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Diário da Resistência


Política

Urariano Mota: Os perdoados da ditadura


01/12/2011 - 22h59

por Urariano Mota, em Direto da Redação

Recife (PE) – A revista Época nº 706  traz uma boa reportagem sob o nome de “Os infiltrados da ditadura”. Antes de continuar, é bom esclarecer que a reportagem é boa pelo assunto e por alguma verdade que deixa escapar, apesar da pauta e direção da revista. O fato é que, num surto de bom tema,  a reportagem traz a público os perfis breves de cinco agentes do Centro de Informações da Marinha, que se infiltraram na resistência à ditadura.

Assim, ficamos sabendo dos infiltrados Manoel Antonio Rodrigues, Gilberto de Oliveira Melo, Álvaro Bandarra, este na cúpula do PCB, de Maria Thereza Ribeiro da Silva, no PCBR, e mais Vanderli Pinheiro dos Santos, executor da sua farsa de tal maneira, que recebeu da Comissão da Anistia 234 mil reais e pensão acima de 3 mil por mês. Mas claro, recebeu e recebe porque alegou haver sofrido perseguição e torturas, ao requerer o benefício a pessoas de boa-fé na Anistia. Se uma pesquisa rigorosa se fizer, deve haver outros em igual situação, pois a decência é terra estranha a bandidos e assemelhados.

No sentido acima, a reportagem marca um tento. Os agentes duplos, as infiltrações nos partidos e movimentos clandestinos,  cujo maior exemplo é o senhor cabo Anselmo,  começam a aparecer. Esse é um terreno fértil  de sombras e traições, que o Brasil inteiro ainda muito saberá, a partir da abertura dos arquivos e do trabalho da Comissão da Verdade. Sim, a partir dela, que hoje recebe ataques à ultradireita e à sectária esquerda. Da direita, por absoluto conhecimento do que pode vir da Comissão. Da esquerda à esquerda,  por um desejo precoce de resultados, enquanto vira palmatória dos que julga vacilantes.

Importa agora destacar o quanto a orientação da revista limitou a exploração da mina da luta e infâmia.  O quanto há de conflito entre a reportagem, o mundo terrível que revela, e a ideologia da empresa. São palavras do Diretor de Redação da revista Época, ao tentar pôr venda nos olhos do leitor:

“Na reportagem fica claro como é impossível separar bandidos e mocinhos de modo categórico.   Havia, de ambos os lados, seres humanos movidos por medos, angústias e tensões – alguns deles capazes de todos os tipos de ação, do assalto ou justiçamento à tortura e execução. O repórter Leonel descreve, em especial, a realidade ambígua daqueles que foram infiltrados pelos órgãos da repressão nos movimentos de esquerda. Ele descobriu onde vivem alguns hoje e, ao conversar com eles, testemunhou como a ditadura marcou suas vidas.

As histórias narradas pelo repórter revelam como é simplista a visão daqueles defensores da Comissão da Verdade que tentam disfarçar seu desejo de vingança com a mais nobre roupagem de defesa dos direitos humanos… Porque, se há algo essencial a dizer a respeito daquele passado, é que ele felizmente passou”.

Se esses não fossem os ferros a prender o repórter, ele teria ouvido os feridos sobreviventes à delação, que até hoje estão machucados no corpo e na alma. E escrever isso não é rascunhar uma frase de retórica. Por exemplo, deveria ter ouvido Maria do Carmo, companheira de Juarez, da VPR, que ainda sofre dores atrozes no espírito por viver depois do então companheiro. Em lugar de “a vida dos infiltrados era cheia de medo, dúvida  e tensão”, como está na reportagem, seria informado que a vida dos militantes socialistas era cheia de contínuo terror, tortura e assassinatos. Mas que ainda assim continuavam, pois não podiam deixar de crer em um Brasil fraterno.

No editorial da revista, as operações mentais, as táticas do discurso são conhecidas: relativiza-se para nivelar executores e executados, torturados e torturadores. No passo seguinte, instaura-se o reino de lobos a lamber carinhosos ovelhas, de leões a serem puxados pelos bigodes por zebras, porque todo o sangue e ferocidade é passado. Porque o passado, como diria o Marquês de Maricá, o passado passou. No entanto a realidade resiste a tão bons e piedosos propósitos. Perguntem a todo o mundo civilizado sobre os crimes de guerra de nazistas e se diga aos “vingativos” netos das vítimas que o passado passou. E nem se precisa perguntar aos humilhados e pisados no oriente. Aqui perto, na Argentina, perguntem. Se a humanidade assim concordar, poderemos todos chamar os companheiros de Fleury para um jantar de confraternização, ao som de “hoje é um novo dia, um novo tempo já começou”.

Mas enquanto esse futuro bobo não chega, que venha e se aprofunde a Comissão da Verdade. Urgente, já.

Leia também:

Ana Paula Salviatti: A ditadura e seus fósseis vivos na USP de 2011





8 comentários

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Urariano Mota: O que eu não queria ver e escutar « Viomundo – O que você não vê na mídia

09 de junho de 2012 às 11h27

[…] Urariano Mota: Os perdoados da ditadura […]

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Celso Lungaretti

03 de dezembro de 2011 às 12h03

Caso o Azenha não disponibilize aqui, recomendo que todos leiam no meu blogue o detalhamento de um caso concreto em que o oficial controlador do infiltrado fez um relato bem fantasioso, provavelmente para ganhar pontos junto a seus superiores: o de Juarez Guimarães de Brito, cujo cerco e suicídio não se deveu a ser surpreendido pelo trabalho da repressão, como a revista afirma.

Ele não deveria comparecer ao "ponto" com Wellington Moreira Diniz, porque não era função dele. Só foi porque Wellington faltara ao "ponto" e à "alternativa" de 7 dias antes, o que fez a Organização concluir que, ou tivera problemas de saúde, ou estava preso.

Chegando no local e percebendo que Wellington estava servindo de isca, Juarez tentou uma ação arriscada para o resgatar, foi malsucedido e disparou na própria cabeça para não cair vivo nas garras da repressão.

Pedi à revista que esclareça este ponto. Não sei se o fará.

O link do meu artigo é http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2011/12/ar

CELSO LUNGARETTI

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    Conceição Lemes

    03 de dezembro de 2011 às 12h30

    Lungaretti, já postamos a história do Juarez. Dê uma olhada. abs

Substantivo Plural » Blog Archive » Os perdoados da ditadura

03 de dezembro de 2011 às 10h16

[…] Por Urariano Mota NO VI O MUNDO […]

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Francisco

02 de dezembro de 2011 às 02h33

O culpado sempre (sempre!) afirma que a justiça é sinônimo de vingança.

O problema no Brasil é que a vitima nunca é ouvida.

Ouvida a vitima, ficaria claro que submeter o culpado à punição racional do Estado é um ato humanitário in extremis da vitima, ou seja, uma forma de livra-lo da vingança popular que, de fato, mereceria.

Abdelmassih por Abdelmassih é um injustiçado. O STF deu a ele a mesma "anistia" que deu aos torturadores e a todos os sócios do Contry Club. Se algum dia os maridos das mulheres abusadas pegarem Abdelmassih como ele merece, ele vai se dar conta de como a cadeia é um ato de tolerância e amor ao próximo. Ele e os torturadores.

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    joao

    02 de dezembro de 2011 às 19h55

    Bom seria ter a foto desses assassinos torturadores bem à mão e a vista de todos, para que encontrassem a ' justiça pelas próprias mãos' numa esquina da vida por aí…

Gerson Carneiro

02 de dezembro de 2011 às 01h42

O sentimento de injustiça cominado com o de impunidade é o mais fulminante dos sentimentos. Afeta a dignidade, machuca a alma. Entre as diversas resultantes está a terrível sensação de estarmos sendo debochados.

Uma das mais terríveis características dos humanos é a capacidade soberba de provocar situações de injustiça.

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Daniel

02 de dezembro de 2011 às 01h08

Só no Brasil Justiça é sinônimo de vingança.

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