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Maria Inês Nassif: Marketing da moralidade vende jornal


01/10/2011 - 02h06

Colunistas| 29/09/2011 | Copyleft

DEBATE ABERTO

A UDN, os IPMs e a mídia brasileira

O “jornalismo de denúncia” que se tornou hegemônico na grande imprensa traz o componente de julgamento sumário dos IPMs pós-64 e o elemento propagandístico udenista do pré-64. Assume, ao mesmo tempo, as funções do julgamento e da condenação, partindo do princípio de que, se as instituições não funcionam, ele as substitui.

Maria Inês Nassif, na Carta Maior

Logo após o golpe militar de 1964, os “revolucionários”, inclusive os de ocasião, aproveitaram o momento de caça às bruxas para eliminar adversários. O primeiro ato institucional cuidava de tirar da arena política os que haviam cometido “crimes de opinião”, condenados no rito sumário de uma canetada, de acordo com os humores das autoridades de plantão.

Os Inquéritos Policiais Militares (IPMs) davam conta dos opositores que não podiam ser enquadrados na acusação de subversão: eram tribunais que, simultaneamente, investigavam e condenavam acusados de corrupção. Sem direito à defesa num caso e no outro, os políticos incômodos aos novos donos do poder saíam de cena, pelas listas de cassados publicadas pelo Diário Oficial, ao arbítrio dos militares, e pelos resultados de inquéritos aos quais não tinham acesso nem para saber por que estavam sendo cassados.

A bandeira da anticorrupção tomada pelos militares do braço civil da revolução, a velha UDN, que havia comovido as classes médias, foi consumada pelos IPMs. A presteza da exclusão de “políticos corruptos” [aqui entre aspas porque os processos não foram públicos e eles não tiveram direito à defesa] do cenário por esse mecanismo era um forte apelo às classes que apoiaram o golpe, ideologicamente impregnadas pelo discurso udenista anticorrupção que prevaleceu na oposição a João Goulart, antes dele a Juscelino Kubitschek, antes de ambos a Getúlio Vargas, na falta de uma proposta efetiva que permitisse a essa parcela da elite conquistar o poder pelo voto.

Era, no entanto, uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que satisfazia os anseios de moralização da política da classe média e das elites (o número de punições e a exposição pública dos supostos meliantes conta muito mais para o público conservador do que a justeza da condenação), era um instrumento de reacomodação das forças políticas civis que se dispunham a dar apoio ao poder militar. A delação – tanto política como moral – foi usada para redefinir a geografia do mando local, os grupos preferencialmente perfilados ao novo governo.

O fiscal de quarteirão não era um parceiro a ser desprezado pelo novo regime: foi uma peça importante na reacomodação de forças políticas e deu número, volume amplificado, às supostas apurações de denúncias de corrupção. Quanto maior o número de cassações por desvio de dinheiro público que saíssem no Diário Oficial, mais a imagem de moralização era imprimida ao poder militar, independentemente da culpa efetiva dos punidos. Os inocentes jamais tiveram chances de provar a sua inocência. Mesmo devolvidos à vida pública após 10 anos de cassação (essa era a punição), carregaram por toda a vida a pecha de “cassado por corrupção”.

Existiam os casos de políticos notoriamente corruptos, é lógico, mas após 10 anos de cassação eles voltaram à arena eleitoral dispostos a convencer os seus eleitores de que eles haviam sido injustiçados. Tinham mais capacidade para isso do que os punidos injustamente, até porque eram chefes de grupos políticos locais e nesses lugares a política de compadrio se misturava e se aproveitava da corrupção para manter votos em regiões de baixa escolaridade e muita fome.

É tênue a linha que separa o julgamento sumário – pelo Estado ou por instituições que assumem para si o papel de guardiães plenipotenciários da justiça e da verdade – da injustiça. O “jornalismo de denúncia” que se tornou hegemônico na grande imprensa traz o componente de julgamento sumário dos IPMs pós-64 e o elemento propagandístico udenista do pré-64. Assume, ao mesmo tempo, as funções do julgamento e da condenação, partindo do princípio de que, se as instituições não funcionam, ele as substitui. Da mesma forma que o IPM, a punição é a exposição pública. E, assim como os Estados de regimes autoritários, o direito de defesa é suprimido, apesar da formalidade de “ouvir o outro lado”?.

Este é um lado complicado da análise da mídia tradicional porque traz junto o componente moral. Antes de assumir o papel de polícia e juiz ao mesmo tempo, consolidou-se como porta-voz da moral udenista. Hoje, as duas coisas vêm juntas: o discurso de que a política é irremediavelmente corrupta e a posição de que, sem poder na política institucional, já que está na oposição, a mídia pode revestir-se de um poder paralelo e assumir funções punitivas. A discussão é delicada porque, não raro, quem se indispõe contra esse tipo de poder paralelo da imprensa é acusado de conivente com a corrupção, mesmo que a maioria das pessoas que ouve o argumento reconheça que o julgamento da mídia tradicional é ilegítimo, falho e tem um lado, isto é, não é imparcial.

O marketing da moralidade vende muito jornal e revista na classe média, mesmo quando os erros do julgamento sumário pelas páginas da imprensa sejam muitos e evidentes. O udenismo também tem o lado da propaganda política, de desqualificação do processo democrático – não está em questão o fato de que existem políticos corruptos, mas a ideia de que a política é, em si, corrupta.

Diante desse histórico da imprensa brasileira, a notícia da tal Folhaleaks é particulamente preocupante. Em vez de Wikileaks – uma organização não governamental que lida com informações vazadas de governos e as submete ao escrutínio da apuração de veículos para divulgação – é Folhaleaks: um canal aberto a denúncias anônimas, que podem envolver os mais diversos e obscuros interesses por parte de quem denuncia. O risco é que essa forma de captação da informação reinstitua a política da denúncia do fiscal de quarteirão, mas desta vez executada não pelo Estado, mas como demonstração do poder de fazer e desfazer reputações que se autodelegou a mídia.

(*) Colunista política, editora da Carta Maior em São Paulo.

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13 comentários

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Heldo Siqueira

26 de outubro de 2011 às 11h12

A discussão política brasileira hoje se resume a dois grupos da elite brigando: os financistas+ruralistas de um lado e os industriais do outro. O PT fez um grande serviço aos industriais ao alinhar os interesses dos trabalhadores a esses.

Enquanto isso, o judiciário avança por cima dos outros poderes (executivo e legislativo) e da democracia refazendo decisões e perseguindo aqueles que foram eleitos (não tenho certeza de que as eleições sejam as melhores expressões da democracia, mas tenho certeza que os ministros vitalícios do STJ e STF não o são).

No mais, como acredito que a história só se repete como farsa, essa parece apenas mais uma farsa que a elite brasileira (em sua representação midiática) tenta pregar no povo. A verdadeira esquerda deveria estar brigando para empoderar o povo, fazer querer participar da discussão política e tirar os safados de todas as matizes (inclusive os que dominam a imprensa) do poder.

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Amaro

02 de outubro de 2011 às 10h40

E já que estamos falando de corrupção, vejam no blog do Nassif a matéria ELIANA CALMON, A REBELDE DE TOGA. Imperdiiiiiiiiiiiiiiiiiiiivel.

Responder

SILOÉ-RJ

01 de outubro de 2011 às 23h30

FOLHALEACKS é só pano de fundo, cortina de fumaça, para justificar AGORA o que eles sempre FIZERAM com tanto empenho e pouco talento, DENUNCIAS ANÔNIMAS.
Com a velocidade com que a Internet quando quer, dismitifica, estava faltando para eles um ESPARRO.

Responder

FrancoAtirador

01 de outubro de 2011 às 23h01

.
.
“A mais nefasta das mentiras é aquela que parece verdade.
Que, de tão nefasta que é, quando veiculada sobre a honra de alguém
ainda cabe à vítima ter que provar sua inocência.

A imprensa constrói e destrói reputações, cria verdades,
conduz a opinião coletiva por caminhos nem sempre identificáveis
e para finalidades muitas vezes ambíguas.

A informação inseriu-se no mercado.
É um bem da vida com valor comercial apurável.
Para alcançá-la, os profissionais dos órgãos de divulgação
não se permitem hesitar se precisam ferir outros interesses,
sobretudo aquele consubstanciado na verdade.

O que interessa mesmo é a versão, nem sempre o fato.

Não se espere a conversão ética espontânea.

Os comunicadores têm visão muito heterogênea do que seja ética.

Na busca da “notícia” (“do furo de reportagem”),
acreditam-se legitimados a atropelar quaisquer outros interesses.

Fazem leitura muito pessoal do direito à informação,
priorizando-o em relação ao direito à intimidade ou à privacidade.

Na era em que informação é dinheiro,
custa crer que o interesse econômico se subordinará aos cânones éticos.

Excertos do Livro:

NALINI, José Renato. Ética Geral e Profissional. 2. ed. São Paulo – Revista dos Tribunais, 1999
.
.

Responder

Leider_Lincoln

01 de outubro de 2011 às 16h24 Responder

EUNAOSABIA

01 de outubro de 2011 às 14h29

Nessa época, Fernando Henrique era aposentado de forma compulsória como professor da USP, José Serra era exilado, Lula foi preso com base na famigerada Lei de Segurança Nacional, mas e José Sarney? o que fazia e onde estava José Sarney nessa época???

Com Lula preso, FHC aposentado e Serra refugiado no Chile, Sarney era nomeado governador biônico do Maranhão em pleno AI5.

Eu acho o seguinte, chega desse papinho furado de direita, de ditadura, de isso e aquilo de vocês.

A verdade é uma só: "Toda a direita e a maioria dos que apoiaram o golpe de 1964, estão hoje ao lado de Lula e do PT".

Vocês não enganam é ninguém. E mais, não me venham com as baboseiras de vocês de que isso é em nome da governabilidade que não é.

Lula tem é rabo preso com essa gente, o que Lula fez em defesa de Sarney e Renan, e o que ele cedeu ao PMDB vai muito além disso.

Vocês são é só gogó, não enganam mais ninguém…..

Chega desse papinho furado de vocês de direita, de ditadura e de mídia golpista.

PT e Lula são a direita hoje e fim de papo.

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    SILOÉ-RJ

    01 de outubro de 2011 às 23h40

    Com certeza. Com a implosão da direita que você tanto defendia, com seu avô lambendo os saltos da DILMA, só nos resta ocupar todos os espaços.
    Seja bem vindo!!!

    Maria

    02 de outubro de 2011 às 09h42

    Se Sarney desejar ele detona com Lula e a farsa política chamada Dilma.

    O PT hoje é a direita.

    Quem lambe os saltos da direita hoje é o PT e Lula.

    SILOÉ-RJ

    03 de outubro de 2011 às 02h21

    De que armário saiu você Maria???
    Há uma distância muito grande entre querer e poder. Aliais, é tudo que eles mais querem!!!
    Sem chance, colega!!!
    O PT já ocupa todos os espaços, de direita, de centro, de centro-direita, de centro- esquerda, de cabeça pra cima, de cabeça pra baixo,etc…etc…
    Bobiou dançou, e você também, seja muito bem -vinda!!!

Glecio_Tavares

01 de outubro de 2011 às 14h16

Duas matérias recentes mostram claramente isso.
A vassoura na mão do deputado delegado da policia federal do PSDBesta, julgando sem provas e pedindo cassação de todo mundo, por indicios claros!!!
O caso dos 118 projetos aprovados com 2 deputados na CCJ, aprovação por consenso, ja discutida e clara.
Os jornalistas do PiG, já julgaram e estão tentando executar de qualquer jeito.

Responder

Iva

01 de outubro de 2011 às 11h20

Eu tenho minhas dúvidas se o Folhaleaks tem mesmo o objetivo de receber informações de fontes anônimas ou se é apenas um disfarce para a obtenção de informações por métodos ilícitos e condenáveis. Grampos, invasões, roubos não seriam agora "fontes anônimas"?

Responder

João PR

01 de outubro de 2011 às 10h55

Morro, e não vejo tudo.
Quer dizer que a Folha está preocupada com a moralidade? Quer denúncias? Será que se nós "entupirmos" aquele site com as denúncias contra Aécio e Alckmin eles vão investigar?
Creio que não, até porque o Movimento Minas Sem Censura e o blog Namarianews cansam de mostrar, com documentos inclusive, os desmandos destes dois governos.
Logo, por dedução lógica, só posso inferir que a Folha quer mesmo é denúncias contra o Governo Dilma.
O resto, como diria o "Coiso", é trololó.

Responder

    GilTeixeira

    01 de outubro de 2011 às 14h30

    Tai uma boa idéia, encher a caixa portal dos caras com as denúncias que eles teimam em não publicar, só isso já daria bem umas 10.000 páginas!


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