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Jornal Nacional, Ato 4: Como foi a “humanização” de Bolsonaro, depois do silenciamento de Lula
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Jornal Nacional, Ato 4: Como foi a “humanização” de Bolsonaro, depois do silenciamento de Lula


08/10/2018 - 11h15

Está em curso no JN uma estratégia de humanização de Bolsonaro. São mostradas imagens quase inocentes do candidato, em recuperação, mas combalido; enfraquecido, mas resignado. A fala do candidato é moralizada pelos posts no Twitter, reproduzidos com destaque pelo JN. Ocultando e silenciando as mobilizações que vinham sendo preparadas contra ele, convocadas por mulheres. Reproduções de vídeos

ATO 4 ELEIÇÕES 2

REPOSICIONAMENTO E NOVAS APOSTAS

por Ângela Carrato e Eliara Santana*, especial para o Viomundo

CONTEXTO:

O JN retardou o quanto pode o início da cobertura da campanha eleitoral.

Preencheu o espaço que deveria ser destinado à informação e ao debate político com uma exaustiva cobertura dos preparativos e da Copa do Mundo de Futebol na Rússia.

Mas, enquanto à população era servido o cardápio futebolístico, a “elite do atraso” já estava em ação em outro campo, na busca por candidaturas que melhor defendessem seus interesses e trabalhando para inviabilizar nomes de adversários.

Desde sempre, essa elite contou com a poderosa aliança da mídia corporativa que, no Brasil, funciona sem qualquer regulação.

Vale dizer: aqui não há espaço para o contraditório e muito menos direito de resposta, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos e na Europa.

Não foi por acaso que o mundialmente conhecido linguista estadunidense, Noam Chomsky, em recente palestra no Brasil, afirmou que se a mídia dos Estados Unidos e os jornalistas de lá apoiassem um golpe de estado em seu país, estariam todos, no mínimo, na cadeia.

A presença de Chomsky no Brasil foi ignorada pelo JN.

Grande parte do ódio ao PT se deve exatamente à atuação da mídia brasileira, em especial à TV Globo e do JN.

Qual o motivo?

Desde 1989, o programa do PT inclui a regulação democrática da mídia entre suas propostas de governo. Item que integra a plataforma de Fernando Haddad, o candidato de Lula e agora, depois do golpe travestido em impeachment em 2016, a familia Marinho sabe que é para valer.

A CONSTRUÇÃO DAS CENAS

Cena 1 – Na rodada de entrevistas com os presidenciáveis no JN, ficou visível a diferença de tratamento dispensado por Bonner e Renata a Haddad e aos demais candidatos.

Haddad foi interrompido por eles, de forma grosseira e agressiva, 62 vezes. Chamou atenção igualmente a prepotência dos apresentadores, que mais pareciam candidatos e não entrevistadores.

E se Bolsonaro já havia dado uma estocada na TV Globo, ao afirmar que o salário recebido por Renata era, como o dele, também pago pelo contribuinte, “porque a Globo recebe verba pública”, Haddad foi além, lembrando o caráter de concessão pública da TV Globo.

Mais ainda, enquanto os entrevistadores insistiam em dizer que o PT estava cheio de políticos investigados, Haddad foi certeiro: “Investigada a TV Globo também é, por sonegação de impostos”.

A fala de Bolsonaro rendeu, no dia seguinte, editorial no JN. A de Haddad, não. Possivelmente, a direção da emissora preferiu não mexer num assunto delicadíssimo para ela.

Cena 2 – Diante do rápido crescimento da candidatura Haddad, indício de que a transferência de votos de Lula estava funcionando, o JN e as demais empresas de mídia da família Marinho aproveitaram o atentado contra Bolsonaro, em 6 de setembro, para uma guinada e passaram a incensar a sua candidatura.

A título de atualizar os boletins médicos do candidato, a TV Globo e o JN passaram a falar insistentemente nele, numa superexposição, se levados em conta seus minguados nove segundos a cada bloco de propaganda eleitoral gratuita diária.

A superexposição não rendeu o resultado esperado. Nas pesquisas de intenção de voto após o atentado, constatou-se que não houve impacto junto ao eleitorado.

Cena 3 – O crescimento da candidatura de Haddad, que Bonner chamou de “oscilação” – e teve que se corrigir no ar -, colocou o indicado por Lula no segundo turno e está levando o JN e demais veículos das organizações Globo a adotarem novas e diversificadas estratégias discursivas.

Por um lado, o JN continua num apoio velado à candidatura de Bolsonaro, ao enfatizar apenas sua recuperação.

Há uma estratégia de humanização em curso – são mostradas imagens quase inocentes do candidato, em recuperação, mas combalido; enfraquecido, mas resignado.

A fala do candidato é moralizada pelos posts no Twitter, reproduzidos com destaque pelo jornal. ocultando e silenciando as mobilizações que estavam sendo preparadas contra ele, convocadas por mulheres, para 29 de setembro.

O JN continuou, por outro lado, silenciando a campanha de Haddad, não divulgando imagens das multidões que o candidato arrastou em suas passagens por capitais e cidades do Nordeste, Rio de Janeiro e Florianópolis.

O mesmo pode ser dito das dezenas de atos e manifestações em prol da liberdade de Lula, os “lulaços”, que se repetem em todo o país.

Cena 4 – De olho nos eleitores à esquerda, outra estratégia que o JN passou a adotar, auxiliado pelos institutos de pesquisa (Ibope e Datafolha) é a de apresentar uma “alternativa” bem ao centro, “não polarizada”, no dizer do veículo, essa seria o candidato do PDT, Ciro Gomes, capaz de vencer Bolsonaro no segundo turno (realidade sustentada pelas pesquisas num primeiro momento) .

Apesar de as pesquisas mais recentes mostrarem estagnação na candidatura do pedetista, ele tem tido espaço no JN para atacar Haddad e responsabilizá-lo pelo surgimento de Bolsonaro.

Cena 5 – Com a candidatura Haddad crescendo e a de Bolsonaro estacionada e recordista em rejeições (quase 50% não votam nele de jeito nenhum), o JN voltou a ver o candidato do PSDB, Geraldo Alckmim, como alternativa.

A ideia de uma espécie de terceira via, capaz de “livrar o Brasil dos radicalismos do PT e de Bolsonaro”, segue firme.

Cena 6 – Em face das críticas e da repercussão negativa das falas do vice de Bolsonaro, há uma certa guinada do JN no apoio silencioso ao candidato.

Isso se dá mais especificamente nesta última semana, antes do ato convocado pelas mulheres, quando o JN reproduz quase a íntegra da denúncia da revista Veja sobre Bolsonaro.

O dilema talvez se explicite porque, apesar da força da denúncia dramatizada pelo JN (a exemplo de outras ações em outras eleições), há também espaço para trazer à cena a figura de um Bolsonaro humanizado, preocupado, fragilizado (mas ainda combativo), que se mostra preocupado com o país.

E, apesar da denúncia feita, o JN fez uma cobertura protocolar das manifestações do dia 29 contra Bolsonaro.

Quando se faz uma comparação com a cobertura das manifestações “Fora, Dilma”, a discrepância é gritante. Não houve chamada de abertura, nem menção enfática a números.

Essas diferentes cenas enunciativas revelam estratégias discursivas colocadas em prática pelo JN no processo de construção de sentidos para direcionar as interpretações dos espectadores.

Revelam também que há uma intencionalidade bem marcada e um projeto de disputa de poder nas elaborações do que se diz (a notícia) e como se diz (o enquadramento, por exemplo).

Fica claro, também, que há uma postura absolutamente contrária à candidatura do PT. No entanto, parte dessas estratégias acabou sendo atropelada pelas dimensões da mobilização #EleNão, no Brasil e também no exterior.

Ao contrário das manifestações contra a então presidente Dilma Rousseff, para as quais a TV Globo abriu, de 2013 a 2016, todo o espaço em sua programação, interrompendo inclusive programas esportivos, o JN tentou dar “tratamento igual” aos atos contra e a favor de Bolsonaro.

Só que os contra Bolsonaro levaram milhares de pessoas às ruas e praças de todo o país e os favoráveis ao candidato do PSL foram um fracasso.

Ao tratar com “igualdade” situações tão desiguais, o JN deixou à mostra o seu partidarismo.

Mais grave ainda: o Fantástico, no dia seguinte, dedicou menos de 30 segundos às gigantescas manifestações do #EleNão, consideradas tão ou mais importantes que as das Diretas-já em 1984.

O #EleNão contou com a adesão de milhares de mulheres, de jovens, negros e gays, além de artistas e intelectuais nacionais e de pesos pesados internacionais como Madonna.

Se até os dias atuais a Globo é criticada por ter escondido dos telespectadores os comícios em prol das eleições diretas, as críticas em relação ao silenciamento da emissora ao #EleNão já são arrebatadoras.

Bolsonaro não é, contudo, o candidato dos sonhos da família Marinho. As idas e vindas do JN deixam isso patente. Mas, se o segundo turno for mesmo entre Haddad e ele, não lhes restará alternativa.

Indícios para tanto são muitos. O JN fingiu que não viu que Bolsonaro disse com todas as letras que se perder, não aceitará o resultado das eleições.

PADRÕES NA NARRATIVA

1. Um novo tema, repertório, toma conta das edições: a violência.

Em conjunto com a corrupção, vai construir o enquadramento padrão do noticiário, com um viés bem definido – são os dois únicos problemas do Brasil, num contexto a-histórico, e sem relação com outras questões (miséria, por exemplo, ou desigualdade).

2. Ideia da “polarização”, de que há dois “extremos” na eleição se constrói. Não há nenhuma avaliação sobre o que de fato representam os campos, os polos – como se Jair Bolsonaro e Fernando Haddad estivessem, os dois, num mesmo campo democrático. Essa ideia dá suporte ao terceiro padrão.

3. É preciso buscar o centro – o que quer que ele signifique. A perspectiva é a-política, não há profundidade nas discussões, nem o levantamento de questões pertinentes.

4. Vem à tona, novamente, a projeção de um inimigo comum, bem no modelo chomskiano. Agora, esse inimigo é de novo o PT (anteriormente, era Lula, quando apostavam na morte do partido. Com Lula campeão de votos, o inimigo precisa ser outro – e aí abundam as matérias sobre corrupção).

Num processo eleitoral claramente atípico, com uma das candidaturas flertando abertamente com um posicionamento não democrático, arriscamos dizer que o JN age partidariamente, com boas estratégias que vão camuflar o dito – e o não dito.

Se houver segundo turno, a Globo e o JN, a julgar pelo que foi verificado até agora em nossa pesquisa, não medirá esforços para transformá-lo num vale tudo a serviço de seus interesses.

E nem mesmo um “terceiro turno”, como o que Aécio provocou em 2014, pode ser descartado.

A mídia brasileira, em algum momento da história, terá de responder por ter dado suporte a um candidato claramente antidemocrático, fingindo se tratar de um candidato qualquer.

Emoções fortes estão por vir.

*Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

*Eliara Santana, também jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.

Leia também:

Jornal Nacional, Ato 1: A cena do avião e o sumiço de Lula

Jornal Nacional, Ato 2: Quando a Globo estava em busca do candidato “de centro”

Jornal Nacional, Ato 3: Huck fracassa e Lula só volta para ser denunciado



3 comentários

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JOSE CARLOS GOMES DOS SANTOS

08 de outubro de 2018 às 16h12

Excelente análise. Nas há um fato que ainda merece reflexão. A Record e Bolsonaro afrontaram a lei e, pior, a Globo ao divulgar entrevista no mesmo horário do debate. O que pode ocorrer? Uma diminuição ao apoio a Bolsonaro? Uma ruptura e desconstrução do mito? A adesão branda a Haddad? As três ao mesmo tempo? Não. A mais provável será a destruição de Haddad para ser usada como moeda de troca e chantagem a Bolsonaro quando começar a transposição dos rios de dinheiro da Globo para a Record. Logo, Bolsonaro não vai governar.

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Bel

08 de outubro de 2018 às 11h54

Também percebo um certo ¨acordo¨ no ar. O candidato da extrema-direita vai na Record e recebe apoio do bispo. De duas uma, ou a Record será realmente a emissora oficial num possível governo Bolsonaro, ou então estão usando a TV do bispo para alavancar votos e depois ele se atira nos braços da Globo e perdoa as dívidas e os pecados.

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Elena

08 de outubro de 2018 às 11h19

Bom, temos que concordar, em termos de melodrama a Globo é expert. Vai humanizar o “Satanás”. A dúvida que fica: vai colar?

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