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Diário da Resistência


Política

Emir Sader: É o social, estúpidos!


17/10/2011 - 13h36

Coerentemente com sua incapacidade de explicar o prestígio nacional de Lula – 87% depois de ter deixado de ser presidente -, a direita – tanto a partidária, quanto a midiática – não consegue explicar o prestígio e a mais que segura possibilidade de que Cristina Kirchner triunfe nas eleições do próximo domingo, 23 de outubro, reelegendo-se presidente da Argentina e inaugurando – como no Brasil – o terceiro mandato do ciclo atual de governos pós-neoliberais no país vizinho.

Todos os argumentos foram esgrimidos: o luto pela morte de Nestor Kirchner – ocorrida há mais de um ano, insuficiente para dar conta da contínua subida da popularidade de Cristina; a corrupção, que cooptaria grande quantidade de gente: incapaz de dar conta de um apoio popular generalizado de Cristina; a conjuntura econômica internacional: esta volta a se tornar um condicionante negativo, mas a economia argentina continua a ser a que mais cresce no continente. Resta a idiossincrasia argentina, uma espécie de sentimento de auto-destruição inato dos argentinos, que adorariam acelerar a suposta decadência do seu país.

Em suma, apelou-se para argumentos infra-políticos, antropológicos, psicanalíticos, tangueiros, mas não conseguem entender, menos ainda explicar por que um governo que a mídia brasileira e argentina – irmãs gêmeas – execra, conseguirá se reeleger nas eleições do final deste mês, com mais de 40% de diferença para o segundo colocado.

A razão é que isso seria uma confissão dramática – e quase suicida – para as elites, do óbvio: o Brasil e a Argentina tiveram uma substancial melhoria nas condições de vida da massa da população e este é o “segredo” conhecido por todo o povo, do sucesso dos seus governos atuais.

Enquanto – só para tomar os presidentes depois da restauração da democracia nos dois países – presidentes como Ricardo Alfonsin [mais conhecido Raul Alfonsin], José Sarney, Fernando Collor de Mello, Carlos Menem, Fernando Henrique Cardoso, Fernando de la Rua – saíram enxotados e repudiados pelo povo, Lula, Nestor e Cristina Kirchner, terminaram ou terminam seus mandatos com um majoritários apoio popular, apesar da oposição da velha mídia monopolista.

A razão do sucesso desses governos – da mesma forma que dos outros governos progressistas da América Latina – reside nas políticas sociais, no ataque à característica mais marcante historicamente dos países do nosso continente: o de ser a região mais desigual do mundo. Aí reside o “segredo” das transformações levadas a cabo por esses governos e que explicam sua popularidade. Uma situação radicalmente contrária da dos governos que os antecederam e que implementaram ou deram continuidade ao modelo neoliberal.

Até mesmo essa direita reconhece que a distribuição de renda melhorou substancialmente desde o início desses governos, que o poder aquisitivo dos salários cresceu ao longo desses mandatos, que os contratos formais de trabalho aumentaram sempre na década passada, revertendo, em parte, as desigualdades e exclusões sociais dos governos que os antecederam.

A dificuldade para que a direita – de lá e de cá – reconheça esse aspecto – o enorme processo de democratização social em curso nos nossos países – reside em que significaria automaticamente reconhecer que quando governaram – com ditadura ou com democracia -, perpetuaram ou até mesmo pioraram a situação da massa da população. A desigualdade histórica que marca o nosso continente é produto dos governos das elites tradicionais. Compreender as razões da popularidade dos governos argentino e brasileiro seria uma confissão das responsabilidades das elites tradicionais – partidos e mídia – e, de alguma forma, suicidar-se como consciência social. Daí que estejam condenados a enganar-se e, assim, a impossibilidade de compreensão do que são nossos países e toda a América Latina hoje. Daí a situação de impotência, desconcerto e divisão que afeta a direita nos dois países e em grande parte do continente.

Emir Sader, sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP – Universidade de São Paulo.

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32 comentários

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Mário SF Aives

20 de outubro de 2011 às 09h52

"Compreender as razões da popularidade dos governos argentino e brasileiro seria uma confissão das responsabilidades das elites tradicionais – partidos e mídia – e, de alguma forma, suicidar-se como consciência social."
Considerando o contexto dado é mais que clara a sentença do Prof. Emir. No entanto, pensando bem, no Brasil, talvez seja mais do que isso, ou seja, para as elites tradicionais – mídia e seus respectivos partidos – compreender, ou melhor, admitir publicamente tais razões seria suicidar-se:
– como hiper-consciência social, construída e/ou socialmente imposta pela força, pela ignorância e pelo mais absoluto desprezo à idéia de desenvolvimento sócio-econômico;
– como senhores de escravos;
– como fiéis representantes de interesses externos;
– como sádicos contumazes;
Considerando que esse estado de coisas (atraso, subdesenvolvimento, etc) é produto da não educação do povo, fica a dúvida: quando um representante do PIG, tão enfaticamente, discorre sobre a educação no Brasil, a o quê, exatamente, ele estaria se referindo? Será que poderia ser algo próximo ao modelo adotado na África do Sul durante o apartheid? Ou, nem tanto! Ou, ainda, e especialmente, qual poderia ser o conceito de educação para as citadas elites tradicionais?

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Paulo E.

18 de outubro de 2011 às 15h36

Incrível como a mídia sabuja de nosso país consegue iludir os estados mais "intelectualizados" do nosso país. Se a classe média paulista fosse capaz de ler textos desta qualidade e conteúdo, é muito provável que se desse conta de que é mais do q urgente parar de votar em Serra, Alckmin, Kassab etc.., essa classe média podre se daria conta da piada q é

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Felipe Coelho

18 de outubro de 2011 às 11h43

Pare com essa baboseira de centro acadêmico de ciências sociais de chamar tudo e todos de ESTÚPIDO. Bom lembrar que o governo que aí está te mandou UM ABRAÇO, de modo que você entrou com uma boa proposta na Casa de Rui Barbosa. O mesmo governo que aí está sustenta o ministério dos esportes, envolto em escândalos de corrupção, denúncias feitas há mais de ano. Você é masoquista, ou o que?

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Rildo França

18 de outubro de 2011 às 01h51

Perfeito o artigo do Emir!

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Chris Rodrigues

18 de outubro de 2011 às 00h13

Eliminar o tradicionalismo político, derrubar a elite conservadora e democratizar o campo midiático serão algumas das soluções contra a desigualdade social, concentração de renda e todos os outros problemas que, historicamente, tenha retardado a ordem e o progresso em nosso país.

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Leider_Lincoln

17 de outubro de 2011 às 21h03

Vim da Argentina ontem, depois de 8 dias lá. O segundo colocado é um cidadão ainda mais a esquerda que ela própria… A direita lá está numa situação ainda mais lastimável do que a daqui.

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    beattrice

    18 de outubro de 2011 às 12h51

    Em grande parte graças à ação de CFK e Néstor que arrancaram a máscara dos genocidas e seus apoaidores: Igreja, Imprensa, etc etc
    No dia 9 de julho, não há parada militar em Buenos Aires.

beattrice

17 de outubro de 2011 às 19h43

A popularidade de Cristina KIRCHNER ou CFK repousa menos nas questões econômicas e mais nas questões políticas, onde o argentino identifica um governo combativo e historicamente responsavel.
A par da LEY DE MEDIOS tem impacto brutal na popularidade de Néstor e consequentemente na de CFK a derrubada da Ley da Obediencia Devida e da Ley de PUNTO FINAL, duas idiossincrasias menemistas que impediam julgamento e condenação dos genocidas argentinos da ditadura.
Com a derrubada delas, resultado do empenho pessoal de Néstor, a sociedade argentina pôde finalmente encarar o passado e seguir em frente. Longa vida aos argentinos e a CFK.

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Justo Patriota

17 de outubro de 2011 às 19h01

O problema é: até quando nós poderemos pagar essas esmolas? Lula aumentou em um trilhão de reais a dívida interna do país. E quando não der mais pra se endividar dando esmolas? Aí vem a revolta dos ex beneficiários! É sentar e esperar.

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Pedro Soto

17 de outubro de 2011 às 18h58

A TV Pública de lá tem um programa diário, o 678, das 21 às 22h (quando aqui está todo mundo vendo novela), que debocha da mída direitista e que ajudou a consolidar a grande maioria de votos qua a CK deverá obter no próximo domingo.

Enquanto isso, a nossa TV Pública………….

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    Panambi

    18 de outubro de 2011 às 08h09

    A nossa TV Pública é dirigida, de FATO, pela Globo…

Gustavo Pamplona

17 de outubro de 2011 às 17h59

É interessante ver como é este pessoal da esquerda, só pensam em 3° mandato, mais poder… e etc.

No fundo, no fundo tanto o pessoal da dreita e da esquerda são tudo farinha do mesmo saco, o importante mesmo é ter o poder, não importa os meios.

Evo Morales, Hugo Chavez, Rafael Correa e este Emir "faz me rir" Sader hahahahahhaa

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    Coutinho

    17 de outubro de 2011 às 18h26

    Alguém tem de exercer o poder. Resta saber se a favor de uma minoria que sempre mamou nas tetas da nação, ou a favor da maioria que passa fome, massacrada pela dita minoria.

    Polengo

    18 de outubro de 2011 às 02h08

    A direita teve, hummm, 500 anos dividido por 4, hummm, cerca de 125 mandatos (nos termos modernos) e só fez merda.
    Quem é que só pensa em mais poder, é quem fica resmungando?

    Mário SF Aives

    19 de outubro de 2011 às 23h06

    Perfeito, Polengo! É a História nos livrando da alienação política – e do respectiva ameaça de um novo golpe – manifestada dúzias de linhas acima.

    Paulo E.

    18 de outubro de 2011 às 15h33

    Qm acredita no q faz, e tem o apoio do povo, tem q querer continuar no poder, ou não? Ou na sua opinião o certo seria trabalhar durante 3 mandatos e depois deixar o posto "em nome da democracia" auhuahuhauhahauh

Melinho

17 de outubro de 2011 às 16h46

Mais claro impossível. Tanto lá como aqui as mesmas razões. Porém, no combate ao PIG a Cristina se deu melhor. Salve a Cristina!

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    Roberto Locatelli

    17 de outubro de 2011 às 17h24

    Bom, Melinho, eu diria que a Cristina combateu o PIG. Lula e Dilma, não.

    beattrice

    17 de outubro de 2011 às 19h35

    De fato, lá o confronto com as forças consevadoras é a mola propulsora do governo, aqui… parece perfumaria.

graciliano

17 de outubro de 2011 às 16h34

O enfrentamento dos Kirschner com a mídia golpista é um dos fatores do favoritismo da presidenta Cristina. Os argentinos sabem claramente quem está ao seu lado, e quem pretende apenas voltar a espoliar as riquezas e o trabalho daquela nobre Nação.
Lá, o povo repudias a dona do grupo midiático mais rico, que chegou a receber de presente uma criança nascida nos porões, de mãe sequestrada, torturada e assassinada; aqui os donos do jornal que emprestava viaturas para o transporte de presos até a tortura e a morte ainda são vistos como empresários comuns.
Só espero que oe exemplo de Cristina seja seguido por Dilma Roussef, começando por mandar o ministro Paulo Bernardo Marinho desengavetar o projeto de regulação da mídia, por demais discutido e já aprovado pela sociedade organizada, como se viu na Confecom e outras instâncias democráticas.

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    beattrice

    17 de outubro de 2011 às 19h38

    Duas crianças, a senhora proprietária do Grupo CLARIN tem dois filhos, ambos desaprecidos, filhos de desaparecidos.
    [youtube FI7LVvGpFDw http://www.youtube.com/watch?v=FI7LVvGpFDw youtube]

dukrai

17 de outubro de 2011 às 16h07

essa impotência da elite reflete-se no discurso dos meus amigos de direita do Barro Preto, universidade e familiares, que por falta do que dizer deram pra elogiar a Dilma gerentona, se fazendo de bestas pra viverem. uai, gente, vcs não votaram no Serra kkkkkkkkkkkkkkk ?

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Paulo Lago

17 de outubro de 2011 às 16h04

Uma observação: não seria Raúl Alfonsin em vez de Ricardo?

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    Conceição Lemes

    17 de outubro de 2011 às 17h13

    Paulo, é Raul Ricardo Alfonsin. abs

    Felipe do Lago

    17 de outubro de 2011 às 17h26

    Sim, o pai se chamava "Raúl Ricardo Alfonsín", mas ninguém se refere a ele como "Ricardo" . Já o filho se chama "Ricardo Alfonsín", é um dos candidatos que perderá para Cristina e confundiu, de fato, o articulista.

    Conceição Lemes

    17 de outubro de 2011 às 17h56

    Vc tem toda a razão, Felipe. Vou colocar o nome no texto. Obrigada. Abs

Lu_Witovisk

17 de outubro de 2011 às 15h32

E a Cristina soube enquadrar o PiG de lá… mudanças sociais + democratização da mídia = elite arrancando os cabelinhos ehehheheheh
Parabéns ao povo argentino! Só quero ver qdo o Paulo Bernardo vai se coçar…

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    rodrigo.aft

    18 de outubro de 2011 às 09h36

    Lu,

    para continuar a limpeza, e fazer um serviço como se deve, vamos "colocar pra escanteio" esse
    – Orlando Silva
    q é um bananão contemporizador. ele, a
    – ana "pró © ™ ®" de hollanda, a
    – helena "tiete do PIG" chagas, o
    – zé "dantas" cardozo e o
    – paulo "das teles" hibernardo
    deveriam pedir pra usar a moita e SAIR DE FININHO.

    acho q qquer administrador mediano nos ministérios, porém HONESTO, faria um trabalho bom, BEM melhor q um administrador bom, mas com desvio de conduta….

    o resultado final, na utilização de recursos públicos, financeiros e humanos, de um administrador mediano, mas IDÔNEO, é bem, BEM MELHOR q um administrador "perspicaz", mas usando recursos financeiros e humandos para "ajudar(?)" seu partido, favorecer máfias ou preencher o máximo possível de cargos com apadrinhados.

    vai por mim!!!

    ►►só q não interessa, para CERTOS partidos, colocar quadros IDÔNEOS num certo posto, pois o cara não tem "jogo de cintura" (entenda "jogo de cintrura" como quiser… rsrs)

    COMO COSTUMO REPETIR, AS PESSOAS RECLAMAM, MAS CONTINUAM A FAZER MAIS DO MESMO.

    POVO BOVINO, POVO FELIZ!!!

    beattrice

    18 de outubro de 2011 às 12h49

    O que vc tem contra bovinos?

    rodrigo.aft

    18 de outubro de 2011 às 13h34

    engraçadinha!

    rodrigo.aft

    18 de outubro de 2011 às 13h41

    falando em bovinos,

    O NIÓBIO BRASILEIRO VAI BEM, NÃO?

    C.Q.D.! (Quod Erat Demonstrandum, para os íntimos! rsrs)

Polengo

17 de outubro de 2011 às 14h12

E eles lá (e aqui) sabem o que é social?
Pra eles, social é aquela página no jornal aonde sai a foto deles.

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