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Comissões da Verdade nacional e de SP fazem primeira audiência conjunta


13/11/2012 - 11h39

Bruno Bocchini
Repórter da Agência Brasil

São Paulo –  A Comissão Nacional da Verdade e a Comissão Estadual da Verdade de São Paulo realizaram hoje (12) a primeira audiência conjunta para coleta de depoimentos sobre mortos e desaparecidos no período da ditadura militar. A sessão, que ocorreu na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, trouxe testemunhos sobre os casos de Luiz Eurico Tejera Lisboa e Eduardo Leite, conhecido como Bacuri.

Foram ouvidas cinco testemunhas sobre a morte de Bacuri – Ariston Lucena, Ottoni Fernandes, Reinaldo Morano, Calos Pittoli e Roberto de Assis Tavares – além do depoimento da esposa de Eduardo Leite, Denise Crispim. Em relação a Luiz Eurico,  foram ouvidos Fernando Morais, Ricardo Carvalho e Suzana Lisboa.

“Nós já tínhamos ouvido depoimentos de vítimas em reuniões da Comissão da Verdade, mas não assim, colocar uma vítima com várias testemunhas, confrontando depoimentos, cobrindo toda uma história da prisão, como foi no caso do Bacuri, inclusive com alguém que estava no serviço militar na época”, disse a conselheira da Comissão Nacional da Verdade, Rosa Maria Cardoso.

“Eu acho que o caso do Bacuri, inclusive por documentos que se tem, muito mais até do que foi apresentado aqui, vai ficar muito comprovado o tipo de crime que aconteceu. Realmente, a morte dele foi ilegal, foi criminosa, é a morte de uma pessoa que está presa e desarmada. Isso é inaceitável segundo as próprias leis do regime militar vigente”, acrescentou.

Bacuri foi preso em 1970. Segundo o site do grupo Tortura Nunca Mais, o drama de Bacuri, que, na época, tinha 25 anos, “é o mais terrível de todos os casos conhecidos de crime político”. Bacuri foi torturado por meses e chegou a receber de seus algozes, na cela, um jornal que noticiava sua fuga da prisão. Ele permaneceu preso e incomunicável até sua morte. A versão dos militares é que ele foi morto em um tiroteio após escapar da prisão.

“Para mim, hoje foi importantíssimo porque é minha vida que volta, é a história do Eduardo [Bacuri] que volta, procurando a verdade. Eu estou pronta agora para conhecer tudo, para encontrar as pessoas, inclusive aquelas que fizeram a execução dele, que mandaram, eu estou pronta para me confrontar com eles”, disse Denise Crispim.

Já Luiz Eurico Tejera Lisboa, membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), foi preso em circunstâncias desconhecidas em São Paulo, na primeira semana de setembro de 1972, e estava desaparecido. Em 1979, seus restos mortais foram localizados enterrados, sob o nome de Nelson Bueno, no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, em São Paulo. A versão oficial para sua morte foi suicídio.

“Estamos aprendendo a fazer a Comissão da Verdade. Estamos construindo. Talvez a gente saiba aonde quer chegar, mas não sabe como chegar lá. Acho que hoje foi um dia importante, nós temos 140 biografias a serem apuradas, são 140 mortos desaparecidos no estado”, disse o presidente da Comissão Estadual da Verdade, o deputado Adriano Diogo.

Edição: Fábio Massalli

 

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4 comentários

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Mais de 350 camponeses foram assassinados no Araguaia pela ditadura « Viomundo – O que você não vê na mídia

19 de novembro de 2012 às 23h57

[…] Comissões da Verdade nacional e de SP fazem primeira audiência conjunta […]

Responder

FrancoAtirador

14 de novembro de 2012 às 09h27

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POLÍTICA

Bacuri recebe homenagem 40 anos após sua morte

Câmara de São Paulo concede título de cidadão paulistano ao militante assassinado pela ditadura

Por: Vitor Nuzzi, Rede Brasil Atual
Publicado em 06/12/2010, 15:20

Eduardo Collen Leite, conhecido como Bacuri, foi morto há exatos 40 anos

São Paulo – A Câmara Municipal de São Paulo concede nesta terça-feira (7) o título de cidadão paulistano, in memoriam, ao militante Eduardo Collen Leite, conhecido como Bacuri, morto há exatos 40 anos.

Foi assassinado com apenas 25 anos, em 8 de dezembro de 1970.
Dois meses antes, a sua suposta fuga foi divulgada na imprensa, o que para os demais presos políticos que se encontravam no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) paulista significava que Bacuri estava condenado.

Segundo o livro Direito à Memória e à Verdade, editado em 2007 pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, o caso foi o primeiro a ser colocado em julgamento pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), “em função dos testemunhos e documentos que comprovam a premeditação de sua morte, conforme registrado no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos”.

Bacuri militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e chegou a liderar uma outra organização, a Resistência Democrática (Rede), que em 1970 se incorporou à Ação Libertadora Nacional (ALN). Participou de dois sequestros de diplomatas, do cônsul japonês em São Paulo e do embaixador alemão no Brasil. Mineiro de Campo Belo, era casado com Denize Crispim, que estava grávida quando ele foi preso – a filha, Eduarda, nasceu meses depois na Itália.

Os órgãos de repressão divulgaram uma versão de morte durante tiroteio, desmontada após a abertura dos arquivos do Dops. Foram dois meses de torturas, após a prisão pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Mas a notícia ganhou manchete, como na extinta Folha da Tarde, do grupo Folha, que estampou na capa: Terror: Metralhado e Morto outro Facínora.

Conta o jornalista Elio Gaspari no livro A Ditadura Escancarada: “Bacuri chegou ao forte dos Andradas, no Guarujá, dentro de um saco de lona. Trancaram-no numa pequena solitária erguida na praia do Bueno e depois levaram-no para um túnel do depósito de munições, a três quilômetros de distância. Era certo que se houvesse algum seqüestro de diplomata, ele entraria na lista de presos a serem libertados. No dia 8 de dezembro, passadas menos de 24 horas do seqüestro, no Rio de Janeiro, do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, uma Veraneio estacionou na entrada do depósito. Dela saltaram um major e dois tenentes. Foram ao banheiro onde Bacuri estava trancado e disseram-lhe que iam levá-lo ao hospital militar. Um soldado ajudava-o a encostar-se na pia para lavar-se quando o major mandou que saísse: ‘Escutei uma pancada. Não sei se era tiro ou o barulho de uma cabeça batendo na parede. Só sei que logo depois o corpo dele foi retirado do banheiro no mesmo saco de lona em que chegou’ (narrativa do soldado Rinaldo Campos de Carvalho). A polícia paulista informou que Bacuri, localizado, ‘ofereceu tenaz resistência a tiros’. Tinha 25 anos, e seu corpo foi abandonado no cemitério de Areia Branca, em Santos, com dois tiros no peito, um na têmpora e outro no olho direito”.

O projeto que concede o título de cidadão paulistano a Eduardo Collen Leite é de autoria dos vereadores Ítalo Cardoso e Juliana Cardoso, ambos do PT.

(http://gestao.redebrasilatual.com.br/temas/politica/2010/12/bacuri-recebe-homenagem-40-anos-apos-sua-morte)

BACURI, UM HERÓI BRASILEIRO

109 dias de tortura

Biografia do militante Eduardo Leite, o Bacuri, revela a agonia do prisioneiro que permaneceu mais tempo sob violência ininterrupta da ditadura militar antes de ser morto

Por Juliana Dal Piva, na Revista Istoé

Em agosto de 1970, depois de um mês de prisão no Departamento de Ordem Política e Social, o temido Dops, Denise Peres Crispim foi retirada às pressas da cela para dar uma volta. Ela tinha motivos para acreditar que, mesmo grávida de sete meses, aqueles poderiam ser seus últimos momentos de vida. “Todas as vezes que eu saía, achava que podia não voltar”, disse Denise à ISTOÉ, em sua primeira entrevista para um veículo de comunicação após mais de 40 anos de silêncio. Cercada por quatro policiais, de olhos vendados, foi empurrada para dentro de um automóvel. Poucos minutos depois, o carro parou. Puxada com força para fora, Denise ouviu um portão abrindo, entrou na casa, passou por uma porta e subiu a escada. Em seguida, os algozes giraram seu corpo várias vezes e só depois retiraram a venda. “Você sabe quem sou?”, perguntou o homem postado diante dela. Denise respondeu que não. “Sou o famoso Fleury”, respondeu o delegado Sérgio Paranhos Fleury, torturador obstinado e com um histórico de morte de prisioneiros sob seus ombros. Ele então apontou uma porta e deu uma ordem: “Seu marido está naquela sala”, disse. “Entra lá porque ele se recusa a comer e falar antes de te ver. Você tem um minuto.” Denise viu o marido, o militante de esquerda Eduardo Leite, conhecido como Bacuri, sentado atrás de uma escrivaninha e com as mãos algemadas em cima da mesa. As lágrimas vieram de imediato. Bacuri tinha hematomas e queimaduras por toda a pele. Tocaram-se as mãos e, quando Denise se levantou para que ele sentisse o bebê na barriga, Fleury entrou: “O minuto acabou”, disse o delegado. Arrancada da sala, Denise pressentiu que aquela seria a última vez que veria o marido, prisioneiro que permaneceu mais tempo sob tortura ininterrupta da ditadura militar – foram intermináveis 109 dias de sofrimento antes de sua execução.

A história descrita acima jamais havia se tornado pública e poderá ser conhecida em detalhes com a leitura da biografia “Eduardo Leite Bacuri”, de autoria da jornalista Vanessa Gonçalves, que será lançada oficialmente no sábado 18 pela Plena Editorial. O livro, antecipado com exclusividade à ISTOÉ, joga luz sobre a intensa vida do mineiro de Campo Belo, de origem simples e que desapareceu nos porões do regime militar aos 25 anos de idade. Além de Denise, a autora entrevistou 40 ex-militantes que a ajudaram a construir a trajetória de um dos personagens mais instigantes dos anos de chumbo. Bacuri participou dos sequestros do cônsul japonês Nobuo Okushi e do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben, que imediatamente o colocaram no topo da lista dos inimigos da repressão.

Embora cubra toda a curta vida de Bacuri, a biografia destaca o período crucial de sua existência – os 109 dias de prisão e torturas. A via-crúcis começou no dia 21 de agosto de 1970, na cidade do Rio de Janeiro. Desesperado para libertar sua mulher, que estava presa há um mês na Operação Bandeirante (conhecida como Oban), ele viajou à capital carioca para organizar o sequestro de um diplomata. De acordo com o livro, Bacuri foi traído por Artur Paulo de Souza e Jorge Zuchowski, colaboradores dos militares infiltrados na Frente de Libertação Nacional que passaram informações sobre o seu paradeiro. Foi Fleury em pessoa que o algemou em uma rua do bairro da Gávea. Dali foi imediatamente levado para a primeira sessão de pancadaria em um centro clandestino de São Conrado. Depois, encaminhado à delegacia de Vila Rica, em São Paulo, para que Fleury pudesse continuar o serviço sujo. O militante ainda retornou ao Rio de Janeiro, passando pelo presídio da Ilha das Cobras. Mais tarde, foi transferido para São Paulo, dessa vez para a Oban, que se transformaria no famigerado DOI-Codi.

No Dops, Bacuri passou por uma experiência incomum – e macabra – mesmo para os padrões da ditadura. Ali, depois de massacrado fisicamente, ele leu sua sentença de morte. No sábado 26 de outubro, os jornais noticiaram a morte de Joaquim Câmara Ferreira, militante da Ação Libertadora Nacional, e afirmaram que Bacuri havia sido levado da prisão para fazer o reconhecimento do corpo. Nessa operação, segundo as publicações da época, Bacuri tinha conseguido fugir e desapareceu. Ao ver a notícia impressa nos jornais, ele teve a certeza de que jamais sairia vivo da prisão – era o álibi que os militares precisavam para assegurar que Bacuri não estava sob jugo da ditadura e, sim, foragido. A triste ironia da história é que ele sequer andava. Graças à violência dos policiais, apenas quatro dias depois de ser preso o militante perderia para sempre o movimento das pernas. Sua morte foi lenta. Segundo relato de um soldado, Bacuri foi executado no dia 8 de dezembro de 1970 (leia quadro à pág. 74), no forte dos Andradas, no Guarujá, em São Paulo.

Não é difícil entender por que a prisão de Bacuri era como um troféu para os militares. Ele começou sua militância política na Polop, depois esteve entre os fundadores da Vanguarda Popular Revolucionária e, mais tarde, fundou a Rede Democrática (Rede), todos grupos que não poupavam meios para enfrentar a ditadura. Em seu currículo constam ações de extrema ousadia. Ao saber que a mulher grávida tinha sido presa, ameaçou sequestrar e matar o comandante do Segundo Exército de São Paulo. Em uma ligação para o DOI-Codi, diante da desconfiança da voz do outro lado da linha, mandou que um parceiro fizesse uma provocação: “Pergunte ao comandante se ele sabe de um fusquinha vermelho no qual ele vai visitar a amante.”

Bacuri não conheceu a filha, Eduarda, que tinha um mês e meio quando ele morreu. Assim que deu à luz, Denise ganhou liberdade condicional. Em 1972, diante das seguidas ameaças, ela fugiu com a criança para o Chile e depois se mudou para a Itália, onde as duas permaneceram por mais de 30 anos. Hoje, aos 40 anos, Eduarda vive na Holanda e é restauradora de obras de arte. Denise Crispim retornou no início do ano para o Brasil, desta vez em definitivo. Mas o medo persiste – ela não revela em que cidade vai morar. “Eu fiquei marcada para o resto da minha vida”, diz.

VÍTIMA
Bacuri sequer conheceu a filha, Eduarda,
fruto de sua relação com Denise Crispim

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Tia de Duda: “Nós estamos no meio de uma guerra, que não é nossa, e a gente está perdendo” « Viomundo – O que você não vê na mídia

13 de novembro de 2012 às 23h21

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