VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Brasil de Fato: O agronegócio brasileiro na África


13/12/2012 - 17h51

Agronegócio brasileiro invade a África

Projeto brasileiro ProSavana poderá deslocar milhões de camponeses no norte de Moçambique

11/12/2012, no Brasil de Fato (sugestão do Rodolfo Machado)

União Nacional dos Camponeses de Moçambique, Via Campesina África e Grain

O governo brasileiro junto ao setor privado está colaborando com o Japão para promover um projeto de agronegócio em grande escala no norte de Moçambique. Denominado ProSavana, o projeto poderá disponibilizar 14 milhões de hectares de terra para empresas brasileiras do agronegócio para a produção de soja, milho e outras culturas de rendimento que serão exportadas pelas empresas transnacionais japonesas. Essa área de Moçambique, conhecida como Corredor de Nacala, é uma região onde moram milhões de famílias camponesas que correm o perigo de perder suas terras nesse processo.

O Corredor de Nacala se estende ao longo duma via ferroviária, que vai do Porto de Nacala na província de Nampula até dois distritos mais ao norte da província de Zambézia e acaba em Lichinga, na província de Niassa. É a região mais populosa do país. Com seus solos férteis e suas chuvas regulares e abundantes, milhões de camponeses e camponesas trabalham essas terras para produzir alimento para suas famílias assim como para os mercados locais e regionais.

Com o ProSavana apresenta-se um cenário em que empresas do Brasil e Japão tomarão controle das mesmas terras para estabelecer grandes fazendas industriais, e produzir culturas de rendimento baratas para exportação. Com o Pro-Savana pretende-se transformar o Corredor de Nacala numa versão africana do cerrado brasileiro, que foi convertido em grandes plantações de soja e cana de açúcar.

Um grande número de investidores brasileiros já fez um levantamento das terras na parte norte de Moçambique com o projeto ProSavana. Estão sendo oferecidas grandes extensões de terra numa base concessionária a longo prazo por um dólar por hectare por ano.

A GV Agro, uma filial da Fundação Getulio Vargas dirigida pelo antigo ministro brasileiro da Agricultura, Roberto Rodrigues, está coordenando os investidores brasileiros.

Charles Hefner, da GV Agro, rejeita a ideia segundo a qual o projeto vai deslocar os camponeses moçambicanos. Ele diz que o ProSavana visa “áreas abandonadas”, onde “não se pratica nenhuma agricultura”.

“Moçambique tem enormes áreas disponíveis para agricultura”, diz Hefner. Ele afirma ainda que “há espaço para megaprojetos de 30-40 mil hectares sem impactos sociais maiores”.

Mas as investigações feitas pelo Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (Iiam) mostram claramente que quase toda a terra agrícola nessa zona já está sendo usada pelas comunidades locais.

“Não é verdade que haja terra abandonada no Corredor de Nacala”, diz Jacinto Mafalacusser, um pesquisador do Iiam.

Declaração

Camponeses locais dizem igualmente que não há espaço para agricultura em larga escala naquela zona. No dia 11 de outubro de 2012, líderes locais da União Nacional de Camponeses (Unac) reuniram- se na cidade de Nampula para discutir o ProSavana. Numa declaração resultante da reunião, a liderança local diz estar “extremamente preocupada com o fato do ProSavana demandar milhões de hectares de terra ao longo do Corredor de Nacala, pois a realidade local mostra a falta de disponibilidade dessas extensões de terra, visto que a mesma é usada por camponeses com recurso à técnica de pousio”.

A declaração condena “qualquer iniciativa que preconize o reassentamento de comunidades e expropriação de terra dos camponeses, para dar lugar a megaprojetos agrícolas de produção de monoculturas”, assim como “a vinda em massa de agricultores brasileiros que se dedicam ao agronegócio, transformando camponesas e camponeses moçambicanos em seus empregados e em trabalhadores assalariados rurais”.

Esta foi a primeira vez que a liderança camponesa das áreas afetadas pelo Pro- Savana se reuniu para discutir o projeto, e para muitos, aquela foi a primeira vez que receberam informação sobre o que o ProSavana envolve.

“O governo convidou-nos a algumas reuniões, mas tudo que nos foi mostrado foram apresentações em power point, sem nenhuma oportunidade de levantar questões”, diz Gregório A. Abudo, presidente da União Provincial das Cooperativas de Nampula. “Queremos transparência. Queremos saber dos detalhes.”

Os governos de Moçambique, Brasil e Japão estão avançando, a portas fechadas, com um plano diretor para o projeto ProSavana, o qual pretendem finalizar até julho de 2013. O Japão estará financiando a construção de infraestruturas no Corredor de Nacala enquanto que segundo um representante do ABC, a GV Agro assegurou “muito, mas muito dinheiro” para um fundo que será investido na agricultura em larga escala. O representante do ABC diz igualmente que há um segundo fundo da mesma quantia sendo gerido por outros, que ele não iria nomear. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, está reforçando capacidades das estações de pesquisa de Moçambique em Nampula e Lichinga e trazendo variedades de soja, milho e algodão do Brasil para testar sua adaptabilidade às condições locais do Corredor de Nacala.

A Unac diz que o Pro-Savana é resultado de uma política vinda do topo para a base e não toma em consideração as demandas, sonhos e preocupações básicas dos camponeses. A Unac adverte que o projeto vai dar surgimento a comunidades sem terra, gerar convulsão social, pobreza, corrupção e destruição do meio ambiente.

Para a Unac, se é para se investir no Corredor de Nacala, ou em Moçambique em geral, esses investimentos têm que ser feitos prioritariamente para desenvolver a agricultura e a economia camponesas. Esta é a única agricultura capaz de criar empregos dignificantes e duradouros, conter o êxodo rural, produzir alimentos de qualidade e em quantidade suficiente para toda a Nação moçambicana.

PS do Viomundo: Conheço um pouco desta região de Moçambique e embora não possa falar nada específicamente  sobre o projeto registro que há muitas regiões de terras comunitárias, onde a produção para subsistência é coletiva. Há denúncias de desmatamento de extensas áreas para exportação de madeira para a China. Em Tete, a Vale explora uma gigantesca mina de carvão, também para exportação para a China. O mesmo problema denunciado pelos camponeses de Moçambique está se passando na Etiópia, onde o governo arrendou vastas extensões de terra para produção de alimentos financiada por governos dos países áridos do Golfo Pérsico. Tocamos de passagem nestas questões em três programas da série Nova África. Num deles, a prêmio Nobel Wangari Maathai denuncia a agricultura para exportação num continente onde milhões passam fome. Noutro, tocamos na questão das terras na Etiópia. Num terceiro, falamos sobre projeto da Embrapa em Gana. Para quem exerce jornalismo crítico, é preciso muito cuidado para não embarcar no discurso oficialista de que tudo o que o Brasil quer é o bem da África, como se a China tivesse interesses econômicos e diplomáticos a defender e nós, brasileiros, não.

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8 comentários

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Lafaiete de Souza Spínola

14 de dezembro de 2012 às 11h30

LUIZ GONZAGA

HOMENAGEM AOS 100 ANOS DE LUIZ GONZAGA.

NO SERTÃO, A INDÚSTRIA DA SECA AINDA EXISTE!

Quando oiei a terra ardendo,
Qual fogueira de São João,
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação…
——————————————-
Quando o verde dos teus óio
Se espaiá na prantação
Eu te asseguro, num chore não, viu
Que eu vortarei, viu, meu coração…

Pergunto: É justo que animais continuem morrendo de fome, nesta seca implacável, quando nosso milho é exportado? Somos o terceiro maior produtor mundial.

Pior, frangos morrem de fome, no Sul do Brasil, e granjas são fechadas porque esse milho está sendo exportado.
A verdade é que nosso mercado interno está saturado. São quase 75 milhões, nas classes C e D, que pouco consomem. O poder aquisitivo é muito baixo!

Não tem sentido a isenção do IPI para que as classes médias A e B troquem de carro, as montadoras remetam mais royalties para seus países e nossas cidades fiquem congestionadas, dificultando a vida das micros, pequenas e médias empresas.
Agora, para um país sem ferrovias, querem o TREM BALA! Será útil para transportar o milho em direção ao Nordeste e às granjas do Sul do Brasil, evitando que tanto as vacas como os frangos morram de fome?

Mas doutô, uma esmola
A um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha
Ou vicia o cidadão
————————
Livre assim nós da esmola
Que no fim dessa estiagem
Lhe pagamos inté os juros
Sem gastar nossa coragem

Pois é, o que vemos são agricultores, não pedindo esmola, mas socorro. Esperam o milho, não dado, mais a preço com o deságio da exportação. Quando chega algo, a vaca já está prostrada ou morta.

Quase todos festejam os 100 anos do Luiz Gonzaga. Poucos prestam atenção para às letras de suas músicas. E nada, ou pouco, muda!

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Mardones Ferreira

14 de dezembro de 2012 às 09h47

Não custava uma investigada mais a fundo nessa questão. Mo entanto, a presença do ex-ministro da Agricultura do Brasil – Roberto Rodrigues e da FGV – não podem trazer boas esperanças, pois qual foi o legado da passagem dele pelo ministério aqui no Brasil? Que interesses ele defendeu?

Pelo que sabemos, o Brasil é o campeão de uso de agrotóxicos – ultrapassou os EUA. A favor das multinacionais e em detrimento da segurança alimentar de milhões de brasileiros. Assim age o nosso ministério da agricultura.

Pobre África!

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Porco Rosso

13 de dezembro de 2012 às 21h42

Se o estado brasileiro já faz o diabo à quarto com o próprio povo brasileiro em nome do agronegóco, imagina com o africano!

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Fernando

13 de dezembro de 2012 às 20h35

Que eu saiba os moçambiquenhos não votaram na Dilma, então que direito o governo brasileiro tem de ferrar com um país irmão africano?

Abaixo o imperialismo tupiniquim!

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Bonifa

13 de dezembro de 2012 às 20h26

É difícil de acreditar nessa catástrofe anunciada. O Brasil tem deveres com seu próprio povo, além de deixar que o explorem para fins de sugamento capitalista? Pois estes deveres são multiplicados por mil em relação à África. Os deveres do Brasil em relação à África são maiores do que aqueles em relação a seu próprio território, a África é a verdadeira matriz de nossa cultura e de nosso povo. O Brasil vai agora repetir a exploração colonial que destruiu a agricultura comunitária harmoniosa da África para tirar toneladas de óleo de amendoim e deixar a terra africana estéril e seu povo na miséria? Só uma pessoa pode responder a isso de modo que fiquemos satisfeitos com sua explicação, e dizer que isso será bom ou não para Moçambique: O Lula. Queremos ouvir a opinião de Lula sobre estes projetos.

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    Alan G Ston

    14 de dezembro de 2012 às 01h54

    Realmente, essa de o Brasil ter MAIS responsabilidade com a África que com seu território e “abaixo o imperialismo tupiniquim” tá difícil de engolir.

    Se acham que o que fazemos é imperialismo, a África tem todo o direito de dizer NÃO. A vcs, um aviso: se não vem o nosso ” imperialismo”, vem o dos outros. Ajudar a África a sair dessa pirambeira não é imperialismo.

    Agora, poderiam incluir Portugal nessa responsabilidade tb? E outros países africanos que SIM se beneficiaram com o tráfico negreiro? Sim, a menos que considerem que viver da tragédia nos “beneficiou”. Francamente.

    É de gente assim que a direita adora, dos detratores do próprio país e PIOR: dos projetos do Lula, da união sul-sul. Pois continuem jogando a carta dos inocentes.

    A África é soberana. Se quer fazer negócios conosco, que diga, Se não, que diga tb.

    Mario Alexandre

    14 de dezembro de 2012 às 10h33

    Alan, onde que a África é soberana de fato ? Tem sim que criticar até quando se é a favor de um Governo, se não, vira torcida.

    Jotace

    14 de dezembro de 2012 às 02h27

    Caro Bonifa,

    Desde muito que admiro o teu patriotismo de acendrado amor pelo Brasil. Da mesma forma quanto ao teu posicionamento inflexível pelos direitos do homem, quaisquer sejam os povos, os países atingidos. Mais uma prova disso tudo é o teu pronunciamento sobre os deveres que temos para com os povos africanos. Mas não creio que Lula seja mais indicado para opinar sobre o assunto do que mesmo os legítimos representantes dos povos de Moçambique sujeitos, mais uma vez, à opressão dos colonialistas, quaisquer que sejam os disfarces – e nacionalidades – destes. Infelizmente, por quaisquer razões que sejam, o nosso atual governo e com o qual Lula se envolve, tem cedido às pressões dos chefões do agronegócio, a forma mais brutal e danosa da exploração da terra e do despojamento dos pequenos agricultores. E isto tem acontecido com o silêncio criminoso do nosso governo seja no Brasil ou no vizinho Paraguai. Um abraço cordial do,

    Jotace


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