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Victor Calejon: Opção política ou má administração?


14/08/2012 - 10h28

Governo não paga servidores em greve… e nem os que estão trabalhando




por Victor Calejon

Na luta do governo contra as greves dos servidores públicos federais, a mensagem enviada no mês passado aos departamentos de RH para que fosse cortado o ponto dos grevistas, para além de toda controvérsia legal e de caracterizar a postura do governo federal em relação a greves no atual mandato, serviu para indignar ainda mais os servidores e aumentar as mobilizações. Servidores do IBGE tiveram seus salários descontados, de forma arbitrária e unilateral, antes mesmo do governo apresentar uma proposta qualquer, em meio ao processo negocial.

Como se não bastasse, o Advogado Geral da União, Luís Inácio Adams, veio recentemente a público afirmar que os Reitores das universidades federais que não estiverem informando ao governo o nome dos servidores em greve – para que suas remunerações não sejam pagas – poderão ser processados por improbidade administrativa. Segundo ele a improbidade se caracterizaria “porque o desconto [dos dias parados] é um dever do administrador. Não é um direito, não é uma faculdade”[*].

Infelizmente o público ainda carece de informação para ter uma idéia do que esse teatro do governo federal confeccionado com discurso legalista esconde.

Parte dos servidores da Fundacentro – fundação cujos servidores fazem parte da carreira de Ciência e Tecnologia – estão sem receber a remuneração que tem direito. Não leitor, os servidores da Fundacentro não estão em greve, mas em alguns casos estão recebendo menos de 60% da remuneração que fazem jus de acordo com a lei e com a tabela salarial do executivo federal. Motivo?

Há mais de sete meses o governo federal não cumpre sua responsabilidade de manter uma Comissão Interna na Fundacentro, instância legal necessária para a aprovação das progressões de carreira, das Retribuições por Titulação e Gratificações por Qualificação. Trata-se de puro descaso, prevaricação, omissão, ou exercício irresponsável de poder, como se queira interpretar. Instituir e manter as condições administrativas para que os trabalhadores recebam a remuneração que têm direito não é um direito ou faculdade do administrador, mas sim seu dever. Por que então o governo só aventa processar por improbidade administrativa os gestores de fundações federais que não agem para descontar os servidores em greve, mas trata com normalidade aqueles que não agem para que os servidores (fora de greve) possam receber suas remunerações?

No IBGE, a falta da regulamentação da Gratificação de Qualificação por parte do governo e da Direção do órgão faz com que uma parte considerável de servidores do nível intermediário deixe de receber esta gratificação e parte da gratificação institucional, com prejuízos mensais acumulados desde 2008.

Esse padrão duplo nos ajuda a perceber o quão limitado é achar que o governo luta contra as greves dos servidores. Na verdade a luta contra as greves dos servidores é apenas um reflexo do status que possui para o governo federal os seus “recursos humanos”. O padrão duplo apenas explicita o padrão de descaso do governo federal com os trabalhadores, como o patrão que busca o máximo de produção de seus empregados negando-lhes ao mesmo tempo os seus direitos. “Que cumpra-se o dever de gestor apenas contra os trabalhadores, mas não quando esse dever visa garantir direitos dos trabalhadores”, essa é a mensagem.

Na prática, administrar os recursos humanos tem sido para o governo federal procurar esquecer que eles existem, ou pelo menos esquecer que existe uma parte propriamente “humana” nesses “recursos”. Algo que até mesmo no capitalismo atual as teorias e práticas de administração modernas procuram não esquecer. Tal esquecimento por parte do governo tem construído um clima e insatisfação e intranqüilidade que muitas vezes impede o servidor de focar como deveria no seu trabalho, diminuindo a eficiência e a produtividade. Conseqüentemente, a dúvida que surge é se se pode conceber essa atitude como uma opção político-administrativa, ou se se trata de pura e simples má administração.

Victor Calejon, servidor do IBGE

[*] Reitores que pagam salários de grevistas devem responder por
improbidade, diz AGU:

http://m.noticias.uol.com.br/politica/2012/08/11/reitores-que-pagam-salarios-de-grevistas-devem-responder-por-improbidade-diz-agu.htm

Leia também:

Maria Godói Faria: Mídia reforça preconceito contra servidores

Folha pede ao governo que resista aos servidores

Servidores dizem no STF que decreto de Dilma é inconstitucional

Agência Brasil destaca prejuízo causado pelas greves

Policial Maisa: Sobre a greve da PF

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15 comentários

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Marcelo

15 de agosto de 2012 às 18h06

Tem 25 anos que minha esposa é funcionária do INSS e que eu lembre, seu salário (de nível médio) nunca foi tão alto. Tem 4 anos que sou professor EBTT e acho que deveria ganhar mais, porém sabia que sem doutorado na minha área as vantagens salariais seriam menores, assim eu faço doutorado oras!
Particularmente não posso reclamar, principalmente porque trabalhava até 2004 na iniciativa privada e sei, quantos leões tinha que matar por dia.
Eu acredito que o Brasil está no rumo com este governo, vejo meus filhos na faculdade pública em áreas geradoras de tecnologia. Vejo dinheiro chegando pra pesquisa na minha área (ciências biológicas).
Peço minhas sinceras desculpas, se não vi que tudo isto é uma armadilha do governo, e na realidade o Brasil está uma droga e só eu não percebo.
Enquanto eu estiver cego pra alguns ou mal informado pra outros, continuo gostando no governo e contra a greve.

Responder

vinícius

15 de agosto de 2012 às 00h08

Para o autor do texto:
Quem administra mal!?!?!
A Dilma ou os servidores que não sabem administrar seu vencimento mensal.

Sou servidor há anos, não apoio essas greve porque são meia-dúzia de gatos pingados que fazem greve remunerada.

Tem mais é que cortar o ponto.

Estudei em Universidade Federal e cansei de ver professor que não cumpria as 20 horas, tinham consultorias e prestavam serviços para multinacionais.

Além disso a lei 8.112, dos servidores, permite que professores acumulem cargos…

Fala sério, autor do texto!!!

Cê estudou onde??
Você mora no Brasil??
Tira férias no exterior???
Já andou pelo interior??
Anda de ônibus???
Vai a hospital público???

mais uma pergunta para o autor do texto: tem parente servidor público? Ele trabalha muito? ganha pouco?

A Dilma administra muito bem… Cadê a crise financeira que não chega ao Brasil…
A Dilma peitou banqueiros, peitou políticos, o ministro Jobim.
A mulher acorda cedo, lê projetos, cobra seriedades das pessoas próximas.

A mulher é Dilmais de corajosa, inteligente, dedicada e sensível…

Francamente, galera…
Se a Dilam endurecer com os servidores em greve tem todo meu apoio.

PS. Azenha, sei que tem muito servidor dedicado, sei que o servidor tem que ser valorizado, uma carreira digna, etc e etc.
Mas, de coração, alguém tem que arrochar os servidores…
A pessoa com coragem para fazer isso é a Dilma.

Responder

Leonardo Meireles Câmara

14 de agosto de 2012 às 21h47

Pessoalmente já passei da fase da dúvida a respeito de como proceder doravante. Tenho certeza de que um futuro melhor passa por um novo projeto político para o Brasil.

O PT já vinha apodrecendo com o reacionarismo de Dirceu. Mas com Dilma esta situação chegou ao paroxismo. Esse projeto que está sendo implementado no Brasil de hoje é aquele derrotado nas urnas.

Imaginem como pode um partido que não possui democracia interna gerir um país em pleno gozo de um regime democrático em estado de direito? Como entender o “atropelamento” de Marta Suplicy em São Paulo e de Mauricio Rands no Recife? Só pra citar os casos mais recentes.

Como entender a fortuna que o PT repassa aos bancos a partir de nossos impostos? A Selic é o maior programa mundial de transferência de renda da classe média aos bilionários em todo o mundo. O PT tem se comportado de forma completamente análoga ao PSDB neste quesito: um verdadeiro Robin Hood às avessas.

Não há mais mais como tergiversar: Fora Dilma! Fora PT!

Um Brasil melhor é possível.

Responder

Fabio Passos

14 de agosto de 2012 às 21h38

Este cartaz da Dilma “cotra-ponto” Rousseff ficou muito engraçado… e merecido.

Responder

    vinícius

    15 de agosto de 2012 às 00h33

    A charge sugere que Dilma busca inspiração em FHC.
    Certo?

    Quem foi servidor durante os oito anos de FHC sabe e pode explicar a diferença de trtamento. Pergunte para eles.

    Quem foi contratado durante o governo FHC???

    Sinceramente, a CUT comete um grande erro ao levar esse cartaz para as manifestações de Brasília e nas duas últimas aqui do Rio de Janeiro.

    A CUT faz o mesmo que a grande mídia… informa errado e distorce fatos..
    Pior de tudo é ver que a passeata do Rio foi “armada” para servir de passarela para o PSOL, PSTU e PV…

    E vou mais além… Fico surpreso como muitos servidores não percebem que estão sendo usados para engrossar caldo de passeatas…

    Sinceramente, pense, reflitam sobre manchetes das Organizações GLOBO.

    Essa aqui por exemplo:

    Greve acirra relação entre Dilma e CUT e Planalto pede ajuda a Lula para intervir na greve de servidores.

    Dilma e lula tem agenda cheia. Ele recupera a saúde e está envolvido em campanha de alguns prefeituras p.e. SP, BH, Campinas, Recife e outras. Ela acorda cedo para trabalhar e só para tarde da noite. Tem um monte de gente competente no governo para cuidar do assunto dos grevistas.

    A CUT sempre foi paparicada e agora que tem o Brizola Neto (do PDT ligado a Força Sindical) e estão com dor de cotovelo.

    Dilma, você tem que agir firme com esses servidores…

    OBS.. acabo de assistir uma desculpa esfarrapada de um policial rodoviário lá de Curitiba.

    Fala sério, servidores..
    Façam igual a dilma…. vamos trabalhar!!!!
    Sejam honestos e digam qual governo foi mais generoso com vocês!!!!

Valmont

14 de agosto de 2012 às 17h35

Nunca se pode descartar a incompetência, mas a prepotência burra que caracterizou os últimos atos (decretos presidenciais e portarias ministeriais) destinados exclusivamente a AGREDIR os trabalhadores do serviço público são imperdoáveis e inadmissíveis, mesmo se estes tivessem partido de um governo demotucano.
Já estamos de olho em 2014. Que opções teremos à vista?
A menos que Dilma Roussef mude radicalmente essa orientação prepotente, desrespeitosa e antidemocrática, perderá muitos milhões de votos, dentre os quais, os das nossas famílias, pelo menos.
O governante não precisa dos trabalhadores apenas como eleitores. Sem servidores não há governo.

Responder

Wagner

14 de agosto de 2012 às 16h18

Olha a resposta aqui ó:

Quando a Veja defende um Governo de esquerda, de duas uma, ou a Veja avermelhou ou o Governo não é de esquerda.

Pra se pensar.

Responder

    Sr. Indignado

    14 de agosto de 2012 às 17h02

    Desativei o anti-virus e fui no site da Abril, a CAPA É VERDADEIRA!!!
    E agora Rouseff?

    Agora vou desinfetar o teclado, as mãos, o monitor, a memória cache…

    vinícius

    14 de agosto de 2012 às 23h56

    há outra opção muito mais adequada para entender a capa da InVeja.

    O Civita tem medo do Policarpo abrir o bico!!!
    O Civita levantou a bandeira branca!!

    Abre o olho galera!!!
    O trem tá feio pro time deles… o mensalão não deu em nada, um time mineiro lidera o brasileirão, a crise econômica não chegou ao Brasil, a galera tá trabalhando e melhorando de vida…

    Ainda tem muita coisa para melhorar o Brasil.
    Portanto, digam a Dilma que ela tá certa.
    Endurece com esses servidores, Dilma!!

    Abraço Dilmais de apertado para todos!!!!
    VAleu, Lula!!!
    Vamos eleger haddad em SP; Patrus em BH; Humberto Costa lá no recife…

    E pau na mula que temos muito trabalho para construir o Brasil de todos!!!

CNunes

14 de agosto de 2012 às 13h08

É o povo no p(h)oder…
Não foi nesse PT Patrão que tinha votado não

Responder

Julio

14 de agosto de 2012 às 12h02

Dilma e PT cavando sua própria cova! Os funcionários públicos federais forma fundamentais para a eleição de Dilma.

Responder

Sobre Huelga en Brasil: ¿opción política o mala administración? | fAu | federación Anarquista uruguaya

14 de agosto de 2012 às 11h17

[…] Leer artículo de Victor Calejon No hay artículos relacionados– Descargar artículo como PDF — […]

Responder

pperez

14 de agosto de 2012 às 10h53

E se vc acrescentar no post que este governo é dos trabalhadores e eleito por ele aí a coisa fica muito mais dificil de entender.
Pior ainda é a incapacidade do Planejamento de negociar algo se sequer aceita receber as lideranças para conversar e a total omissão do Ministerio do Trabalho que sequer emite um sinal para tentar esfriar essa fervura!
Dilma, 2014 não está tão longe e essa crise certamente contribuirá negativamente para sua reeleição.

Responder

    walterjr

    14 de agosto de 2012 às 11h29

    Tomara que sim.
    Eu votei, fiz campanha, briguei na internet e nos círculos sociais pela eleição de uma mulher trabalhadora.
    Ganhei uma vendilhona neo liberal
    Fora Dilma. Se fosse para votar pela banca e pelo salafrariado eu tinha votado no PSDB

    Joaquim Machado

    14 de agosto de 2012 às 21h15

    Isso é papo de tucano derrotado em 2002, 2006, 2010, 2014….


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