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Diário da Resistência


Política

Celso Lungaretti: Arquivos secretos obtidos por Época, nem tudo é verdade


03/12/2011 - 11h47

por Celso Lungaretti, em Náufrago da Utopia

A revista Época está publicando uma série de reportagens sobre arquivos secretos da Marinha referentes à repressão nos anos de chumbo, que lhe foram entregues, microfilmados, numa “caixinha de papelão do tamanho de um livro”. Eis como descreveu sua prenda:

Escondidas por um militar anônimo, 2.326 páginas de documentos microfilmados daquele período foram preservadas intactas da destruição da memória ordenada pelos comandantes fardados. Os papéis copiados em minúsculos fotogramas fazem parte dos arquivos produzidos pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), o serviço secreto da força naval. Ostentam as tarjas de ‘secretos’ e ‘ultrassecretos’, níveis máximos para a classificação dos segredos de Estado e considerados de segurança nacional. Obtido com exclusividade por Época , o material inédito possui grande importância histórica por manter intactos registros oficiais feitos pelos militares na época em que os fatos ocorreram.

A série começou com uma matéria de capa sobre Os infiltrados da ditadura, assinada por Lionel Rocha; na edição que chega às bancas neste sábado (3), o texto que aborda As ações da CIA no Brasil tem tripla autoria (ele, Eumano Silva e Leandro Loyolla).

On line, a revista publica inicialmente o começo da matéria, só liberando o restante do texto no dia em que sai a edição seguinte.

Colega de editora (foi também a Geração Editorial que lançou seu Operação Araguaia – os arquivos secretos da guerrilha, escrito a quatro mãos com Taís Morais), Eumano me pediu opinião sobre a série. Fiz-lhe esta avaliação:

…os relatórios da repressão são uma parte da verdade, mas não toda a verdade. Dão pistas, mas não esgotam os assuntos. São peças de um imenso quebra-cabeças cuja montagem compete aos historiadores e à Comissão da Verdade.

O comezinho bom senso é suficiente para supormos que os autores dos relatórios evitaram estender-se sobre o papel infame que eles próprios desempenharam e também que fantasiaram um pouco os registros, para valorizarem-se aos olhos de seus superiores.

JUAREZ GUIMARÃES DE BRITO  ASSUMIU  O RISCO DE TENTAR SALVAR UM COMPANHEIRO

Isto se evidencia, p. ex, na forma como a revista relata o cerco e morte do grande companheiro Juarez Guimarães de Brito:

A infiltração de Luciano [codinome de Manoel Antonio Mendes Rodrigues, noutro parágrafo apresentado ‘como um agente remunerado que teve conexões com assaltos a banco e contatos em várias organizações da luta armada, como FLN, VPR e MR-8] resultou também na espionagem contra um dos mais importantes dirigentes da VPR, Juarez Guimarães de Brito. Juarez entrara em 1968 para o Comando de Libertação Nacional (Colina), organização a que pertenceu a presidente Dilma Rousseff. Em julho de 1969, integrava a VAR-Palmares, organização oriunda da fusão entre Colina e VPR. Foi Juarez quem comandou no Rio de Janeiro o assalto ao cofre de Ana Capriglione, amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Trata-se do assalto mais bem-sucedido realizado por um grupo de esquerda durante a ditadura. Ele rendeu US$ 2,6 milhões aos assaltantes.

No dia 13 de abril de 1970, Luciano relatou aos chefes do Cenimar que estivera com Juarez num encontro com Maria Nazareth. Ele telefonou outra vez ao Cenimar no dia 16, para informar que Juarez tinha um encontro no dia 18 com outro militante da VPR, Wellington Moreira Diniz, na Rua Jardim Botânico, numa esquina com a rua que ‘tem a seta indicando Ipanema’.

Provavelmente, foi esta a versão que o oficial controlador do tal Luciano passou ao alto comando, para acumular mais alguns pontinhos –ignóbeis!– na sua carreira.

A verdade é bem diferente, conforme esclareci na mensagem que enviei ao Eumano:

A sequência real é a seguinte:

* Wellington Moreira Diniz, braço-direito do Juarez desde os tempos do Colina, teve de afastar-se da militância ativa por causa de problemas cardíacos;

* sua única tarefa ficou sendo a de dar instrução militar a pequenos grupos de esquerda que estavam se formando na época;

* mas, alguém desses grupos foi preso e o entregou;

* já estava preso em 11/04/1970, um sábado, dia de seu ponto semanal com a VPR (para saber as novidades, receber instruções e recursos para seu sustento);

Raridade: Juarez na formatura do ginásio, em 1963. É o 1º da fileira de  cima, da esq. p/ a dir., no centro da foto

*   no dia 13/04/1970, quando eu me encontrei com os dirigentes nacionais Ladislau Dowbor e Maria do Carmo Britto numa casa de chá da zona Sul do RJ, conversamos longamente sobre a apreensão causada pelo fato de o Wellington não ter comparecido nem ao  ponto  nem à alternativa (um novo ponto, marcado para algumas horas depois);

* como todos os comandantes estavam de partida para uma reunião convocada pelo Carlos Lamarca, tentei insistentemente convencê-los a abortarem a reunião, para que todos estivessem a postos no caso de o Welllington ter realmente sido preso;

* mas, foi mantida a reunião e uma informação que o Wellington abriu depois de resistir bravamente durante quatro dias iniciou a onda de  quedas que acabou me alcançando;

* sem terem conhecimento das prisões, o Juarez e a Maria do Carmo, já de volta no sábado seguinte (18/04/1970), resolveram ver se o Wellington comparecia na segunda alternativa para o caso de o Wellington ficar descontatado (mesmo local, mesma hora, uma semana depois);

* não era o Juarez quem habitualmente cobria o ponto semanal com o Wellington, só tendo ido no dia 18 porque o companheiro não aparecera no dia 11 e ele estava preocupado (provavelmente, já acalentava a esperança de resgatá-lo com uma ação desesperada);

* o casal percebeu que o Wellington estava preso e servindo de isca, mas o Juarez improvisou o plano temerário – enviar-lhe, por meio de um menino de rua, um pacote de frutas com um revólver por baixo, supondo que ele o pudesse utilizar para escapar dos agentes e correr até o carro deles;

* com as pernas engessadas por um tipo de tala sob a calça, ele não poderia correr, então, ao ver a arma, não a pegou;

* os agentes perceberam a manobra e conseguiram cercar o carro do Juarez, impedindo a fuga — aí ele optou pelo suicídio, cumprindo sua parte no pacto de morte que havia firmado com a companheira.

Além do que fiquei sabendo na reunião com o Ladislau e a Maria do Carmo, minhas fontes foram uma conversa com o tenente coronel Ary Pereira de Carvalho, da Divisão de Infantaria, responsável pelo IPM da VPR, que me contou o ocorrido em 18/04/1970 sob a ótica da repressão; e os papos com o próprio Wellington, meu companheiro de infortúnio no cárcere da PE da Vila Militar (apesar das brutais torturas, seu coração resistiu e ele tomava fortes calmantes na prisão).

PROFESSOR DA GUERRILHA:  IDEALISTA QUE ENDURECEU SEM JAMAIS PERDER A TERNURA

É de supor-se que haja outras informações igualmente maquiladas nos tais microfilmes, o que não diminui o mérito da Época nem  a importância do seu trabalho jornalístico. Apenas, comprova que tudo isso deve ser relativizado e não tido como verdade absoluta.

Não sei se a revista publicará meu esclarecimento, até porque o Eumano não decide sozinho.

Eu gostaria muito que o fizesse, por respeito à memória de um dos melhores resistentes tombados na luta contra o arbítrio.

Juarez merece ser lembrado como quem foi: o cordial professor que  endureceu sem jamais perder a ternura, a ponto de ter colocado a salvação do discípulo estimado acima do sentimento de autopreservação e da enorme importância que ele próprio, Juarez, tinha para o movimento.

E, quando seu intento fracassou, pagou com a vida, sem hesitar. Não quis correr o risco de, sob tortura, comprometer outros companheiros ou prejudicar a causa.

Mas, conhecendo-o como conheci, eu apostaria todas as minhas fichas em que tal temor era infundado.

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8 comentários

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EUNAOSABIA

04 de dezembro de 2011 às 09h51

Eles "pinçam" as verdades que lhes convém, assim age o PIGdoB.

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SILOÉ-RJ

04 de dezembro de 2011 às 01h08

OH!!! Quanta coincidência!!! Justo a Época dos Marinhos, unha e carne com a ditadura!!!
Sei não!!! Essa estória da "caixinha" tá muito mal contada!!! Cabe um questionamento e uma investigação.
De repente pode ter sido lá, que esses e outros documentos, sempre estiveram guardados. Vai saber!!!
Se eu fosse parlamentar pediria uma CPI para investigar a origem dessas informações e fotos e obriga-los a entregar a Comissão da Verdade. Afinal são documentos refernte a um periodo obscuro do nosso país e com o carater nada confiável da revista quem garante que não haverá manipilação, etc, etc ???
Tá com cara de "RECADINHO". Quantas chantagens, ilações, falsificações poderão sair daí???
Isso é apropriação indébita de documentos de um orgão público , crime passível de punição.Ou não???
O Ministério Público, a OAB, a Comissão da Verdade e a Justiça têm que se manifestar a respeito.

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Morvan

03 de dezembro de 2011 às 22h37

Boa noite.

Brilhante (sempre pontuarei: não é o DD!) atuação do grande Celso Lungaretti. Não que seja a ideia, a intenção da publicação, mas o material publicado na Época pode, ao invés de resgatar a verdade, distorcê-la. A intervenção do Celso Lungaretti, testemunha histórico, enriquece e corrige os fatos. Aclara. Desanuvia.
Parabéns também aos familiares do grande combatente Juarez. Este nasceu e morreu como homem.

:-)

Morvan, Usuário Linux #433640.

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Rodrigão

03 de dezembro de 2011 às 21h47

Quando será que o nome do informante Cerra surgirá?

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EUNAOSABIA

03 de dezembro de 2011 às 18h10

Nem tudo é verdade…

Precisa dizer mais sobre o PIGdoB?

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    Maria Fulô

    03 de dezembro de 2011 às 20h34

    Verdade… Melhor confiar na informação de um veículo da Famiglia Marinho, a maior insufladora do Golpe Militar de 64. Vá te catar, palhação…

FrancoAtirador

03 de dezembro de 2011 às 17h33

.
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Importantíssima esta observação do Celso Lungaretti:

“…os relatórios da repressão são uma parte da verdade, mas não toda a verdade. Dão pistas, mas não esgotam os assuntos. São peças de um imenso quebra-cabeças cuja montagem compete aos historiadores e à Comissão da Verdade.
O comezinho bom senso é suficiente para supormos que os autores dos relatórios evitaram estender-se sobre o papel infame que eles próprios desempenharam e também que fantasiaram um pouco os registros, para valorizarem-se aos olhos de seus superiores“.

Ou seja: os registros oficiais daquela época foram elaborados de forma unilateral

pelos próprios torturadores e assassinos ou por quem deles eram encarregados.

Por isso, é necessário e indispensável que a Comissão da Verdade

colha o máximo de depoimentos dos sobreviventes da ditadura,

bem como dos familiares dos mortos e desaparecidos políticos,

para melhor esclarecimento dos fatos ocorridos no período histórico.
.
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Responder

marcus_fitz

03 de dezembro de 2011 às 16h29

Tenho o livro Náufrago da Utopia, é um relato contudente dos anos de chumbo.
Para quem ficou anos estigmatizado pela sociedade, é um milagre não ter sucumbido pela loucura.

Parabéns e continue a sua luta, Celso.

MF

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