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Política

Mário Soares: Obscuros jogos do capital podem fazer sumir a democracia


24/11/2011 - 13h51

Artigo
Um novo rumo

Mário Soares, no sapo.pt

23/11/11 00:05

Este é o momento de mobilizar os cidadãos de esquerda que se revêem na justiça social e no aprofundamento democrático como forma de combater a crise.

Não podemos assistir impávidos à escalada da anarquia financeira internacional e ao desmantelamento dos estados que colocam em causa a sobrevivência da União Europeia.

A UE acordou tarde para a resolução da crise monetária, financeira e política em que está mergulhada. Porém, sem a resolução política dos problemas europeus, dificilmente Portugal e os outros Estados retomarão o caminho de progresso e coesão social. É preciso encontrar um novo paradigma para a UE.

As correntes trabalhistas, socialistas e sociais-democratas adeptas da 3ª via, bem como a democracia cristã, foram colonizadas na viragem do século pelo situacionismo neo-liberal.

Num momento tão grave como este, é decisivo promover a reconciliação dos cidadãos com a política, clarificar o papel dos poderes públicos e do Estado que deverá estar ao serviço exclusivo do interesse geral.

Os obscuros jogos do capital podem fazer desaparecer a própria democracia, como reconheceu a Igreja. Com efeito, a destruição e o caos que os mercados financeiros mundiais têm produzido nos últimos tempos são inquietantes para a liberdade e a democracia. O recente recurso a governos tecnocratas na Grécia e na Itália exemplifica os perigos que alguns regimes democráticos podem correr na actual emergência. Ora a UE só se pode fazer e refazer assente na legitimidade e na força da soberania popular e do regular funcionamento das instituições democráticas.

Não podemos saudar democraticamente a chamada “rua árabe” e temer as nossas próprias ruas e praças. Até porque há muita gente aflita entre nós: os desempregados desamparados, a velhice digna ameaçada, os trabalhadores cada vez mais precários, a juventude sem perspectivas e empurrada para emigrar. Toda essa multidão de aflitos e de indignados espera uma alternativa inovadora que só a esquerda democrática pode oferecer.

Em termos mais concretos, temos de denunciar a imposição da política de privatizações a efectuar num calendário adverso e que não percebe que certas empresas públicas têm uma importância estratégica fundamental para a soberania. Da mesma maneira, o recuo civilizacional na prestação de serviços públicos essenciais, em particular na saúde, educação, protecção social e dignidade no trabalho é inaceitável. Pugnamos ainda pela defesa do ambiente que tanto tem sido descurado.

Os signatários opõem-se a políticas de austeridade que acrescentem desemprego e recessão, sufocando a recuperação da economia.

Nesse sentido, apelamos à participação política e cívica dos cidadãos que se revêem nestes ideais, e à sua mobilização na construção de um novo paradigma.

Mário Soares, ex-presidente e ex-primeiro-ministro de Portugal

Isabel Moreira (deputada independente do PS)

Joana Amaral Dias (ex-dirigente do Bloco de Esquerda)

José Medeiros Ferreira (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros)

Mário Ruivo (professor universitário)

Pedro Adão e Silva (ex-dirigente do PS

Pedro Alves (líder da JS)

Vasco Vieira de Almeida (advogado, ex-ministro socialista)

Vítor Ramalho (líder do PS/Setúbal)

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20 comentários

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Pedro

01 de dezembro de 2011 às 10h59

Já estava na hora do Mário Soares dizer algo mais concreto a respeito da sociedade capitalista. Mais cedo do que qualquer outro modo de produção, a sociedade capitalista ficou velha. Era de se esperar. Sua dinâmica, baseada na permanente revolução dos meios de produção, a levaria, inevitavelmente, à necessidade de transformações profundas, também essas revolucionárias.
A crise capitalista, portanto, tem como única causa o próprio capital. Não estou falando daquelas crises que fazem parte do próprio desenvolvimento do capitalismo. Falo dessa de agora que demonstra a necessidade imperiosa de buscar soluções não capitalistas, pois, do contrário, como aliás está acontecendo, a sociedade só terá como empreitada destruir riquezas para manter uma forma de propriedade superada, a capitalista.

Responder

Francisco

25 de novembro de 2011 às 00h08

Agora Inês é morta… Os países europeus viraram setor de banco. Não se elegem mais presidentes, mas gerentes interventores.

– "Tu sabes mexer com Excell?".
– "Sim, senhor."
– "Sabes as contas todas? Somar, dividir… Tu sabes?"
– Sei, sim senhor"
– "Huuum. Es querido pelo teu povo?"
– "Sei não senhor, como saber? Que quer o povo? Quem sabe? Sei de meus diplomas…"
– "Perfecto! Serás supervisor…. Não! serás presidente de Portugal!!!".
(alguém avisa que presidente precisa de votos…)
– "Primeiro ministro! Serás isto! Mas antes passa na sala do Armando, para ele lhe explicar direitinho o serviço qual é…"

Responder

luiz pinheiro

24 de novembro de 2011 às 23h39

Não acompanho de perto a política portuguesa, mas me parece que este manifesto seria mais útil se divulgado quando os socialistas ainda estavam no governo. De todo modo, é bom ver qualquer resistência política a este tipo de neo-austeridade que cobra dos pobres para dar aos ricos.

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Bonifa

24 de novembro de 2011 às 22h12

Bem, vamos ver o que se passa na Europa-Oriente médio;
1 – Uma jornalista da TV France 3 diz que foi atacada sexualmente pelos manifestantes egípcios na praça Tahir. Falando assim, na cabeça de qualquer europeu, aparece uma praça com algumas pessoas e a moça trabalhando tranquilamente, quando alguns indivíduos ferozes chegam e a atacam. Acontece que um vídeo mostra a dita no meio de uma massa fechada, pulsante, de homens. Admira e muito que ela não tenha sido esmagada. Naquela situação, fosse no Brasil, ela teria sido alvo de vigorosas dactilo-investidas. E podemos observar gente tentando protegê-la. O fato de ser francesa não operava em seu favor, com certeza. – Le Monde.
2 – O Occupy Waal Stret lançou diversos manifestos em solidariedade fraterna aos manifestantes da Praça Tahir, e espinafrando o Obama porque nada faz e nada diz contra os militares egípcios. -Blogs.
3 – Herman Cain, o negro doidão pré-candidato republicano, diz que "esses povos que se dizem palestinos" tiveram a audácia de pedir unilateralmente o reconhecimento da ONU, por fraqueza de Obama. Se fosse com ele, o caso seria resolvido assim: Ataque imediato. – Le Monde.
4 – Jornalistas alemães advertem o governo de que está cavando um sentimento anti-alemão generalizado entre os países do sul da Europa. Segundo eles, isto poderá levar a uma situação extremamente perigosa. – Der Spiegel.

Responder

FrancoAtirador

24 de novembro de 2011 às 16h06

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HÁ UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL DA FERROVIA.
A DÚVIDA É SE, ANTES, O TREM DESCARRILHARÁ.
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LIÇÃO ESPANHOLA: A TRAVESSIA RUMO À ESQUERDA

A social-democracia espanhola, representada pelo PSOE, recebeu nas eleições do último domingo, dia 20, quase 4,5 milhões de votos a menos do que o obtido no pleito de 2008. A erosão política reflete a decepção da sociedade com a rendição inútil do governo Zapatero às políticas neoliberais, cujo efeito mais expressivo foi acumular um número recorde de cinco milhões de desempregados no país –quase o total de votos perdidos nas urnas. Esse contingente desiludido, todavia, não foi o responsável pela vitória esmagadora da direita do PP, que elegeu Rajoy e fez 186 cadeiras no Parlamento, uma maioria superior a que dispunha Aznar, em 2002. A supremacia da direita não se deu tanto por seus méritos e votos, mas sim pela derrocada do PSOE e o elevado nível de abstenção. O universo eleitoral do PP
cresceu pouco mais de 600 mil votos em relação a 2008. A grande novidade, assim, foi o avanço das forças à esquerda, que conquistaram um pedaço expressivo da base perdida pelo PSOE. Entre essas forças destaca-se o movimento Esquerda Unida, que saltou de 2 para 11 cadeiras no Parlamento, com forte apoio dos indignados espanhóis. Para falar sobre essa travessia política, de cuja irradiação depende uma saída progressista para a crise européia, o correspondente de Carta Maior em Madrid, Oscar Guisoni, entrevistou o coordenador geral da Izquierda Unida, Cayo Lara

Os novos desafios da esquerda espanhola

Em entrevista exclusiva à Carta Maior o coordenador geral da Izquierda Unida, Cayo Lara, explica quais serão as prioridades da esquerda no novo parlamento, como acompanharão os movimentos de protesto que irromperam na sociedade civil e qual será o papel que vão desempenhar junto aos sindicatos e ao 15- M – o ativo movimento de “Indignados”, que colocou um deputado entre as fileiras da IU – para rejeitar as previsíveis medidas neoliberais que o Partido Popular colocará em prática no governo espanhol.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMos

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    Bonifa

    25 de novembro de 2011 às 00h03

    Excelente observação sobre o tempo. Já estão surgindo aos poucos as opções pós-crise, que só tomarão importancia daqui a três anos,quando elas se situarão como pioneiras de ainda do tempo do início do desastre.

    FrancoAtirador

    25 de novembro de 2011 às 01h31

    .
    .
    Caro Bonifa.

    Dependendo do resultado da eleição presidencial nos EUA,

    talvez o comprimento do túnel possa ser um pouco maior.
    .
    .

    luiz pinheiro

    25 de novembro de 2011 às 07h11

    Crescer de 2 para 11 é bom, mas é preciso lembrar que a IU apenas recuperou o que tivera no Parlamento precedente, aquele da época do nefasto Aznar. Serão só 11 deputados, num parlamento de mais de 350. A maioria dos indignados absteve-se de votar, ou votou nulo. Na Catalunha, a ERC, Esquerda Republicana Catalã, teve mais um resultado fraco, abaixo de eleições anteriores. Além disso, a miríade dos vários e tresloucados pequenos partidos de extrema-esquerda de novo ficou a quilometros de eleger alguém. Esquerda consistente no voto só apareceu no País Basco.

Luiz Moreira

24 de novembro de 2011 às 16h03

Afinal!
A revolução burguesa não foi para dar democracia, e sim para promover o imperio do Capital. Logo, aguentem as consequencias se faltar dinheiro para a grande burguesia. Quem vai pagar a conta serão os pequenos burgueses e os operários, Ou a burguesia fez sua revolução para implantar uma democracia igualitaria? Acreditam nisto?

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izaias almada

24 de novembro de 2011 às 15h52

Por qual razão Mário Soares não fez mais pelo seu país, quando primeiro ministro? O manifesto é um arremedo de oportunismo dos mais hipócritas, pois Portugal – na mão dos socialistas – não avançou em absolutamente nada. Típico oportunismo social democrata.
esses socialistas europeus, em boa parte, são uns hipócritas.
Izaías Almada.

Responder

    Bonifa

    24 de novembro de 2011 às 20h33

    Muitos dizem que Mário Soares foi o homem certo que encontraram para abafar a Revolução dos Cravos.

    Sebastião Medeiros

    24 de novembro de 2011 às 22h11

    Mario Soares foi aquele que MURCHOU a REVOLUÇÃO DOS CRAVOS em 1974, com a ajuda da CIA e do então secretário de estado dos EEUU Henry Kissinger.
    Mas há esperança segundo os versos do grande Chico Buarque de Holanda na Canção Tanto Mar : Já murcharam tua festa,pá. Mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de Jardim….
    Ou seja,a História nunca para !

Regina Braga

24 de novembro de 2011 às 15h35

Depois que Itália e Grecia, tiveram que substituir políticos por agentes do sistema financeiro,ou se faz alguma coisa ou acabou a democracia e políticos…Só vai existir bancos.

Responder

JoseIvan

24 de novembro de 2011 às 15h04

Assinemos a lúcida convocação do importante político Mário Soares.
Nos juntemos a mostrar a nossa importante rua política do Brasil fundado por Lula – o Metalúrgico da Esperança.

José Ivan Mayer de Aquino
Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida

Responder

    Bonifa

    24 de novembro de 2011 às 20h37

    Não amigo. O tempo de Mário Soares passou e não interessa mais, a não ser para atrapalhar. Na testa do novo tempo, não poderão estar estes políticos tão comprometidos com a gênese de toda esta desgraça que se espalha pela Europa. Novas lideranças virão, com um pensamento novo e livre.

    JoseIvan

    24 de novembro de 2011 às 22h04

    Bonifa, me parece que os senhores do mercado querem abafar a política pela negação de todos os políticos por iguais. Há um novo sopro com a primavera árabe, os indignados e a ocupação de wall street. O sangue novo precisa de corações e mentes que souberam fazer ou reconhecer a diferença. Desde Sócrtaes, passando por Ghandi e agora Lula. Mário Soares é reconhecido a Lula pelo papel que desempenha. A Europa está ficando nas mãos do goldman and sachs e outros especuladores.
    José Ivan

    Bonifa

    24 de novembro de 2011 às 23h58

    Obrigado pelas observações, caro JoseIvan. Mas Mário Soares cavou uma posição para Portugal que hoje é exercida com desenvoltura pelo Cherne, que está sempre em postos institucionais europeus, que imagginávamos que Portugal por isso estava grande na Europa, mas que só agora compreendemos que nada significavam. Quando a coisa fica só no osso da economia, todo o leriado faustoso parece uma pantomima vazia. E quando Mário Soares cavou esta posição? No auge da tatcherização da Europa. Foi alí que se começou a anulação midiática da opinião pública européia e a entrada de cabeça numa união que, ao fim e ao cabo, era apenas uma colonoização de mercados dentro da própria Europa. Uma garantia de colonização sobre países mais frágeis, porque a união européia dos ricos queria apenas isso: escravização de mercados da Europa mais pobre pela Europa mais rica e mais inescrupulosa. Mário Soares, com seu socialismo claudicante e supostamente ingênuo, contribuiu alegremente para este estado de coisas.

    marcosomag

    27 de novembro de 2011 às 22h12

    Nunca é demais lembrar que foi os PeSSes que implantaram a desregulamentação neoliberal na Europa, na última década. Os neoliberais quebraram a Europa, e vão quebrar de novo pois são entorpecidos pelos delírios mercadistas da ideologia neoliberal e fiéis pitbulls de guarda do grande Capital. Se os povos europeus não aceitarem os "remédios amargos" da "austeridade", não terão dúvidas quanto a massacrar as populações com pinochetazos. Por conta deste cenário, as opções da Europa são o totalitarismo neoliberal ou a Revolução das esquerdas, com uma frente de comunistas, "indignados", anarquistas, ecologistas de esquerda e outras vítimas da bagunça que os neoliberais fizeram.

Roberto Locatelli

24 de novembro de 2011 às 14h44

Ah, então o Partido Socialista Português vai, a partir de agora, "mobilizar os cidadãos"? Bem, antes tarde do que nunca…

Responder

Luiz Fernando

24 de novembro de 2011 às 14h17

Pior que é isso mesmo. A resposta estatal aos protestos populares tem sido sarrafo no povo, tanto no Oriente que quer se democratizar, quanto no Ocidente que se diz democrático.

A democracia agoniza sob a asfixia do capital financeiro.

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