Marina Lacerda: A prova estava dentro de mim

Tempo de leitura: 3 min
À esquerda, Vilézia dos Santos, campeã dos 70 km da Volta do Lago de Brasília. À direita, Lorena Ramiréz, da comunidade Rarámuri, no México, que corre maratonas, ultramaratonas, só com sandálias e a sua roupa tradicional. Fotos: Perfil de Vilézia dos Santos em rede social e reprodução da internet

Uma homenagem a Vilézia dos Santos, campeã dos 70 km da Volta do Lago de Brasília

Por Marina Basso Lacerda*

Há uns anos eu vi um documentário que nunca me saiu da cabeça. “Confira Lorena, la de pies ligeiros” – disponível na Netflix. É sobre Lorena Ramiréz, da comunidade Rarámuri, no Norte do México.

Ela corre maratonas, ultramaratonas, só com sandálias e a sua roupa tradicional. Sem whey protein, sem tecidos de compressão, sem grandes tecnologias. E me marcou: “eu não penso em nada, só a sensação boa de correr e cumprir um objetivo”. Isso, na verdade, é um estado meditativo profundo.

E eu sempre carrego a Lorena no meu coração, em parte por me identificar com ela (com essa sensação boa de correr, sem nada na cabeça, essa liberdade e esse silêncio), e em parte por admirar a capacidade de ela correr tantos e tantos e tantos quilômetros (maratona, eu fiz só uma).

Mas eis que há mais ou menos um ano eu conheci uma Lorena brasileira. É a Vilézia dos Santos. Há poucos dias a Vilézia simplesmente ficou em primeiro lugar numa prova de…70 km! Que ela fez sozinha. E descreveu a mesma sensação da Lorena:

“Eu não pensava mais em nada. Zerou. Com a cabeça tranquila, do começo ao fim. Cheguei sobrando.”

A prova foi a Volta do Lago Caixa, a mais tradicional ultramaratona de Brasília, que no dia 5 de julho chegou à sua 20ª edição: um percurso que contorna o Lago Paranoá inteiro, com distâncias de 50, 70 e 100 km.

A grande maioria dos quase dois mil atletas corre em equipes de revezamento, dividindo o caminho entre 4, 6 ou 8 pessoas.

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A Vilézia foi uma dos 186 que encararam a distância sozinhos. 70 km sem ninguém para passar o bastão. E numa ultra o suporte é por conta de cada corredor: o dela foi o marido, Wellington, de carro nos pontos de apoio, e um colega de bicicleta ao lado, alcançando comida e bebida nas paradas.

E sem grandes tecnologias também. Nada de gel de carboidrato, suplemento caro, injeção:
“Sem injeção, sem nada. Jogo limpo.”

O combustível dela? “Água de coco e banana. Comi umas seis bananas. Gastei cem reais só de água de coco.” Foram 7 horas e 23 minutos correndo. Na segunda-feira ela estava no trabalho, normal.

Mas não é só isso. Sete dias depois ela fez a maratona de Porto Alegre, na chuva.

A Vilézia é CLT, acorda de madrugada todo dia para treinar, às 8h está aqui no trabalho, sai de ônibus e metrô, pega a filha na escola, vai para casa, faz janta, ajuda nas tarefas. Sim, ela é mãe.

E é a iluminação em pessoa. Sempre alto astral, sempre pronta para ajudar.

Eu não gosto dessas histórias de superação neoliberais, e, por favor, a história da Vilézia é o contrário disso.

A narrativa neoliberal de superação tem uma estrutura na qual o sofrimento é um investimento. Você acorda às 5h, se sacrifica, e isso lhe leva a sucesso, dinheiro, reconhecimento, um corpo-vitrine, uma palestra motivacional.

A dor é meio para um fim, e o fim é sempre conversível em capital (financeiro ou simbólico). E ela vem embutida com uma moral: “se eu consegui, você também consegue; se você não consegue, o problema é seu; as minhas 24 horas são iguais às suas”.

Mas com a Vilézia não é isso. Ela correu 70 km e ganhou… nada.

Nem quer transformar em nada. Não virou coach, não abriu perfil de atleta, não vende plano de treino, não fica fazendo discurso.

“A felicidade tá dentro”, diz ela. É isso mesmo. E isso é o contrário de “a recompensa vem depois”.

E, como também ela disse, “não é uma coisa pra você fazer de novo, não é uma coisa que você fica repetindo”, e por isso é lindo. Não é um projeto de otimização contínua de si, é uma experiência única, um rito.

O discurso da subjetividade neoliberal é de foco, meta, mentalidade vencedora, visualize o pódio.

O que ela descreve é esvaziamento. “Zerou, resetou minha cabeça”. Também isso (e bons genes, claro) é o que a aproxima da Lorena e dos Rarámuri: correr pela sensação boa, não como performance.

E há um segundo registro performático, espelho do primeiro: o de quem só consegue narrar a própria experiência pelo que lhe foi feito.

A chuva, a poça, a garrafa de água que veio fechada. Como se a prova só existisse no idioma da queixa, como se correr fosse apenas ser maltratado pelas circunstâncias. A Vilézia acha graça: “se cai chuva do céu, vai ter poça no chão”.

As pessoas costumam se definir pelo que produzem ou pelo que sofrem. Nenhum dos dois está inteiro na experiência. A Vilézia está. Um estado meditativo profundo, tal qual o da super-heroína indígena mexicana.

E quando o irmão dela ficou chocado — “você fez tudo isso pra não ganhar nada, só o troféu?” — a resposta dela foi a mesma da Lorena:

“Não ganhei nada, nada. Mas a felicidade está dentro? Eu quis fazer, queria ver até onde o meu corpo aguentava.”

E ela disse mais, e com ela dizendo, não tem mais nada que eu possa dizer: “A prova estava dentro de mim.”

*Marina Basso Lacerda é doutora e pós-doutora em Ciência Política, pesquisadora da UnB e da USP, autora do livro O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro, finalista do Prêmio Jabuti.

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