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Mauro Santayana: A insurreição americana


06/10/2011 - 23h15

por Mauro Santayana, no seu blog

O movimento norte-americano contra a desigualdade social nos Estados Unidos ganhou um aliado de peso, a AFL-CIO, a antes toda poderosa organização sindical, que se encontrava em período letárgico, desde a morte de seu lendário presidente, George Meany, um pragmático e anticomunista, que se somava a qualquer governo. A retirada de Meany, em 1979, depois de 14 anos de mando, e sua morte, logo em seguida, coincidiram com a eleição de Reagan, o fim do welfare state, o thatcherismo, o neoliberalismo e a globalização da economia – enfim, com o que está aí. Não que Meany fosse exatamente um progressista, uma vez que o movimento sindical declinou sob sua liderança, mas o fato é que, ainda assim, a confederação de sindicatos dispunha de forte presença política.

Para os trabalhadores dos Estados Unidos, reduzidos os empregos e salários, a rearticulação de seu movimento sindical é uma esperança. Para os manifestantes contra Wall Street, que começam a assustar os meios conservadores do grande país, trata-se de uma aliança necessária, não para destruir o sistema capitalista, mas para que o Estado volte a domar as atividades econômicas e restaure as regras do jogo, nas relações entre o trabalho e o capital. Elas nunca foram justas, mas eram pelo menos suportáveis. A reação dos leitores do New York Times, divulgada em sua edição on-line, de ontem, é significativa. A imensa maioria dos comentários é de solidariedade com o movimento; e de protesto contra a renovada e crescente injustiça social do mais poderoso país do mundo.

Um leitor de Nova Iorque se diz sem saber o que fazer, porque não pode deixar o trabalho, a fim de participar das manifestações, nem dar parte de doente, porque necessita de atestado médico, mas deixa claro que “os republicanos que dizem que a regulamentação impede a expansão dos negócios, não passam de um monte de esterco de cavalo”. E acrescenta que gostaria de não usar mais o Chase e o Citibank, mas não pode. E termina mandando um recado para Washington e Wall Street: o povo está enraivecido e todos querem respostas contra o seu sistema corrupto.

Talvez seja ainda cedo para tocar finados pelo sistema capitalista. Ele é intrinsecamente astuto e, quando percebe que a situação está quase perdida, recua, concede alguma coisa aos trabalhadores, reduz seus ganhos, sacrifica alguns peões – e volta a imperar. Quando chega a oportunidade, recupera a posição anterior e volta à sua diretriz, de obtenção do maior lucro, com o aumento da carga de trabalho e a redução ao extremo dos salários. Muitos leitores consideram que é urgente colocar freios no capitalismo, sobretudo o financeiro.

Enfim, e de acordo com a sucinta observação de outro leitor, é preciso retornar ao contrato político inicial dos Estados Unidos, que previa a busca da igualdade entre todos os seus cidadãos.

Quando o governo impõe suas regras, como as impôs durante a administração Roosevelt e, de uma forma ou de outra, continuou a impô-las, até 1980, a prosperidade se faz sem o sacrifício insuportável dos trabalhadores. Os 48 anos de New Deal permitiram uma vida confortável para os norte-americanos e possibilitaram o fortalecimento bélico dos Estados Unidos, embora com a desapiedada exploração de outros povos.

As crises cíclicas do capitalismo, conforme a conhecida teoria de Kondratiev, são explicáveis em uma equação simples: maior renda para poucos e quase nenhuma renda para a imensa maioria correspondem a uma diminuição do consumo de bens, e essa diminuição do consumo atinge os produtores, no círculo vicioso que leva ao desemprego e à correspondente falência dos negócios. Enfim, sem salários não há consumo, sem consumo não há lucros, sem lucros, não há capitalismo.

O sistema bancário é o eixo da economia capitalista. Mas, no caso americano – que passou a ser o modelo mundial – desde a criação do FED, em 1913, os controladores fizeram da administração da moeda um segredo quase religioso. O famoso banqueiro Nicholas Biddle, que se opôs ao Presidente Andrew Jackson, e foi por ele derrotado durante seu mandato (1828-36) dizia, insolentemente, que seu banco – que tinha o privilégio da emissão da moeda – não tinha satisfações a dar, quer ao governo, quer ao público. Em 1829, antes que o conflito se agravasse, um grupo de cidadãos de Filadélfia (três jornalistas, um grande homem de negócios e dois líderes do incipiente movimento sindical) se reuniu, para discutir o problema bancário, e concluiu, em análise atualíssima do sistema:

“Os bancos são úteis, como instituições de depósito e transferências, admitimos sem qualquer dúvida, mas não podemos ver como esses benefícios que conferem possam ser assim tão grandes a ponto de compensar os males que produzem, na criação de artificial desigualdade da riqueza, e, por meio dela, de artificial desigualdade de poder” ( Free Trade Advocate, 9 de maio de 1829, citado por Arthur Schlesinger, Jr. em The Age of Jackson, 1945).

Troquem-se os nomes de Nicholas Biddle, o arrogante banqueiro de Filadélfia, pelo dos dirigentes do Goldman Sachs, e o de Jackson pelo de Obama, e temos situação semelhante – com uma diferença. Jackson era Jackson, que peitou os banqueiros e os venceu, com a fragmentação do sistema e o surgimento dos pequenos e médios bancos estaduais, possibilitando a grande expansão industrial dos oitocentos. E Obama é apenas uma esperança quase desfeita.

Mas hoje, como os fatos mostram, as massas podem reunir-se rapidamente, graças à comunicação instantânea – e, apesar da repressão – dizer o que pensam da realidade e exigir as mudanças.

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5 comentários

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Guanabara

07 de outubro de 2011 às 23h35

Esse artigo, mais a acertada política anticíclica usada pelo Lula em seus 8 anos, mostram que o Reaganomics era uma falácia. Uma desculpa esfarrapada (vulgo pretexto) pra enriquecer os amigos, dizendo que uma sociedade muito equalitária não teria como se desenvolver. Uma minoria tenta ser melhor que o resto em todo o mundo. Não é coisa de um povo ou de uma nação. São pequenos núcleos de grande concentração de renda e riqueza que mantém o resto do mundo na miséria (como disse o Azenha aqui uma vez, sim, meu amigo, o mundo é pobre). Mudar isso não é fácil, mas aos poucos as pessoas estão se dando conta disso. Se ao menos, ao se noticiar as greves dos bancários, ALÉM de se mostrar os problemas causados à população, fossem mostrados a baixa qualidade de vida de seus empregados e as fortunas de seus patrões e A QUE CUSTOS são obtidas essas fortunas…

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Carlos Cruz

07 de outubro de 2011 às 18h49

Não desconheço os acertos da administração petista no governo Lula. Mas qual o legado de seu governo como Estado, e não político, na questão do trabalho? Quais leis foram legisladas e/ou melhoradas na proteção da relação empregado/empregador? Ou terminamos um ciclo de 8 anos iguais ou pior de quando iniciamos? As perguntas são pertinentes : Houve criação de novas leis trabalhistas em proteção ao trabalhador? NÃO! Diminuiu a precarização das relações trabalhistas, com leis que diminuissem a "terceirização" e por consequencia a relação capital/trabalho? NÃO! Houve diminuição dos encargos que incidem sobre o assalariado, como contribuição à previdencia, IR, etc? NÃO! Quase nada mudou, apesar do aumento dos postos de trabalho no Brasil. Continuamos com a mesma legislação capenga, desvirtualizada. quase extinta, dos tenebrosos tempos FHC-demos. É o legado.

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Operante Livre

07 de outubro de 2011 às 18h33

Por fim, alguma coisa acontece em Wall Street.
Pena que tudo pode mudar para continuar como está.
Penso que o grande impasse não está na má quantidade de distribuição de bens e sim na má qualidade e maus princípios que embasam a distribuição de bens. É impossível viver sem os bens e a celeuma parece ter surgido por causa da pouca quantidade de bens que uma grande maioria reclama. Se não se contenta com poucos bens ou sem bem algum, os banqueiros darão seus anéis para não perderem a mão grande; ou seja, afrouxa uma pouco a coleira, mas não a retira; aperta menos para não matar os clientes.

Contra a corrupção e a roubalheira?! Custa-me acreditar. O que faltou não foi lisura do capitalista e sim fazer um Plano de Repartição dos Lucros que permitisse todos continuarem sendo expropriados, mas vivos para consumir.

Não sou economista, mas penso que enquanto o dinheiro tiver dono, não teremos uma mudança significativa.
Por fim, alguma coisa acontece em Wall Street.

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FrancoAtirador

07 de outubro de 2011 às 01h08

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Câmara, enfim, instala comissão especial sobre lei contra corruptor

Um ano e meio após receber projeto do governo, Câmara cria comissão especial para votar punição a empresas corruptoras com multas e ações civis de devolução de dinheiro.
Presidente, João Arruda (PMDB), e relator, Carlos Zarattini (PT), apoiam projeto e querem votar este ano. Para líder de Frente anti-corrupção, sociedade terá de pressionar.

Por André Barrocal, na Carta Maior

BRASÍLIA – A Câmara instalou nesta quarta-feira (5) comissão especial sobre projeto que cria punições administrativas e civis contra empresas corruptoras, algo inexistente na legislação atual. A comissão será presisida por João Arruda (PMDB-PR) e terá relatoria de Carlos Zarattini (PT-SP). Os dois deputados disseram que são a favor da proposta, enviada pelo governo ao Congresso no ano passado, e que vão trabalhar para que a votação ocorra até dezembro.

“O governo está certo. Tem que agir com mais rigor contra os corruptores. O detentor do capital também tem de ser punido. Temos de estabelecer essa cultura no Brasil”, disse Arruda, jovem deputado (35 anos) de primeiro mandato.

“O projeto é hiper necessário. Critica-se muito a corrupção, mas nunca temos a punição dos corruptores. Troca-se o ministro, o secretário, o prefeito, e a empresa continua trabalhando”, afirmou Zarattini, que está no segundo mandato.

A comissão é composta por 26 titulares. PT e PMDB têm as duas maiores bancadas, com quatro cadeiras cada. Fazem parte deputados como Francisco Praciano (PT-AM), coordenador da Frente Parlamentar de Combate à Corrupção, Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), delegado da Polícia Federal, Carlos Sampaio (PSDB-SP), promotor de Justiça, e Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI dos Correios.

Segundo Zarattini, ainda não é possível identificar um perfil da comissão para dizer se o projeto vai prosperar. Mas o coordenador da Frente contra a corrupção mostrou preocupação. “A relação capital-trabalho, progressistas-conservadores, é desfavorável no Congresso. Acredito que vamos ter um embate aqui na comissão e, se não houver pressão da sociedade, é possível termos prejuízo”, disse.

A reunião da comissão nesta quarta (5) foi formal, apenas para eleger o presidente, o vice (Alberto Filho, do PMDB do Maranhão) e definir o relator. A primeira reunião será dia 19, já que na próxima quarta (12) haverá feriado. Nela, Zarattini deve propor um roteiro de trabalhos, com a realização de cinco ou seis audiências públicas. “Vamos tentar aprovar o projeto na Câmara até dezembro”, disse.

A comissão especial terá o poder de aprovar o projeto de forma definitiva na Câmara. Caso aprovado, o texto só passaria pelo plenário, antes de ir ao Senado, se ao menos 51 deputados (10% da casa) pedissem.

O projeto 6.826/2010 foi enviado pelo ex-presidente Lula ao Congresso em fevereiro do ano passado. Desde então, estava parado na Câmara, à espera de que uma comissão especial fosse instalada – isso acontece sempre que uma proposta tem conteúdo abrangente e precisa passar por quatro ou mais comissões temáticas.

O projeto tenta contornar uma característica da legislação brasileira. O Código Penal não prevê punição de empresas, só de pessoas físicas. Em casos de corrupção, só estão ao alcance da lei, de forma individual, os indivíduos que agiram em nome das empresas.

Para punir empresas que patrocinam – e se beneficiam da – a corrupção de agentes públicos, a Controladoria Geral da União (CGU), que elaborou o projeto, propõe dois caminhos. Permitir aos órgãos públicos lesados que punam os corruptores administrativamente – com multas ou proibição de assinar contratos com o setor público, por exemplo. E, na área civil, libera o Ministério Público para entrar com ações na Justiça para reaver o dinheiro roubado ou fechar a empresa.

Segundo o ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, as empresas corruptoras têm tanta responsabilidade por desfalques no erário, quanto os agentes públicos.

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FrancoAtirador

07 de outubro de 2011 às 00h02

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Os Melhores Entre Nós
(The Best Among Us)

Por Chris Hedges, no TruthDig

“Não há mais desculpas.

Ou você se junta à revolta que tomou espaço em Wall Street e nos distritos financeiros de outras cidades pelo país

ou você está do lado errado da História.

Ou você obstrui a pilhagem da classe criminosa de Wall Street e a destruição acelerada do ecossistema que sustenta a espécie humana, da única forma que nos resta, que é a desobediência civil,

ou torna-se o agente passivo de um mal monstruoso.

Ou você prova, sente e cheira a inebriante sensação de liberdade e de revolta,

ou afunda no miasma do desespero e da apatia.

Ou você é um rebelde ou é um escravo.”

Íntegra do artigo, em inglês:

http://www.truthdig.com/report/item/the_best_amon

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O lado sujo do futebol

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