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Jornal Nacional, Ato 5: O dia em que o JN acobertou as fake news contra Haddad
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Jornal Nacional, Ato 5: O dia em que o JN acobertou as fake news contra Haddad


24/10/2018 - 10h29

Da Redação

A partir deste artigo, as jornalistas e pesquisadoras Ângela Carrato e Eliara Santana dão continuidade aos quatro atos encenados pelo Jornal Nacional ao longo deste ano eleitoral.

Desde janeiro de 2018, elas acompanham e analisam as edições do JN a partir de várias teorias que abordam discurso e narrativa, agendamento de notícias e manipulações.

No Ato 1,  elas constatam que o JN foi o veículo que orquestrou a construção do ódio ao PT pela mídia brasileira e esteve à frente da tentativa de apagar da memória nacional a figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No Ato 2, mostram quando a Globo estava em busca do candidato de ”centro”.

 No Ato 3 , atestam o fracasso da tentativa Huck e a volta de Lula só para ser denunciado.

No Ato 4, elas demonstram como foi a ”humanização” de Bolsonaro, depois do silenciamento de Lula.

Nesta nova fase, Ângela Carrato e Eliara Santana se debruçam e avançam no desvendamento das estratégias narrativas do Jornal Nacional, que podem desaguar na vitória de um projeto nitidamente autoritário para o Brasil com graves consequências para o próprio JN e as Organizações Globo.

ATO 5

ATUAÇÃO DO JN NO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES

por Ângela Carrato e Eliara Santana*, especial para o Viomundo

CONTEXTO:

A decisão das Organizações Globo (em consonância com a Justiça brasileira) de dar repercussão apenas à corrupção do PT, construindo uma narrativa de que esse tema tem origem nas administrações petistas, “esquecendo-se” de que a dita corrupção estava disseminada por quase todos os partidos políticos brasileiros, está na raiz de todo esse processo.

Basta lembrar o mensalão do PSDB, de 1998, no qual, até o momento, apenas um dos seus 13 principais integrantes, o ex-governador de Minas, Eduardo Azeredo, foi julgado, condenado e está preso.

Origina-se dessa construção — ao longo de, pelo menos, cinco anos, de modo sistemático e reiterado — o antipetismo.

Esse movimento que pode e não deve ser compreendido apenas sob a luz dos erros cometidos pelo PT na presidência.

Mas, fundamentalmente, deve ser compreendido como o resultado de um modelo de propaganda explicado por elementos teóricos trazidos por Hannah Arendt e Noam Chomsky, que constroem sentimento.

Vamos apontar alguns desses elementos presentes de modo sistemático na cobertura da Globo, especificamente do JN:

1. Busca do consenso do público (opinião publicizada) pela projeção de um inimigo comum: ao longo dos anos, Lula e o PT, sempre associados à corrupção sem precedentes e à crise econômica (discursivamente construída).

2. A-historicidade: os fatos e acontecimentos são abordados sem um link histórico, sem contextualização.

Estão soltos no momento, e não se ligam a nada. Os problemas do país se resumem à corrupção, num viés puramente criminal, sem que se investiguem ou venham a público outras nuances, outros atores.

Além disso, os problemas estruturais graves — como desigualdade — nunca são pauta.

3. Voz de autoridade para referendar esse grande tema: não é o jornal quem diz, mas a “Justiça”, entidade imparcial que está acima de tudo e de todos.

4. O campo da informação (que goza de certa credibilidade porque é um sistema de referência para a sociedade) traz os acontecimentos para o campo do espetáculo: basta conferir como se portam as edições do JN que trazem denúncias contra Dilma, Lula, o PT (a edição sobre os vazamentos é bem expressiva disso).

5. O enunciado narrativo que se constrói privilegia o mítico, o espetáculo, a encenação, deixando de lado o racional e o histórico.

6. Demonização da política

Emerge, assim, a ficção de “uma grande quadrilha que assalta o pobre país verde-amarelo e seus cidadãos de bem”, e o combustível que passa a alimentar o público, levando-o provavelmente a se esquecer dos problemas de fundo, é o antipetismo.

CENA 1: DO CAOS AO CENTRO – UMA APOSTA

Dessa forma, surfando na onda do antipetismo que criou, o JN adotou uma série de narrativas complementares.

A principal delas foi fomentar a radicalização política na sociedade brasileira, com o objetivo de neutralizar o maior partido de massas do país e, ao final, promover o surgimento de um “candidato de centro”.

Ao contrário das estratégias narrativas adotadas pelo JN até meados do ano, esta se mostrou ineficaz.

As candidaturas de centro — Alckmin, Dias e Meireles –, patinando nas pesquisas, foram varridas do mapa eleitoral após a abertura das urnas do primeiro turno.

Até o estreante e folclórico cabo Daciolo, do minúsculo Partido Patriotas, terminou na frente deles.

Nas duas semanas que antecederam o primeiro turno, foi possível constatar igualmente que o JN — que sempre restringiu, quando não ignorou, qualquer notícia sobre o PT e seu candidato, Fernando Haddad — passou a flertar abertamente com o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, do PSL.

Sob o manto da cobertura “sóbria” e “equilibrada”, o JN parecia estar dando tempo ao tempo para que a vitória de Bolsonaro fosse proclamada, fazendo coro com a maioria dos institutos de pesquisa (em especial o Ibope, contratado pela própria TV Globo).

O fato de a eleição para presidente não ter sido resolvida no primeiro turno pegou de surpresa o candidato Bolsonaro e também o JN.

No entanto, apesar do flerte quase explícito com o candidato do PSL, o jornal de maior audiência do Grupo Globo sentiu o peso do apoio explícito (quase campanha) da Record a Bolsonaro. Isso levou a movimentações diferentes e a novas estruturas narrativas.

CENA 2: PERPLEXIDADE E ERROS

Na primeira edição depois de apuradas as urnas, na segunda-feira, 08/10, William Bonner e Renata Vasconcelos constatavam, perplexos, ao vivo e em cores, que os institutos de pesquisa “erraram muito” em seus prognósticos.

Além da ida do candidato do PT, Fernando Haddad, para o segundo turno, admitiam que os institutos não captaram movimentos de última hora que derrotaram francos favoritos para o Senado — Dilma Rousseff (Minas Gerais), Eduardo Suplicy (São Paulo) e Roberto Requião (Paraná).

Além da avalanche de votos que receberam nomes desconhecidos para os governos de Minas e Rio de Janeiro, respectivamente, Romeu Zema, do Novo, e José Witzel, do PSL, e de um segundo turno, em São Paulo, entre João Dória, do PSDB, e Márcio França, do PSB.

Ao perceber o perigo Record, o Jornal Nacional parece então entrar num novo modus operandi .

Na segunda-feira, dia 08/10, a edição estava relativamente equilibrada, sem abraçar a candidatura Bolsonaro ou tentar implodir a candidatura Haddad.

Projetar um ethos de imparcialidade e isenção sempre foi uma preocupação do JN em alguns momentos de cenários imponderáveis. Esse pareceu ser um deles, com a concorrente à porta.

Realizou entrevistas protocolares com os dois candidatos, destacou sem muita euforia, os novos nomes e o fim de alguns caciques da política, mas não deu muito destaque a nenhum aspecto em particular.

De forma aparentemente despretensiosa, abordou uma matéria destacando o investimento das empresas jornalísticas em checagem de conteúdo suspeito.

Em linhas gerais, temos como padrão da cobertura nesses dias (08 a 15 de outubro):

– Temas bastante gerais

– Balanço apolítico das eleições — quem ganhou, quem perdeu, mudança = renovação

– Nenhuma polêmica abordada, apesar da grande movimentação no mundo digital

– Abordagem de economia se restringe a bolsa e dólar, tecnicamente (sobe, desce)

– Agenda dos candidatos

– Pouco alarde na divulgação da pesquisa (quando havia)

– Retomada de matérias sobre ação da PF (o repertório corrupção voltando, mas sem a espetacularização da Era PT)

Essa postura de assepsia na cobertura titubeante das eleições manteve-se até o meio da segunda semana do segundo turno.

Nesse momento, nos dias 15 e 16, o JN faz pequenos e sutis movimentos em direção a uma postura de crítica velada à candidatura Bolsonaro.

Isso se torna mais perceptível nos novos temas que passam a compor a pauta — agressões a mulheres e tortura por policiais.

Dois temas que pesam para o candidato Bolsonaro. As matérias são grandes e bem editadas. Em meio a isso, destaque para ações da PF, o que prossegue no dia 17.

Mas eis que, subitamente, no dia 18, esse leve movimento se altera mais uma vez.

CENA 3: AS FAKE NEWS QUE O JN FINGIU NÃO VER

Na melhor construção do silenciamento como o caminhar entre o dizer e o não dizer, como ação deliberada de pôr em silêncio, o JN enfim cai nos braços de Jair Bolsonaro.

E isso fica claro na edição do dia 18 quando o JN silencia a denúncia feita pelo jornal Folha de São Paulo de que 156 empresários pró-Bolsonaro pagaram a divulgação de fake news via WhatsApp contra Fernando Haddad.

O silenciamento como política editorial é uma prerrogativa do JN — e aqui deve ser compreendido não apenas como uma não menção.

Trata-se de “colocar em silêncio” determinado fato, acontecimento, pois ele assim deixa de significar ou de existir para o público, como quem afirma: “para nós, esse assunto não tem interesse, assim sendo, não interessa também ao público”.

O JN não traz nada sobre a denúncia apresentada pelo jornal Folha de São Paulo sobre o escândalo das fake news.

O assunto aparece apenas pelo discurso reportado de Haddad, denotando a distância do JN daquele assunto.

A partir daí, edições cada vez mais generalistas, com pouco espaço para o desenrolar da denúncia sobre o uso de fake news pela campanha de Bolsonaro.

Um detalhe importante: o tema/assunto é sempre trazido pela voz do outro (as imagens recortadas da Folha de São Paulo), não é o JN quem diz.

Portanto, não é reportagem de fato sobre o assunto, apenas o recorte da matéria da Folha.

Com esse movimento, o JN coloca em silêncio o assunto, com um forte jogo simbólico.

É importante destacar que as Organizações Globo e a Folha de S. Paulo são parceiras e até então adotavam “linhas editoriais” semelhantes em se tratando da pauta “ódio ao PT”.

Por isso, ao longo de todo o dia 17, o temor e o diz-que-me-diz tomaram conta da redação do JN.

A manipulação de informação de tamanha relevância por parte do principal telejornal brasileiro foi motivo de perplexidade de pesos-pesados da mídia internacional.

BBC, El País, Le Monde, Público, The New York Times passaram a fazer matérias sobre os crimes das fake news (disseminação de mentiras, caixa 2, abuso do poder econômico) a cobertura a que o JN se furtou.

Em editorial em 18/10, a Folha de S. Paulo não só bancou as denúncias de sua repórter, Patrícia Campos Melo, como anunciou que dispunha de material para comprová-las.

O WhatsApp cancelou 100 mil contas no Brasil, e a Polícia Federal abriu investigação sobre o assunto.

O caldo engrossou mais ainda quando as redes sociais passaram a divulgar que Patrícia estava sendo vítima de todo tipo de xingamentos e ameaças por apoiadores de Bolsonaro.

Mas não foram por causa dessas questões que o JN dedicou, no dia seguinte, 19/10, oito minutos de cobertura para o escândalo das fake news, fazendo jornalismo como deve ser feito: dando voz a todos os lados envolvidos, apurando e contextualizando as informações.

O pano de fundo que justificou a mudança de rota do JN teve outra natureza.

Profissionais das Organizações Globo passaram a ser hostilizados por setores da campanha do candidato do PSL e pelo próprio Bolsonaro.

Mais ainda: a família Marinho percebeu que a intenção do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, ao tornar público o apoio a Bolsonaro era “ferrar a Globo” em duas frentes distintas: nas comunicações e no apoio que a emissora sempre deu à Igreja Católica. Macedo e os Marinho são velhos inimigos.

A partir do dia 20, novos movimentos narrativos, e o JN passa a trazer edições mais generalistas, com mais espaço para a moça do tempo, vozes de autoridade (judiciário, TSE) para garantir que tudo caminha em ordem e calma.

E mesmo diante da anunciada decisão de Bolsonaro de não participar de debates (primeiro por “recomendação médica”, depois por “estratégia”), não foi cogitada a possibilidade de a Globo colocar uma cadeira vazia para marcar a ausência do candidato do PSL, uma vez que Haddad aceitou participar de debates.

A voz oficial é aceita e retransmitida sem questionamentos ou outros posicionamentos.

Por ora, pelo JN, estamos acompanhando eleições na Dinamarca.

*Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

*Eliara Santana, também jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.

Leia também:

Jornal Nacional, Ato 1: A cena do avião e o sumiço de Lula

Jornal Nacional, Ato 2: Quando a Globo estava em busca do candidato “de centro”

Jornal Nacional, Ato 3: Huck fracassa e Lula só volta para ser denunciado

Jornal Nacional, Ato 4: Como foi a ”humanização” de Bolsonaro, depois do silenciamento de Lula





2 comentários

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Wagner Muirnelli

24 de outubro de 2018 às 19h52

Excelente matéria pena que poucas pessoas tiveram acesso parabéns as jornalistas infelizmente a maioria da população so sabe ver e acredita nas mentiras da Globo e Globo News eles perderam a dignidade não respeitam nem seus assinantes.

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Deblu

24 de outubro de 2018 às 12h28

Muito bom essa série de reportagens. Parabéns!!!

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