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Saul Leblon: Wall Street, a ocupação necessária


09/10/2011 - 16h13

Por sua pertinência e poder de síntese a bandeira que nasceu com um acampamento singelo em Nova Iorque há menos de um mês ganhou rapidamente o foco mundial . Pode se tornar uma espécie de resposta-síntese da sociedade aos dogmas, mantras e salmos dos mercados que jogaram o mundo na maior crise do capitalismo desde 29 e insistem em aprisionar a humanidade dentro dela. ‘Ocupar Wall Street’ tem fôlego histórico para ser uma espécie de ‘pão, paz e trabalho’ do século XXI.

por Saul Leblon, em Carta Maior

Reduzir o tamanho do sistema financeiro tem sido uma prescrição freqüente na boca de economistas não ortodoxos, quando o assunto é reverter a crise mundial e retomar o controle da economia nas mãos sociedade. Ou , como resumem os indignados norte-americanos indo diretamente ao ponto simbólico da questão: ‘Ocupar Wall Street’.

Por sua pertinência e poder de síntese a bandeira que nasceu com um acampamento singelo em Nova Iorque há menos de um mês ganhou rapidamente o foco mundial . Pode se tornar uma espécie de resposta-síntese da sociedade aos dogmas, mantras e salmos dos mercados que jogaram o mundo na maior crise do capitalismo desde 29 e insistem em aprisionar a humanidade dentro dela. ‘Ocupar Wall Street’ tem fôlego histórico para ser uma espécie de ‘pão, paz e trabalho’ do século XXI.

É preciso ter em conta, porém, o tamanho da ‘ocupação necessária’. A crueza no discernimento do jogo é crucial para um movimento cujo principal legado será arguir, afrontar e transformar plataformas e programas que se propõem a superar a crise atual. Para que a mobilização persiga de fato os fundamentos de sua bandeira, será necessário em algum momento decodificá-la do simbolismo contundente em objetivos concretos. Não necessariamente isso ocorrerá nas assembléias da praça da Liberdade. Mas Atenas, Madrid, Lisboa, Londres, Tel Aviv, Santiago e agora Wall Street já demonstraram que só as ruas têm o calibre e a densidade necessária para derrubar ou pautar governos, refundar ou enterrar partidos, fortalecer ou descartar lideranças. A esperança do mundo é de que seja assim também nas eleições presidenciais de 2012 nos EUA , com as ruas opondo contrapesos claros ao extremismo conservador e à hesitação democrata.

Se assim o fizer, ‘Ocupe Wall Street’ terá cumprido a missão de transformar a disputa sucessória de Obama no palco mundial de um embate pedagógico – que a mídia ofusca – entre os interesses devastadores dos chamados ‘livres mercados’ e as forças que buscam uma alternativa solidária, democrática, ambientalmente viável ao longo crepúsculo neoliberal.

A resistência a isso, como tem experimentado na carne os indignados de Atenas, não pode ser subestimada.

Hoje, 20 maiores bancos do mundo entrelaçam o mercado global, formando um poder financeiro superior ao de dezenas de países e governos juntos.

Dez maiores empresas gestoras de fundos de investimentos controlam US$ 17,4 trilhões – uma riqueza financeira 20% superior ao PIB dos EUA. Oito vezes o tamanho do Brasil.

A desproporção pode ser resumida num dado: o orçamento da FAO, o principal organismo da ONU para cuidar da segurança alimentar e da agricultura é de US$ 1 bi. Parece muito, mas equivale a destinar um dólar per capita/ano aos quase 1 bilhão de famintos existentes no mundo. É nada. Alguns países ameaçam reduzir ainda mais esse orçamento composto de contribuições internacionais. Na zona do euro, a prioridade de muitos governantes, inclusive os social-democratas, tem sido cortar despesas fiscais para remunerar com juros mais altos os compradores de sua dívida. Uma tentativa pírrica de evitar que os fundos especulativos batam em retirada do mercado mas que apenas lubrifica a beira do abismo: arrocho fiscal, como lembrou a Presidenta Dilma, gera mais recessão, com quedas proporcionais de receitas públicas que impõem novos degraus de endividamento.

Sem reduzir o tamanho do setor financeiro na economia – e, portanto, seu poder discricionário sobre a política fiscal, o Estado e os partidos – fica muito difícil romper essa lógica autopropelida de submissão e sangramento. Um exemplo resume todos os demais. O fundo Pimco comanda sozinho um volume de recursos próximo ao do PIB brasileiro (US$ 1,3 tri). A diferença é que estamos falando de um canhão de liquidez giratório, desvinculado de qualquer outro compromisso exceto a rentabilidade máxima. Com a mira nesse alvo móvel, o Pimco deixou de financiar a Espanha em 2010. Abruptamente.

Ao fazê-lo ergueu a bandeira da suspeição sobre a solvência do país anabolizando a fuga da manada que costuma se pautar pelo trote dos grades mamíferos do mercado. Este ano, o Pimco, que tem como ‘CEO’ (chief executive officer) um desses heróis do capitalismo, Mohamed A. El-Erian, uma espécie de Stev Jobs da especulação com irrepreensível folha corrida de metas de rentabilidade alcançadas, deixou de financiar bancos do euro no mercado de curto prazo. A decisão unilateral e novamente abrupta, como manda a estratégia do ‘esfole a presa e fuja primeiro’, agravou a instabilidade do combalido sistema bancário do euro.

Movimentos desses gigantescos répteis especulativos funcionam como um grito de ‘fogo’ aos aplicadores, gerando quedas drástica do valor dos bancos em bolsa e o pagamento de juros crescentes pelos governos.

O epicentro da crise mundial transita assim para a explosiva fronteira bancária, onde abutres do tipo Pimco raspam os ossos antes do vôo mortal de despedida. Ensaios registrados nas últimas semanas – a quebra do banco franco-belga Dexia, por exemplo – sugerem que as exéquias de um explosivo ‘Lehman Brothers do euro’ podem estar próximas.

A lenta capacidade de iniciativa das lideranças políticas do euro -colonizadas pelo poder financeiro que deveriam disciplinar – e a resistência a resgates em massa sinalizam dias piores para a banca européia. Acenos do tipo ‘agora vai’ esboçados por Sarkozy e Merkel ao final de suas incontáveis cúpulas ‘decisivas’ tem cada vez menor efeito anestésico nos mercados.

É contra esse poder desproporcional e desordenada, em retirada destrutiva para lugar nenhum, que o ‘Ocupe Wall Street’ se insurge e pode cumprir um papel esclarecedor na mobilização e forças e projetos em sentido contrário.

Um desafio crucial será escapar do ardil moralista que condena protagonistas mas absolve o enredo.

Bancos e juros não são uma invenção do diabo, mas a essência do capitalismo. Seu papel no sistema é estratégico na mobilização e gestão dos capitais dispersos que, na forma de capital a juro, propiciam um salto de escala e qualidade ao gerar crédito e recursos para a demanda e o investimento ampliado em meios de produção. O crédito nesse processo funciona como uma antecipação do futuro para a demanda, contornando a crise de superprodução de mercadorias – mas não a de capitais, como se vê nesta crise – implícita num sistema baseado na mais-valia.

A expansão do capital financeiro rompe as fronteiras estanques da acumulação e pavimenta um novo padrão de reprodução do sistema, turbinando sua abrangência e poder no espaço mundial. Portanto, estamos diante de um poder estruturado, enraizado e obstinado em sua lógica de extrema funcionalidade e contundência, unicamente controlável através da estatização pura e simples ou da submissão impositiva a regras de repressão estatal de extremo rigor e abrangência. Em resumo, o oposto da desregulação disseminada no ciclo neoliberal que degenerou as atribuições operacionais das finanças, calcificando a supremacia de um poder paralelo e supranacional.

A autonomia conquistada pelo capital a juros, com o desmonte regulatório do sistema de coerção das finanças nascido na equação da crise de 29, consolidou a expansão ilimitada da liquidez, a metástase dos fundos especulativos, a hipertrofia do crédito e do endividamento (de consumidores também, mas sobretudo de Estados que renunciaram à taxação da riqueza para torná-la acionista da dívida pública a juros), os derivativos, os hedges , o carry trade, as bolsas e uma miríade de operações e circuitos do dinheiro arisco.

A entropia dessa lógica vem destruindo volumes descomunais de capitais fictícios desde 2007 e mobilizando sacrifícios sociais gigantescos para salvá-los com injeções de recursos subtraído das urgências da sociedade. As bolsas mundiais perderam a bagatela de US$ 22 trilhões em 2008. Os maiores bancos franceses já perderam este ano cerca de 45% de seu valor de mercado de suas ações.

Ainda assim é insuficiente para reverter um poder que não deriva apenas de sua ubiquidade econômica, mas também do enraizamento ideológico no aparelho de Estado, na mídia –vide o jogral contra a redução dos juros no Brasil; no mundo acadêmico e no ambiente dos negócios em geral. A obsessão mórbida pela liquidez (a juros) –para emprestar a frase de Keynes– tornou-se o valor máximo a perseguir, a contrapelo dos valores da democracia e das prioridades do desenvolvimemto.

‘Ocupar Wall Street’ tem esse sentido de uma rebelião reordenadora contra a lógica que subtrai recursos à saúde e à educação pública no Brasil; frauda o escrutínio das urnas na Espanha e corrói o emprego nos EUA e em dezenas de outras nações, regurgitando juros sobre juros numa autofagia inútil e sem controle. Mesmo em inglês, o grito que partiu da Praça da Liberdade, em Nova Iorque, encontrou empatia imediata em todos os idiomas e agruras do mundo porque fala ao sentimento intuitivo de todos os povos: é preciso enfrentar o cerne do capitalismo em nosso tempo.

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5 comentários

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Mário SF Alves

20 de outubro de 2011 às 15h00

Franco,
Tenho a sensação de que, na medida que este movimento se expanda e se torne um movimento Ocidental, e assim (e só assim) conquiste a democracia real, ele será, certamente, o movimento político mais importante de todos os tempos. Sua natureza é clara: resistência ao que possivelmente viria a ser o que há de mais ameaçador e danoso à humanidade, o ciber-nazi-fascismo.

Responder

Fátima Oliveira: O conferencismo sequestra a democracia | Viomundo - O que você não vê na mídia

18 de outubro de 2011 às 10h58

[…] Saul Leblon: Wall Street, a ocupação necessária […]

Responder

Martin

10 de outubro de 2011 às 23h41

O Planeta Terra deve ser comandado pelos 99% !!! …Esse é o RECADO que queremos MANDAR !!!
Att.
Martin

Responder

FrancoAtirador

09 de outubro de 2011 às 21h06

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Ocupação de Wall Street resgata debate sobre os 'rebeldes sem causa' nos EUA

Por Thiago Carrapatoso, de Nova York, no OperaMundi

O movimento de ocupação de Wall Street tem sofrido grandes contestações da mídia por esta falta de definição específica sobre o que são os protestos. Desde o dia 17 de setembro, vários grupos sociais decidiram ocupar a praça onde os executivos das maiores instituições financeiras do mundo sentam para almoçar: a LibertyPlaza. A ideia, pegando como princípio o que aconteceu na Primavera Árabe, é demonstrar que o sistema financeiro e político do mundo está falido.

Enquanto se vê uma crise do sistema capitalista cada vez maior, há 1% da população que representa cerca de 50% da riqueza mundial. A manifestação é a voz dos 99% restantes, como dizem os participantes da ocupação.

“Só para citar um exemplo, hoje, nos EUA, os jovens enfrentam um terrível índice de desemprego. Esta situação é a pior porque contradiz o que sempre foi prometido para eles: 'o sonho americano'. O montante de débito estudantil por meio de empréstimos para pagar um curso superior atualmente ultrapassa o total de débito em contas de cartão de crédito. É quase 1 trilhão de dólares! Os estudantes saem das universidades devendo dezenas, às vezes centenas de milhares de dólares e descobrem que não há empregos esperando por eles. Será que eles são uma bomba relógio? Claro. Um dos itens que eles podem colocar como demanda é isso: perdão de todos os empréstimos estudantis”, conextualiza Winner.

Na quarta-feira (05/10), o movimento realizou uma manifestação que foi reprimida fortemente pela polícia, terminando com 28 pessoas presas. A manifestação, porém, marca uma mudança na estrutura e credibilidade do movimento para os olhos de grupos mais conservadores. O sociólogo e professor de Jornalismo e Sociologia da Universidade Columbia, Todd Gitlin, analisa o contexto: “A importância do que aconteceu na quarta-feira é que sindicatos e organizações liberais, que são mais tradicionais e hierárquicos, se juntaram aos grupos com posições mais anáquicas. E em números bem grandes. E de muita boa-fé. O que se tem é que a ingenuidade dos protestantes iniciais encontrou um meio para atrair e escolher um momento para que as pessoas que não se ligam culturalmente ao movimento entendam que algo está acontecendo e que estão cansadas de esperar. Nós estamos em uma posição bem diferente da que estávamos na semana passada”.

A demonstração de que o sistema vigente está falido é o que tem atraído cada vez mais organizações, inclusive as mais conservadoras e tradicionais, para o movimento. Nessa quinta-feira (06/10), a Federação de Professores Americanos oficializou o seu apoio à ocupação. Até o apresentador apolítico David Letterman disse em seu programa concordar com o acampamento no distrito financeiro.

Gitlin e Winner concordam que esses protestos já estavam anunciados para acontecer de qualquer maneira. O que adiou para que acontecesse agora foi a eleição de Barack Obama à presidência do país. Os grupos esperaram para ver se o líder eleito conseguiria driblar a crise e resolver a falência global. “Agora, está perfeitamente claro que Obama é só um outro político, alguém considerado relutante ou incapaz de domar a dolorosa crise econômica e política que os norte-americanos vivem todos os dias. Obama e os outros de Washington, a elite do distrito de Columbia, perderam o seu momento de agir. Eles provaram a sua irrelevância. Por razões muito boas, a população decidiu tomar a democracia com suas próprias mãos”, explana Winner.

O que se vê agora e que influenciará a próxima eleição, segundo Gitlin, é que os Estados Unidos contam com uma nova força que influenciará e até decidirá os rumos do país: a sociedade. A democracia norte-americana, agora, precisa lidar com um agente que estava até então oprimido das decisões e relações políticas. A ocupação e manifestação no coração financeiro do mundo fez com que o questionamento sobre o que é a democracia nos EUA se tornasse mais popular e divulgada por todas as camadas da sociedade. “Agora há uma nova força. Nós estamos em um novo contexto político”.

Para Langdon Winner, porém, o futuro pode não ser tão promissor quanto se parece agora. “É muito cedo para dizer se este fermento moverá a sociedade para uma situação mais justa, igualitária e de engajamento público. Aliás, um possível resultado é uma reação fascista viral, algo que frequentemente ocorre quando a economia quebra, como aconteceu na Europa durante os anos de 1930. Nos EUA hoje, é um desafio saber se vai prevalecer a democracia direta da ocupação em Wall Street ou o fascismo do movimento Tea Party. Estes são tempos extremamente perigosos.”

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/especial/OC

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