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Lula Miranda: ‘Maloqueirismo’ ou ‘jornobanditismo’


12/11/2012 - 10h17

O termo “maloqueiro”, ironicamente, sempre foi estigmatizado por parte da nossa elite, sendo utilizado para designar aquele que lhe era abjeto; para conceituar aquilo que a seus olhos eram grupos sociais “ordinários”. Agora, esse rótulo se volta contra essa mesma elite, definindo e adjetivando suas ordinárias práticas.

por Lula Miranda, em Carta Maior

O jornalismo maloqueiro ou “maloqueirismo” é aquele originário das malocas da mídia brasileira. Tomo emprestado aqui, a título de ilustração, algumas definições do termo “maloca” constantes do dicionário Aurélio: “Esconderijo; grupo de gente que não inspira confiança; grupos de salteadores, de bandidos”. São essas conceituações que servirão de embasamento para nosso “estudo de caso”.

O propósito aqui não é exatamente modesto. A saber: pretende-se fazer um estudo das influências do “maloqueirismo” como força determinante do comportamento predatório e antiético de parte importante da mídia brasileira nos dias de hoje, e seus reflexos no jogo pelo poder e na sociedade. Ambicionamos ainda mais: pretendemos que essa nova categoria de jornalismo seja estudada nas faculdades de comunicação – como exemplo didático e emblemático de caminhos, atalhos e esparrelas a serem evitados pelos jovens jornalistas.

“Maloqueirismo” ou “jornobanditismo”, grosso modo, é o jornalismo a serviço do banditismo – dos interesses escusos, criminosos. É o comando do crime organizado da opinião publicada. Este, esclareço, é apenas um capítulo introdutório desse incipiente estudo que certamente será assumido e desenvolvido também por outros jornalistas, acadêmicos e estudiosos do tema. Aqui, valerá como nunca a contribuição milionária de todos os erros. Sinta-se, pois, à vontade para dar a sua colaboração nesse debate.

É digno de nota que o termo “maloqueiro”, curiosa e ironicamente, sempre foi estigmatizado por parte da nossa elite, era utilizado para designar aquele que lhe era abjeto; para conceituar aquilo que a seus olhos eram grupos sociais “ordinários”. Agora, paradoxalmente, esse rótulo se volta contra essa mesma elite, definindo e adjetivando suas ordinárias práticas.

Mas como identificar um jornalista maloqueiro? Veremos a seguir.

Esses jornalistas vivem enclausurados em seus próprios umbigos e crenças de classe. Tal qual vampiros* não saem à luz do dia – têm seus motivos [* sentido figurado: aquele que explora os pobres em benefício próprio]. Não se encontra um “maloqueiro” nas ruas e shoppings de sua cidade, por exemplo. Eles rastejam nas antessalas e corredores do poder. Não pegam ônibus, trem ou metrô; desconhecem, portanto, as agruras por que passam os cidadãos comuns. Seus patrões, zelosos, tal qual o bom carcereiro da fábula que embala os inocentes, vez em quando lhes coloca um prato de comida e uma cuia com água fresca, na porta de seus catres sombrios, para que estes se alimentem e matem a sua sede. Sede de água, vale o registro, mesmo sob o risco do pleonasmo – pois a sede de servir ao patrão, esta é insaciável.

São regiamente remunerados e recebem, a título de bônus, pequenos mimos e mordomias – para que, também eles, sintam-se parte integrante do que se convencionou chamar de “classe dominante” ou, numa linguagem mais vulgar, de “bem nascidos”. Viajam de 1ª classe; acomodam-lhes em bons hotéis estrelados; bebem vinho caro e bom champanhe; comem em bons restaurantes [de alta gastronomia] etc. A eles, em verdade, bem como aos seus leitores, são destinadas as migalhas, os restos dos banquetes em que se fartam os hipócritas.

Tal qual condenados, subjugados pelo seu próprio servilismo e vacuidade, eles sequer percebem, mas a cada movimento que fazem em seu claustro de misérias escuta-se ao fundo o rangido do lento arrastar dos grilhões e correntes invisíveis, que lhes servem de amarras. Grilhões e correntes invisíveis aos olhos dos justos e dos incautos, mas que não engana o rigoroso juiz que todos carregamos n’alma e que lhes assombram e comprometem o sono.

O “maloqueirismo” ou “jornobanditismo” é um neologismo, um conceito relativamente novo, nem tão recente decerto, mas que ainda não foi devidamente estudado, dicionarizado ou catalogado. Já foi traduzido, inapropriadamente, algumas vezes, por variados nomes e qualificativos, tais como “parcialismo”, servilismo ou sabujice, vilania, pena de aluguel, “escreventes da infâmia”, jornalismo fiteiro etc. Mas não é nada disso; é muito mais além, ou aquém.

É obra do jornalismo maloqueiro, por exemplo, a politização do descalabro, as denúncias seletivas, que só afetam determinado partido político; as manchetes tão grandiloquentes quanto vazias; a “espetacularização” da notícia; a utilização de arapongas e detetives mafiosos em seus métodos investigativos; o desrespeito às pessoas, a sujeição do outro ao linchamento moral e à desonra; a expropriação da identidade do indivíduo, o culto ao patrimônio, dentre outras mazelas e vergonhas.

Devemos, portanto, em nome da liberdade e do pluralismo da imprensa, condenar e denunciar esse tipo deletério de jornalismo e, mais que isso, informar o nosso público leitor acerca de sua existência e, na medida do (im)possível, melhor formar os nossos futuros jornalistas.

Aguardemos, portanto, mais contribuições ao estudo dessa importante matéria que se impõe na contemporaneidade. Pois como já bem assinalou, recentemente, o professor Bernardo Kucinski: “Estamos assistindo ao surgimento de um macartismo à brasileira”.

Lula Miranda é poeta e cronista. Foi um dos nomes da poesia marginal na Bahia na década de 1980. Publica artigos em veículos da chamada imprensa alternativa, tais como Carta Maior, Caros Amigos, Observatório da Imprensa, Fazendo Média e blogs de esquerda.

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7 comentários

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Gabriel Cavalcanti

12 de novembro de 2012 às 15h45

O consciente coletivo que se tenta implementar no Brasil, embasado em inversões de valores, distorções de fatos, chancelado, inclusive, pela mais alta Corte de Justiça do nosso país, de fato, perturba o intelecto daqueles que a tudo isso enxergam, sem, no entanto, formarem coro para acordar a maioria que, anestesiada, absorve tudo isso por osmose… Alarmante… Mas vamos à luta! Um mundo melhor é possível!

Responder

Zezinho

12 de novembro de 2012 às 13h23

Este texto me lembrou muito um blogueiro que trabalha em uma emissora de televisão e cujo site sempre emplaca alguma propaganda de estatal…

Responder

    strupicio

    12 de novembro de 2012 às 14h16

    com isso vc está descrevendo TODOS os blogs chapa branca…

paulo Sergio

12 de novembro de 2012 às 12h12

Mas é na medida do que falam que esses maloqueiros jornalistas se traem e se entregam . Eles tentam argumentar contra coisas que nem o senso comum da sociedade consegue mais se convencer . Aquele tal Fiuza , na revista Época , por exemplo , expressa tanto ódio e rancor que fica estampado na cara dele que odeia o povo brasileiro , este mesmo que hj consome mais os bens culturais e outros , como benefícios das politicas do Lula .

Responder

    Willian

    12 de novembro de 2012 às 13h27

    O cara tem que aguentar a Narcisa, dá um desconto.

FrancoAtirador

12 de novembro de 2012 às 11h34

.
.
“…São regiamente remunerados e recebem, a título de bônus, pequenos mimos e mordomias – para que, também eles, sintam-se parte integrante do que se convencionou chamar de ‘classe dominante’ ou, numa linguagem mais vulgar, de ‘bem nascidos’…”
.
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A palavra EUGENIA
deriva da junção dos vocábulos gregos “’eu”’ (bem) e ‘“genos’” (raça, linhagem, espécie),
e que, portanto, significa “’BEM NASCIDO’” ou, ainda, de “’BOA LINHAGEM’”, “’BOA ESPÉCIE’…

O termo EUGENIA, contudo, foi forjado apenas em 1883, por FRANCIS GALTON , que o definiu como sendo
““o estudo dos agentes sob o controle social
que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais
das futuras gerações seja física ou mentalmente””.

http://jus.com.br/forum/2215/eugenia-etica-e-direito/

Responder

    FrancoAtirador

    12 de novembro de 2012 às 12h31

    .
    .
    A vaidade humana ultrapassou o limite do natural.

    O culto ao corpo e a busca da eterna juventude

    transformaram-se em patologia coletiva crônica.

    Como bem afirmou o Mario SF Alves aqui no Viomundo,

    é o “Admirável Mundo Novo” (“Brave New World”)

    descrito na obra literária de Aldous Huxley.

    Admirável Mundo Novo (Brave New World, no original em língua inglesa) é um livro escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932 que narra um ‘futuro’ onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem de acordo com regras sociais preconcebidas, dentro uma sociedade organizada em ‘CASTAS’, em um ‘Estado Mundial’.

    Castas….Cores…Jornais
    Alfa……Cinza…Rádio Horário (Hourly Radio)
    Beta……Amora…Rádio Horário (Hourly Radio)
    Gama……Verde…Gazeta dos Gamas (Gamma Gazette)
    Delta…..Cáqui…Espelho dos Deltas (Delta Mirror)
    Ípsilon…Preto…——————

    A sociedade desse “futuro” criado por Huxley não possui a ética e os valores morais como os conhecemos.

    Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada “SOMA”.

    Outros livros sobre o mesmo tema:

    1984 de George Orwell
    Fahrenheit 451 de Ray Bradbury
    Laranja Mecânica de Anthony Burgess
    A Revolução dos Bichos de George Orwell
    Uglies (série) – Série de Livros

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Admir%C3%A1vel_Mundo_Novo
    .
    .
    O filme, de mesmo nome, baseado no livro de Huxley pode ser visto em:

    http://www.youtube.com/watch?v=BcIhjJZ3ftg


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