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Diário da Resistência


Política

Emir Sader: Para que nunca mais aconteça


24/03/2012 - 17h26

O golpe argentino – que hoje completa 36 anos – foi o mais brutal, assim como a ditadura que instalou, de todos os que viveram a região. Fechou o cerco dos regimes de terror que assolou o Cone Sul do continente, em quatro dos países onde o campo popular era mais forte e ameaçava mais a dominação das elites tradicionais e do imperialismo sobre a América Latina.

A Argentina tinha sofrido um golpe similar ao brasileiro, em 1966, que deveria realizar programa paralelo ao da ditadura brasileira. Mas a resistência popular impediu e as elites argentinas tiveram que promover uma transição à democracia, depois que o golpe fracassou.

Veio a eleição de Perón, em 1973, na contramão do que acontecia na região – do golpe de 1964 no Brasil, aos golpes desse mesmo ano no Uruguai e no Chile. O período histórico tinha mudado, Perón ja não teria investimentos externos da Europa, o pais languidesceu até o novo golpe, o de 1976, desta vez mais selvagem que os anteriores – de 1955 e 1966.

Videla e a alta oficialidade argentina receberam os balanços que lhes mandavam os militares golpistas do Brasil e do Chile. O uso brutal da tortura (contribuição brasileira com o pau-de-arara como tecnologia inovadora), evitar o Estadio Nacional, como mandou dizer Pinochet, para contornar campanhas internacionais pela libertação de presos. Tornar assim sistemático o fuzilamento e o desaparecimento dos corpos.

Isso a ditadura argentina fez com esmero. À maior força da luta popular, mais repressão. Trinta mil mortos e desaparecidos, massacres, fuzilamentos, torturas – foi a síntese mais avançada dos regimes de terror da região. Com requintes de crimes de lesa humanidade, inéditos: como o sequestro dos filhos dos presos e fuzilados pela ditadura, crianças entregues a outras famílias, via de regra de militares, para adoção.

Como a ditadura de 1966 tinha fracassado, a de 1976 enfrentou a recessão mundial, levando a Argentina a um profundo retrocesso econômico, promovendo a hegemônica do capital financeiro, pelas desregulamentações que promoveu. Começou mais tarde que as outras, mas não sobreviveu além do fim dos seus congêneres. Demorou menos no poder, mas assassinou muito mais – como atesta a lista de suas vítimas no Parque da Memória, em que se concentram uma quantidade impressionante de mortes nos anos 1975, 76 e 77.

A ditadura foi sucedida pela democratização nos anos 80, pela crise da dívida e pelo neoliberalismo. Mas a luta da Mães da Praça de Maio e do povo argentino permitiu que a anistia promulgada pela ditadura fosse superada e os argentinos têm, pelo menos, o consolo de ver a Videla e a vários dos seus colegas cumprindo penas em presídios comuns, via de regra de prisão perpétua.

Nada que permita ressarcir todo os danos e sofrimentos impostos ao país e ao povo. Mas pelo menos a justiça tem sido cumprida, para que nunca mais se esqueça, para que nunca mais aconteça.

Emir Sader, sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em Ciência Política pela USP – Universidade de São Paulo.

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6 comentários

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ZePovinho

25 de março de 2012 às 19h42

Um genocídio de proporções bíblicas está acontecendo no Iraque e em todos os países invadidos pelos EUA/OTAN/Sionismo.Essas mais de 200 organizaçõe internacionais solicitaram ajuda da ONU e falam em 1.800.000(Hum Milhão e Oitocentos mil mortos).
Se não nos armarmos,depois começarão a dizer que violamos direitos humanos e partirão para cima de nós.
Estão exterminando pessoas e pesquisadores no Iraque para fazer o país voltar à idade da pedra.É o querem fazer com o Irã:
http://www.iraqsolidaridad.org/2012/docs/United_N…

I DESAPARICIONES FORZOSAS O INVOLUNTARIAS EN IRAQ
El Consejo de Derechos Humanos de Naciones Unidas acepta a estudio los documentos
presentados por 200 organizaciones internacionales, entre ellas la CEOSI
OHCHR
OHCHR (http://www.ohchr.org), 28 de febrero de 2012
IraqSolidaridad, (www.iraqsolidaridad.org), 26 de marzo de 2012
Traducido para IraqSolidaridad y Tribunal BRussells por Beatriz Morales Bastos
Edición de IraqSolidaridad
Un grupo de alrededor de 200 organizaciones internacionales, con estatus consultivo y no consultivo,
entre ellas la CEOSI, solicitó ante el Consejo de Derechos Humanos de Naciones Unidas la inclusión
de una serie de documentos relativos a la situación de constante violación de los Derechos Humanos
en Iraq, los cuales han sido incluidos para su estudio en la agenda de la Comisión.
Paulatinamente iremos publicando todos y cada uno de estos documentos que, gracias al esfuerzo del
Tribunal BRussells y de la Red Internacional Anti-Ocupación, de la que también es miembro la
CEOSI, han sido aceptados por el Consejo, y que suponen un testimonio documentado y una memoria
de los crímenes cometidos, y que se siguen cometiendo, en Iraq hasta el día de hoy ante la mirada
impasible de la comunidad internacional.
Las organizaciones firmantes exigimos una investigación internacional e independiente de todos y
cada uno de los crímenes cometidos y que se siguen cometiendo en Iraq, la depuración de
responsabilidades y el castigo de los culpables, miembros de gobiernos y fuerzas de la coalición
internacional que emprendió una guerra ilegal e injustificada contra Iraq —basada, como ha
quedado sobradamente demostrado, en la manipulación y la mentira— así como las debidas
indemnizaciones de guerra y compensaciones por los más de 1.800.000 muertos iraquíes y los
5.000.000 de desplazados en el interior y en el exterior del país.
http://tribunaliraque.info/pagina/campanhas/unive…

LISTA DE PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS ASSASSINADOS NO IRAQUE DURANTE A OCUPAÇÃO

Documento da Campaña Estatal contra la Ocupación y por la Soberanía de Iraq (CEOSI)
IraqSolidaridad ( www.nodo50.org/iraq)

10 de Novembro de 2005

Tradução do inglês e do árabe para o castelhano: Paloma Valverde e Houmad El Kadiri
Tradução do castelhano para português: TMI-AP-JMB

NOTA DA TRADUÇÃO PORTUGUESA: lista elaborada até fim de Outubro 2005; ver, no fim da lista (n.os 101 a 108), os nomes dos assassinados de Novembro e Dezembro

A seguinte lista de professores e professoras iraquianos assassinados durante a ocupação, não sendo ainda definitiva, aumenta para 100 a que foi anteriormente publicada por IraqSolidariedad1, agrupando os casos por universidades e incluindo uma categoria de académicos que, no momento de serem assassinados desempenhavam cargos administrativos, alem de três nomes de professores cuja universidade se desconhece. Esta nova listagem foi elaborada com base em várias fontes de informação iraquianas e internacionais2, além de fontes jornalísticas árabes3.

Tal como a anterior, esta lista ampliada não inclui os nomes de professores do ensino primário e secundário4, nem de médicos no activo ou profissionais não vinculados à docência universitária.

Tendo em conta a situação que se vive no Iraque, é compreensível que não se disponha duma única lista completa de professores e académicos assassinados durante a ocupação. No passado mês de Outubro, o Ministério do Ensino Superior iraquiano cifrava em 146 o número de professores universitários assassinados no Iraque desde o início da ocupação5.

Várias organizações ligadas à iniciativa Tribunal Mundial sobre o Iraque preparam uma campanha de denúncia destes assassinatos selectivos, cuja lógica, sejam quem forem os seus executores6, visaria eliminar o estrato qualificado da população a quem caberia assegurar o futuro cultural, académico e científico de um Iraque libertado e soberano.

BAGDADE
Universidad de Bagdade

Abbás al-Attar: Doutor em Humanidades, professor da Faculdade de Humanidades da Universidade de Bagdade.
Abdel Huseín Jabuk: Doutor, professor da Universidade de Bagdade.
Abdel Salam Saba: Doutor em Sociologia, professor da Universidade de Bagdade.
Ali Abdul-Huseín Kamil: Doutor em Ciências Físicas, professor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Bagdade.
…………………………CONTINUA.SÃO CENTENAS.

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Virgulino Lamparina

25 de março de 2012 às 13h26

Emir Sader evidencia o que a inteligência brasileira mais precisa: senso crítico, independente, profundo e sobretudo intelectualemente honesto. Não é possível compreender o Brasi e o Mundo sem a leitura do seu blog. As críticas normalmente são geradas por facistas ou pessoas relacionadas de alguma forma ao regime de Apartheid na África do Sul ou outros regimes de cunho e base racista ou pró-guerra, pró-ditaduras militares etc.

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Julio Silveira

25 de março de 2012 às 10h50

A Argentina dá lição de cultura democratica punindo rigorosamente os aventureiros do arbitrio.

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Paulo P.

24 de março de 2012 às 21h45

A BOMBA ATÔMICA BRASILEIRA
http://www.youtube.com/watch?v=JGCfMMLzI90&fe…

si non e vero…

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Jairo_Beraldo

24 de março de 2012 às 18h40

Deve ser por isto que os "hermanos" nos achincalham…
1º por serem mais sanguinários na "ditabranda".
2º por terem tido vergonha na cara para condenar seus excelsos sanguinários.
3º por colocar no chinelo o PIG local.

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pperez

24 de março de 2012 às 18h38

Esses fatos de tão tenebrosos em nada diferem dos praticados pelos monstros nazistas como Himmler e Eichmann!
E pensar que seus simpatizantes aqui no Brasil querem sair das sombras!

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