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Delfim Netto: Um viva para a queda dos juros


07/09/2011 - 12h28

Um viva para o Copom

Por Antonio Delfim Netto, no Valor Econômico, reproduzido no Economia & Política

A indignada e quase raivosa reação de alguns analistas, que se supõem portadores da “verdadeira” ciência monetária, à recente decisão do Copom, de baixar 50 pontos na Selic, revela que, para eles, a sacrossanta “independência” do Banco Central só é reconhecida quando esse decide de acordo com os conselhos que eles, paciente, gratuita e patrioticamente, lhe dão todos os dias, através da mídia escrita, radiofônica e televisiva.

Qualquer desvio só pode ser atribuído e explicado pela “pecaminosa” intervenção do governo que teria jogado a toalha: abandonou a “meta de inflação” e colocou em seu lugar a “meta de crescimento do PIB”, não importa a que “custo inflacionário”…

Trata-se, obviamente, de uma acusação irresponsável, injusta e arrogante. Irresponsável, porque colhida furtivamente de “fontes preservadas”, que podem não passar de pura e conveniente imaginação, desmentida, aliás, pelos votos divergentes. Injusta, porque pela primeira vez, em quase duas décadas, o Banco Central mostrou que é, efetivamente, um órgão de Estado com menor influência do setor financeiro privado. Arrogante, porque supõe que nenhuma outra visão e interpretação alternativa da realidade diferente da sua possa existir.

Vacilamos quando, em 2008, podíamos ter reduzido a taxa de juro

O mundo está literalmente vindo abaixo e sugere-se que o Copom deveria repetir o dramático erro de 2008: “Esperar para ver”! Vacilamos quando podíamos ter reduzido a taxa de juro real. Tínhamos um pouco menos de musculatura do que agora, mas poderíamos ter assegurado uma redução muito menor e uma recuperação mais rápida do financiamento do “circuito econômico”. Na minha opinião (que é apenas uma opinião impressionista), poderíamos ter crescido qualquer coisa como 2% ou 3% em 2009, em lugar de registrar queda do PIB de 0,6% e, ao mesmo tempo, ter reduzido dramaticamente a taxa de juros real.

As medidas fiscais e monetárias tomadas recentemente pelo governo (nas quais, aliás, tais analistas não acreditavam) estão reduzindo a taxa de crescimento a uma velocidade maior do que se esperava. Com o crescimento do PIB dessazonalizado de 0,8%, do segundo trimestre sobre o primeiro, e a enorme redução da expansão da indústria, é muito pouco provável que o PIB do ano cresça fora do intervalo de 3% (se o crescimento nos terceiro e quarto trimestres for zero) a 3,6% (na hipótese pouco provável de que cresçam também 0,8%).

Mas afinal o que se espera, ainda, das taxas de juros? Que controlem a inflação ou derrubem mais o crescimento? Todos os bancos centrais (mesmo os que não têm isso nos seus estatutos) olham para o nível de atividade e sabem que a política monetária tem efeitos com defasagens variáveis. Devem olhar não apenas a taxa de inflação futura, mas também para o ritmo de crescimento futuro. E devem ser realistas quanto às condições físicas objetivas que levam ao altíssimo custo social de tentar corrigir desajustes estruturais (como é o caso do ajuste qualitativo entre a oferta e a demanda no mercado de trabalho) reduzindo o crescimento do PIB à custa do aumento da taxa de juros real, com o que se destrói, colateralmente, o equilíbrio fiscal.

Os números externos pioram a cada dia. Na última semana de agosto: 1) no teatro de Jackson Hole, o Fed, o BCE e o Banco da Inglaterra mostraram as suas perplexidades. O mundo tomou conhecimento da receita acaciana de Bernanke: “Farei o que tenho que fazer”, sem especificar do que se trata. Remeteu a incerteza para 21 e 22 de setembro, na nova reunião do Fomc; 2) as perspectivas de crescimento mundial caíram para 2,5% (com viés de baixa, contra 3,9% em 2010); 3) o crescimento dos EUA foi reduzido a 1,4% (contra 3%); 4) a Eurolândia, com a redução do crescimento da Alemanha, talvez para 2%; e 5) a China estima crescer 8,7% (contra 10,3% em 2010).

É hora do Brasil pôr as suas barbas de molho: 1) reforçar, como está fazendo, o equilíbrio fiscal de longo prazo e aprovar as medidas que estão no Congresso com o mesmo objetivo; 2) manter sob controle as despesas de custeio e melhorar a qualidade do financiamento da dívida interna; e 3) adotar medidas microeconômicas para corrigir os desequilíbrios do mercado de trabalho, o que, obviamente, não pode ser feito com manobra da taxa de juros.

Isso possibilitará ao Banco Central, diante do complicado quadro interno e externo, prosseguir, com cuidado, mas persistência, a necessária redução da nossa taxa de juros real, abrindo espaço para o investimento público.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Leia também:

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16 comentários

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MG2011

09 de setembro de 2011 às 22h07

Fiquei assustado com alguns "papagaios" do jornalismo brasileiro, Piotto e Sardenberg, repetindo que houve pressão política sobre o BC, etc…. Realmente representam o mercado financeiro.

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João Carlos

07 de setembro de 2011 às 20h29

Estou nessa de dar um viva ao Copom e espero repetir este viva muitas vezes nos próximos meses.

Seja quem for, Delfim Netto dá um banho de conhecimento e inteligência nos economistinhas tucanos que nos levaram ao FMI três vezes.

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Operante Livre

07 de setembro de 2011 às 18h10

Devemos reconhecer que algumas pessoas desenvolvem cada vez lucidez maior.
Outros, que pena, vão se tornado cada vez menos lúcidos.
Isto também é mobilidade social. Mantém as esperanças.

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Marcio H Silva

07 de setembro de 2011 às 16h41

É bom ler a opinião de um economista que não precisa aparecer em nehum PIG para aparecer, que nossas diretrizes governamentais estão no caminho certo. Dá um pouco de tranquilidade. Reforça a ideia de que temos um governo com G maiusculo.

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O sucesso da Marcha contra a Corrupção em Brasília | Viomundo - O que você não vê na mídia

07 de setembro de 2011 às 15h11

[…] Delfim Netto: Um viva para a queda dos juros   […]

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Hélio Pereira

07 de setembro de 2011 às 13h43

Delfim Neto viveu os últimos sessenta anos analisando o Mercado,foi Ministro é Professor,foi Deputado Federal por várias Legislaturas,alem de tudo nunca foi um Politico Populista,apesar de ter pertencido a antiga ARENA,onde este era um atributo admirado pelos Coronéis e Generais de plantão.
Delfim Neto sabe do que esta falando ao se referir ao nosso câmbio.
Ninguém pode achar que Delfim virou um cara de Esquerda,só por elogiar a queda de Juros.
Delfim sempre teve como um de seus atributos principais a franqueza ao falar de economia.

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multiplus

07 de setembro de 2011 às 13h20

Delfin Netto é aquele q foi Ministro dos Governos militares durante a ditadura?

é aquele q dizia q "o bolo tem q crescer antes de dividir"?

era aquele q o PT jurava q era corrputo?

nossa… virou aliado?

ver os petistas saudando Delfin Netto como a voz da sabedoria e do bom senso realmente não tem preço!

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    Silvio I

    07 de setembro de 2011 às 20h40

    Multiplus:
    As pessoas vão mudando sua forma de pensar cada cinco anos. Agora por ser de esquerdo u de direita, não podemos deixar de reconhecer o saber de Delfim, referente à economia.

    Filipe Rodrigues

    07 de setembro de 2011 às 21h09

    Melhor o Delfim do que esses jovens economistas ligados ao mercado financeiro…

EUNAOSABIA

07 de setembro de 2011 às 13h16

Não tem preço ver esquerdopata sem rumo saudar Delfim Netto, o ministro da economia de todos os governos da direita militar, o mesmo governo que eles lutaram contra, até mesmo com armas nas mãos e que hoje celebram e acolhem um de seus mais proeminentes e mais importante representante econômico.

Não tem preço ver esquerdopata de mesa de bar, chamar Fernando Henrique e José Serra de direitistas e saudarem Delfim Netto como um progressista, por isso que eu digo que não passam de mentirosos e farsantes.

Nada contra Delfim, é só mesmo pra ficar demonstrado cada vez mais a farsa que é o lulopetismo e seus seguidores.

Responder

    Panambi

    07 de setembro de 2011 às 16h08

    Os malditos(ou seriam benditos?) "cacos de vidro" fizeram um estrago permanente na tua cabeça…

    Scan

    07 de setembro de 2011 às 18h29

    Delfim pode ser qualquer coisa e tudo o que você falou.
    Mas uma das principais características dele é ter uma inteligência aguçada. Isto nunca lhe foi negado, nem pela direita, nem pela esquerda.
    Da mesma forma que somos capazes de reconhecer a inteligência de Delfim, mesmo que o consideremos um adversário desde sempre, somos igualmente capazes de reconhecer a ausência total dela em alguns retardados que aparecem por aqui.

    Vlad

    11 de setembro de 2011 às 11h38

    Inteligência aguçada sem dúvida. Mas inteligências aguçadas temos no céu e no inferno.
    Segundo o grande economista o Brasil iria quebrar com o dólar tão baixo quando a moeda estava por volta de R$ 2,50.
    Estaria o bem articulado personagem a serviço dos exportadores de commodities?
    Agora, faça-se justiça, o simpático gordo sempre defendeu a redução dos juros. Só fico desconfiado se o motivo seria patriótico ou por interesse. Quem sabe?!
    Pelo sim, pelo não, sempre leio com reservas as opiniões deste cidadão, que, como Sarney e outros, faz amigos em todas as partes, TODAS.

    Leider_Lincoln

    08 de setembro de 2011 às 16h11

    Verdadeiro é você, que precisa comentar com vários nicks e não mostra o nome, não é mesmo?

UBIRAJARA

07 de setembro de 2011 às 13h14

Concordo com o Delfim, acreditando ainda que nada de críse no Brasil . Até o final do ano equilibrar-se-ão as contas as taxas os índices e as especulações.

Responder

Fabio_Passos

07 de setembro de 2011 às 13h00

Na verdade a mídia-corrupta – globo / veja / estadão / fsp – e os especuladores parasitas devem é comemorar os juros em 12%aa. Ainda é um roubo.

Os especuladores ricos continuam roubando dos trabalhadores pobres.

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