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Wilson Correia: USP, repressão ou educação?


08/11/2011 - 22h56

por Wilson Correia

Pobre sociedade que militariza suas universidade e criminaliza sua comunidade acadêmica, pois isso é confessar o fracasso dessa instituição social cuja tarefa primeira é a de propiciar os meios necessários à auto-formação humana, para o trabalho e para a cidadania pelo homem e pela mulher.

Por isso, vale lembrar que o Art. 207 da Constituição Federal de 1988 estabelece a autonomia universitária nos seguintes termos: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.

A autonomia é o anteparo jurídico-institucional (e, consequentemente, didático, científico, administrativo, financeiro e patrimonial) voltado, exclusivamente, para o resguardo da liberdade de cátedra: de ensinar, pesquisar e fazer ação extensionista da universidade, pertencente ao povo que a mantém.

Como saber arrasta consigo certa substância do poder, entendo que a autonomia universitária visa a proteger a universidade da mistura entre o poder-saber e poder-partidário, esse dos diversos grupos políticos que se aboletam nas esferas públicas com o intuito de usarem a educação como plataforma programática político-partidária.

A história –sábia mestra– apresenta-nos carradas de fatos em meio aos quais a liberdade de pensamento foi posta no lixo por conta de caprichos idiossincráticos profundamente questionáveis. Aliás, foram esses acontecimentos que motivaram a construção da autonomia universitária (Sócrates, Giordano Bruno, Galileu Galilei, entre outros, aí lembrados).

Na esteira desse entendimento, fez-se tradição o campus universitário ser também ele um domínio que usa leis próprias, na independência que visa a proteger a produção científica e filosófica de possíveis influências externas impossibilitadoras da liberdade acadêmico-universitária.

Vivo a universidade desde 1989. Sempre testemunhei o entendimento de que polícia não deve funcionar no interior de um campus universitário. No máximo, que cada universidade tenha sua Guarda Universitária própria, voltada para a atividade-fim implicada nas práticas educativas, e não para ações mobilizadoras de aparatos repressivos, quaisquer que sejam eles.

O papel da instituição social chamada universidade é de usar práticas pedagógicas, mas se abster de lançar mão da violência estatal, preterida porque deriva do monopólio da força de que o Estado sempre gozou, exatamente porque os processos universitários são lastreados na liberdade, na educabilidade e na perfectibilidade humana de que todos os homens e mulheres podem lançar mão.

Quando a força da repressão passa a ser a opção de uma instituição educativa, como agora acontece na USP, em que a repressão suplanta a educação, isso revela que sua missão primeira –a de educar– foi colocada em xeque, está falida ou não desfruta mais da legitimidade que a autonomia universitária lhe confere. Essa medida, então, torna-se profundamente preocupante.

Será que a universidade chegou mesmo ao fundo do poço? Será que a universidade não acredita mais em sua competência educativa? Será que a universidade aderiu de vez ao senso comum por aí alardeado de que para se lidar com drogas a única “droga” é a repressão?

Aliás, reprimir o uso de drogas em lugar de educar para que a juventude saiba lidar com esse dado de nossa realidade é mesmo uma função da instituição universitária? Estamos assistindo à inversão das finalidades institucionais da universidade?

Que a autonomia universitária seja a trilha que mostre para a universidade que o seu precípuo papel é o de educar, possibilitando a auto-formação. Deixemos a repressão para quem dela necessita: os “ordeiros” que não suportam as diferenças e nem querem fazer com que a justiça social e a ética vigorem, facilitando, assim, que forças legalistas e repressivas prosperem para nos asfixiar.

Wilson Correia é Doutor em Educação pela UNICAMP e Adjunto em Filosofia da Educação no Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Leia também:

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Ricardo Maciel: Abusos da PM nas ruas se reproduzem na USP





15 comentários

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Marcelo de Matos

10 de novembro de 2011 às 08h07

Só 11 comentários? Quantos foram vetados. O meu com certeza foi.

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Gilberto Maringoni: “Brasão da PM paulista é um tapa na cara do povo brasileiro” | Viomundo - O que você não vê na mídia

09 de novembro de 2011 às 22h22

[…] Wilson Correia: USP, repressão ou educação? […]

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Felipe

09 de novembro de 2011 às 19h24

Eu, pessoalmente, acho que a PM não deveria estar na USP, por conta do histórico da corporação e sua relação com a ditadura militar. Hoje a PM, infelizmente, nos lembra coisas macabras e incompatíveis com o ambiente acadêmico.

No entanto, noto que um dos grandes problemas dessa discussão toda está sendo tangenciado por quem defende de forma sóbria e plausível a saída da PM do campus. Confunde-se soberania com autonomia, cria-se uma desculpa para que no solo uspiano o próprio uspiano possa se regulamentar, escolher o que é crime e o que não é…. Quando se fala em crime no campus, fala-se em roubo, assalto, estupro… Esquece-se corrupção ativa e uso de entorpecentes.

Acho uma grande pena que uma luta realmente nobre esteja sendo maculada por uma mídia golpista, que bate no calcanhar de aquiles dessa discussão (a vontade da USP de não ter que dar satisfações sobre nada, nem mesmo de suas ilegalidades). O reitor da USP é uma desonra para a instituição, mas o fato que não dá pra defender é que o solo da USP é ´especial´. Lá vale as mesmas regras que valem na rua. Na verdade, por ser lá o local, gênese do pensamento humano, a democracia e o respeito à República deveria ser a bandeira incontestável dos nossos estudantes, que estudam com o dinheiro meu, seu e de todos os paulistanos.

A PM usou de violência desmedida, faz parte de seu DNA isso… Nada justifica. Como também nada justifica a foto do aluno que ´lia um livro´ para um policial, símbolo de uma arrogância que foi muito bem usada pela nossa mídia golpista.

A resolução desse impasse é fácil: O alunato da USP deve soltar um Manifesto, pedindo a saída da PM da USP, pedindo maior integração do campus com a cidade (metrô, por exemplo), pedir a renúncia do reitor e PRINCIPALMENTE, propor uma política REPRESSIVA (sim, essa é a palavra, crime se reprime) contra crimes cometidos em seu ambiente, mormente o uso de drogas. Isso vai quebrar as pernas da mídia golpista e trará a opinião pública de volta. Mas têm que manter isso, têm que, REALMENTE, combater o ilícito, seja com uma polícia privada, seja com Guarda Municipal, seja como for… E mostrar o resultado para a sociedade, demonstrando que a USP apoia a legalidade e despreza a ilegalidade

A USP deve se responsabilizar de alguma forma com o cumprimento das leis do nosso país, dar apoio a quem cumpre é punir quem não cumpre. Uso de entorpecentes é crime, deve ser tratado como tal. Não se olvide a discussão sobre a descriminalização da maconha, acho que essa é uma discussão importante, mas enquanto o uso da cannabis for crime, quem a usar está desrespeitando não apenas a lei, mas a democracia.

fico triste com tudo isso, pq. a esquerda que pensa, que luta, que conseguiu o impensável sairá machucadíssima dessa história, pois a mídia conseguiu usar maestralmente esse acontecimento, por conta da arrogância de uma parcela ´intelectualóide´ e de alguns alunos que preferem pensar em seus prazeres do que pensar nas suas responsabilidades com o futuro da nação.

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Mário

09 de novembro de 2011 às 18h50

Meu Deus, quem e que vai explicar para esses elementos que autonomia NÃO significa soberania? Há uma entrevista do insuspeito Dalmo Dallari para a FSP sobre o tema, procurem na net e aprendam alguma coisa antes de saírem por aí repetindo besteiras desse naipe.

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    cronopio

    11 de novembro de 2011 às 19h04

    Polícia política não é compatível com Estado Democrático de Direito. Informe-se, caro Mário. grato.

Tomudjin

09 de novembro de 2011 às 18h10

Até a polícia já percebeu que, para se eliminar a maconha, é preciso incinera-la.

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Tata

09 de novembro de 2011 às 15h43

Não vi repressão nenhuma.
O que aconteceu foi que o campus da USP estava perigosissimo, pela falta de policiamento adequado. Assim sendo, eles fizeram um acordo com a polícia militar para que ela pudesse atuar dentro do campus. Fizeram isso para melhorar a segurança dos estudantes, professores e funcionários. E em um dia qualquer eles apreenderam alguns estudantes que fumavam maconha no campus, mas nada fizeram com eles. Simplismente autuaram eles na delegacia e depois os soltaram. Os próprios estudantes disseram isso.
Só que alguns baderneiros idiotas esolveram tomar isso como um insulto e fizeram essa bagunça na USP. Depredaram um prédio e roubaram materiais de patrimonio público. Até os estudantes da própria USP estão contra esses baderneiros.

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Eduardo Neto

09 de novembro de 2011 às 14h06

Todo tipo de violência é inaceitável, mas também não podemos ficar insensíveis com um bando de vândalos, que ao invés de estar em sala de aula ou fazendo algo mais útil, ficam fumando maconha no campus da universidade. E ainda se ofendem quando são interpelados! Ora, a USP é uma instituição pública, de onde sairão homens públicos e empresários do amanhã e que é mantida com nosso dinheiro. E, certamente, a sociedade não precisa e não quer estes "revolucionários do baseado", frequentando e tomando lugar de tanta gente que, de fato, quer estudar.

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Pedro

09 de novembro de 2011 às 12h12

Não está tendo nenhuma repressão, a policia está cumprindo seu dever constitucional que é de manter a lei e a ordem. Sem não houver radicalismo por parte do estudantes, vai está tudo bem. Quem quiser fumar baseado, que faça isso na segurança de seu lar, não na USP. A PM vai continuar no Campus, porq assim quer a maioria da comunidade universitária.

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    cronopio

    09 de novembro de 2011 às 14h37

    Essa fase poderia bem ser do Geisel…

Sagarana

09 de novembro de 2011 às 10h39

Repressão para os "mal educados" da esquadrilha da fumaça.

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John

09 de novembro de 2011 às 10h28

Enquanto isso, logo ali na USP, onde policia tucana nao pega bandidos mas bate pra valer em estudantes:

USP pode ser investigada por gasto de R$ 30 milhões em terrenos e imóveis.
http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2011/0…

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Gerson Carneiro

09 de novembro de 2011 às 10h17

PM na USP; Guarda Civil nas praças públicas.

Militarização é a ordem. Repressão no lugar de Educação.

O povo leva porrada na Universidade ou não.

"Quem manda aqui é minha farda"

[youtube GSpUodj2a-E http://www.youtube.com/watch?v=GSpUodj2a-E youtube]

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rafael

09 de novembro de 2011 às 10h01

Na esteira desse entendimento, fez-se tradição o campus universitário ser também ele um domínio que usa leis próprias, na independência que visa a proteger a produção científica e filosófica de possíveis influências externas impossibilitadoras da liberdade acadêmico-universitária.

Inckuindo ai o partido comunista? os movimentos "sociais"? Acorda amigo o mundo mudou, PM no Campus em nada influencia a parca produção acadêmica brasileira, sobretudo na área de humanas.

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    Ramalho

    09 de novembro de 2011 às 13h01

    No campus universitário expressam-se seguidores de partidos comunistas, movimentos sociais, conservadores, anarquistas, bobalhões, todo mundo. Quer dizer, expressam-se, ou deveriam poder expressar-se. Para tanto, no mundo civilizado, o campus é domínio de máxima liberdade de expressão e de prática de direitos individuais, um lugar que goza da chamada autonomia universitária.

    Na USP, o reitor, o governador e simpatizantes não querem que seja assim. Acham que em uma USP "democrática" a liberdade de expressão de comunistas e de movimentos sociais tem de cassada. Acham, ao menos os simpatizantes, que a autonomia visa "proteger a produção científica de influências externas"!!! Como é que é? Uma universidade fechada para o mundo?

    Baseados nesse argumento furado, simpatizantes justificam a polícia no campus.Dizer deles, o quê? Talvez, apenas, que simpatizantes deste tipo não foram, certamente, aprovados no vestibular da USP.


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