VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

À espera da pílula do bom consumidor


11/09/2011 - 16h20

por Luiz Carlos Azenha

Caiu nas minhas mãos, recentemente, o livro “Feios, sujos e malvados sob medida”, de Luis Ferla, que tem como subtítulo “A utopia médica do biodeterminismo”.

Diz o autor, a certa altura, sobre um uso particular da Medicina, entre os anos 1920 e 1945, no Brasil:

As ações humanas seriam determinadas pela estrutura bio-antropológica de cada um, portadora de tendências que iriam se desenvolver mais ou menos conforme o meio social. As ações ‘anti-sociais’ corresponderiam a desvios biológicos em relação a um padrão estabelecido como normal. Isso fez dos médicos atores centrais na nova criminologia.

Era o tempo de Cesare Lombroso, que desembocou em Joseph Mengele.

A leitura do livro me fez lembrar de “War Against the Weak”, de Edwin Black, que tem como subtítulo “Eugenia e a campanha dos Estados Unidos para criar uma raça superior”.

Já reproduzi a tradução de um pequeno trecho do livro, aqui.

Ele mostra como a pseudociência se desenvolveu simultaneamente nos Estados Unidos e na Alemanha, com os resultados trágicos que todos conhecemos.

Quem provocou meu interesse em leituras mais aprofundadas sobre o assunto foi a historiadora Conceição Oliveira, pouco antes de uma viagem que fizemos à Namíbia.

Em Windhoek fomos a um museu pesquisar sobre o genocídio dos hereros, que o mundo praticamente desconhece. O genocídio foi praticado pelos colonizadores alemães, quando a Namibia ainda era a Deutsche Südwestafrica.

Parênteses: há muitos crimes coloniais dos europeus na África que não mereceram o interesse de historiadores; os campos de concentração britânicos na África do Sul e no Quênia estão entre eles.

Fecha parênteses.

Ao contrário do que muitos imaginam, os primeiros campos de concentração alemães não foram implantados durante a Segunda Guerra Mundial, mas na Namíbia, durante a matança dos herero.

Cabeças de vítimas das atrocidades eram ‘exportadas’ para a Alemanha, para estudos dos eugenistas.

Era o tempo do homem branco europeu e seu “fardo” de civilizar, mercantilizar e cristianizar pardos, negros e amarelos ‘impuros’.

Frequentemente escravizando, matando, roubando terras ou recursos minerais, que ninguém é de ferro.

Era a medicina a serviço da causa do colonialismo: a inferioridade dos não-brancos justificava os crimes cometidos contra eles.

Hoje em dia corremos o risco de assistir à reprise disso, em torno da genética e da neurociência.

Esta tarde, no trânsito, ouvia a entrevista de um pesquisador que escreveu um livro sobre o cérebro.

O entrevistado discorreu longamente sobre a relação entre porções específicas do cérebro e comportamentos humanos, como a impulsividade e o amor.

O sonho da indústria farmacêutica, obviamente, é identificar com precisão a relação entre áreas muito específicas do cérebro ou genes e comportamentos sociais, o que abre espaço para inventar a pílula do amor, a pílula do bom comportamento (epa! essa já existe) e a pílula do consumo.

Não ocorreu, nem à entrevistadora, nem ao entrevistado, lembrar que somos essencialmente seres sociais, históricos.

Aliás, inventar seres a-históricos serve para provar nossa incapacidade de mudar o mundo e reduzir nossa capacidade de escolha: só nos resta escolher entre Coca ou Pepsi, Toddy ou Nescau, Samsung ou Sony.

Como apontou Alípio Freire, aqui, as manifestações do fascismo estão por toda parte.

Na política dos que se dizem apolíticos, por exemplo.

Podemos dizer que a crise de representação do Congresso brasileiro não nasce apenas do fato de que Jaqueline Roriz foi absolvida, mas da injustiça intrínseca a um modelo de democracia que, como existe, serve apenas para mascarar a injustiça.

Nem os avanços experimentados durante o governo Lula, por exemplo, foram incorporados numa Consolidação dos Direitos Sociais, como propõe o presidente do IPEA, Márcio Pochmann.

A participação popular nas decisões é pífia, em todas as esferas do poder.

Por isso, boas vindas à direita que canta “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Muito embora a proposta dela seja promover uma política “apolítica” e de apostar na crise de representação como forma de mascarar a falta de votos, que pelo menos sirva para acordar a esquerda que se transformou, no Brasil, numa força essencialmente do status quo, na gestora da ‘modernização conservadora’.

Politizar e, como diria a Maria Frô, “historicizar” é preciso.

Leia também:

Alípio Freire: O fascismo bate à porta

Sara Robinson: A ascensão do fascismo nos Estados Unidos

Conceição Tavares: Vivendo a treva, na mão dos ultra-liberais



23 comentários

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CC.Brega.mim

15 de setembro de 2011 às 17h13

desculpa ir ao detalhe, mas,
se eu entendi bem, azenha,
você identifica a modernização conservadora
as verdadeiras e ancestrais forças do atraso brasileiro
segundo nossa intelectualidade mais informada e crítica
justamente aos avanços recentes e inéditos
em direção a um brasil mais justo e democrático..

é nesse ponto que discordo.
a modernização conservadora
estagnação
discurso incessante junto à manutenção da opressão
pra mim é a esquerda alinhada com a direita
aquela que vota junto, que faz oposição junto
que grita muito, mas age apenas para impedir barrar evitar
que acha que o capitalismo já ganhou
e não há nada que possamos fazer a não ser gritar
e ao mesmo tempo não enxerga as ações em curso
pois serão sempre revertidas para o inimigo mais poderoso
é que estão com a modernização conservadora.

a gritaria ajuda a manter a elite
da qual mesmo envergonhados
fazem parte.

o brasil mudou mesmo.
quando eu era criança a seca não tinha solução
nem a fome nem o analfabetismo
e o fatalismo do JN era o nosso de todo dia
brasileiro era sinônimo de cafajestagem para pessoas
e de não funcionamento para coisas
éramos todos vira latas.

vamos usar a teoria para encontrar a prática?

ou morrer abraçados na teoria,
tomando uísque para aliviar a depressão da derrota antecipada
e boquejando contra tudo que
apesar da nossa descrença
é efetivamente realizado?

Responder

    francisco.latorre

    15 de setembro de 2011 às 19h11

    brasil. mudou.

    ..

    e o que está acontecendo..

    é tudo. menos 'modernização conservadora'.

    ..

    o problema mesmo..

    é saber o que fazer com aquele fenômeno. tipicamente burguês.

    a 'impaciência revolucionária'.

    ..

Operante Livre

13 de setembro de 2011 às 16h48

A modulação que o social tem sobre nossa biologia pode deixar passar por normal e natural que tenhamos algumas doenças "mentais" e "não mentais", ambas associadas às nossas práticas culturais.

Lembro-me da tragédia de Realengo, o quanto me intrigou atribuir ao interno, biológico ou personalidade ou mente ou alma, como se a biologia das pessoas não tivesse uma modulação pelo contexto histórico das pessoas. É fácil dar uma pílula para alguém que está com pânico ou ansiedade generalizada como se a pessoa tivesse nascido mais frágil biologicamente. Não somos neurotransmissores e nem genes, somos pessoas que constroem um ethos que pode mudar o funcionamento e a estrutura de nossa biologia. Não é só a obesidade ou a anorexia que são biologicamente culturais, derivadas de nossas práticas fascistas de mercado. Nossos neurotransmissores e nossos genes também são ativados ou não pelo ambiente cultural e precisamos escolher se queremos manter um ambiente que nos adoece, corrigindo nossa biologia com remédios, ou se queremos mudar nosso ambiente e tomar menos remédios. Mudar um estilo de vida não é trabalho para uma só geração, mas tem que começar em algum momento.

Responder

Hans Bintje

12 de setembro de 2011 às 17h10

Azenha:

É tempo de lembrar o filósofo alemão Friedrich Nietzsche ( http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Nascimento_da_Trag… ):

"Nas palavras de Nietzsche, 'só como fenômeno estético se vê legitimada a existência do mundo'. Esta pequena frase é apresentada, 14 anos após a primeira impressão, como a frase chave, a ideia central do livro 'O Nascimento da Tragédia'."

Todas as personagens não-europeias que você citou são elementos da mitologia dionísica:

"Dionísio é apresentado como o gênio ou impulso do exagero, da fruição, da embriaguez extática, do sentido místico do Universo, da libertação dos instintos. É o deus do vinho, da dança, da música e ao qual as representações de tragédias eram dedicadas. Dionísio representa, portanto, o irracional, a quebra das barreiras impostas pela civilização, à dissolução dos limites dos indivíduos".

Isso apavora os seguidores de Apolo, auto-denominados "defensores da civilização":

"Apolo é apresentado por Nietzsche como o deus do sonho, das formas, das regras, das medidas, dos limites individuais. O apolíneo é a aparência, a individualidade, o jogo das figuras bem delineadas.

Apolo representa domínio da imagem, da metáfora, isto é, da dissimulação. Mas Apolo representa também o equilíbrio, a moderação dos sentidos e, num certo sentido, a própria civilidade, ou melhor, o modo como esta é ordinariamente compreendida."

O conflito se torna inevitável:

"O artista apolíneo almeja a bela aparência, a boa ilusão que se encobre de o ser. Representa figuras bem delimitadas na sua individualidade, puras na sua beleza, caracterizadas pelo equilíbrio e pela harmonia. O artista apolíneo representa todos os valores tradicionalmente reconhecidos aos gregos. (…)

Na apresentação do apolíneo encontramos a racionalidade e a ilusão num jogo perigoso orientado para os valores da Verdade, do Belo e do Justo. Por seu lado, o dionisíaco não é simplesmente uma oposição posterior a essas tendências civilizacionais. Pelo contrário, o dionisíaco é o outro impulso fundamental que rege o devir em que sempre está em jogo o limite dos indivíduos. O dionisíaco é o instinto de força e de luta, de desequilíbrio. O desequilíbrio resulta das próprias regras do jogo em que os indivíduos estão sempre envolvidos. A vida implica um confronto entre limites individuais. Este confronto é primevo, não está regulado por qualquer vontade boa ou justa, racional ou misericordiosa.

No homem dionisíaco está viva a consciência do apolíneo como convencional, como uma ilusão da perspectiva do indivíduo. Para o homem dionisíaco, as criações apolíneas não passam de acontecimentos de superfície."

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Dilma promete 30 mil km de fibra ótica | Viomundo - O que você não vê na mídia

12 de setembro de 2011 às 12h05

[…] À espera da pílula do amor […]

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francisco.latorre

12 de setembro de 2011 às 11h26

biodeterminismo.

agora com sabor dna.

mitologia de quinta categoria. subciência. de/para idiotas.

sucesso nas academias.

..

Responder

Vinícius

12 de setembro de 2011 às 09h53

Me deixa continuar: eu sempre fui contra medicar a cabeça, inclusive era contra antidepressivo e tal.

Fui pesquisar sobre a tal de ritalina pra ver se era segura. Como eu sou ingênuo e ignorante, botei no google, como estava muito difícil encontrar informações detalhadas, fui na wikipédia mesmo. O que dizia?

Que a Ritalina era praticamente milagrosa, mas que alguns se opunham. Pouca gente. Principalmente a Igreja da Cientologia.

Aí eu pensei: cientologia? Bah. Fui lá, tomei…

Eis onde quero chegar: esses remédios aí, fala-se muito do bem que fazem (é pra fazer bem mesmo, são remédios pô), mas os efeitos adversos são ocultos. E os efeitos adversos vão muito além do mal estar, eles podem representar uma tragédia na sua vida.

Tomara que meu relato impeça alguém de ser ingênuo como eu fui. Tenham muito, muito senso crítico com essas "maravilhas da modernidade".

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    Samuel Velasco

    14 de setembro de 2011 às 09h25

    Eu discordo de que os efeitos adversos sejam ocultos. Se fosse assim estes remédios não seriam vendidos com receita controlada – que é retida pela farmácia. Afinal, é tarja preta!
    É evidente que a Ritalina é um remédio muito forte. A estrutura química é semelhante à da cocaína e provoca liberação de dopamina no cérebro semelhante (com a diferença de que o efeito dura mais e é menos potente).
    O problema não está no remédio em si, mas nos médicos (alguns) que não alertam os pacientes a respeito dos efeitos colaterais e nas pessoas que buscam a Ritalina como "dopping intelectual" (uma bobagem sem tamanho).

Vinícius

12 de setembro de 2011 às 09h46

Já tomei Ritalina, a "pílula do bom comportamento", pq eu achei que tinha TDAH. Isso já com 20 anos. Foi pra conseguir produzir mais no trabalho. Aconteceu o contrário, pirei, fiquei dez dias afastado, e os meses seguintes foram de tratamento contra bipolaridade. Isso bem no final da gravidez da minha mulher (então namorada) e nos primeiros meses de vida do meu filho.

Daí eu tinha duas opções: tomava o antipsicótico de noite, daí babava a madrugada inteira e a coitada da minha mulher atendia o piá sozinha, ou tomava de manhã e não produzia nada no serviço. Priorizei o serviço e deixei minha família na mão. Minha mulher ficou meses em depressão pós parto. A troco de nada: minha chefe me botou pra fora de setor, cheguei no novo setor humilhado, com fama de vagabundo.

Então esses remédios são coisa séria…

Então esse tro

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Beto

12 de setembro de 2011 às 00h08

Caro Azenha!
Me desculpe por comentar nesse post, mas não estou entendendo mais nada!
Todos os comentários da polemica sobre a tradução do Vila Vudu foram deletados?
Só se vê um anuncio de professores de hebraico!
O que houve?
Você está censurando o debate?
Peço-lhe que me responda, pode ser no meu e-mail, que não é mostrado publicamente mas você o tem aí.
Por favor não cometa o assassinato da admiração que tenho por você e pelo Viomundo, me dê alguma satisfação.
Pedido de um leitor assíduo e divulgador do Viomundo para todos os meus conhecidos.

Responder

    Luiz Carlos Azenha

    12 de setembro de 2011 às 01h16

    Como assim? Todos os comentários estão lá, deve ter dado algum pau no seu navegador. Tente com outro. abs e me mantenha informado…

    Vinícius

    12 de setembro de 2011 às 09h39

    No meu também deu pau. Esse servidor de vocês, hein? E quando ele "come" os comentários?, que raiva bicho.

Lucas Secanechia

11 de setembro de 2011 às 21h58

Esse é o papel principal da ideologia hoje: impedir a mera imaginação de uma mudança radical; provar que o sistema vigente provêm da natureza humana, e não uma construção histórica e contigente.

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11 de setembro de 2011 às 21h07

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11 de setembro de 2011 às 20h51

[…] À espera da pílula do bom consumidor   […]

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Rasec

11 de setembro de 2011 às 20h02

So rindo desse artigo!

Responder

    Silvio I

    11 de setembro de 2011 às 21h14

    Rasec:
    Que e o causa tanta riso no artigo? Porque em parte, ao descrever os feitos, daria mais para chorar.

    daniel

    12 de setembro de 2011 às 01h49

    Só lhe resta rir mesmo, por que ler dá muito trabalho…

SILOÉ-RJ

11 de setembro de 2011 às 19h25

Enquanto a sociedade não entender e agir como um corpo humano, onde tudo funciona em cadeia e por mais importante que seja a parte, ela depende desse todo. ficaremos dando voltas em torno do umbigo até cair.

Responder

josaphat

11 de setembro de 2011 às 17h25

Historicizar quem, o povo brasileiro?

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