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Saulo Machado: Thyssen Krupp quer calar pesquisadores brasileiros


30/10/2011 - 02h01

por Saulo Machado, do blog  Ponto e Contraponto

A grande imprensa e os paladinos da liberdade (da imprensa, apenas) somem, ou fogem, de um gravíssimo caso que fere a independência da pesquisa científica e a liberdade do corpo acadêmico em desenvolver estudos e gerar conhecimento.

Este mês o Jornal do Brasil online publicou que a ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) – famosa por sua atuação na região da Bacia de Sepetiba – está movendo uma ação contra pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Hospital Pedro Ernesto (UERJ). Tudo isso por causa de uma pesquisa onde foram apontados danos à população local causados pela atividade da CSA .

Segundo o jornal (confirmado pelo site da Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/Fiocruz), o pneumologista e pesquisador Hermano Castro, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) e o engenheiro sanitarista Alexandre Pessoa Dias, da Fiocruz, são alvos das ações da Thyssen. Além de Mônica Cristina Lima, bióloga do Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ).

Segundo o JB, a lista de malefícios à população é extensa. Segundo declaração da pesquisadora Mônica Lima ao jornal, “risco de câncer e aborto espontâneo a longo prazo devido aos gases tóxicos, além de casos de alergia relacionados ao material expelido pela empresa” já está bem relatado na literatura abordando atividade de siderúrgicas. Porém, foram ignorados no estudo de impacto ao meio ambiente (RIMA) encomendado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e realizado pela empresa de consultoria ERM Brasil.

Mas essa introdução toda foi para chegar ao ponto crucial para este texto: A CSA quer calar os pesquisadores querendo qualificar os estudos independentes como “danos morais” (tática cada vez mais utilizada ultimamente por grandes para calar quem as contradiz).

A questão é séria e o silêncio da imprensa mais ainda!

O desfecho neste caso, se for parar na Justiça, pode definir o exercício livre da pesquisa científica no país. Se a Justiça entender que realmente os estudos científicos se caracterizam danos morais à CSA, imaginem a enxurrada de processos que teremos contra estudos avaliando o impacto desde um boteco na esquina que lança esgoto em um rio, até grandes corporações, como indústria de cosméticos ou petrolífera que representam uma ameaça ainda maior (com relação à sua estrutura).

Poderão calar qualquer um. Desde estudos que apontem malefícios de medicamentos (como recentemente com emagrecedores à base de anfetaminas) até o risco de instalação de empreendimentos que potencialmente impactariam o meio ambiente.

Sem falar no conflito de interesses envolvido no caso. Como garantir que uma empresa contratada pelo interessado atuaria com lisura no estudo dos possíveis impactos de determinada obra ou atividade, embora posteriormente tenham ou não, que se explicar às autoridades quanto aos resultados de tais estudos?

Dá para entender como se daria isso?

Quem seria a autoridade quando a empresa contratada para o estudo foi contratada pela “autoridade” (no caso o Governo do Estado)? Essa é uma outra questão séria que está começando a despertar a atenção no país.

O mesmo jornalismo investigativo, que se auto-intitula independente se cala neste momento (é só fazer uma busca rápida no google para constatar isso).

Quando, na falta de jornalismo e autoridades independentes, querem calar até pesquisa científica, necessária para geração de conhecimento e livre para contestar casos como este, se acende o sinal amarelo.

Apenas um jornal (online e de média abrangência se comparamos com O Globo e Folha) noticiou o caso. Na internet poucos blogs tratam do assunto, para mim, infinitamente mais importante do que se ministro cai ou não. Ministros caem e sobem em questão de dias. Já mordaças podem durar décadas.

PS do Viomundo: Eu  já entrevistei algumas vezes o pneumologista Hermano de Castro, da Fiocruz, para reportagens que fiz sobre amianto. Sei da seriedade das suas pesquisas e da sua grande preocupação com a saúde do trabalhador.

Infelizmente a tentativa de criminalização é uma das armas torpes que as corporações estão utilizando para imobilizar os profissionais sérios. Nossa solidariedade ao doutor Hermano. Conceição Lemes

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21 comentários

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A.S. Braga

14 de novembro de 2011 às 10h55

Onde está a CANALHADA da imprensa(sic) investigativa nativa(como diz o GRANDE MINO)???? Braga

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flavio jose

31 de outubro de 2011 às 17h18

A Krupp foi grande colaboradora do nazismo e hitler, pode-se esperar o que desta empresa?. La na alemanha ela respeita dos direitos ambientais, no Brasil não. Seria a hora de devolve-la para a alemanha.

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marcelo arruda

31 de outubro de 2011 às 13h37

Um "humorista" babaca fala uma babaquice na tv e lá vem o ministério público querer processá-lo por ter ele supostamente incitado o estupro de mulheres. Uma criança sofre algumas provocações na escola e seus pais procuram o ministério público porque seu filho estaria sendo vítima de bullyng. São todas situações reais que acabam chegando ao Poder Judiciário. Hoje em dia, quase nada escapa ao Poder Judiciário. E isso é muito perigoso, porque o reconhecimento quase infindável de direitos termina por tolher o exercício de inúmeros direitos e liberdades.
No caso da ação da empresa Krupp, é mais ou menos isso. Não se pode negar o seu direito à imagem, ao nome. Tampouco se pode negar o direito dos pesquisadores de pesquisar e da sociedade toda de receber o resultado das pesquisas. En~tão o que fazer? E aqui eu não estou defendendo ninguém. Só constatando.
Para quem se interesssar, há um livro interessantíssimo do professor Costas Douzinas, "O fim dos direitos humanos", Editora Unisinos.

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marcelo arruda

31 de outubro de 2011 às 13h37

Eu acho que a questão é muito mais ampla. Há diversas situações, até pouco tempo corriqueiras, que estão sendo judicializadas. Uma criança que não teve o afeto do pai ou da mãe quer uma compensação pelso danos morais que sofreu em razão da falta de afeto. Um(a) noivo(a) quer uma compensação por danos morais porque aquele que seria seu cônjuge terminou o noivado e lhe causou danos. Um consumidor quer uma indenização porque a porta giratória do banco não abriu e ele não pôde entrar no banco. Com isso, sentiu-se lesado em seus direitos da personalidade.

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Scan

31 de outubro de 2011 às 12h22

E iríamos esperar o que de empresas apoiadoras de Hitler (Thyssen foi uns dos primeiros apoiadores, mas depois se "desencantou" com o regime)?
Esses assassinos, porque não há outro nome que os defina, utilizaram mão de obra escrava nos campos de concentração e, após a guerra, não pensem que foram minimamente responsabilizados pelas práticas.
Não houve Nuremberg para eles.
Foram, juntos com a Bayer, Bosh, Siemens, Volks, BMW e outros capitalistas de um e outro lado, os verdadeiros ganhadores da Segunda Guerra.
O que esperar dessa gente?

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    Rodrigo Falcon

    31 de outubro de 2011 às 12h46

    Pode colocar a "zelosa" IBM nesse pacote.

Zé Brasil

30 de outubro de 2011 às 22h17

Uma curiosidade: Por quê teria o JB denominado de algozes, em viés indireto, os pesquisadores da Fiocruz no livre exercício de suas funções ao compará-los, a juízo do jornal e não ao meu, diga-se de passagem, a ambientalistas que atacariam empresas?

Isto pode ser verificado na reportagem do jornal se é que esta denominação ainda esteja por lá. É só conferir no link abaixo: http://www.jb.com.br/informe-jb/noticias/2011/10/
No texto do JB online: "……A companhia, aliás, aderiu a uma estratégia cada vez mais popular entre empresas atacadas por ambientalistas: tentar calar seus algozes com acusações de "danos morais"
os pesquisadores da Fiocruz no livre exercício de suas funções."

Algoz:
s.m. Carrasco, verdugo.
Fig. Pessoa desumana, cruel.
Torturador, seviciador.

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Leonardo Câmara

30 de outubro de 2011 às 18h08

Absurdo incrível e inaceitável.

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Saulo Machado

30 de outubro de 2011 às 16h17

O estudo realizado pela Fiocruz: http://www.epsjv.fiocruz.br/upload/d/Relatorio_TK

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Saulo Machado

30 de outubro de 2011 às 16h12

Aqui o relato da pesquisadora Mônica Lima sobre a perseguição sofrida: http://www.soltec.ufrj.br/mstrio/tkcsa-processa-p

"Essa empresa esta agindo de má-fé para tentar me calar, porém adianto que não me calarei e nem me curvarei diante dos poderosos do capital. Dinheiro nenhum manchará minha dignidade. Sou aparentemente calma e tranqüila, mas intimamente apaixonada e cheia de grandes sonhos e convicções profundas, sonhos desinteressados, porque nunca fui ambiciosa, mas tenho consciência de meus atos, inclusive os políticos e suas conseqüências. Primeiro foi o Alexandre Pessoa Dias e Hermano de Castro, agora eu, quem será o próximo?"

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Zé Brasil

30 de outubro de 2011 às 14h48

.Prezado Jornalista Azenha,

Sugiro que seja feita uma entrevista com os ditos próceres do meio ambiente do Brasil tais como o Greenpeace, políticos do PV e com o ícone-mór do ambientalismo brasileiro: – a Senadora Marina Silva sobre o assunto para que eles esclareçam e se posicionem quanto a esta questão, eles que são tão atuantes contra as nucleares r hidroelétricas, e, contudo, nos têm brindado com seu silêncio sepulcral quanto a geração térmica nela incluída a geração á carvão e a gases resultantes de processos siderúrgicos. O desafio está lançado aos zelosos ambientalistas deste meu País.
.

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    Bonifa

    31 de outubro de 2011 às 10h56

    Boa idéia. Ao invés de estarem conjurando uma caipora internacional contra hidrelétricas, porquê não encaram a Krupp?

Bonifa

30 de outubro de 2011 às 14h24

Atrapalhar o lucro da Krupp por causa da saúde do povaréu sulamericano? A Krupp considera que se trata de um absurdo. E considera que pode contornar esse absurdo acionando a própria justiça e a imprensa sulamericanas. Por outro lado, se as vítimas fossem germânicas, a Krupp seria a primeira a reconhecer que estaria cometendo o maior dos crimes.

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Lu_Witovisk

30 de outubro de 2011 às 12h42

Inversão de valores… o povo de sepetiba que deveria entrar na justiça contra os danos causados pela empresa.

Responder

Euclydes R Souza

30 de outubro de 2011 às 12h21

ja é hora de acaba com o corporativismo entre cientistas, médicos, engenheirosr, Juises, e advogados,professores e sérios, honesto e conscientes da responsabilidade profissional e humana,criar uma asociação, edai um tabloide, ou mine rornal com preço assecivel a toda siciedade,levando informação, formando opinião,e arregimentando opiniões e participação do maximo de organisações da classe dos assalariados, para fazer frente a esses grupos de máfias e mafiosos.

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Júnior

30 de outubro de 2011 às 12h15

Com relação ao tema de "Grandes corporações dominarem imprensa, jornalistas, governos, etc…" existem muitos filmes ficcionais abordando o tema e mostrando como o "lucro a qualquer custo" é a motivação última desta falta total de humanidade.
"Será que é ficção" mesmo ou documentários a partir da realidade?

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Lu_Witovisk

30 de outubro de 2011 às 11h55

É… a coisa ta mto feia! Vamos fazer esse texto reverberar!!!

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Vera Silva

30 de outubro de 2011 às 11h50

Penso que o Estado brasileiro deve começar a usar seu direito de infirmação – gratuito – nas grandes redes – nos horários de pico de audiência – e usá-lo para informar o povo.
Simplesmente informar de forma clara aquilo que é omitido pelas grandes redes.
Corretamente informada a população fará seu próprio juízo.

Responder

betinho2

30 de outubro de 2011 às 11h19

Pelo passado do Grupo Thyssen, apoiador e financiador do nazismo, nada de diferente a esperar:

Livro "Eu financiei Hitler", de Fritz Thyssen, avô do atual executivo do Grupo Thyssen Krupp: http://www.pco.org.br/conoticias/especiais/livro_
traduzido para o portugues.

Responder

    Marcos

    30 de outubro de 2011 às 22h06

    Parece que a metodologia nazista está no DNA da empresa!!

    Scan

    31 de outubro de 2011 às 13h26

    Valeu, Betinho.
    Obrigado pelo link.


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