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Márcio Pochmann: Uma crise mais grave e mais ampla


12/09/2011 - 17h59

Da Carta Capital (reprodução parcial)

Além de Economia/CartaCapital: Recentemente o IPEA publicou uma pesquisa sobre a crise mundial e afirmou que a economia brasileira está melhor preparada para enfrentá-la do que em 2008. Por quê?

Márcio Pochmann: É bom salientar que estamos falando da mesma crise, que iniciou-se em 2008 e é associante, agora, em uma segunda onda em sua manifestação.

Não se trata de uma crise diferente, embora em 2008 estivesse mais associado em uma natureza mais financeira, agora estamos falando de uma crise de natureza fiscal especialmente no centro do capitalismo mundial. É uma crise mais grave e ampla.

Para quem teve a oportunidade de observar, por exemplo, o relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) verá que há uma situação lamentável de crise na saúde mundial, inclusive, há sinais de crise mundial educacional do ponto de vista de atrasos enormes, nesse início do século 21, temos sérios problemas ambientais, há também uma crise alimentar.

Enfim, essa crise se expressa de uma forma mais aguda nos países ricos, do ponto de vista fiscal, nesse momento, mas ela tem uma amplitude que nos permite chamar a atenção pelo fato, que estamos vivendo uma crise onde praticamente todos os países convivem com o regime de economia de mercado, com o capitalismo.

As crises anteriores, de maneira geral, tinham a sua dimensão mundial, mas a totalidade dos países, não era capitalista, como hoje. As crises do século 19, de 1873 e 1896, por exemplo, nós tínhamos vários espaços do território mundial que não eram países, mas colônias.

Na década de 30, uma parte do mundo era capitalista e convivíamos com países de economia planificada como a ex-URSS. E essa, agora, temos uma dimensão global do ponto de vista do sistema e funcionamento do capitalismo.

O Brasil, de maneira geral, tem sabido aproveitar relativamente bem os momentos de crise. E a crise de 2008, no nosso modo de ver, foi um marco na condução da política macroeconômica no período recente.

Com uma decisão inédita, olhando a trajetória das decisões macroeconômicas em períodos de crise, desde a antiga da dívida externa, em 1981, até dizia-se a época; quando os EUA tossiam, o Brasil contraía uma pneumonia, porque as medidas tomadas no Brasil, em geral, levavam ao aprofundamento da própria crise.

Desde 1981, em havendo uma crise internacional os distintos governos brasileiros, em geral; elevavam a taxa de juros, cortavam investimentos, reduziam gastos públicos, aumentavam impostos, não elevavam salário-mínimo, não ampliavam os direitos sociais.

Em 2008, observamos uma reação no sentido inverso; houve uma queda da taxa de juros, mesmo que tenha demorado a cair, ocorreu a elevação do salário-mínimo, desoneração fiscal para determinados setores, ampliação dos gastos sociais e investimentos públicos e isso fez com o Brasil tivesse as melhores condições de enfrentar a crise não aprofundando-a, mas pelo contrário, enfrentando-a no ponto de vista da expansão do mercado interno.

No período atual, as medidas tomadas até agora, revelam justamente essa mesma preocupação. A Presidenta Dilma faz um movimento que antecipa já o enfrentamento da crise, com o movimento da redução da taxa de juros. Em 2008, nós levamos quatro meses para reduzir a taxa de juros, os boletins do Banco Central, em plena crise, continuavam a afirmar que o Brasil estava vivendo uma expansão da atividade econômica, foi verificado justamente o contrário, agora não, já se antecipou e já tomou decisões neste sentido.

A elevação do salário mínimo para R$619,00, no ano de 2012, que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso Nacional, vem a melhorar vários outros benefícios socais que estão atrelados ao salário mínimo.

A meu modo de ver, o Brasil tentará enfrentar a crise reforçando ainda mais o seu mercado interno em um país de ordem continental, sem falar nos aspectos do ponto de vista fiscal, que nos coloca em uma situação relativamente confortável, sobretudo quando se compara aos países desenvolvidos, com uma dimensão da dívida líquida do setor público em torno de 40% do PIB, o saldo de reservas internacionais é muito superior ao que tinha em 2008.

AE/CC: Podemos afirmar que nos últimos anos estamos vivendo, no Brasil, um ciclo de desenvolvimento econômico e social?

MP: Olhando as informações disponíveis, digo o seguinte: o Brasil, nas três últimas eleições, consagrou uma nova maioria política.

Essa maioria está compromissada com o crescimento da economia, não aceita a recessão, não aceita voo de galinha.

É diferente daquela composição, que conduziu os governos dos anos 80 e dos anos 90.

Certamente, a iniciativa que o ex-presidente Lula tomou em 2008, a própria construção do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em 2006 e 2007, porque tinha uma maioria política que defendia isso. Então, as decisões tomadas pela presidenta Dilma e seu governo com a redução dos juros expressam uma maioria política, que não aceita a recessão.

Essa, ao meu ver, irá sustentar um ciclo de expansão de possivelmente duas décadas. Logo, a questão que parece-me chave entender é: qual será a natureza dessa situação? Que ela vai ocorrer, sem dúvida. Agora, para onde vamos crescer?  Essa mesma maioria política está dividida.

Há uma disputa de dois modelos. Primeiro, diz respeito ao Brasil da FAMA (fazenda, mineração e maquiladoras). Esse Brasil da FAMA vai crescer, mas evidentemente esse crescimento não sustenta empregos de qualidade, ou uma sociedade onde 80% das pessoas moram nas cidades.

Porém, esse Brasil da FAMA ganha dimensão a medida que tem o câmbio valorizado, a medida que tem uma taxa de juros muito alta. Ganha expressão em parte nas medidas que estão sendo tomadas e conduzidas pelo próprio governo. Mas nós temos de outro lado uma disputa, o Brasil do VACO (Valor agregado e conhecimento). temos que dar conta de produzir produtos primários, mas o importante é agregar valor as cadeias produtivas.

Agregação de valor pressupõe conhecimento, pesquisa, inovação tecnológica, formação de quadros, ampliação do ensino s uperior etc. Tem toda uma agenda por aí.

Quando a gente olha para políticas como o Brasil Sem Miséria e o Brasil Maior, por exemplo, a despeito das críticas que podemos fazer, essas duas políticas orientam o Brasil do VACO e não da FAMA. Há uma maioria política comprometida com o crescimento que vai ocorrer, mas como será esse crescimento?  Vai depender do resultado dessa disputa que está em jogo no Brasil.

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11 comentários

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FrancoAtirador

13 de setembro de 2011 às 21h13

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Belluzzo: monopólio da mídia dificulta saída para crise. O debate virou uma farsa.

"O consenso em torno de certas ideias de dominância financeira – idéias que estão na origem da atual crise – não seria possível sem a sua vocalização pela mídia. Não se trata de uma teoria conspiratória, estou dizendo que isso se deu através de um processo social em que as camadas dominantes impõem as idéias dominantes.

A gente nunca pode perder essa dimensão da luta social; como ela se desenvolve e como maneja os símbolos, os significados, as palavras. Tome o exemplo da queda da taxa de juros brasileira. Isso produziu em certas pessoas (da mídia) uma estupefação; em algumas mais estupefação, em outras alguma indignação. As que ficaram mais estupefactas sempre ouviram o contrário, que era um perigo, era a ruína.

As ideias , como dizia um autor do século XIX, tem uma força material enorme – a força material das idéias dominantes. Norberto Elias, o sociólogo, dizia que é muito difícil você desconstruir um consenso como este. Daí o papel crucial da luta social e política. Ou você acha que a crise vai se resolver mecanicamente, por ela mesma? Não vai. É necessário formular alternativas.

A solução dita ‘normal' é previsível, diz o economista americano Doug Henwood, que tem uma newsletter de nome muito interessante, 'Left Business Observer'. Henwood foi encarregado de escrever sobre Wall Street, antes e depois da crise. É muito fácil, asseverou. Antes da crise, Wall Street era o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Depois da crise, Wall Street continua sendo o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA.

Um repórter que te entrevista sobre política monetária e ouve algo contrário a esses interesses, daqui e de lá, hesita em publicar; se publica o faz cheio de ressalvas. Esse jornalista foi emprenhado pelo ouvido, durante anos, para perguntar e ouvir sempre a mesma coisa.

O problema da mídia no mundo inteiro é esse monopólio de algumas empresas que veiculam a visão dominante. Elas são a classe dominante. Nos anos 50 e 60 na Europa, por exemplo, você tinha uma mídia diversificada que expressava as posições políticas distintas. As pessoas liam o 'Avanti!', o 'La Unità'… Havia debate político. Hoje você não tem debate. O que você tem é uma farsa".

Luiz Gonzaga Belluzzo, no debate ‘Neoliberalismo, um colapso inconcluso', na Carta Maior.

http://contextolivre.blogspot.com/2011/09/belluzz

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Polengo

13 de setembro de 2011 às 01h35

Resumindo: chacotearam da "marolinha" porque teriam feito a mesma cagada novamente.

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Raccoon

12 de setembro de 2011 às 23h05

"Essa, ao meu ver, irá sustentar um ciclo de expansão de possivelmente duas décadas."

Anotado. Quem viver verá.

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Roberto Locatelli

12 de setembro de 2011 às 22h06

Marcio Pochmann é economista experiente. Se ele diz que estamos preparados, então estamos mesmo. Aliás, o Brasil já provou isso em 2008.

Bem diferente dos sombrios tempos de FHC, quando uma crise no México (no México!!) nos derrubou.

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    EUNAOSABIA

    13 de setembro de 2011 às 08h49

    Manjas muito de economia hein rapaz??? procura te informar melhor amigo, és outro que por aqui não passas de um torcedor fanático, comentários feitos ao léu, com embasamento ZERO, seja em fatos empíricos ou conhecimento formal.

    Uma lástima.

    Eduardo Vieira

    13 de setembro de 2011 às 11h15

    Olá EUNAOSABIA, você também é um torcedor fanático.

    Em primeiro lugar, na sua trolice, você tenta desqualificar o colega propondo embasamento (coisa que nem você faz por aqui). Isso aqui não é uma banca acadêmica, caso alguém não tenha lhe informado, já que VOCENAOSABIA ou NUNCASABE.
    Em segundo lugar, o colega Roberto Locatelli se embasa sim em seu comentário. Ou o México não entrou em crise em 1998 e o Brasil não sofreu a consequência dela?

    Não é porque VOCENAOSABIA, que ninguém deve saber.

    Luca K

    13 de setembro de 2011 às 17h11

    KkKKkkkkkk, muito boa Eduardo!!

    cronopio

    19 de setembro de 2011 às 09h05

    Está certíssimo Eduardo, o Chesnais usa essa crise mexicana de 98 como exemplo em seu livro "A mundialização do capital". O EUNAOSABIA tem um conhecimento de economia muito técnico e já bastante defasado, o que já ficou mais do que provado em debates posteriores.

    Alan Patrick

    13 de setembro de 2011 às 13h00

    EUNÃOSABIA, o comentário do Locatelli ao contrário do seu tem embasamento sim, o Brasil atualmente esta com o mercado interno fortalecido e o Estado esta recuperando sua capacidade de fazer investimentos. Estes dois fatores foram importantes para que a crise financeira de 2008 fosse atenuada por aqui, e vai contribuir para que o Brasil enfrente esta próxima crise . Outro fato que merece ser mencionado e a fragilidade da economia do Brasil na era FHC, qualquer pequena crise internacional e o Brasil ia junto, algo que vale lembrar aconteceu três vezes nos sombrios tempos de FHC.
    Felizmente não era ninguém do PSDB que estava no governo federal em 2008, se caso fosse o Brasil estaria humilhado, destruido e falido novamente.

    Guanabara

    13 de setembro de 2011 às 17h46

    E onde estão os embasamentos do SEU comentário, querido troll de estimação? É o Roberto que está na torcida positiva, ou seria você, da turma da roda presa, torcendo pro Brasil ir pro buraco, como aconteceu nos tempos dos seus queridos no governo? Princípios da rede Goebbels por aqui não colam. Só na patota do Reinaldo Azevedo pra baixo. Lá, sim, é o seu lugar.

Eudes H. Travassos

12 de setembro de 2011 às 21h35

Viva ao VACO….RSRSRSS

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