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Eduardo Febbro: Não é a primeira vez que os EUA chantageiam a Unesco


01/11/2011 - 18h06

Ao aceitar a Palestina como membro pleno, a Unesco aceitou o desafio de funcionar com quase um quarto a menos de seu orçamento. Não é a primeira vez que os Estados Unidos chantageiam a Unesco com a retirada de sua contribuição financeira. Entre 1984 e 2003, Washington boicotou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura para protestar por sua “péssima administração” e pela “ideologia terceiro-mundista”. O artigo é de Eduardo Febbro.

por Eduardo Febbro, em  Carta Maior

Correspondente em Paris

Os palestinos deram um passo firme rumo ao reconhecimento pleno de seu Estado, enquanto a primeira potência mundial, os Estados Unidos, colocou o primeiro obstáculo frente à marcha palestina. Reunida em Paris até dez de novembro, a Conferência Geral da Unesco votou pela adesão da Palestina como Estado membro de pleno direito. O ingresso da Palestina à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura muda radicalmente o regime precedente dos palestinos uma vez que, até segunda-feira, 31 de outubro, a Palestina só tinha um estatuto de missão observadora. A adesão da Palestina como Estado de pleno direito foi aprovada por 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções.

Os Estados Unidos, que se opuseram à medida, decidiram de imediato suspender seu financiamento à Unesco. Tal medida privará a organização de 22% do seu orçamento, em torno de 70 milhões de dólares. Washington aplicou, sem concessões, duas leis que datam dos anos 90 e que proíbem os Estados Unidos de financiarem qualquer agência das Nações Unidas em que a Palestina seja aceita como Estado pleno enquanto não se chegue a um acordo de paz com Israel.

Mas os já claríssimos interesses da administração norte-americana e seu favoritismo para com Israel, não são os da maioria dos países da comunidade internacional. A França, a quase totalidade dos países árabes, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), Argentina e, excetuando o México que se absteve e o Panamá que votou contra, os países de América Latina fecharam fileiras a favor dos palestinos. Os Estados Unidos, a Alemanha e o Canadá se opuseram enquanto a Itália e o Reino Unido se abstiveram. Israel também antecipou que retiraria sua contribuição financeira à Unesco.

O embaixador israelense na organização, Nimrod Barkan, disse que o ingresso da Palestina como Estado era una “tragédia para a Unesco”. Barkan tirou do bolso as já desgastadas ameaças contra os países que apoiaram os palestinos. O embaixador israelense advertiu que isso “debilitará” a capacidade desses países de “influenciar a posição israelense”. Barkan qualificou de “ficção científica” o ingresso dos palestinos na Unesco e ressaltou que este era “um dia triste” porque marcava o momento em que “uma organização decide desconectar-se da realidade”.

A disputa de declarações entre os principais atores do conflito israelense palestino permite medir a distância abismal que existe para se chegar a um acordo de paz. Washington, através de seu embaixador na Unesco, David Killion, avaliou que a iniciativa da Unesco era “prematura” e “contraproducente”. Na direção contrária, o Ministro Palestino de Relações Exteriores, Riyad Al-Malki, declarou que estamos vivendo “um momento histórico que devolve à Palestina parte de seus direitos”. Al-Malki refutou o argumento israelense norte-americano que consiste em vincular o novo estatuto da palestina com a paz na região.

A Palestina se converteu no Estado número 195 da UNESCO graças aos estatutos que regem essa organização dependente da ONU. Diferentemente do que acontece no Conselho de Segurança onde cinco países (Estados Unidos, Grã Bretanha, França, Rússia e China) têm direito de veto e podem bloquear, entre outras coisas, a adesão de um novo Estado, na Unesco só se requer dois terços dos votos da Conferência Geral para adquirir o estatuto de Estado de pleno direito. O novo regime permitirá aos palestinos que alguns dos territórios ocupados por Israel, entre eles Belém, Hebrón e Jericó, sejam reconhecidos como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Para o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, trata-se de um êxito diplomático de grande alcance que torna um pouco mais tangível o reconhecimento da Palestina como Estado. No dia 23 de setembro passado, Abbas propôs oficialmente a aceitação da Palestina como Estado membro da ONU. O Conselho de Segurança examinará a solicitação no próximo dia 11 de novembro, mas ela tem poucas possibilidades de ser aceita uma vez que Washington já adiantou que exerceria seu direito de veto.

Por enquanto, a Unesco aceitou em Paris o desafio de funcionar com quase um quarto a menos de seu orçamento. Não é a primeira vez que os Estados Unidos chantageiam a Unesco com a retirada de sua contribuição financeira. Entre 1984 e 2003, Washington boicotou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura para protestar por sua péssima administração e pela ideologia terceiro-mundista que imperava na Unesco. A Diretora Geral da organização, Irina Bokova, admitiu que de agora em diante terá que “cortar programas e reajustar o equilíbrio do nosso orçamento”.

Entretanto, para a responsável da organização, já não se trata de um “problema financeiro”, mas de um “problema que concerne à universalidade da nossa organização”. Como já se pôde corroborar no conflito israelense palestino e tantos outros dramas que sacodem o mundo, as grandes potências mundiais têm uma visão variável da “universalidade” dos direitos. Estes são “universais” segundo o peso dos interesses e não como valor supremo da humanidade.

Tradução: Libório Junior

Leia também:

Andrew Levine: O estado palestino como ‘ameaça existencial’



29 comentários

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Marat

03 de novembro de 2011 às 07h19

Nunca uma alcunha foi tão bem posta: "Estragos Unidos"!!!

Responder

Morvan

03 de novembro de 2011 às 00h57

Boa noite.
Como tudo na vida, o bloqueio econômico dos estadunidenses tem um lado bom e um lado ruim:
O ruim é, evidentemente, de ter a Organização de fazer algum contorcionismo para resolver o desequilíbrio financeiro, sem este aporte; o lado bom é que, por incrível que pareça, os Estados Unidos estão fazendo (sem intenção, claro) a Unesco (e por conseguinte a ONU) uma Entidade [realmente] mundial, e não, um mero títere, como eles gostam de tratar os Organismos Internacionais.
Uma ONU representando as aspirações humanas.

:-)

Morvan, Usuário Linux #433640.
:-)

Morvazn, Usuário Linux #433640.

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Marat

02 de novembro de 2011 às 21h37

Tenho pena das futuras gerações de estadunidenses: Vão comer o pão que o diabo amassou, por conta de inúmeras gerações anteriores pautadas na arrogância, prepotência e venalidade!

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    Morvan

    03 de novembro de 2011 às 00h50

    Boa noite.
    Marat, eu não sinto compaixão deles (mesmo que não lhes deseje mal algum). Tenho muita dó de quem dependa, um mínimo que seja, daqueles escroques manipuladores. Isto sim, é dila.

    :-)

    Morvazn, Usuário Linux #433640.

Bonifa

02 de novembro de 2011 às 20h33

Pela internet, alastra-se a campanha em favor do plebiscito grego. Mais uma frente de batalha entre a Democracia Real e o Neoliberalismo:
.
"Internautas de diversos matizes estão furiosos com o tratamento midiático que classifica a decisão do premier grego como “irresponsável” e como “ato de loucura”. Eles definem a atitude da mídia como “medo do povo” e falam que a legítima consulta democrática anunciada é mais importante que a queda das bolsas, que os temores de falência da Grécia e que a própria implosão da Zona do Euro."
"Pela primeira vez, um líder político consulta o seu povo através de um referendo, depois de tantas medidas impopulares, e só podemos saudar a sua coragem política", é o que diz, por exemplo Melclalex, um blogueiro pró- Arnaud Montebourg, em um post em seu blog, intitulado "Grécia: a última palavra ao povo".
. http://www.lemonde.fr/politique/article/2011/11/0

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Pafúncio Brasileiro

02 de novembro de 2011 às 20h14

Azenha,
Os "donos" do mundo consideravam que foram desafiados e decretaram boicote a UNESCO. Isto é de um imenso ridículo. Esse Obama deixou a sua máscara cair. Os israelentes, com os seus extremistas de direita, a gente já sabe o que pensam e fazem. O que eles querem é empurrar os palestinos com a "barriga". O que esperar de Israel ? Eles não seguem velhas resoluções da ONU.

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Adão Freitas

02 de novembro de 2011 às 17h25

kd meu comentário? só pode quem pensa igual? valeu

Responder

    Conceição Lemes

    02 de novembro de 2011 às 17h36

    Adão, nenhum comentário seu foi vetado. abs

Adão Freitas

02 de novembro de 2011 às 17h20

estudem um pouco de historia e politica internacional no pós guerra e entendam a verdade que se esconde por detrás de tudo isso. não sou judeu e nem tenho simpatia pela causa deles, porém gosto de ter opinião baseada na verdade dos fatos. se Israel não se cuidar estará caminhando pra um novo Holocausto patrocinado pela ONU, Israel se isola cada vez mais com a opinião Internacional manipulada. ACREDITO QUE AQUELE ESTADO NÃO CHEGA AO FIM DESSE SECULO E VEREMOS AS PESSOAS BOAS PRA humanidade QUE SÃO OS PALESTINOS E DEMAIS POVOS QUE QUEREM O FIM DAQUELE ESTADO. não se pode acreditar em tudo que se ler ou ver.

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ADÃO FREITAS

02 de novembro de 2011 às 17h09

Cuidado, os problemas do Oriente médio, quando se fala em Israel e Palestina, são muito maiores, essas saídas se fossem tão boas a muito tempo ja teriam sido adotadas. O Estado de Israel é ameaçado desde as primeiras horas de sua criação. O povo palestino ta manipulando a opinião publica eles não tem o menor interesse em viver em paz, simplesmente a intenção e jogar o resto do mundo contra Israel por ser o único estado laico não com religião e costumes diferentes dos deles no Oriente médio. ANALISEM FRIAMENTE CADA PASSO DOS DOIS LADOS, OS PALESTINOS NÃO TEM ESTADO PORQUE ELES NUNCA QUISERAM UM, ELES QUEREM O FIM DO ESTADO JUDEU DESDE MAIO DE 1948, ELES SÃO MAIS VITIMAS DE SI DO QUE DE ISRAEL, ELES VÃO SEMPRE COLOCAR JERUSALÉM NA DISCUSSÃO POR QUE SABEM QUE ISRAEL NUNCA DISCUTE ESSA DIVISÃO. AQUILO LA VAI SER UM DERRAMAMENTO DE SANGUE COMO NUNCA VISTO NO ORIENTE MÉDIO. AS COISAS NEM SEMPRE SÃO OQUE PARECEM SER, AS VEZES UMA VITIMA É MAIS CULPADA QUE SEU ALGOZ…

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Marat

02 de novembro de 2011 às 15h48

Será que o pessoal que lê o PIG, e se "orienta" por ele não, percebe que os EEUU são um país hipícrita e preconceituoso? Será que ainda são necessários mais exemplos?

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Ramalho

02 de novembro de 2011 às 11h22

O verdadeiro eixo do mal passa por Washington e Tel Aviv.

Responder

    anna Fox

    02 de novembro de 2011 às 17h27

    Concordo plenamente e me pergunto: Quem vai engolir quem no final das contas, DC ou Tel Aviv?

Cleverton_Silva

02 de novembro de 2011 às 11h02

Os líderes estadunidenses representam a decadência de uma sociedade que caiu no conto sobre um sonho distante, esta sim desconectada da realidade, alienada pela retórica de doentes paranoicos como Kennedy, passando por Lindon Johnson, Nixon, Bush pai e filho e também Obama na conta. Os organismos mundiais devem fazer jus a objetivos do bem-estar e da paz em todos os países, e deve dar vez e voz àqueles que largam as armas e agem com diplomacia. Israel e EUA, se querem fazer birra e cortaram as verbas de contribuição com a UNESCO, peçam pra sair! O mundo agradece!

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Henrique

02 de novembro de 2011 às 10h32

Indepndentemente a esta conquista, a UNESCO já dá mostra que pode conviver e debater questões muito mais profundas em defesa dos vários povos exauridos pela exploração colonial de Inglaterra, França, Itália e Espanha, na Africa que estão passando fome, inclusive sendo roubados em sua Zona Economica Exclusiva. Às custas desses povos é posam de paises civilizados. A Líbia é um grande exemplo disso, em que a covadia em vetar as ações da OTAN, da China e URSS, só permitiram o enriquecimento ainda maior das empresas desses associados, promovendo mais uma vez a fome e a miséria entre aqueles que ao custo dos seus recursos minerais, tentaram continuar diferentes e independentes.

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Gerinho da Terra

02 de novembro de 2011 às 09h50

70 milões divididos por 107 dá aproximadamente US$ 650 mil. não é absurdo para nenhum país esta quantia, e se levarmos en conta a proporcionalidade dos países, fica ainda mais fácil de resolver esta falta que os EUA não vão fazer.

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Democracia made in USA « Ficha Corrida

02 de novembro de 2011 às 09h49

[…] […]

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Andrea

02 de novembro de 2011 às 09h49

Entendo que cada país contribui de acordo com seu PIB e alguns países devem pagar valores apenas simbólicos.
Lá no meu prédio quem não paga o condomínio também não vota.
Uma perguntinha singela: caso os EUA não paguem as suas "mensalidades" à UNESCO, dá para expulsá-los da reunião de condomínio?

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Ademar Lira

01 de novembro de 2011 às 23h50

As argumentações de representantes contrários à admissão da Palestina na Unesco (ou na ONU), que dizem que se deveria chegar a um acordo de paz definitivo antes de dar esses passos, são vazias e ridículas, pois seria o mesmo que dizer que enquanto não houver acordo de paz definitivo entre Índia e Paquistão com relação à questão da Cachemira, um dos dois países deveria ser excluído da ONU, e não poderia ter reconhecido o seu status de membro pleno. Ou seja, algo totalmente absurdo.

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Operante Livre

01 de novembro de 2011 às 23h12

Prá ficar melhor seria bom prender e julgar Bush e o premier israelense por crime contra a humanidade.

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dukrai

01 de novembro de 2011 às 21h12

os eua e israel se distanciam cada vez mais da comunidade internacional e indicativo de mais um espasmo na decadência lenta, gradual e segura do império. tô repetindo alguém mas esqueci o autor rs

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FrancoAtirador

01 de novembro de 2011 às 21h02

.
.
Mais um ato lesa-humanidade dos Estados Unidos da América do Norte.
.
.

Responder

Alexei_Alves

01 de novembro de 2011 às 20h33

As gerações futuras terão grande dificuldade para entender certos acontecimentos do início do século XXI. A maneira como foi defendida e mantida a brutal opressão contra o povo palestino será uma delas.

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Fabio_Passos

01 de novembro de 2011 às 19h45

Há muito os ianques já assumiram publicamente que são canalhas e apóiam racistas.
Este é apenas mais um capítulo da completa derrocada ética dos eua.

<img src=http://2.bp.blogspot.com/_XmPb41jI7Cc/TASSlae-aHI/AAAAAAAAEUo/hWwlJFSHizw/s1600/hamas_flag_burning.jpg>

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Beto_W

01 de novembro de 2011 às 18h22

Parabéns ao povo palestino por essa conquista, e parabéns à Unesco por sua coragem. EUA e Israel precisam se dar conta de que o reconhecimento da Palestina como igual entre as nações do mundo é um processo inevitável e necessário em direção à paz na região. E as ameaças de cortes de orçamento são atitudes lamentáveis e condenáveis.

As argumentações de representantes contrários à admissão da Palestina na Unesco (ou na ONU), que dizem que se deveria chegar a um acordo de paz definitivo antes de dar esses passos, são vazias, hipócritas e não fundamentadas na realidade. Um processo de paz com conversações e negociações pode muito bem seguir em paralelo com a conquista de uma cadeira na ONU pelos palestinos.

Responder

    Conceição Lemes

    01 de novembro de 2011 às 18h56

    Beto, admiro a sua persistência e disposição de debater. Parabéns, abs

    Beto_W

    03 de novembro de 2011 às 11h32

    Obrigado, Conceição. O que me estimula mais é o respeito mútuo e o nível de conteúdo da maioria dos comentadores aqui.

    Morvan

    03 de novembro de 2011 às 01h03

    Boa noite.
    Isso mesmo, Beto_W.
    Este acordo de paz é um duende: os Estados Unidos e Israel juram que ele sai, mas todos sabemos que não passa de conversa…
    Há poucos dias, aqui, no Brasil, o ministro (toda vez que eu me referir a este senhor, fá-lo-ei com letras mínimas, contra o protocolo) Paulo Bernardo proferiu a mesma joia: – Não negocio com grevistas!
    O discurso é o mesmo. Não dá condições para avançar, e quando o adversário (no caso cito, os trabalhadores) avança eles se negam ao diálogo. Como se houvesse diálogo.

    :-)

    Morvan, Usuário Linux #433640.


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