de 3% e pagamento a 37 anos. Mesmo se fosse suficiente, o atual presidente, ao ver que o Parlamento aprovou o acordo por uma margem estreita, decidiu no mês passado não o aprovar e chamar de volta os islandeses para votar num referendo, para que sejam eles a ter a última palavra.
    Voltando à situação tensa de 2010, enquanto os islandeses se recusaram a pagar uma dívida contraída pelos os tubarões financeiros sem os questionar, o governo de coligação lançou uma investigação para resolver juridicamente as responsabilidades legais da fatal crise econômica e já havia detido vários banqueiros e executivos de cúpula intimamente ligados às operações de risco.
    Entretanto, a Interpol, tinha emitido um mandado internacional de captura contra o presidente do Parlamento, Sigurdur Einarsson. Esta situação levou os banqueiros e executivos, assustados, a deixar o país em massa.
    Neste contexto de crise, elegeu-se uma Assembleia para elaborar uma nova Constituição que reflita as lições aprendidas e para substituir a atual, inspirada na Constituição dinamarquesa.
    Para fazer isso, em vez de chamar especialistas e políticos, a Islândia decidiu apelar directamente ao povo, soberano, ao fim e ao cabo, das leis. Mais de 500 islandeses apresentaram-se como candidatos a participar neste exercício de democracia direta de redigir uma Constituição, dos quais foram eleitos 25 cidadãos sem filiação partidária, que incluem advogados, estudantes, jornalistas, agricultores, representantes sindicais.
    Serão as pessoas, por uma vez, que decidirão sobre o futuro do país, enquanto os banqueiros e os políticos assistem (alguns da prisão) à transformação de uma nação, mas do lado de fora.

    Tradução para o português: Vermelhos.net

    FrancoAtirador

    26 de setembro de 2011 às 12h05

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    A Islândia põe os seus banqueiros na prisão

    “A primeira vítima da crise financeira constitui-se como uma valente tentativa de pedir responsabilidades”. Claudi Pérez (El País) conta neste artigo a história da ascensão e da queda da economia islandesa. Nos anos 80, o governo privatizou a pesca: dividiu-a em quotas e fez uns quantos pescadores milionários. A partir daí, sob o influxo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, o país converteu-se na quintessência do modelo liberal, com baixos impostos, privatizações e desregulamentações. Taxas de juro à volta de 15% atraíam as poupanças dos dentistas austríacos, dos reformados alemães e dos comerciantes holandeses. Uma economia sã, assentada em sólidas bases, converteu-se numa mesa de cassino.

    Claudi Pérez – El País, via Carta Maior (Tradução de Paula Sequeiros do Esquerda.net)

    Procura-se. Homem, 48 anos, 1,80 metros, 114 quilos. Calvo, olhos azuis. A Interpol acompanha esta descrição de uma foto na qual aparece um tipo bem barbeado enfiado num desses ternos escuros de 2000 euros e enfeitado com um impecável nó de gravata. Vê-se à quilômetros que se trata de um banqueiro: este não é um desses cartazes do oeste selvagem. A delinquência mudou muito com a globalização financeira. E contudo esta história tem contornos de western de Sam Peckinpah ambientado para o Ártico. Isto é a Islândia, o lugar onde os bancos vão à ruína e os seus dirigentes podem ir para a cadeia sem que o céu se abata sobre as nossas cabeças; a ilha onde apenas meio milhão de pessoas armadas com perigosas tochas podem derrubar um governo. Isto é a Islândia, o pedaço de gelo e rocha vulcânica que em tempos foi o país mais feliz do mundo (assim, tal como consta) e onde agora os taxistas lançam os mesmos olhares furibundos que em todas as partes quando se lhes pergunta se estão mais chateados com os banqueiros ou com os políticos. Enfim, isto é a Islândia: paraíso sobrenatural, reza o cartaz que se avista do avião, mesmo antes de desembarcar.

    O tipo descrito chama-se Sigurdur Einarsson. Era o presidente executivo dum dos grandes bancos da Islândia e o mais temerário de todos, Kaupthing (literalmente, "a praça do mercado"; os islandeses têm um estranho sentido de humor, para além duma língua milenar e impenetrável). Einarsson já não está na lista da Interpol. Foi detido há uns dias na sua mansão de Londres. E é um dos protagonistas do livro mais lido na Islândia: nove volumes e 2400 páginas para uma espécie de saga delirante sobre os desmandes que a indústria financeira pode chegar a perpetrar quando está totalmente fora de controle.

    Nove volumes: praticamente episódios nacionais em que se demonstra que nada disso foi um acidente. A Islândia foi saqueada por cerca de 20 ou 30 pessoas. Uma dezena de banqueiros, uns poucos empresários e um punhado de políticos formaram um grupo selvagem que levou o país inteiro à ruína: 10 dos 63 parlamentares islandeses, incluindo os dois líderes do partido que governou quase ininterruptamente desde 1944, tinham empréstimos pessoais concedidos por um valor de quase 10 milhões de euros por cabeça. Está por demonstrar que isso seja delito (embora pareça que parte desse dinheiro servia para comprar ações dos próprios bancos: para fazer inchar as cotações), mas pelo menos é um escândalo enorme.

    A Islândia é uma exceção, uma singularidade; uma raridade.

    A Holanda e o Reino Unido devolveram aos seus cidadãos 100% dos depósitos e agora exigem esse dinheiro: 4 bilhões de euros, um terço do PIB islandês, nada menos. O governo chegou a um acordo para que os cidadãos pagassem em 15 anos e a 5,5% de juro: as pessoas organizaram-se para rejeitar a proposta num referendo, depois do veto do presidente.

    http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMos

    FrancoAtirador

    26 de setembro de 2011 às 12h07

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    Islândia: população diz não para pagamento de dívida

    Os islandeses votaram, novamente, em referendo que o Estado não deve pagar a dívida de cerca de 4 bilhões de euros à Holanda e ao Reino Unido. De acordo com os resultados já anunciados, o "não" ganhou com quase 60 por cento dos votos. Em causa estão 4 bilhões de euros depositados em 700 mil contas bancárias na Holanda e Inglaterra, no agora falido banco online Icesave. O Icesave foi uma das instituições financeiras que faliram na sequência da crise financeira mundial que atingiu com especial dureza a Islândia, com cerca de 320 mil habitantes, provocando a queda da moeda e da economia do país.
    Esquerda.net
    Na Islândia, a palavra de ordem “não pagamos a crise deles” é mesmo o mote que indica o caminho. Segundo os dados já disponibilizados neste domingo pela televisão islandesa, 58 por cento dos eleitores votaram "não" e 42 por cento votaram "sim" ao pagamento de quase quatro bilhões de euros a credores externos, nomeadamente à Inglaterra e à Holanda.

    O referendo foi convocado pelo presidente da Islândia, Ólafujr Ragnar Grímsson, que em 20 de fevereiro deste ano vetou, pela segunda vez, a lei IceSave (que tinha sido aprovada pelo Parlamento islandês).

    Em causa estão, especialmente, 4 bilhões de euros depositados em 700 mil contas bancárias na Holanda e Inglaterra, no agora falido banco online Icesave. Tratava-se de uma conta de poupança online, a Icesave, comercializada agressivamente no Reino Unido e na Holanda pelo banco Landsbanki – que foi o segundo maior da Islândia -, prometendo juros acima de seis por cento.

    Os depósitos de estrangeiros foram reembolsados pelos respectivos governos – 3,9 mil bilhões de euros -, que agora querem cobrá-los da Islândia.

    O acordo rejeitado permitiria escalonar o pagamento da dívida até 2045, com uma taxa de juro de 3,3 por cento ao Reino Unido e de três por cento no caso da Holanda. Uma parte seria paga com a venda dos ativos do Landsbanki, mas não se sabe ainda quanto seria – embora os partidários do "não" defendam que deveria chegar para o reembolso.

    Esta foi a segunda vez que os islandeses decidiram se queriam ou não que dos seus bolsos saísse uma parte significativa do valor total das indenizações que o governo da Islândia se comprometeu a pagar a Londres e a Haia.

    Há um ano, um outro acordo, ainda menos favorável, tinha sido rejeitado com uma esmagadora maioria (93 por cento): previa uma taxa de juro de 5,5 por cento e o pagamento em 15 anos. Em 2010, tal como em 2011, o acordo foi enviado para referendo pelo Presidente da República, Ólafujr Ragnar Grímsson.

    O Icesave foi uma das instituições financeiras que faliram na sequência da crise financeira mundial que atingiu com especial dureza a Islândia, com cerca de 320 mil habitantes, provocando a queda da moeda e da economia do país.

    http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMos

ratusnatus

25 de setembro de 2011 às 12h37

A Argentina servindo de exemplo heim. Quem diria.

Responder

Daniel

25 de setembro de 2011 às 12h30

Duvido, a saída da Grécia seria o início do fim do Euro, não acho que a Europa iria aceitar isto, a Grécia esta condenada a ser a bola da vez.

Responder

ZePovinho

25 de setembro de 2011 às 11h48

Eu respeito o Roubini,Azenha,mas prefiro as análises do GEAB.

Responder

Tartufo da Silva

25 de setembro de 2011 às 10h56

Como dizia Bezerra, aquele, "Malandro é malandro e Mané é mané". Nenhum Mané vira Malandro apenas porque passa a frequentar o mesmo espaço do Malandro. Na verdade o Malandro – de verdade – atrai o Mané para o seu espaço apenas para explora-lo; e quando não tem mais nada pra explorar, devolve o Mané para seu devido lugar…

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