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Ana Costa: Aborto não é questão exclusiva da mulher, mas assunto para as famílias

Publicado em: 29 de setembro de 2012

por Ana Maria Costa, no Blog do Cebes

O dia 28 de setembro é o dia de luta pela descriminalização do aborto na América Latina. Isto, porque o aborto é grave problema de saúde pública nos países de nosso continente e a magnitude de sua ocorrência no Brasil e as complicações à saúde por causa de sua clandestinidade ocasionam mortes que poderiam ser evitadas por atenção adequada e oportuna.

Tal atenção somente será possibilitada com a ampla legalidade do aborto, hoje permitido apenas quando a gravidez resulta de estupro; constitui ameaça à vida da mulher; ou nos casos de anencefalia. Como a grande maioria dos abortos são realizados de forma clandestina, precária, arriscada  e insegura, milhares de hospitalizações desnecessárias são feitas diariamente, gerando um grande problema para a saúde pública no país.

Para melhor dimensionamento do problema, um inquérito nacional realizado em 2010 (1) mostrou que 22% das mulheres de 35 a 39 anos que vivem em zonas urbanas  declararam já ter provocado um aborto. Os que desconhecem o assunto tendem a retratar as mulheres que interrompem a gravidez como pessoas desviantes e irresponsáveis, extremamente jovens, sem valores, e que não estariam em união. Não é isso o que acontece.

Esta pesquisa revelou que os abortos são praticados por mulheres que, em sua maioria casadas e mães de família, não desejam aumentar a prole em função de gravidezes indesejadas. Tal situação deveria mudar muito a maneira como se encara o fenômeno e, desta forma, mudar o tom do debate sobre aborto no Brasil, já que  é um evento comum na vida de mulheres comuns, ou seja, mulheres das relações sociais de qualquer pessoa. Em nossa sociedade, o assunto vem sendo polarizado para reforçar uma moralidade de dogmas religiosos relacionados ao aborto com julgamento preconceituoso às mulheres que o praticam.

Nos últimos anos, apesar das enormes dificuldades na realização de pesquisas sobre aborto, especialmente por tratar se de um evento clandestino, muitos estudiosos têm contribuído com esclarecimentos importantes que vêm desconstruindo velhos argumentos e crenças sobre essa questão no Brasil.

Hoje está comprovado que a decisão por um abortamento na maioria dos casos é compartilhada, e não individual como se pensava. Os estudos mostram inclusive que, quando as mulheres são jovens e não têm autonomia ou dinheiro, a família – ou seja, os pais e as mães – intervém e providencia o recurso necessário para a realização do procedimento. Isso acontece geralmente nas classes médias e altas.

Assim, a questão do aborto que parecia, a princípio, um assunto exclusivo de mulher, é de fato um assunto para as famílias quando se trata de mulheres solteiras ou casadas, envolvendo pais, mães ou maridos.

Esta situação reforça o grau de hipocrisia com o qual o aborto é tratado no Brasil pois, seja na condição de amigo, amiga, mãe, pai, tio, companheiro, namorado ou marido, a grande maioria dos brasileiros já viveu e compartilhou alguma situação envolvendo a decisão ou o apoio a uma mulher que realizou o aborto. O que fica patente é a existência de uma dupla moral, a que condena o aborto e a outra, tolerante, quando o assunto está no âmbito privado.

Mesmo com a proibição pela Anvisa da venda do misoprostol (Cytotec), um poderoso abortifaciente, os estudos mostram que metade das mulheres que abortam utiliza medicamentos. A aquisição destas drogas também ocorre clandestinamente e as mulheres pagam caro pelo produto e não tem qualquer garantia quanto à sua qualidade.

De toda forma, estas mulheres tem menor numero de complicações em relação àquelas outras que buscaram solucionar a interrupção da gravidez com curiosas ou métodos mais perigosos.

O certo é que o acesso aos medicamentos é difícil, mas existe um conhecimento adquirido e transmitido entre as mulheres sobre o modo de usar e as doses destes medicamentos e até mesmo sobre o momento e situação em que devem buscar ajuda em um hospital. Isso tem reduzido muito as mortes destas mulheres.

Se mudou o panorama da sobrevivência de mulheres que praticam abortamento, o mesmo não ocorreu na qualidade da atenção médica hospitalar destinada a elas. Os profissionais de saúde geralmente as tratam com discriminação, maus-tratos e até mesmo com omissão de socorro oportuno, caracterizando, de fato, condição de violência institucional (2).

As frequentes denúncias do movimento de mulheres sobre problemas enfrentados por elas, que são usuárias de serviços de saúde, incluem a dificuldade de acesso à vaga até situações de maltrato e discriminação sofridas durante a internação. Muitos estudos tem evidenciado esta modalidade de violência em serviços públicos como praticada por profissionais de saúde, principalmente enfermeiras.

Nesse sentido, a legalização do aborto é uma pauta para a democracia social, pois, além dele ser um direito sexual e reprodutivo universal, sua ilegalidade recai de forma injusta e desumana sobre as mulheres mais pobres, que, com menos recursos para a realização da interrupção de sua gravidez indesejada, acabam se submetendo a maior risco.

Essas mulheres são cotidianamente vítimas de atentados aos direitos humanos por omissão do estado em socorrê-las quando realizam o procedimento, chegando aos hospitais em busca da sobrevivência, com sangramentos e hemorragias graves – sendo em seguida maltratadas, denunciadas, discriminadas.

Elas sujeitam sua saúde ao risco por causa de uma legislação atrasada e desajustada em relação às necessidades da sociedade e à vida real das mulheres e das famílias, já não condizente com a atual situação do país que merece e precisa de um estado laico, livre das intervenções de grupos e dogmas religiosos nos assuntos coletivos.

O Brasil vem assistindo nas ultimas décadas a um crescimento das forças conservadoras no Congresso Nacional e esta grande aliança envolve diversos partidos de todas as matizes politicas. Esta frente contra a legalização do aborto tem levado o governo à condição de refém, negociando votos nas matérias de interesse governamental até mesmo contra possíveis avanços do poder executivo.

Estabeleceu-se uma verdadeira vigilância destes parlamentares às ações do Ministério da Saúde, envolvendo sua reponsabilidade institucional como órgão máximo da saúde pública nacional. E é inadmissível que o Ministério seja imobilizado no cumprimento de seu papel de financiar pesquisas , normatizar e qualificar serviços para melhor conhecer e atender as mulheres brasileiras quando abortam.

Enquanto o poder Legislativo permitir que esse debate ocorra sob a égide da moralidade, e não assumir a sua gravidade como problema de saúde publica, o Congresso estará em falta com as mulheres brasileiras. Enquanto o poder Executivo baixar a cabeça como refém destas forças conservadoras que retardam a ampliação dos direitos reprodutivos e a legalização do aborto, as mulheres brasileiras estarão traídas e com seus direitos humanos mutilados.

Por fim, se o Brasil quer se postar entre os países mais avançados do planeta, urge que sejam tomadas atitudes concretas para o aperfeiçoamento da democracia e a primeira tarefa para nós, mulheres, para nós que defendemos a saúde publica, é tirar o aborto de baixo do tapete. Vamos debater o tema amplamente e vamos encarar esta como uma questão de saúde pública fundamental para a nossa Democracia.

Referências

(1) Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), Universidade de Brasília (UnB).

(2) Estudo feito pela pesquisadora Estela Aquino, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), com 2.562 mulheres em hospitais de três capitais brasileiras – sete de Salvador (BA), oito de Recife (PE) e quatro de São Luís (MA) – indica que o julgamento moral dos profissionais de saúde sobre o aborto interfere no atendimento prestado por eles às mulheres que dão entrada em hospitais depois de tentar a interrupção da gravidez.

 Ana Maria Costa é médica e presidenta do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes).

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Isabel Bressan: Será o brasileiro solidário no câncer?

Publicado em: 17 de setembro de 2012

Será o brasileiro solidário no câncer?

por Isabel Bressan, no Blog do Cebes

Nesta segunda semana de setembro será sancionada a Medida Provisória 553/2012. Festejada como medida de estímulo para a economia, dentro do programa econômico Brasil Maior, estabelece desonerações fiscais e da folha de pagamentos para diversos setores.

No embalo dessas medidas a Medida Provisória traz em seu artigo primeiro uma novidade para a Saúde: desconto no imposto de renda devido para pessoas físicas e jurídicas em troca de contribuição a entidades de saúde filantrópicas para aplicarem em ações de combate e prevenção ao câncer. Esses recursos poderão custear prestação de serviços médico-assistenciais para diagnóstico, tratamento, cuidados paliativos e reabilitação, formação de recursos humanos e pesquisas clínicas ou epidemiológicas.

Aí reside uma questão: ao inaugurar uma nova forma de custeio de assistência ao câncer por meio de recursos públicos de renúncia fiscal, a MP não condiciona que o acesso a esses serviços será universal e igualitário, por meio do SUS. Ela atribui ao Ministério da Saúde decidir que ações e serviços farão jus ao benefício.

Do modo como está, poderemos ver entidades como os hospitais filantrópicos Sírio Libanês e Albert Einstein recebendo recursos de empresas e pessoas físicas, advindos de recursos públicos de renúncia fiscal para aplicar no custeio de tratamento de câncer exclusivo para beneficiários de planos de saúde. Estaria aí inaugurada uma nova forma de subsídio público para o mercado de planos de saúde. Ou serão os doadores tão solidários a ponto de direcionarem seus impostos apenas para serviços com acesso universal e igualitário?

Aliás, subsídios públicos para tratamento de câncer por planos de saúde não são nenhuma novidade. Em abril último o Ministério da Saúde lançou um programa para aplicar de 505 milhões de reais no aumento de estruturas assistenciais de radioterapia e na compra de aceleradores lineares para o tratamento do câncer. Por meio da Portaria MS nº 931 instituiu o Plano de Expansão da Radioterapia no Sistema Único de Saúde, que irá criar ou expandir a capacidade assistencial em 80 hospitais.

O Plano de Expansão da Radioterapia no Sistema Único de Saúde não estabelece qualquer fonte de financiamento de custeio pelo SUS para os tratamentos que serão possibilitados pelo aumento da estrutura assistencial. Além disso, os critérios utilizados para a ordem de classificação e de prioridade dos hospitais interessados, embora tenham o mérito de priorizar entidades situadas em áreas com menor oferta de tratamento e de excluir empresas com fins lucrativos, não levam em conta o percentual de dedicação ao SUS de cada entidade.

Resultado: em torno de 60% dos hospitais escolhidos atendem por intermédio da SUS e de clientes de planos de saúde, muitos deles com planos privados de saúde próprios. Sem garantia de custeio adicional do SUS para os tratamentos, esses hospitais irão condicionar o acesso aos serviços ao pagamento de um plano de saúde por parte dos pacientes.

Não é para menos que o Plano de Saúde Santa Casa da cidade de Passos – MG com Registro ANS nº 3387-5 como Plano Filantrópico, que “detém 40% do mercado regional de planos de saúde” e a vantagem competitiva de manter uma “rede própria hospitalar de altíssima qualidade, pronta para oferecer recursos de tecnologia de ponta”, faz propaganda em sua página comercial da possibilidade de investimentos do Ministério da Saúde em seu hospital para instalação de Acelerador Linear para tratamento de câncer e de leitos de UTI.

Mas não reside aí uma novidade. As iniciativas públicas de alocação de equipamentos de radioterapia no Brasil, a partir dos anos de 1990, não garantiram aumento de recursos financeiros públicos de custeio pelo SUS para os serviços que seriam gerados com a maior oferta de equipamentos. Assim, de modo natural, a maioria dos equipamentos foi para regiões onde o sistema privado de saúde poderia custear sua utilização, em estabelecimentos de saúde de clientela compartilhada.

Desde então, a prática de instalação com dinheiro público de novos equipamentos de radioterapia em estabelecimentos de clientela compartilhada vem proporcionando o aumento da estrutura assistencial para o câncer disponível para o setor privado, deixando para a falta de custeio para o SUS o papel de limitar os gastos em saúde, em nome do equilíbrio das contas públicas, promovendo um estímulo à procura por planos de saúde com promoção do setor privado por meio de ações governamentais, bem ao estilo das antigas receitas de privatização do Banco Mundial.

Agora, para completar esse quadro, teremos com a Medida Provisória 553/2012 a novidade de custear com recursos públicos oriundos da renúncia fiscal a prestação de serviços médico-assistenciais para o combate ao câncer, exclusivos para quem paga plano de saúde?

Com a palavra, o Ministério da Saúde.

Aparecida Isabel Bressan é Médica Sanitarista, Mestre em Políticas Públicas de Saúde pela ENSP/FIOCRUZ e Diretora do CEBES.

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Criança tem de praticar esporte ou fazer atividade física em escolinha? O pediatra João Guilherme Alves dá todas as dicas

Publicado em: 14 de setembro de 2012

O pediatra João Guilherme Alves receita: Atividade física é um dos melhores “remédios” para a criançada

por Conceição Lemes

Esconde, pega-pega, amarelinha, barra-manteiga, queimada, pular corda, andar de bicicleta, jogar bola, garrafão

A lista de brincadeiras infantis de 20 ou 30 anos atrás era imensa. Brincando, a criançada se exercitava, mesmo. Tanto que raramente os pediatras precisavam prescrever atividade física, como é obrigatório hoje em dia.

“As crianças de hoje não estão se exercitando como devem, estão menos ativas”, alerta o pediatra João Guilherme Bezerra Alves, responsável pela pós-graduação do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), em Pernambuco. “Estima-se que hoje uma criança gaste menos 400 Kcal por dia do que há 20 anos.”

É o equivalente às calorias contidas em meio litro de leite ou em aproximadamente uma hora de atividade física. Conseqüências: crianças obesas, com colesterol, pressão arterial e níveis de açúcar elevados no sangue.

Questão de saúde pública, portanto. Por isso, aprofundei  essa conversa com o doutor João Guilherme Bezerra Alves.

Blog da Saúde —  Que  fatores contribuem para a inatividade infantil e as suas conseqüências?

João Guilheme Alves-– Por exemplo, a falta de espaço para recreações, incluídos o residencial e o da escola, devido à especulação imobiliária; a violência que limita os deslocamentos das crianças — não se vai mais à escola de bicicleta como antigamente; TV, computador, internet, videogame.

Bog da Saúde — Qual a importância da atividade física para a criança?

João Guilherme Alves — É um dos melhores remédios para ela. Ajuda a manter a criança com aptidão física e no seu peso adequado.  Promove a saúde, previne doenças e auxilia no tratamento de muitas delas.  Atividade física é excelente para coração, pulmão, osso, músculo, cabeça… Ajuda a evitar doenças que podem acometer a criança, como depressão, asma, infecções. Assim como doenças da vida adulta, entre as quais hipertensão arterial, diabetes, infarto do miocárdio.

Blog da Saúde —  Que atividades são recomendadas à criança?

João Guilherme Alves — A criança simplesmente necessita de espaço para desenvolver suas atividades físicas, que dependem da idade. É importante que faça uma que goste. Atividades esportivas competitivas somente devem ser praticadas sob duas condições: 1) se a criança quiser; e 2) baseada na habilidade dela e não naquilo que os pais gostariam. Por exemplo, se a criança não leva jeito para jogar futebol, convém que seja estimulada para outro tipo de esporte.

Blog da Saúde — A partir de que idade?

João Guilherme Alves — Desde o momento em que começa a ir para o chão, a criança necessita de espaço para pleno desenvolvimento. Na realidade, já na vida intra-uterina. A pratica da atividade física orientada durante a gravidez beneficia o feto e ajuda a mulher a ter um bom parto.

Blog da Saúde —  Muitas pessoas acham que atividade física supõe esporte ou atividade em escolinha. Isso é necessário?

João Guilherme Alves –– Nem uma coisa nem outra. Atividade física é se movimentar,  gastar energia. Ou seja, quando transpiramos um pouco ou sentimos o coração bater mais acelerado já estamos fazendo atividade física. Logo, uma criança brincando no parque, jogando, correndo, andando de bicicleta, está fazendo atividade física.

Blog da Saúde — Que alerta gostaria de fazer aos pais e mães?

João Guilherme Alves — Crianças fisicamente ativas têm maior probabilidade de viverem mais e com saúde.  Afinal, na vida adulta, terão menos risco de diabetes, hipertensão, obesidade e de morte por infarto do miocárdio, principal causa de óbitos no mundo, inclusive no Brasil.

Blog da Saúde — O que recomendaria mais ?  

João Guilherme Alves — Mãe, pai, sejam fisicamente ativos! Além de terem mais saúde, serão exemplos para os seus filhos.

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‘Ladrões’ podem estar ‘roubando’ os seus ossos, previne Gilberto Vieira, professor de Endocrinologia da Unifesp. Aprenda a combatê-los

Publicado em: 7 de setembro de 2012

Prevenção é a única arma eficaz contra “ladrões” de ossos. Conheça-os e aprenda a se proteger da osteoporose.

por Conceição Lemes

Sabia que osso é órgão extremamente vivo e ativo? E que você forma e perde osso o tempo inteiro? Pois isso é o que acontece ao longo da nossa vida. Com uma diferença: no início, a aquisição de osso supera a perda; depois, ocorre o inverso. Ao entrar no climatério, entre 45 e 50 anos, as mulheres perdem anualmente mais de 2% da massa óssea, devido à redução dos estrógenos, os hormônios femininos. No homem, essa redução acontece aos 65, 70 anos, e não de forma tão drástica.

Consequência: até a velhice é normal perder quase metade da massa óssea (do esqueleto), em especial as mulheres.

É como se o osso fosse um caminhão de areia. É preciso enchê-lo bastante no começo do percurso, já que o material será descarregado aos poucos até o final da viagem. Se não se fizer isso direito e na hora certa, a carga acaba antes. É a osteoporose. A doença leva à perda progressiva da densidade dos ossos, que enfraquecem e ficam mais sujeitos a fraturas. A mais temida é a do colo do fêmur — uma causa importante de internação e óbito entre as mulheres com mais de 50 anos. A mais comum, a fratura vertebral: provoca dor, piora a qualidade de vida e aumenta a mortalidade. No Brasil, a osteoporose afeta cerca 3 milhões de pessoas, das quais 80% são mulheres.

“O principal responsável pela doença é a quantidade máxima de osso atingida por cada pessoa — o chamado pico de massa óssea”, informa o médico endocrinologista José Gilberto Vieira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “A carga genética contribui com 60%; os 40% restantes são ambientais.”

O grande pico de massa óssea ocorre dos 10 aos 18 anos. Dos 20 aos 25, atinge-se o patamar máximo. Só que, na infância e na adolescência, “ladrões” podem impedir o caminhão de alcançar a carga ideal, arriscando o futuro ósseo. Da maturidade até a velhice, os “assaltantes” podem esvaziá-lo mais cedo.

“O sedentarismo é um dos grandes ‘ladrões’; em silêncio, ‘rouba’ massa óssea em todas as fases da vida”, alerta Vieira. “E osso perdido não tem retorno; não existe remédio para repô-lo.”

OUTROS “LADRÕES” IMPORTANTES

* Uso contínuo de certos medicamentos — Os corticosteroides são um deles. Empregados em asma, algumas doenças renais e psoríase, por exemplo, por mais de dois meses, mesmo em doses baixas, eles já têm efeito no esqueleto. Atuam sobre o metabolismo ósseo, comprometendo muito a aquisição de massa óssea na infância e na adolescência. Anticonvulsivantes à base de fenobarbital, diuréticos e hormônio da tireóide são remédios que também “roubam” osso.

* Imobilização por acidente, cirurgia ou outra razão qualquer — Ao ficar imóvel, o organismo “entende” que não precisa muito de osso para manter a estrutura do corpo. O osso, então, vai atrofiando, jogando cálcio fora. E o cálcio é o mineral responsável pelo endurecimento do osso, que é basicamente cartilagem, como a orelha e o nariz. O osso, aliás, só existe por causa da força da gravidade e da musculatura. Tanto que, se a musculatura atrofiar por causa de poliomielite ou acidente vascular cerebral, o AVC, o osso atrofia junto.

* Doenças prolongadas — Por exemplo, câncer, diabetes tipo 1, insuficiência renal crônica e aids. Elas consomem o organismo e “roubam” massa óssea. Com o agravante de que, em várias moléstias, as medicações também são lesivas ao osso, como os imunossupressores usados nos transplantados e os quimioterápicos nos pacientes de câncer.

* Fumo — Estudos sugerem que o tabaco tem ação tóxica sobre os osteoblastos (células formadoras de osso), diminuindo a formação do osso e acelerando a sua reabsorção.

* Alimentos embutidos, enlatados e refrigerantes à base de cola — Em excesso, podem prejudicar, segundo o médico Gilberto Vieira. São muito ricos em fosfato, que não deixa o cálcio ser absorvido.

* Carnes e sódio — Proteína e sal de cozinha em exagero também são ruins para o osso. Induzem à perda de cálcio pela urina.

PREVENÇÃO EM TODAS AS IDADES

A boa notícia é que a osteoporose é perfeitamente evitável. O certo é começar a prevenir aos 5, 6 anos de idade, e não na vida adulta.

“Prevenção é a única arma eficaz contra os ‘ladrões’ de ossos e a decorrente osteoporose”, avisa Vieira. “Tem de se investir tudo na prevenção, e em todas as fases da vida”.

Da infância à terceira idade, a receita para obter e manter ossos fortes e se proteger contra a osteoporose é esta:

* Combater o sedentarismo. A atividade física regular estimula a formação óssea e fortalece a musculatura. Para a criança, basta deixá-la brincar: correr, andar de bicicleta, jogar bola, patinar. Para os adultos, caminhar, correr, andar de bicicleta e praticar dança de salão são ótimos. A natação e a hidroginástica não aumentam a massa óssea, já que a atividade aquática elimina a força da gravidade. Porém, ambas têm efeito na diminuição de fraturas, pois aumentam a mobilidade e a noção de equilíbrio.

* Dieta balanceada e saudável, com moderação nos refrigerantes, enlatados, embutidos, sal de cozinha e carnes em geral.

* Ingestão adequada de cálcio. Leite e derivados são a sua principal fonte. Tanto que, no Brasil e nos Estados Unidos, são recomendados pelo Ministério da Saúde. No entanto, contêm muita gordura saturada, o que aumenta o risco de doenças cardiovasculares. Por isso, pelo menos para os adultos e idosos, há especialistas que acham que os suplementos de cálcio são a melhor maneira de a pessoa na meia-idade ou idosa suprir as necessidades diárias do nutriente, embora os produtos desnatados sejam uma alternativa para quem gosta de leite.

* Livrar-se do cigarro.

Agora, se são inevitáveis as situações que “roubam” osso, principalmente na infância e na adolescência, é vital a prevenção para reduzir o tamanho do “assalto” e, assim, evitar a osteoporose à frente.

“Além de dieta e exposição solar adequadas, é necessária a suplementação de cálcio e de vitamina D para prevenir a perda óssea”, afirma Vieira. A vitamina D é fundamental para o osso. Ela é que faz com que o cálcio seja absorvido pelo intestino e depositado no esqueleto.

 

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Antes de comer frutas e hortaliças, você higieniza-as certo? Teste. A culpa de alguns “desarranjos” não é a comida do boteco!

Publicado em: 2 de setembro de 2012

por Conceição Lemes

“Quem vê cara, não vê coração”, diz o ditado popular. Em se tratando de legumes, verduras e frutas é a pura verdade.

Vê-las em supermercados e feiras enche os olhos.  Apetitosas, lindas e aparentemente limpas.  Só que, até chegar à sua mesa, as hortaliças passam por diversas situações capazes de comprometer-lhes a segurança.

A começar pelo plantio. Que garantia se tem de que foram irrigados com água de boa procedência? E de que os seus colhedores lavam as mãos após ir ao banheiro?

Depois no depósito. Qual a certeza de que ratos, baratas e outros animais não passaram por cima, urinaram e defecaram? E de que os funcionários que os manipulam são asseados? E de que feirantes, repositores de supermercado e clientes não deixaram nesses alimentos bactérias, fungos e vírus, já que os manuseiam o tempo todo?

“Se filmássemos às escondidas a trajetória das hortaliças”, previne a a nutricionista Celeste Elvira Viggiano, da Supervisão de Vigilância em Saúde da Prefeitura de São Paulo, “vocês teriam surpresas desagradáveis.”

Arghr… Calma, tem jeito! O que fazer?

Bem, primeiro um teste. É simples. Antes de comer frutas, verduras e legumes, é hábito na sua casa passar todos esses alimentos:

a) Apenas na água corrente?

b) Na água corrente e depois deixá-los em solução de água e vinagre?

c) Na água corrente e depois deixá-los em solução de água mais água sanitária?

d) Na água corrente e depois deixar apenas as verduras em solução de água mais água sanitária?

“Se você cravou c, mantenha o hábito”, aplaude Celeste, que também é mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

Já se o costume é uma das demais alternativas, ela alerta: “Você e sua família correm o risco de consumir alimentos contaminados por microorganismos e terem problemas gastrintestinais”.

Os sintomas mais freqüentes são diarréia, vômito, dor abdominal e náusea. Eles podem ocorrer desde meia hora após o consumo até dias, dependendo do agente patogênico causador.

Moral da história: alguns daqueles “desarranjos”, que muitas vezes atribuímos à comida do boteco, restaurante ou da lanchonete, decorrem de erros de higienização de hortaliças em nossa própria cozinha.

COMO HIGIENIZAR ADEQUADAMENTE AS HORTALIÇAS

— Ah, mas isso a gente já sabe fazer!!! — já sei que alguém acaba de dizer.

— Tem certeza de que faz corretamente?Faz isso toda vez ou às vezes passa batido?

Passar as hortaliças apenas na água corrente é insuficiente, a menos que, depois, elas sejam cozidas, assadas ou fritas. A água corrente elimina unicamente as sujeiras aparentes – terra, larvinhas.

Já água com vinagre faz essas sujidades se desprenderem mais facilmente.  Só isso.

Exceto o processo de cocção, nenhuma dessas condutas mata os microorganismos presentes em verduras, cascas de legumes e frutas e que são invisíveis a olho nu. Os microorganismos que não alteram textura, sabor e cheiro do alimento são os mais nocivos à saúde. Pior. Ao cortar as hortaliças, a faca — isso mesmo, a faca! — leva os microorfanismos para a parte comestível.

Por isso a única maneira de prevenir problemas gastrintestinais é submeter aquelas que serão consumidas cruas à higienização com água sanitária (a 2% ou 2,5% de cloro ativo) ou hipoclorito de sódio (em gotas, distribuído em postos de saúde e à venda em farmácias).

O processo deve ser feito antes de verduras, frutas e legumes irem para a geladeira:

* Passe o alimento na água corrente. É para limpá-lo.

* Faça uma solução de água com água sanitária. Para cada litro de água use uma colher de sopa de água sanitária. No caso do hipoclorito de sódio, siga a orientação do fabricante. Misture bem.

* Coloque as hortaliças nessa solução. Deixe por 15 a 20 minutos. Escorra.

* Passe, de novo, o alimento na água corrente, para retirar eventual resíduo do produto. Está pronto para ser consumido.

A propósito. Substitua a tábua de madeira (microorganismos se acumulam nos orifícios) pela de plástico (lavável e não junta sujidades).

Lave a pia com água e detergente toda vez que manipular hortaliças. Portanto, olho na cozinha. É questão de segurança alimentar.

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Sexo: Distribua carícias à vontade. Sem a menoooooooooooooooooor… pressa

Publicado em: 27 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

Em tempos de internet banda larga, muitos querem tudo na base do pá-pum: objetivo, rápido e competente. Isso inclui a sexualidade. Tanto que sexo virou sinônimo de penetração; competência sexual é penetrar e ser penetrado. Se não houver, o restante do contato não vale nada. O “negócio” é ir logo para os “finalmentes”. Mero encontro de genitais. Uma pena.

“O prazer não é só genital, tem de integrar tudo”, argumenta a ginecologista e obstetra Fátima Duarte, com base no atendimento de mulheres de todos os níveis sociais e faixas etárias, em 30 anos de profissão. “A grande jogada para ter e dar prazer é distribuir carícias à vontade – sem pressa.

Isso mesmo. Sem a menooooooooooooooooooooooooor… pressa. Imagine-se num restaurante divino comemorando uma data especial. Você prefere que o chefe de cozinha prepare o seu prato em dois minutos, tirando-o do freezer, ou que demore para fazer algo especial? No sexo, é parecido. Você quer um prato feito rapidinho ou se dispõe a caprichar nos temperos, e depois saborear o manjar dos deuses? Pois as carícias são os temperos.

Por isso, aqui vai uma dica do livro   Saúde — A hora é agora, capítulo Relacionamento — O corpo inteiro para amar: invista mais nas preliminares.

Em geral, não utilizamos nem 30% do potencial erótico do nosso corpo. E os receptores de sensações estão nele inteiro. Basta você e seu (sua) parceiro(a) se tocarem bastante para os seus pontos preferidos aflorarem. Por falar nisso, você sabe quais são os seus?

“Quanto mais tempo o casal se dedica às preliminares, maiores tendem a ser a carga erótica e o prazer”, abre o jogo a psiquiatra e especialista em medicina sexual Carmita  Abdo,  professora livre-docente e coordenadora do Projeto Sexualidade  (ProSex) da  Faculdade de Medicina da USP.  “A mulher fica mais lubrificada e a penetração mais fácil, o que ajuda, ainda, a atingir o orgasmo. Para o homem saudável, cria condições para boas ereções.”

INFORME O QUE E COMO GOSTA — SEM ACANHAMENTO

Aproveitando a brecha, algumas e alguns desabafam:

– Ah… Mas meu parceiro não sabe do que eu gosto…

– Adoro meu marido, só que de uns tempos para cá não sinto desejo.

– Quando estou de TPM, meu tesão vai pra cucuia.

– Minha ex-namorada ia às nuvens; a atual, eu tento, tento, e ela não tem orgasmo. Será que se o meu pênis fosse maior…?

– Há um tempo saí com uma menina só porque ela me deu mole. Falhei! Desde então, perco o controle direto. Quando me dou conta, já gozei; minha companheira fica uma fera, diz que não ligo para o prazer dela. Juro que me importo.

Calma. Praticamente tudo em sexualidade tem explicação e – o melhor – solução. Na maioria das vezes, é questão de informação. Frequentemente, a mulher espera que o homem nasça sabendo fazer sexo, para que ela não precise comunicar o que gosta. O homem, por seu lado, habitualmente acha que as carícias que uma mulher adora a outra também vai amar, certo?

Ambos errados. Nem o homem é o “professor” nem a mulher a “aluna”. Cada pessoa é uma pessoa. Para descobrir onde “mora” o prazer do(a) parceiro(a), o casal tem de fazer tentativas. A mulher não deve se envergonhar de comunicar o que lhe agrada, assim como o homem também não.

No Brasil, 3,4% dos brasileiros nunca se masturbaram, contra 34% das brasileiras. Portanto, se você ainda desconhece todas as suas áreas erógenas, sempre é tempo de elas serem exploradas. Prazer é questão de foco, duração e intensidade.

A mulher tem de aprender a identificar suas áreas prediletas de carícias e o homem a detectar novas. Seria o clitóris ou a vagina? O abdome, o pescoço ou os seios? Os lábios ou a sola do pé? Por acaso a cabeça ou o corpo do pênis? A região do umbigo ou a da nuca? Os lábios ou as costas? É tudo junto? Ou junto com o quê? Pegue a mão do(a) parceiro(a) e o(a) oriente. Você é que tem de lhe dizer: Está ótimo aí, continue!; Aqui, não!

Agora, não é fazer um carinho rápido e pronto. É preciso um tempo para o estímulo sair das terminações nervosas existentes nas áreas externas do corpo, chegar ao cérebro, informar que algo prazeroso está sendo feito e voltar sob a forma de sensação agradável. Além disso, você tem de informar sobre a intensidade dos toques naquele instante. São os movimentos lentos ou rápidos? Mais superficiais ou profundos? Em circular ou ziguezague?

“Se você silenciar, acabará entrando e saindo da relação sem a menor excitação, provavelmente não sentirá prazer, e o sexo se tornará desagradável”, observa Carmita. Se o(a) parceiro(a) for realmente legal, ficará feliz em tomar conhecimento das suas preferências para lhe satisfazer.

Portanto, nada de acanhamentos. Informe-o(a) das suas predileções, pois ninguém tem bola de cristal. Só assim o prazer de ambos poderá ser explorado ao máximo.

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Aborto no Brasil: As mulheres merecem ser presas? E morrer? Antes de responder, leia o que diz Melania Amorim, médica e ativista

Publicado em: 24 de agosto de 2012

por Melania Amorim, no blog Melania, estuda, Melania!, dica de Fátima Oliveira

Estima-se em cerca de 1 milhão o número de abortamentos clandestinos no Brasil. Como o aborto é ilegal no País, o real número de abortamentos não é conhecido, e para chegar às estimativas atuais recorre-se a uma série de métodos, os quais são discutidos em maiores detalhes nessa importante publicação do Núcleo de Estudos da População (NEPO) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Não há estudos cruzando diretamente abortamentos clandestinos e mortalidade, mas sabe-se que as complicações do aborto respondem por cerca de 15% das mortes maternas no Brasil, e que a quase totalidade desses óbitos são decorrentes de abortamentos inseguros. A legislação vigente que penaliza o aborto não consegue coibir a sua realização, mas antes tem reforçado as desigualdades sociais entre as mulheres.

Mulheres com boa condição socioeconômica recorrem com frequência a métodos seguros quando decidem interromper, mesmo clandestinamente, a gravidez. Ou porque têm acesso à informação de como obter misoprostol, medicamento que no país é de uso exclusivo hospitalar mas é amplamente vendido pela Internet, em geral procedente de países vizinhos onde sua venda é liberada. Ou porque encontram clínicas privadas em que se lançam mão de métodos rápidos e seguros, como a aspiração a vácuo.

Por outro lado, as mulheres pobres, desconhecendo os pontos de venda de misoprostol e as clínicas privadas, ou sem recursos para adquirir a medicação (que acaba saindo por um custo relativamente elevado, dada a sua venda em esquema de “mercado negro”), recorrem a estratégias inseguras e precárias (sonda com soluções cáusticas, uso de instrumentos pérfuro-cortantes) que não somente sobrelevam os riscos como hemorragia, infecção, lesões traumáticas para o trato genital, mas podem levar à morte.

As mortes maternas por aborto ocorrem caracteristicamente em mulheres jovens, de baixa renda, pouca escolaridade, estudantes ou trabalhadoras domésticas, residentes em áreas periféricas das cidades, e são mais frequentes em negras, que têm um risco três vezes maior de morrer por essa causa em relação às mulheres brancas. Uma face do problema que ainda persiste por ser mais bem estudada diz respeito às mortes maternas por suicídio, decorrentes de gestações indesejadas, com ou sem tentativa de interrupção. Em uma situação de desespero, a descoberta da gravidez gera um drama humano de proporções imensas, que pode acarretar tentativa ou concretização do suicídio.

É bem nítida a relação entre discriminalização e redução das mortes maternas por aborto, e um dos exemplos clássicos é a situação da Romênia, onde a taxa de mortalidade materna caiu depois que uma lei que proibia o aborto foi revogada. A lei havia sido aprovada em 1966, sob a ditadura de Ceausescu. Entre 1964 e 1988, a mortalidade materna no país subiu de 80 mortes por grupo de 100 mil nascidos vivos para 180 mortes. Após a revogação da lei, a taxa de mortalidade caiu para 40 mortes para cada 100 mil nascidos vivos.

Por outro lado, diversos estudos em países onde o aborto foi discriminalizado, como os Estados Unidos, demonstram que em médio e longo prazo reduz-se o número de abortamentos provocados, uma vez que, na legalidade, os programas de atenção pós-aborto (APA) permitem o aconselhamento contraceptivo das mulheres acolhidas pelos serviços de saúde para realização do aborto, prevenindo-se a recorrência da gravidez indesejada.

Certamente estamos bem longe de descriminalizar e legalizar o abortamento no Brasil, porque é grande a pressão dos grupos religiosos, apesar de o Estado ser laico. Tramitam na Câmara dos Deputados dezenas de projetos prevendo mudanças na legislação atual, que incluem desde propostas mais liberais como a legalização do aborto sem restrições, até as mais severas, proibindo o aborto mesmo nas atuais situações em que ele é previsto em Lei, como estupro e risco de vida materno.

O atual Código Penal, instituído pelo Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940, inclui a prática de aborto na parte especial, título I (crimes contra a pessoa), capítulo I (crimes contra a vida):

Art. 124 – Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque:

Pena – detenção, de um a três anos.

Art. 125 – Provocar aborto, sem o consentimento da gestante:

Pena – reclusão, de três a dez anos.

Art. 126 – Provocar aborto com o consentimento da gestante:

Pena – reclusão, de um a quatro anos.

Parágrafo único. Aplica-se a pena do artigo anterior, se a gestante não é maior de quatorze anos, ou é alienada ou debil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência.

Art. 127 – As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço, se, em conseqüência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte.

Art. 128 – Não se pune o aborto praticado por médico:

I – se não há outro meio de salvar a vida da gestante;

II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido e consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.

E fica a pergunta que não quer calar: as mulheres merecem ser PRESAS? As mulheres merecem MORRER?

Diante da impossibilidade de se descriminalizar o aborto no Brasil dentro dos próximos anos, diversos esforços têm sido feitos para estabelecer o atendimento integral pelo Sistema de Saúde ao aborto nas situações previstas em Lei (estupro e risco de vida materno), e neste ano de 2012 o Supremo Tribunal Federal julgou procedente o pedido contido no Argumento de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) número 54, para declarar a inconstitucionalidade de interpretação segundo a qual a interrupção da gravidez de feto anencéfalo é conduta tipificada nos artigos 124, 126 e 128, incisos I e II, todos do Código Penal. Em resumo, na atualidade os serviços de saúde devem proceder à interrupção da gestação a pedido da mulher em casos de estupro, risco de vida e feto portador de anencefalia, sem necessidade de alvará judicial para sua realização.

O Ministério da Saúde do Brasil tem uma Norma Técnica para ATENÇÃO HUMANIZADA AO ABORTAMENTO (2011).

Mais recentemente, e visando a abranger um número expressivamente maior de mulheres que não se encaixam nas situações supracitadas, está sendo discutida pelo Ministério da Saúde a implementação de formas de acolhimento às mulheres que decidiram fazer aborto clandestino. A política de redução de danos consiste na difusão de informações sobre alternativas ao aborto, os riscos e os métodos, além da realização de consultas com profissionais de diferentes áreas, visando ao planejamento reprodutivo e à diminuição da mortalidade materna por aborto ilegal no país, como foi informado na publicação da Folha de S. Paulo em 06 de junho de 2012.

No Uruguai, onde o aborto também é ilegal, a norma técnica define consultas com profissionais de várias áreas. A mulher recebe informações sobre o aborto e alternativas como adoção, passa por exames e tem tempo para pensar e decidir. Se ela mantém a intenção, recebe cuidados de proteção pré-aborto. Praticado o ato, a mulher passa por nova consulta para avaliação e educação sobre métodos contraceptivos. Nesse processo, é orientada sobre o uso do misoprostol, cuja venda em farmácias não tem restrições no país.

Segundo o Professor Anibal Faúndes, professor emérito de obstetrícia da Unicamp, grande pesquisador de renome internacional em Saúde Reprodutiva e colaborador da proposta no Uruguai, manter o aborto ilegal e criminalizado impede que o número de abortos diminua. “A legislação que criminaliza o aborto só faz com que ele se realize de forma insegura e clandestina, com grande risco para a saúde das mulheres pobres.”

No entanto, trabalhar com uma política de redução de danos permite minimizar os efeitos catastróficos das legislações punitivas, evitando mortes maternas e reduzindo o número de abortamentos. “Para os que desenvolveram a política, ela não só é uma atitude legal, como é ética e de direito humano básico.”  (FAÚNDES, 2012)

Esse modelo já existe no Uruguai desde 2004 e desde 2008 não se registram mais casos de morte materna decorrente de aborto inseguro no país. Vejam a matéria na revista Radis (Fiocruz) 117.

Vejam também o Guia da Federação Internacional de Planificação Familiar  (IPFF/ RHO) para promover a redução de danos por aborto.

No Brasil, para levar adiante essa política de redução de danos o Ministério da Saúde terá que enfrentar a pressão dos grupos religiosos, incluindo as bancadas religiosas do Congresso, que discordam com veemência da iniciativa e estão dispostas a contestá-la.

É importante que toda a sociedade civil se conscientize do problema do aborto e que possa discuti-lo de forma ponderada e consciente, e que os movimentos de mulheres atuem para garantir que a política de redução de danos possa ser adotada como recomendação do Ministério da Saúde. Discussões estéreis sobre o momento exato em que se inicia a vida não se amparam em qualquer fundamento científico validado, da mesma forma que os “advogados do feto” e os grupos autodenominados “pró-vida” esquecem que milhares de mulheres MORREM anualmente em decorrência de abortamentos inseguros, e que tanto a descriminalização, a legalização e a redução de danos irão impedir não apenas essas mortes preveníveis, mas garantem a redução das gestações indesejadas e do número total de abortamentos provocados. Ou seja: não se trata de ser contra ou a favor do aborto, decisão pessoal de foro íntimo, mas de ser contra ou a favor de uma política que salva vidas.

O que está em jogo, além da autonomia é do direito de escolha das mulheres, porque escolher se ou quando vai engravidar, se vai manter a gravidez, onde, como e com quem se vai ter os seus filhos é um direito reprodutivo básico, é uma questão de saúde pública especialmente relevante, diante da possibilidade de se reduzir o número de mortes maternas e o número total de abortos provocados.

Nota: o tema do aborto desperta até mais polêmica e mobiliza os preconceitos das pessoas do que a discussão sobre parto humanizado e local de parto. Mas eu não poderia, como mulher, mãe, pesquisadora, ativista e feminista, preocupada com o estudo das questões de gênero e a mortalidade materna, deixar de abordar esse assunto tão importante aqui no blog. Sei que isso irá dividir as próprias ativistas da humanização do parto e nascimento. Mas o que fazer? Não vejo nenhuma incompatibilidade entre defender a humanização da assistência à saúde em todos os níveis, incluindo gestação, aborto, parto e puerpério, e a descriminalização e a legalização do aborto, bem como a política de redução de danos. Digo mais, para mim é a mesma bandeira de luta, respeito à AUTONOMIA, aos direitos reprodutivos. Em luta contra a violência contra a mulher. Questão de gênero. Preocupação de saúde pública!

Melania Amorim é  médica-obstetra, formada pela UFPB, residência em Ginecologia e Obstetrícia pelo IMIP, mestrado em saúde materno-infantil (ênfase em saúde coletiva) pelo IMIP, doutorado e pós-doutorado em Tocoginecologia pela Unicamp e pós-doutorado em Saúde Reprodutiva pela Organização Mundial de Saúde.

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Saúde do trabalhador: Justiça reconhece que SUS tem competência legal para fiscalizar e autuar empresas

Publicado em: 21 de agosto de 2012

Médica-pesquisadora Maria Maeno, da Fundacentro: “Se a vigilância e fiscalização em saúde do trabalhador fossem efetivamente feitas pelo SUS,  o Estado e a sociedade teriam um grande ganho”

por Conceição Lemes

É lei. Quando um trabalhador tem um acidente no trabalho ou alguma doença decorrente da atividade profissional, a empresa deve comunicar o fato ao INSS.

O aviso se faz por meio da Comunicação de Acidente de Trabalho – a CAT. É um formulário que a própria empresa preenche. Essas informações são importantes de vários pontos de vista: trabalhista, social, previdenciário, estatístico e epidemiológico. Tanto que, em caso de omissão, a lei determina autuação e multa, independentemente de facultar a sua emissão por autoridades sanitárias, sindicato ou o próprio segurado.  Foi o que aconteceu com a Pirelli Pneus Ltda., em Campinas (SP).

Durante inspeção, agentes do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), órgão da Secretaria Municipal de Saúde, descobriram que a empresa deixou de emitir a CAT para um funcionário com osteartrose.

Também conhecida como artrose ou osteoartrite,  a doença decorre de lenta e progressiva degradação de um tecido elástico que recobre as extremidades ósseas e amortecem os impactos. É responsável por 7,5% dos afastamentos do trabalho no país.

A Pirelli contestou na Justiça do Trabalho. Alegação: o Cerest (leia-se SUS) não teria competência para autuar e multar empresas, pois tais atribuições seriam apenas dos fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

O Cerest replicou, reafirmando ter, sim, competência para fiscalizar e impor multas referentes à saúde pública, independentemente das relações de trabalho.

O Juiz do trabalho Rafael Marques de Setta, da 11ª Vara do Trabalho de Campinas-SP, negou a demanda da Pirelli, reconhecendo a competência legal do SUS em relação às questões de saúde e trabalho.

Em bom português: Vigilância e fiscalização em saúde do trabalhador são competência também do SUS e não apenas do Ministério do Trabalho.

“Desde a Constituição de 1988, o SUS tem várias atribuições na área de saúde do trabalhador. Uma delas é promover ações de vigilância, inclusive fiscalizar plenamente ambientes de trabalho”, explica a médica-pesquisadora Maria Maeno, da Fundacentro, em São Paulo. “Reconhece-se, assim, acertadamente que vários elementos da relação de trabalho são determinantes para a saúde e a produção de acidentes e doenças do trabalhador.”

Apesar de a legislação ser bastante clara sobre essas atribuições, muitas empresas contestam. Há resistência também da corporação dos auditores fiscais do trabalho.

“Se a vigilância e fiscalização em saúde do trabalhador fossem efetivamente feitas pelo SUS,  o Estado e a sociedade teriam um grande ganho”, defende a doutora Maeno. “Em vez de as empresas serem fiscalizadas por centenas de fiscais do trabalho, seriam fiscalizadas por milhares de agentes do SUS em todo o país. Além disso, as atribuições do SUS não se restringem às empresas formalmente constituídas; elas alcançam qualquer local de trabalho.”

Ou seja, do ponto de vista legal, não há a menor dúvida: o SUS (vigilância e fiscalização das condições e organização do trabalho) e Ministério do Trabalho  e Emprego (fiscalização do trabalho) têm atribuições em comum na área de saúde do trabalhador.

Portanto, poderiam ter ações integradas. Na prática, porém, isso não acontece na maior parte do país. Campinas é um dos poucos municípios onde SUS e MTE trabalham em conjunto em saúde do trabalhador.

Detalhe: as referências para fiscalização são diferentes.

O SUS fiscaliza com base nos códigos sanitários e na literatura científica, o que dá maior amplitude às ações.

O Ministério do Trabalho apóia-se nas normas regulamentadoras (NR). O problema é que algumas estão desatualizadas e outras trazem consequências negativas para os direitos dos trabalhadores. É o caso NR7, que determina a realização de exames periódicos por médico contratado pelas empresas; muitas vezes eles têm sido usadis para demitir trabalhadores.

Qual o caminho?

“Os órgãos governamentais devem buscar a articulação real para atuação sinérgica”, defende a dra. Maria Maeno. “Já as empresas deveriam cumprir o seu dever em vez de sobrecarregar a justiça com ações contestando competências legais estabelecidas.”

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O urologista Sidney Glina faz um alerta aos homens: Muitas vezes criam ciladas para si próprios que podem causar disfunção erétil e infertilidade

Publicado em: 19 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

O medo de infertilidade e principalmente de disfunção erétil (antigamente denominada impotência sexual) ronda a cabeça de homens das mais diferentes idades. Ambas podem decorrer de fatores orgânicos e/ou emocionais.

“O problema é que, por desinformação, muitas vezes os homens caem em ciladas que eles criam para si próprios no dia a dia”, alerta o urologista Sidney Glina. “Na prática, são o grande obstáculo à fertilidade e à potência sexual masculinas plenas.”

Sidney Glina é muito respeitado pelos próprios colegas. Já foi presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa de Disfunção Erétil e da Sociedade Brasileira de Urologia.  Atualmente, é professor livre-docente de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC e chefe da Clínica Urológica do Hospital Ipiranga, em São Paulo. Entrevistei-o para saber quais são as armadilhas e conhecer a receita para manter a fertilidade e potência sexual.

Blog da Saúde –  Vamos começar pelas armadilhas. O senhor atende em serviços públicos e no consultório particular. Tem alguma armadilha que seja mais comum entre os jovens, por exemplo?

Sidney Glina – Tem. É o uso sem necessidade das facilitadoras de ereção [Cialis, Helleva Levitra, Viagra, Vivanza]. Eles correm o grande risco de ficar psicologicamente dependentes, e, aí, só funcionarem na base da medicação. Portanto, é uma armadilha.

Blog da Saúde – A brincadeira pode acabar mal?

Sidney Glina — Infelizmente, sim. Há basicamente três tipos de usuários dessas pílulas. Os pacientes que vão ao médico devido a dificuldades de ereção, e o médico prescreve. Há os homens maduros que querem dar uma turbinadinha para uma relação sexual eventual, principalmente na hora do almoço. Normalmente, eles não usam a medicação frequentemente. E há um contingente, provavelmente o maior,  de homens que utilizam o remédio devido a medo ou insegurança. São principalmente jovens, inclusive adolescentes.

Blog da Saúde – De que forma eles podem vir a ter disfunção erétil?

Sidney Glina – Esses homens, jovens e adolescentes têm um ponto em comum: ereção perfeita mas que, seduzidos pela propaganda, recorrem a uma das pílulas existentes no mercado, para “mostrar serviço” ou “ter certerza de que o pênis vai funcionar”. Eles sabem que o remédio pode dar ajudazinha. Então, na primeira vez, usam geralmente com a namorada nova. Aí, na próxima saída, eles usam também, pois receiam que não dê certo. E, assim, vão usando sucessivamente. Com o tempo, esses indivíduos têm grande probabilidade de ficar dependentes psicologicamente da medicação. Começam a achar que só funcionam na base da medicação. E, se não usarem, podem realmente falhar. É uma das causas de disfunção erétil psicológica.

Blog da Saúde – Que outras ciladas os homens armam contra a própria potência sexual e/ou fertilidade?

Sidney Glina – Há várias. A boa ereção depende não apenas do psiquismo “inteiro”, mas de nervos, artérias, veias, hormônios e músculos envolvidos no processo também íntegros. Por isso, ao usar cocaína o homem corre risco de promover danos à ereção. Explico. A cocaína mesmo consumida eventualmente e em pequenas doses pode levar à atrofia da musculatura dos corpos cavernosos, ou seja, das estruturas do pênis que, uma vez cheias de sangue, permitem a ereção. Com a manutenção do hábito, a lesão é irreversível. Aí, só prótese peniana. A cocaína afeta pouco a fertilidade masculina.

Blog da Saúde – E a maconha?

Sidney Glina – Compromete menos a ereção do que a cocaína. O que a maconha pode provocar, assim como a cocaína, é alteração na ejaculação. Ambas atrapalham a concentração, dificultando a excitação.  Assim, sob efeitos delas o indivíduo ejacula mal. Agora, a maconha, o crack e a heroína  contêm substâncias tóxicas aos espermatozóides, afetando-os profundamente. Mesmo usuários de fins de semana dessas drogas têm diminuição da qualidade dos espermatozoides. A maconha, especificamente, pode levar também à infertilidade masculina, reduzindo os níveis de testosterona [hormônio masculino produzido pelos testículos].

Blog da Saúde – E a bebida alcoólica?

Sidney Glina – Em excesso, o álcool, entre outras consequências à saúde, lesa os nervos penianos. Assim, a ordem enviada pelo cérebro aos corpos cavernosos para que se encham de sangue, não chega direito. O resultado é dificuldade para conseguir ter uma ereção. Segundo pesquisas, de 8% a 54% dos homens alcoólatras são impotentes. Além disso, homens que bebem freqüentemente têm mais dificuldade de engravidar suas parceiras por causa de dois problemas: ejaculação para trás, o que diminui o volume de espermatozoides no sêmen; ou insuficiência hepática, que pode levar à diminuição dos hormônios responsáveis pela produção dos espermatozoides.

Blog da Saúde – E o cigarro? 

Sidney Glina – O cigarro interfere no número e na motilidade dos espermatozoides, reduzinho-os. Mas, não há nenhum trabalho científico demonstrando que  diminui a fertilidade. Já a potência sexual reduz, sim. A nicotina dificulta a entrada de sangue no pênis, consequentemente  a ereção. A quantidade de nicotina contida em dois cigarros é suficiente para inibir a ereção de adolescentes.  Para agravar, a longo prazo o cigarro leva à formação de placas de gordura nas artérias, estreitando-as, ou seja, pode comprometer a ereção no futuro. Cachimbo, charuto e cigarrilha acarretam os mesmos malefícios que o cigarro.

Blog da Saúde Que outras armadilhas tem detectado?

Sidney Glina –As “bombas ”de anabolizantes, muito comuns em academias. No Brasil, são crescente causa de infertilidade. Por um mecanismo hormonal, fazem com que o indivíduo páre de produzir testosterona, impedindo a produção de espermatozóides. Em 10% a 20% dos casos, o dano é irreversível. Também por um mecanismo hormonal, as “bombas” levam à impotência sexual.

Blog da Saúde — Em 2004, o senhor foi o primeiro pesquisador do mundo a dizer que a finasterida [substância presente numa imensa quantidade de remédios contra queda de cabelos] poderia causar infertilidade masculina.  Na época, essa associação foi encarada com ceticismo pelos seus colegas. Porém, cada vez mais os estudos lhe dão razão. Como  descobriu isso?

Sidney Glina – Há alguns anos comecei a ver pacientes que apresentavam infertilidade e estavam tomando finasterida. Como sempre houve suspeita de que a finasterida pudesse ter essa ação, eu optei junto com os pacientes por suspender a medicação para ver se a alteração encontrada no espermograma era revertida. E isso ocorreu. Daí ter estabelecido o nexo. Em 2004, publiquei trabalho científico mostrando tal evidência. De lá para cá, outras pesquisas apontaram o mesmo resultado.

A finasterida inibe uma enzima chamada 5-alfa redutase que bloqueia a transformação da testosterona em diidrotestosterona, que é o hormônio masculino ativo. Isso diminui a queda de cabelo de alguns pacientes. E também o crescimento da próstata quando tomada na dose de 5 mg. Entretanto, a diidrotestosterona tem ação no testículo. A diminuição da concentração de diidrotestosterona no organismo leva à alteração na produção de espermatozóides em testículos que já estejam sofrendo algum tipo de problema.

Blog da Saúde — Todo homem que usa remédio à base de finasterida contra calvície pode ter infertilidade?

Sidney GlinaNão. Existem trabalhos que mostram que homens que tomaram 1mg por dia finasterida por dia [é a dosagem recomendada para tratar a calvície] durante pelo menos seis meses, não apresentaram alteração do espermograma. Entretanto há vários relatos de infertilidade em alguns homens que tomavam essa medicação. Tais homens têm outras causas de infertilidade como varicocele (varizes dentro do escroto) ou obesidade. Aparentemente a finasterida ampliaria o efeito dessas situações e aumentaria o efeito negativo sobre o testículo.

Agora, uma vez interrompido o medicamento, há reversão da infertilidade após cerca de três meses. Por isso, aos homens com dificuldade de engravidar as suas parceiras e que usam finasterida, recomendo procurar um urologista e fazer um espermograma. Caso o exame venha alterado, a conduta é a suspensão do remédio para calvície antes de tomar qualquer outra medida.

Blog da Saúde – Os efeitos de álcool, maconha, cocaína e cigarro sobre a potência e/ou a fertilidade também são reversíveis?

Sidney Glina —  Nunca se pegou um indivíduo absolutamente adicto para fazer contagem de espermatozoides e verificar seis meses depois como estava a quantidade. Mas, é claro, que os efeitos dependem do tempo de uso, quantidade e sensibilidade individual a essas substâncias. Quanto maior o uso maior o risco e menor a possibilidade de reversão. O que a gente vê no consultório com usuários de fins de semana de maconha e cocaína, por exemplo, é alteração na motilidade dos espermatozoides.  Os espermatozoides  “andam” mais devagar, diminuindo a probabilidade de engravidar. Quando detecto isso, peço  para o paciente suspender a droga.

Blog da Saúde – Então o tratamento da infertilidade masculina e da impotência pode passar  pela suspensão dessas substâncias ?

Sidney Glina – Com certeza. E muitas vezes só isso basta para reverter o problema.

Blog da Saúde –  A esta altura, alguns leitores talvez estejam dizendo que isso é caretice, nunca viram ninguém com impotência e/infertilidade por causa disso e até que o senhor está querendo tocar horror.

Sidney Glina – Infelizmente já vi, sim, muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa destes “hábitos”. Recentemente atendi um que começou a tomar uma das pílulas para facilitar a ereção. No início, apenas um pedacinho do comprimido de 25mg. Dizia que era para dar uma turbinadinha. Agora, ele diz que a dose de 100mg já não funciona mais. Este paciente não tem nenhum problema orgânico! Tem apenas uma falta de confiança muito grande em si próprio.

Blog da Saúde – Afinal, qual a receita para o homem manter a potência sexual e a fertilidade?

Sidney Glina – É a mesma receita para ter boa saúde física e mental:

1) Não abusar do álcool;

2) Evitar maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy;

3) Dar adeus ao tabagismo, qualquer que seja a sua idade;

4) Evitar a obesidade ou emagrecer se estiver acima do peso.  Ao combater a combater a obesidade, por tabela, diminui-se o risco de impotência sexual e infertilidade masculina. A obesidade favorece ambas;

5) Controlar a pressão arterial, os níveis de colesterol e de “açúcar” no sangue. São medidas fundamentais para manter a integridade de nervos, artérias e vasos sangüíneos de todo o corpo, inclusive do pênis, ajudando a evitar disfunção erétil;

6) Praticar algum tipo de atividade física. O homem que caminha três vezes por semana durante 30 minutos tem mais chance de manter a potência sexual do que aquele que não faz exercício.

Blog da Saúde – O que receitaria mais?

Sidney Glina – Educação sexual. Não existe medida preventiva mais efetiva contra a disfunção erétil. Todo homem tem medo potencial de ficar impotente. Não há como não ter. Mas, se entender como funciona a sexualidade, tem menor probabilidade de ter impotência por problemas psicológicos, que é a maior parte dos casos.

Por exemplo, não se obrigar a um número x de relações sexuais só para cumprir calendário. Transar em condições  adversas perturba o envolvimento erótico, portanto a ereção. Se falhar porque estava estressado, bebeu demais ou a garota, de repente, lhe desagradou, desencanar. Vai dormir, no dia seguinte levantará bem e terá uma relação sexual tranqüila. É vital também compreender e aceitar as alterações normais do desenvolvimento contínuo do homem.

 PS do Blog da Saúde:  Com frequência, se confunde infertilidade com impotência sexual. Nada a ver.  Manter relações sexuais e ejacular não são atestado de fertilidade masculina. Mais: infertilidade não torna nenhum homem mais macho.

O que é então infertilidade? É a incapacidade de o casal gerar um bebê após um ano de relações sexuais regulares sem usar qualquer método contraceptivo.

Em 40% dos casais com dificuldade de engravidar, o homem tem problemas reprodutivos – o chamado fator masculino. Em outros 40%, a causa está na mulher – o fator feminino. Em 20%, ambos têm algum impedimento. Ou seja, é meio a meio. Em 50% dos casos de infertilidade, a mulher está envolvida; nos demais 50%, o homem.

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Fátima Oliveira: Chega de “elefantes brancos”! Postos de saúde precisam funcionar à noite e de domingo a domingo

Publicado em: 15 de agosto de 2012

A ociosidade dos equipamentos públicos da rede básica de saúde
O TERCEIRO TURNO E O FUNCIONAMENTO DE DOMINGO A DOMINGO

por Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica – [email protected] @oliveirafatima_

A garantia do exercício do direito constitucional à saúde é dever, primeiramente, do governo do local, ou seja, do prefeito. Um debate imprescindível na campanha eleitoral municipal de 2012 é a revitalização e a otimização da rede básica de saúde, composta pelas Unidades Básicas de Saúde (antigos postos de saúde), com consultas em clínica geral, pediatria, obstetrícia e ginecologia; e Programa de Saúde da Família (PSF).

É um debate não apenas político (a garantia de um direito), mas com dimensão pedagógica, de educação popular em saúde (garantir acesso ágil e sem distorções ao SUS), assegurando que prefeitos se envergonhem de transformar, na prática, UPAs em “postões de saúde” – a visão de UPA como panaceia – e nem se lixem para a rede básica de saúde com a qual, como esgoto que fica enterrado e ninguém vê, prefeito não se importa, pois não dá ibope!

Conforme as “portas de entrada”, a atenção à saúde é classificada em: atenção primária (rede básica de saúde); atenção secundária (serviços ambulatoriais e hospitalares de média complexidade, incluindo as UPAs); e atenção terciária (ambulatórios e hospitais de alta complexidade e alto custo – urgência e emergência, atenção à gestante de alto risco, especialidades, tais como cardiologia, oncologia, neurologia e atenção ao doente grave).

A importância de compreendermos a missão de cada serviço resulta em maior conscientização na busca do atendimento e em racionalização de investimentos, pois o uso adequado de cada serviço diminui gastos desnecessários. É consenso que uma boa atenção básica resolve em torno de 85% dos problemas de saúde da população. Paradoxalmente, prefeitos preferem “ganhar” UPAs e construir mais hospitais a revitalizar e fortalecer a rede básica, ou seja, habilitá-la para cumprir o seu dever.

Pouco adianta a população entender a missão da rede básica se ela não responder a contento à demanda, seja por inexistência, insuficiência, sucateamento, limitações de diferentes ordens, a saber: profissionais em número insuficiente para atender à demanda de sua circunscrição geográfica; número de consultas/dia muito reduzido; baixa resolutividade, em especial acesso dificultado a exames laboratoriais e de imagens, morosidade na entrega dos resultados, além de um gargalo que nos grandes centros urbanos tem sido muito cruel com a população que trabalha durante o dia: o funcionamento de postos e centros de saúde apenas em dias úteis e em “horário comercial”, das 7h às 17h.

Há anos defendo que o espaço físico da rede básica de saúde precisa ser melhor utilizado para facilitar a vida de quem trabalha e para acabar, de uma vez por todas, com a marca da ociosidade e da má fama de “elefantes brancos”. Nos centros urbanos não dá mais para postergar a ampliação do funcionamento de tais equipamentos, com a criação do terceiro turno de trabalho e até mesmo funcionamento de domingo a domingo.

Tal mudança exige retaguarda ágil para exames laboratoriais e de imagem, porque será de pouca valia assegurar consulta em tempo recorde e deixar os exames solicitados “pendurados na brocha eternamente em berço esplêndido bichado”, como ouvi de uma usuária: “A gente corre para pronto-socorro à toa, com necessidade de outro tipo. Sabe por que eu vim aqui? Eu trabalho; e, como a coceira continua, vim aqui. Não dá faltar para consultar, fazer e buscar exames. Aqui fazem os exames na hora. Por que não há posto que consulta à noite?”.

 

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