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Samuel Pinheiro Guimarães: Os objetivos dos EUA na América do Sul


13/07/2012 - 11h33

Internacional| 12/07/2012 | Copyleft

Estados Unidos, Venezuela e Paraguai

A política externa norte-americana na América do Sul sofreu as consequências totalmente inesperadas da pressa dos neogolpistas paraguaios em assumir o poder, com tamanha voracidade que não podiam aguardar até abril de 2013, quando serão realizadas as eleições, e agora articula todos os seus aliados para fazer reverter a decisão de ingresso da Venezuela. A questão do Paraguai é a questão da Venezuela, da disputa por influência econômica e política na América do Sul. O artigo é de Samuel Pinheiro Guimarães.

Samuel Pinheiro Guimarães – Especial para a Carta Maior

1. Não há como entender as peripécias da política sul-americana sem levar em conta a política dos Estados Unidos para a América do Sul. Os Estados Unidos ainda são o principal ator político na América do Sul e pela descrição de seus objetivos devemos começar.

2. Na América do Sul, o objetivo estratégico central dos Estados Unidos, que apesar do seu enfraquecimento continuam sendo a maior potência política, militar, econômica e cultural do mundo, é incorporar todos os países da região à sua economia. Esta incorporação econômica leva, necessariamente, a um alinhamento político dos países mais fracos com os Estados Unidos nas negociações e nas crises internacionais.

3. O instrumento tático norte-americano para atingir este objetivo consiste em promover a adoção legal pelos países da América do Sul de normas de liberalização a mais ampla do comércio, das finanças e investimentos, dos serviços e de “proteção” à propriedade intelectual através da negociação de acordos em nível regional e bilateral.

4. Este é um objetivo estratégico histórico e permanente. Uma de suas primeiras manifestações ocorreu em 1889 na I Conferência Internacional Americana, que se realizou em Washington, quando os EUA, já então a primeira potência industrial do mundo, propuseram a negociação de um acordo de livre comércio nas Américas e a adoção, por todos os países da região, de uma mesma moeda, o dólar.

5. Outros momentos desta estratégia foram o acordo de livre comércio EUA-Canadá; o NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte, incluindo além do Canadá, o México); a proposta de criação de uma Área de Livre Comércio das Américas – ALCA e, finalmente, os acordos bilaterais com o Chile, Peru, Colômbia e com os países da América Central.

6. Neste contexto hemisférico, o principal objetivo norte-americano é incorporar o Brasil e a Argentina, que são as duas principais economias industriais da América do Sul, a este grande “conjunto” de áreas de livre comércio bilaterais, onde as regras relativas ao movimento de capitais, aos investimentos estrangeiros, aos serviços, às compras governamentais, à propriedade intelectual, à defesa comercial, às relações entre investidores estrangeiros e Estados seriam não somente as mesmas como permitiriam a plena liberdade de ação para as megaempresas multinacionais e reduziria ao mínimo a capacidade dos Estados nacionais para promover o desenvolvimento, ainda que capitalista, de suas sociedades e de proteger e desenvolver suas empresas (e capitais nacionais) e sua força de trabalho.

7. A existência do Mercosul, cuja premissa é a preferência em seus mercados às empresas (nacionais ou estrangeiras) instaladas nos territórios da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai em relação às empresas que se encontram fora desse território e que procura se expandir na tentativa de construir uma área econômica comum, é incompatível com objetivo norte-americano de liberalização geral do comércio de bens, de serviços, de capitais etc que beneficia as suas megaempresas, naturalmente muitíssimo mais poderosas do que as empresas sul-americanas.

8. De outro lado, um objetivo (político e econômico) vital para os Estados Unidos é assegurar o suprimento de energia para sua economia, pois importam 11 milhões de barris diários de petróleo sendo que 20% provêm do Golfo Pérsico, área de extraordinária instabilidade, turbulência e conflito.

9. As empresas americanas foram responsáveis pelo desenvolvimento do setor petrolífero na Venezuela a partir da década de 1920. De um lado, a Venezuela tradicionalmente fornecia petróleo aos Estados Unidos e, de outro lado, importava os equipamentos para a indústria de petróleo e os bens de consumo para sua população, inclusive alimentos.

10. Com a eleição de Hugo Chávez, em 1998, suas decisões de reorientar a política externa (econômica e política) da Venezuela em direção à América do Sul (i.e. principal, mas não exclusivamente ao Brasil), assim como de construir a infraestrutura e diversificar a economia agrícola e industrial do país viriam a romper a profunda dependência da Venezuela em relação aos Estados Unidos.

11. Esta decisão venezuelana, que atingiu frontalmente o objetivo estratégico da política exterior americana de garantir o acesso a fontes de energia, próximas e seguras, se tornou ainda mais importante no momento em que a Venezuela passou a ser o maior país do mundo em reservas de petróleo e em que a situação do Oriente Próximo é cada vez mais volátil.

12. Desde então desencadeou-se uma campanha mundial e regional de mídia contra o Presidente Chávez e a Venezuela, procurando demonizá-lo e caracterizá-lo como ditador, autoritário, inimigo da liberdade de imprensa, populista, demagogo etc. A Venezuela, segundo a mídia, não seria uma democracia e para isto criaram uma “teoria” segundo a qual ainda que um presidente tenha sido eleito democraticamente, ele, ao não “governar democraticamente”, seria um ditador e, portanto, poderia ser derrubado. Aliás, o golpe já havia sido tentado em 2002 e os primeiros lideres a reconhecer o “governo” que emergiu desse golpe na Venezuela foram George Walker Bush e José María Aznar.

13. À medida que o Presidente Chávez começou a diversificar suas exportações de petróleo, notadamente para a China, substituiu a Rússia no suprimento energético de Cuba e passou a apoiar governos progressistas eleitos democraticamente, como os da Bolívia e do Equador, empenhados em enfrentar as oligarquias da riqueza e do poder, os ataques redobraram orquestrados em toda a mídia da região (e do mundo).

14. Isto apesar de não haver dúvida sobre a legitimidade democrática do Presidente Chávez que, desde 1998, disputou doze eleições, que foram todas consideradas livres e legítimas por observadores internacionais, inclusive o Centro Carter, a ONU e a OEA.

15. Em 2001, a Venezuela apresentou, pela primeira vez, sua candidatura ao Mercosul. Em 2006, após o término das negociações técnicas, o Protocolo de adesão da Venezuela foi assinado pelos Presidentes Chávez, Lula, Kirchner, Tabaré e Nicanor Duarte, do Paraguai, membro do Partido Colorado. Começou então o processo de aprovação do ingresso da Venezuela pelos Congressos dos quatro países, sob cerrada campanha da imprensa conservadora, agora preocupada com o “futuro” do Mercosul que, sob a influência de Chávez, poderia, segundo ela, “prejudicar” as negociações internacionais do bloco etc. Aquela mesma imprensa que rotineiramente criticava o Mercosul e que advogava a celebração de acordos de livre comércio com os Estados Unidos, com a União Européia etc, se possível até de forma bilateral, e que considerava a existência do Mercosul um entrave à plena inserção dos países do bloco na economia mundial, passou a se preocupar com a “sobrevivência” do bloco.

16. Aprovado pelos Congressos da Argentina, do Brasil, do Uruguai e da Venezuela, o ingresso da Venezuela passou a depender da aprovação do Senado paraguaio, dominado pelos partidos conservadores representantes das oligarquias rurais e do “comércio informal”, que passou a exercer um poder de veto, influenciado em parte pela sua oposição permanente ao Presidente Fernando Lugo, contra quem tentou 23 processos de “impeachment” desde a sua posse em 2008.

17. O ingresso da Venezuela no Mercosul teria quatro consequências: dificultar a “remoção” do Presidente Chávez através de um golpe de Estado; impedir a eventual reincorporação da Venezuela e de seu enorme potencial econômico e energético à economia americana; fortalecer o Mercosul e torná-lo ainda mais atraente à adesão dos demais países da América do Sul; dificultar o projeto americano permanente de criação de uma área de livre comércio na América Latina, agora pela eventual “fusão” dos acordos bilaterais de comércio, de que o acordo da Aliança do Pacifico é um exemplo.

18. Assim, a recusa do Senado paraguaio em aprovar o ingresso da Venezuela no Mercosul tornou-se questão estratégica fundamental para a política norte americana na América do Sul.

19. Os líderes políticos do Partido Colorado, que esteve no poder no Paraguai durante sessenta anos, até a eleição de Lugo, e os do Partido Liberal, que participava do governo Lugo, certamente avaliaram que as sanções contra o Paraguai em decorrência do impedimento de Lugo, seriam principalmente políticas, e não econômicas, limitando-se a não poder o Paraguai participar de reuniões de Presidentes e de Ministros do bloco. 

Feita esta avaliação, desfecharam o golpe. Primeiro, o Partido Liberal deixou o governo e aliou-se aos Colorados e à União Nacional dos Cidadãos Éticos – UNACE e aprovaram, a toque de caixa, em uma sessão, uma resolução que consagrou um rito super-sumário de “impeachment”. 

Assim, ignoraram o Artigo 17 da Constituição paraguaia que determina que “no processo penal, ou em qualquer outro do qual possa derivar pena ou sanção, toda pessoa tem direito a dispor das cópias, meios e prazos indispensáveis para apresentação de sua defesa, e a poder oferecer, praticar, controlar e impugnar provas”, e o artigo 16 que afirma que o direito de defesa das pessoas é inviolável.

20. Em 2003, o processo de impedimento contra o Presidente Macchi, que não foi aprovado, levou cerca de 3 meses enquanto o processo contra Fernando Lugo foi iniciado e encerrado em cerca de 36 horas. O pedido de revisão de constitucionalidade apresentado pelo Presidente Lugo junto à Corte Suprema de Justiça do Paraguai sequer foi examinado, tendo sido rejeitado in limine.

21. O processo de impedimento do Presidente Fernando Lugo foi considerado golpe por todos os Estados da América do Sul e de acordo com o Compromisso Democrático do Mercosul o Paraguai foi suspenso da Unasur e do Mercosul, sem que os neogolpistas manifestassem qualquer consideração pelas gestões dos Chanceleres da UNASUR, que receberam, aliás, com arrogância.

22. Em consequência da suspensão paraguaia, foi possível e legal para os governos da Argentina, do Brasil e do Uruguai aprovarem o ingresso da Venezuela no Mercosul a partir de 31 de julho próximo. Acontecimento que nem os neogolpistas nem seus admiradores mais fervorosos – EUA, Espanha, Vaticano, Alemanha, os primeiros a reconhecer o governo ilegal de Franco – parecem ter previsto.

23. Diante desta evolução inesperada, toda a imprensa conservadora dos três países, e a do Paraguai, e os líderes e partidos conservadores da região, partiram em socorro dos neogolpistas com toda sorte de argumentos, proclamando a ilegalidade da suspensão do Paraguai (e, portanto, afirmando a legalidade do golpe) e a inclusão da Venezuela, já que a suspensão do Paraguai teria sido ilegal.

24. Agora, o Paraguai procura obter uma decisão do Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul sobre a legalidade de sua suspensão do Mercosul enquanto, no Brasil, o líder do PSDB anuncia que recorrerá à justiça brasileira sobre a legalidade da suspensão do Paraguai e do ingresso da Venezuela.

25. A política externa norte-americana na América do Sul sofreu as consequências totalmente inesperadas da pressa dos neogolpistas paraguaios em assumir o poder, com tamanha voracidade que não podiam aguardar até abril de 2013, quando serão realizadas as eleições, e agora articula todos os seus aliados para fazer reverter a decisão de ingresso da Venezuela.

26. Na realidade, a questão do Paraguai é a questão da Venezuela, da disputa por influência econômica e política na América do Sul e de seu futuro como região soberana e desenvolvida.

Veja também:

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37 comentários

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Dr. Rosinha: A batalha de Acosta Ñú e o Dia da Criança no Paraguai « Viomundo – O que você não vê na mídia

16 de agosto de 2012 às 12h49

[…] Samuel Pinheiro Guimarães: Os objetivos dos EUA na América do Sul […]

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Dr. Rosinha: Paraguai pode ser acionado na Justiça caso interrompa a venda de energia de Itaipu « Viomundo – O que você não vê na mídia

10 de agosto de 2012 às 00h55

[…] Samuel Pinheiro Guimarães: Os objetivos dos EUA na América do Sul […]

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Chávez sobrevive ao “otimismo mórbido” e põe Venezuela no Mercosul « Viomundo – O que você não vê na mídia

31 de julho de 2012 às 02h51

[…] Samuel Pinheiro Guimarães: Os objetivos dos EUA na América do Sul […]

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Pedro Luiz

14 de julho de 2012 às 19h48

Tenho orgulho de ser Paranaense, apesar da sua população ainda acreditar neste senador entreguista chamado Álvaro Dias. Espero que o Pinóquio da política Paranaense receba nas próximas eleiço~es não vote neste senador que está alinhado com o grande poder.

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silvio gouveia

14 de julho de 2012 às 19h41

Prezados,

Análise de uma mente geopolítica simplesmente brilhante…e temos outras assim no Brasil, na Argentina, no Uruguay, e em especial na Venezuela que iniciou a atual mudança de direção deste imenso mundo-continente Latino Americano.

Era um xeque-mate e de repente…do limão se fez deliciosa limonada. Maravilhosa Resposta. Pura Estratégia.

Força a todos nós,
Silvio.

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FrancoAtirador

14 de julho de 2012 às 18h47

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FHC ouviu o galo cantar; achou que era um tucano

Por Saul Leblon, no Blog das Frases – Carta Maior

Fernando Henrique Cardoso recebeu um prêmio da Biblioteca do Congresso dos EUA, cuja primeira edição agraciou a tradição dos intelectuais arrependidos da esquerda. O polonês Leszek Kolakowski inaugurou a fila do ‘Pluge’ em 2003 depois de concluir uma baldeação do marxismo ortodoxo à rejeição radical da obra de Marx, classificada por ele como a ‘maior ilusão do século XX”. No caso de FHC, o prêmio de U$ 1 milhão brindou os desdobramentos políticos de suas reflexões sobre a dependência. No entender dos curadores, elas teriam demonstrado como os países periféricos ‘podem fazer escolhas inteligentes e estratégicas’ (leia-se dentro dos marcos dos livres mercados) mesmo estando em desvantagens em relação às nações industrializadas”.

O tucano não decepcionou. Na entrevista após embolsar o galardão falou grosso. E acusou Lula de ser responsável pelas agruras atuais da indústria nativa (perda de competitividade e de peso no PIB), ao interromper as reformas liberalizantes. Isso mesmo, aquelas das quais seu governo foi um instrumento e cuja correspondência no plano internacional, como se verifica, legou-nos “um mundo de fastígio e virtudes sociais”. O diagnóstico do sociólogo, como se sabe, vem ancorado em “atilada visão macroeconômica”.

Graças a ela, o Brasil frequentou o guichê do FMI por três vezes em seus oito anos de mandato. Mais recentemente, em 29 de setembro de 2011, quando o governo Dilma reduziu a Selic pela primeira vez e começou a armar o país contra a segunda avalanche da crise vinda da Europa, FH advertiu no jornal Valor: “A decisão (de cortar os juros) se mostra precipitada diante das previsões de queda do crescimento e mais inflação”.

A fina sintonia com o lobby dos bancos, jornalistas e rentistas –que anunciavam o dilúvio após a queda da Selic, de estratosféricos 12,5% para 12%, contra zero nos EUA-, não se confirmou. As previsões do ‘mercado’ de uma inflação em alta (6,52% então), esfarelaram-se ante o peso descomunal do agravamento do quadro externo. Nesta 4ª feira, depois de um novo corte de 0,5 ponto na Selic, que atingiu um recorde de baixa de 8%, contra um pico histórico de 44,5% em março de 1999, no segundo mandato do sociólogo, ninguém mais se lembrava das doutas advertências feitas por ele em 2011.

O mundo literalmente despenca sob o peso descomunal de uma quase depressão, que avança pelo quinto ano sem perspectivas de solução nos marcos do capitalismo desregrado (leia o texto obrigatório de François Chesnais*). Os capitais em fuga para a segurança inundam os cofres do Banco Central Europeu e do Tesouro americano, mas também do alemão, que pagam uma taxa de juro inferior à inflação. Ou seja, os ricos preferem pagar para guardar o dinheiro em títulos públicos confiáveis do que investir na produção. O nome disso é colapso sistêmico.

Mais de 17,5 milhões de empregos foram dizimados na Europa; Espanha, Grécia, Portugal, Irlanda caíram sob intervenção da banca para salvar ela própria; Obama chapinha num lodaçal de liquidez que não consegue reerguer a maior economia da terra; a China já sente a retração do comércio mundial que irradia efeitos contracionistas também no Brasil e demais fronteiras da América Latina.

Dos escombros desse desastre de proporções ferroviárias irrompe falação do tucano em defesa das ‘reformas’. Sejamos francos, FH ouviu o galo cantar; achou que era um tucano áulico. A industrialização brasileira vive, de fato, uma compressão decorrente de desequilíbrios internos e externos. O fôlego industrial do país hoje é 5% inferior ao que existia no pré-crise de 2008. Quem acha que a perda é miúda deve ser informado que a corrosão ocorre justamente nos setores de ponta, aqueles que dão o comando aos demais segmentos da economia e da produção. A regressão decorre, em grande parte, da não retificação do substrato neoliberal trazido do ciclo tucano, a saber: privatizações que desguarneceram a capacidade do Estado investir na infraestrutura, indispensável à ampliação da competitividade sistêmica; liberdade de capitais; juros escorchantes; câmbio valorizado e miséria aniquiladora da demanda interna.

O governo Lula optou por atacar com maior contundência dois flancos desse modelo de inserção internacional dependente, construído pelo PSDB: o mercado de massa asfixiado pela fome de emprego, de comida, crédito e salário mínimo e o torniquete financeiro externo, feito de dívida alta e reservas baixas. Poderia ter ido além, afrontando o lobby rentista associado ao câmbio destrutivo? Tecnicamente, deveria. A resposta técnica descuida ‘apenas’ de um dado: a relação de forças permitiria atacar todas as frentes ao mesmo tempo?

Mal ou bem, as escolhas históricas de Lula deram ao seu segundo governo, e ao primeiro de Dilma, uma base de apoio social ampliada que hoje possibilita aprofundar o descolamento em relação à agenda neoliberal, evocada na nostálgica entrevista de FHC.

Nesse espaço dilatado pela política há uma discussão à espera de seus personagens; ela é sobremaneira urgente.

Até que ponto é possível blindar o país do vagalhão em curso apenas com doses de soro creditício e recuos graduais da Selic, como tem sido feito? Ou ainda: se o investimento privado não comparece para dar impulso sustentável a essa engrenagem, qual deve ser o espaço do Estado na resistência contracíclica à recessão?

Não se trata de menosprezar a importância dos mercados, sobretudo do mercado de capitais, mas as insuficiências da lógica privada ficaram evidentes na recente queda de braços entre o governo e a banca em torno dos spreads . A pendência só se inclinou a favor da redução do custo do dinheiro quando o governo decidiu politizar o tema e acionou uma poderosa alavanca indutora: os bancos estatais, que normatizaram o significado do interesse nacional nesse momemto. O mesmo ocorreu em 2008. Antes da crise, os bancos públicos eram responsáveis por 30% do crédito oferecido; hoje, por 40%. O crédito dos bancos públicos cresceu do equivalente a 15,5% do PIB para 22,5%. Sem eles, o lubrificante básico da atividade econômica, o crédito, minguaria como acontece na Europa agora.

Lição correlata vem da área do petróleo. O mundo estrebucha, mas a Petrobrás reafirmou investimentos de US$ 236, 5 bilhões até 2015 — US$ 142 bilhões em exploração e produção, o que significa uma fabulosa injeção de demanda por máquinas, serviços e equipamentos. Por que a Petrobrás é capaz de fazer, enquanto outras instancias do governo patinam? Levantamentos do Ipea mostram que dos R$ 13,661 bi destinados este ano à construção de rodovias, por exemplo, apenas R$ 2,543 bilhões (18,6%) foram gastos até maio.

Uma das respostas é que a existência da Petrobrás preservou a capacidade de planejamento do país no setor petrolífero; preservou e ampliou seus quadros de alto nível, expandiu o torque de sua engenharia, formou e massificou sua mão de obra; induziu e disseminou uma estratégica cadeia de fornecedores; criou e motivou a implantação de centros de pesquisa de ponta na área. Enfim, fez tudo o que foi suprimido ou interditado no interior do Estado brasileiro nos anos 90, e que um deslocado FHC reivindicou como ‘trunfo’ desperdiçado por Lula. O resultado desse ‘trunfo’ é a brutal dificuldade enfrentada agora para destravar investimentos imprescindíveis em infraestrutura, mesmo quando não existe restrição orçamentária. Os ditos ‘mercados’ não dão conta do recado; o Estado foi programado para não fazer.

Se quiser de fato ir além de soluços de consumo nos próximos anos, o Brasil talvez tenha que perder o medo de discutir um tema interditado pela ideologia do Estado mínimo nos anos 90: a criação de novas empresas públicas, estatais que possam nuclear setores estratégicos e fazer o mesmo que os bancos públicos e a Petrobrás fazem hoje em suas áreas de referência — colocar o mercado para trabalhar pelo país.

A título de ilustração, até os batalhões de engenharia do Exército, livres do desmonte do ciclo tucano, e à margem das licitações feitas para não funcionar, conseguem entregar obras antes do prazo, em situações em que a livre iniciativa fracassa ou se torna onerosa.

Roosevelt na Depressão dos anos 30, nos EUA, fez coisas que deixaram os capitalistas e a mídia de cabelos em pé. Foi acusado de comunista e odiado pelos endinheirados. Mas tinha o apoio dos sindicatos e o voto das ruas; salvou a economia do país. A lição daqueles dias vale para o governo Dilma, mas também convida os sindicatos e a CUT a irem além das reivindicações salariais. A ver.

(*) http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20557

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1031

Responder

Jose Mario HRP

14 de julho de 2012 às 08h04

Quando penso que essa ralé do Serra / Alck /Anibal / Clóvis Carvalho / Arnaldo Madeira / Bresser Pereira / Mendonças de Barros podem voltar ao poder e detonar tudo que esses 11 anos de gov. popular fez me dá calafrios!
Lembrando daquela reuniãozinha em Foz do Iguaçu, onde secretamente FHC se comprometia a dar atenção preferencial aos interesses politico, comerciais e militares dos EUA e daquela por…. do projeto onde ele entregava Alcântara aos cuidados de Tio Sma fico meio dooente e com asia!
Chega deses me…….POR FAVOR ACORDEM!

Responder

Paciente

14 de julho de 2012 às 07h44

Em uma década (esta década que os alquebrados EEUU não têm), teremos, afinal, o submarino nuclear, digo, movido a energia nuclear…

Responder

Paciente

14 de julho de 2012 às 07h42

Do imbróglio colorado resultaram duas verdades geopolíticas incontestáveis:

1) O Mercosul se tornou detentor das maiores reservas conhecidas de petróleo conhecidas (atuais – Venezuela – e futuras – Brasil).

2) O Paraguay passa a ser um país quase completamente descartável para qualquer propósito geopolítico, daqui e de alhures.

Washington hesitará ainda por muitos anos (talvez uma década inteira) em militarizar o Paraguay. O Paraguay em si não tem nada, não produz nada.

Rompido com os demais países da UNASUL, ou mesmo só os do Mercosul, teria de ser abastecido pelo ar. Seria uma reedição bisonha da “Ponte aérea para Berlin” – só que sem razão de ser…

Sem razão de ser porque a UNASUL e o Mercosul estão vivendo essa situação precisamente porque:

a) São intransigentemente democráticas;
b) Querem vender para o mundo todo (EEUU incluso)e;
c) São maiores que a Líbia (pense um pouco, que você entende…).

Se fosse xadrez, diríamos que Dilma e o Itamaraty “rocaram”. Vieram para um xeque-mate e, num lance, o ataque à defesa estabelecida se revelou custoso em pedras, em tempo e em energia.

A partida continua…

PS. Yasser Arafat adoeceu mesmo contaminado por elementos radioativos (como Lula, Lugo, Chaves…). Que epidemia, heim?

Responder

sergio

14 de julho de 2012 às 01h10

Prêmio de um milhão de dólares ou remuneração pelos serviços prestados?

Responder

    Abel

    15 de julho de 2012 às 18h14

    A gorjeta do moleque de recados dos ianques ;)

Fabio Passos

13 de julho de 2012 às 21h15

Todo cuidado é pouco.

Os ianques sempre conseguem apoio de entreguistas das “elites” locais para impor seus interesses e esmagar a luta da América Latina para superar o subdesenvolvimento.

Aqui no Brasil a ponta de lança dos interesse ianques é a sociedade do atraso: globo-psdb-veja-dem-estadão-pps-fsp.
Estes tipos vendem a mãe pros ianques por um punhado de dólares…

Responder

    Mário SF Alves

    13 de julho de 2012 às 22h35

    E mais recentemente, por um milhão de dólares, você quis dizer, não?

    Fabio Passos

    15 de julho de 2012 às 21h19

    boa. rsrs
    este recebeu o prêmio por excelentes serviços prestados.
    dos ianques recebe aplausos e dinheiro, mas se for a uma periferia de grande centro urbano brasileiro… recebe pedradas. merecidas!

Jotace

13 de julho de 2012 às 17h36

MAS CLARO NO CANTA un GALLO

Verdadeiro e antológico o artigo do Professor e Embaixador Samuel Guimarães. Ele nos leva ao melhor entendimento das razões que provocam os grandes eventos políticos na atual América Latina a partir dos interesses neoliberais estadunidenses. E que induzem ou catalisam as atividades piratas de outras nações como o Reino Unido e o Canadá, além da Espanha que age impunemente e de forma selvática em nosso país. Jotace

Responder

    Mário SF Alves

    13 de julho de 2012 às 22h33

    Na mosca, JC. Assino embaixao.

    Jotace

    13 de julho de 2012 às 22h58

    Caro Mário,

    É um prazer te encontrar por aqui, sempre firme em defesa do direito soberano do povo brasileiro. Grande abraço, Jotace

Samuel Pinheiro Guimarães: Os objetivos dos EUA na América do Sul

13 de julho de 2012 às 16h13

[…] Fonte: Viomundo […]

Responder

Pedro Paulo

13 de julho de 2012 às 16h05

O Premio de US$ 1.000.000,00 de FHC nos EUA.

Coma palavra o WIKILEAKS:

http://navalbrasil.com/wikileaks-eua-agiram-contra-programa-espacial-do-brasil/

Responder

Marcelo de Matos

13 de julho de 2012 às 14h41

Em meio à barafunda política da cassação de Demóstenes e o espocar dos fogos da vitória palmeirense, passou despercebido o prêmio John W. Kluge, no valor de 1 milhão de dólares, concedido pelo Congresso dos EUA ao nosso conterrâneo FHC. “Os organizadores do prêmio lembraram que, há 50 anos, Fernando Henrique já dizia que países em desenvolvimento deveriam se abrir ao capital externo e se integrar ao modelo econômico mundial. A teoria nem tinha nome na época. Hoje, é conhecida como globalização”. Portanto, além de pai do real e avô dos genéricos, o “Farol de Alexandria” é, também, pai da globalização. FHC entendia que o fato das multinacionais, hoje chamadas de transnacionais, bem como das corporações financeiras internacionais fixarem o valor dos juros e o custo da tecnologia em escala planetária acabaria favorecendo aos brasileiros em geral. Errou por pouco: só ele mesmo foi beneficiado.

Responder

Julio Silveira

13 de julho de 2012 às 14h31

Ainda bem, para os brasileiros, que chegou o momento de termos gente no poder capacitados a desmistificar esse livre arbitrio aparente, demonstrado por grupos politicos e empresariais brasileiros, fortemente vinculados aos interesses americanos.

Responder

Luiz Carlos

13 de julho de 2012 às 14h13

Excelente análise. Vou repassar aos meus amigos.
Mas quer dizer que o tiro saiu pela culatra no caso da admissão da Venezuela no Mercosul. É bem engraçado os americanos terem dado esta mancada. Ou estão querendo um motivo para radicalização.
Mas eles não devem estar muito procupados pois sabem que sempre podem contar traídores/ambiciosos liberais brasileiros.

Responder

João-PR

13 de julho de 2012 às 13h43

Em 25/06 já havia comentado aqui no Viomundo:

“seg, 25/06/2012 – 0:24João-PR 25 de junho de 2012 às 0:24
O golpe paraguaio tem as digitais da CIA. E não me venham dizer que estou adepto da teoria da conspiração, pois os fatos demonstram claramente o que afirmo.
Atacaram o Paraguai, o elo fraco da democracia popular da América do Sul; atacaram o Paraguai pois lá podem estabelecer uma base militar (cujo aeroporto já existe desde os tempos do Stroessner) dos EUA lá; atacaram o Paraguai para atacar a todos nós.
Espero que a tríplice aliança do bem (Argentina, Brasil e Uruguai) e os demais países do mercosul e Unasul se imponham, e não aceitem um golpe como este.
Ah, só para lembrar: em Honduras, está provado, o que houve foi golpe. Porém…alguém por aí ouve falar de Honduras??”

Esse comentário está disponível em https://www.viomundo.com.br/politica/dr-rosinha-paraguai-golpe-parlamentar-orquestrado.html

Diversos articulistas/comentaristas daqui do viomundo tem alertado sobre isso. ACORDA BRASIL!!!!

Responder

abolicionista

13 de julho de 2012 às 13h40

Um país soberano não deixaria isso acontecer. Precisamos garantir nossa soberania, onde estão nossas forças armadas? Vão se acovardar?

Responder

Ana Cruzzeli

13 de julho de 2012 às 12h47

De Bianca Dias à Bambi, todo mundo no PSDB está soltando a frango pelas do do Sr. Franco. Nunca vi tanta promiscuidade em toda a minha vida.
Isso deveria ser censurado para menores de 70 anos, mas depois do É o Tchum é o tcham é o tcham tcham tcham , aquilo ali virou a casa da luz vermelha há tempos .

Eu só queria saber se o FHC vai dividir a propina, digo premio com o Serra, afinal ele não privatizou o Brasil sozinho não é mesmo?Deveria existir um codigo de conduta para esses momentos premiantes.

Responder

    Mariano S. Silva

    13 de julho de 2012 às 20h15

    Exatamente Ana foi um propioprêmio de reconhecimento pelos serviços subalternos de submissão aos interêsses dos EUA.

    Masan

    14 de julho de 2012 às 08h49

    Sobre a divisão do “prêmio”, tem lógica seu raciocínio. Afinal, até a máfia, camorra e yakuza tem código de “honra”.

dino

13 de julho de 2012 às 12h40

tchau paraguai, ola Venezuela.

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RicardãoCarioca

13 de julho de 2012 às 12h27

Esse movimento militar americano ao redor do globo (alianca do pacífico, reativacão de quarta frota do Atlântico Sul, cerco de mísses para Rússia e China, escudos anti-mísseis na Europa, querer atacar Irã, guerras não declaradas na África, no Oriente Médio, etc.), em minha opinião, é um preparatório para o pós dia do juízo final financista global.

Quando não for mais possível sugar o dinheiro do mundo com essas alavancagens absurdas, quando chegar a hora dos EUA dizerem ‘quebrei e não vou pagar’, todos os países estarão com uma arma americana apontada para si, para evitar qualquer reacão indesejada.

E, em seguida, será a fase de sugar os recursos naturais, onde eles estiverem. Atencão Brasil! Vão tomar a Amazônia sim senhor (pré-sal incluído) com as desculpas furadas que já conhecemos, vide Iraque e Irã.

E a mídia local irá aprovar tudo e defendê-los com furor, contando com os políticos entreguistas da atual oposicão, afinal, vocês acham que o PiG é tão ecológica atualmente por quê? Por que a mídia apoia essa penca de ONG’s ecológicas e estrangeiras? Para que, de um lado elas possam fazer seus trabalhos de espionagem e pirataria e, de outro, tentar paralisar a política desenvolvimentista o máximo que puderem. Assim, o benefício seria triplo: O país não se desenvolveria economicamente, as áreas cobicadas não teriam mais populacão do que já possuem e as áreas com as riquezas naturais ficariam o mais intactas possíveis.

III Guerra Mundial a caminho.

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    Mariano S. Silva

    13 de julho de 2012 às 20h18

    Você está correto, mas da última vez que uma nação desafiou o mundo (com a ajuda de outras duas) ela se f..eu!

    Mário SF Alves

    13 de julho de 2012 às 22h44

    Detalhe: só se .u.eu porque a URSS tava lá com milhões de soviéticos no front. Ou, não? Mas, e agora, sem a URSS, contar com quem?

regina gonçalves

13 de julho de 2012 às 12h20

Muito bom artigo.Bem esclarecedor.Deveria ser amplamente divulgado na rede.

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Wladimir

13 de julho de 2012 às 12h06

Perfeita análise do Samuel Pinheiro Guimarães! Evidencia claramente a posição de Washington na AL, sempre perpetrando e induzindo golpes segundo seu interesse! Os golpistas (Congresso Paraguaio e Tio Sam) deram o golpe em Lugo, no Paraguai, e tomaram um contra-golpe do Brasil, Argentina e Uruguai, com a adminissão da Venezuela no MERCOSUL! Uma jogada de mestre!

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Gerson Carneiro

13 de julho de 2012 às 12h03

Inclusa na estratégia dos Estados Unidos para a América do Sul está a gorjeta de um milhão de dólares dada a FHC.

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Jorge Vieira

13 de julho de 2012 às 11h59

O Samuel Pinheiro Guimarães, apesar de que o Patriota, neste acaso, estar agindo corretamente, é que deveria ser o Ministro das Relações Exteriores.

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    Jotace

    13 de julho de 2012 às 17h13

    Caro Jorge,

    Concordo contigo num ponto, o de que caberia o Ministério das Relações Exteriores ao Embaixador Samuel Pinheiro, pelo seu patriotismo, e mérito incomum que envolve ainda experiência e profundo conhecimento no campo da geopolítica. O presente artigo é um exemplo disso. ‘Mas claro no canta un gallo’…como dizem na Venezuela! O povo brasileiro muito lhe deve especialmente por sua valiosa participação no redirecionamento da política externa brasileira e rejeição da Alca. Ele colaborou de perto para o êxito da gestão Celso Amorim quando passou o Brasil, na Presidência do Lula, a ocupar o merecido destaque no cenário internacional. Torna-se incompreensível que tenha faltado ao Embaixador Samuel Pinheiro o necessário apoio por parte do governo Dilma, e justamente agora, para o perfeito exercício de suas funções junto ao Mercosul. Abs.,Jotace

Jorge Santos

13 de julho de 2012 às 11h55

Excelente análise.
Que aula de história contemporânea!!!!
Jorge Santos
Recife-PE

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A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.