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Santayana: Tentando segurar o sol com as mãos


27/07/2012 - 10h56

SERRA E A DEMOCRACIA DE DUAS ORELHAS

por Mauro Santayana

, no Jornal do Brasil

A verdade, diz um provérbio berbere, é como o camelo: tem duas orelhas. Você pode agarrá-la como lhe for mais conveniente, pela direita ou pela esquerda. Essa parece ser a postura do candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, que prefere a direita. Para quem conheceu o jovem Serra de há quase 50 anos, é um desconsolo descobrir o que o tempo faz aos homens. Não só, como no poema de Drummond, ao abater com sua mão pesada, cobra os anos com “rugas, dentes, calva”, mas também costuma sulcar erosões nas idéias.

José Serra quer calar os blogueiros sujos, e usou o seu partido para isso.

Dois nomes são mencionados, Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif. Não preciso expressar a minha solidariedade aos atingidos. O que está em questão – e os dois estarão de acordo com o raciocínio – é muito maior do que eles mesmos  e todos os outros franco-atiradores da internet. O problema real são os limites que querem impor à democracia. 

Ao que parece, há uma liberdade de imprensa para uns, e outra, para os demais. Os grandes veículos de comunicação combatem o governo e recebem dele vultosas verbas de publicidade, como é do conhecimento geral.

Alguns poucos blogs, por convicção, defendem o governo federal, mas, conforme o PSDB,  estão impedidos de receber verbas publicitárias das empresas estatais.

Nenhum jornalista brasileiro pode se dar o luxo de não contar, em sua remuneração, qualquer que ela seja, com parcelas, ainda que pequenas, de dinheiro público. O poder público é a base de toda a economia nacional. Ele contrata as empreiteiras, compra das grandes empresas industriais, além de subsidiá-las com incentivos fiscais,  financia as atividades agropecuárias,  paga pelos serviços,  participa do custeio das grandes organizações patronais, entre elas a Fiesp, para ficar apenas em São Paulo.

Assim, indiretamente, participa de todos os gastos com publicidade.

E mais, ainda: quem paga tudo, afinal, é a sociedade e, nela, os que realmente produzem, ou, seja, os trabalhadores. E são os trabalhadores, com parcela de seu suor, que mantêm o enganoso Fundo de Amparo ao Trabalhador que, administrado pelo Estado, por intermédio do BNDES, financiou as privatizações e continua a financiar empresas estrangeiras, como é o caso notório das companhias telefônicas, a começar pela controlada pelos espanhóis.

Em suma, o trabalhador paga pela corda que o sufoca.

Serra, e os que pensam como ele, tentam, como Josué em Jericó, segurar o sol com as mãos, ou, melhor, impedir que a Terra continue rodando em torno de seu eixo e em torno da nossa estrela. A internet é indomável. E, apesar de suas terríveis distorções, como veículo que serve à difamação, à calúnia, à contrainformação, a difusão de atos de insânia – ampliando o que a televisão vinha fazendo – não há, no horizonte das idéias plausíveis, como amordaçar os bytes, imobilizar os elétrons, apagar as telas.

Tudo isso poderá ocorrer com uma tempestade solar, mas nunca pela ação dos estados – a menos que, como tantos sonham, um governo fascista mundial destrua o sistema.

O candidato José Serra e seus correligionários se encontram alheios ao mundo que os cerca. Estão como um francês distraído que, em 10 de agosto de 1792, em um dos muitos cafés do Jardim das Tuileries, tomava placidamente uma baravoise – para os curiosos, mistura de café, conhaque e uma gema de ovo, segundo a receita do libertino Casanova.

Enquanto isso, a multidão invadiu o Palácio Real – de onde, por pouco,  escaparam Luis XVI e Maria Antonieta – e o saqueou. O desconhecido continuou a beber. Todos os que o cercavam fugiram esbaforidos. Na defesa do palácio, morreram seiscentos guardas suíços. O francês distraído estava alheio a tudo, em sua manhã de agosto. Cinco meses depois, o rei e a rainha encontrariam a lâmina da guilhotina.

José Serra e os seus estão pensando em seu outubro, embora estejamos, no mundo inteiro, em tempos semelhantes aos do francês sans souci. Como sempre, o que está em jogo é a mesma reivindicação dos sans culotte: igualdade, liberdade, fraternidade – ou, seja, a democracia real.

Leia também:

Leandro Fortes: Sobre o calcanhar de Aquiles de José Serra

Tatiana Ivanovici: A internet é a nova rua da periferia

Altamiro Borges: Lula não enfrentou os barões da mídia

Roberto Amaral: Porque os jornalões são contra a entrada da Venezuela no Mercosul

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31 comentários

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FrancoAtirador

29 de julho de 2012 às 12h38

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SERRA ESTÁ MAIS PARA MARIA ANTONIETA DO QUE PARA BEBUM NON SENSE:

“Se você não tem dinheiro para pagar pedágio,

e não tem paciência para andar de trem e de ônibus,

porque não viaja tranquilamente de helicóptero?”

(Maria ‘Serra’ Antonieta)
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Marat

28 de julho de 2012 às 15h04

A lógica do PSDB é igual a lógica de seus patrões (EEUU): A democracia só é democracia quando eles a utilizam. Quando os outros são democráticos, eles têm de ser contidos e combatidos. Só eles podem dizer o que é certo e o que é errado, os outros, nunca!

Responder

FrancoAtirador

28 de julho de 2012 às 14h50

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DECLARAÇÃO FIRMADA EM CARTÓRIO POR MARCOS VALÉRIO

CONFIRMA REPASSE DE R$ 4,5 MILHÕES PARA AZEREDO

Documento assinado e reconhecido em cartório pelo publicitário Marcos Valério contém uma declaração que ele próprio repassou R$ 4,5 milhões para o “Dr. Eduardo Brandão de Azeredo, com autorização dos coordenadores financeiros da campanha Sr. Claudio Roberto Mourão da Silveira e Dr. Walfrido Silvino dos Mares Guia Neto”.

Valério atesta, ainda, de onde obteve o dinheiro para fazer a doação em regime de caixa dois.

“A importância recebida pelo Dr. Eduardo de Brandão de Azeredo tiveram (sic) suas origens do (sic) BEMGE, CREDIREAL, BANCO RURAL, COMIG, COPASA, LOTEIRA MINEIRA, e por intermédio das construtoras ANDRADE GUTIERREZ e ARG”.

A revelação tem força para complicar ainda mais a situação de Azeredo no Supremo Tribunal Federal, onde ele responde a processo como acusado de ser “um dos principais mentores e principal beneficiário do esquema implantado”. Ele foi denunciado por peculato e lavagem de dinheiro.
O processo está sob a guarda do relator Joaquim Barbosa.

http://brasil247.com/get_img?ImageId=256761

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/valerio-firma-em-cartorio-r-45-mi-para-azeredo

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Manuel Henrique

28 de julho de 2012 às 01h12

Estamos com os blogs. Vamos em frente! Liberdade de expressão não é privilégio de uns poucos.

Responder

Abel

27 de julho de 2012 às 23h38 Responder

Maria

27 de julho de 2012 às 22h47

O descontrole do serra fica mais exposto na Internet, que ele não pode controlar.E mostra sua verdadeira face egocêntrica, autoritária e manipuladora. Não há o que salvar nesse arremedo de político. Falta-lhe o essencial: diálogo e poder da argumentação. Fim da história.

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francisco c c pessoa

27 de julho de 2012 às 21h40

Maravilhoso comentario do Sr. Santayana, estou solidario com PHA, Nassif.

Responder

Aline C Pavia

27 de julho de 2012 às 19h15

Meu, Serra já deu.
Já era pra ter sido enterrado politicamente em 2010.
Onde se lhe toque é embuste, fraude, hipocrisia, demagogia, corrupção, higienismo, preconceito, neo-fascismo.
E é assustador ver gente inteligente, informada, esclarecida, que endossa, compactua, aplaude e aprova essa excrescência política.

Responder

    Suzana

    28 de julho de 2012 às 09h11

    Parece que você se julga grande coisa, não?

FrancoAtirador

27 de julho de 2012 às 18h27

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Esta ação do PSDB contra LN e PHA, além de antidemocrática,

é de uma baixeza tal, que a torna absolutamente desprezível;

consegue ser, a um só tempo, vil, mesquinha e simplória,

como é, aliás, tudo o que deriva de Serra e seus sequazes.
.
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Responder

Ronaldo Braga

27 de julho de 2012 às 16h31

“Os grandes veículos de comunicação combatem o governo e recebem dele vultosas verbas de publicidade, como é do conhecimento geral.”

É mais do que isso! A grande mídia recebe vultuosas verbas públicas e as utiliza para combater os interesses do povo! Esse é o grande descalabro!

Responder

jaime

27 de julho de 2012 às 15h36

“Há uma liberdade de imprensa para uns, e outra, para os demais.” Tudo está resumido aí. Parabéns Santayana; parabéns Azenha.

Responder

Fabio Passos

27 de julho de 2012 às 12h12

O ladrão jose serra quer censurar a internet porque aqui as denúncias fartamente documentadas de corrupção são divulgadas…

O ladrão jose serra está mal acostumado com a proteção e apoio que recebe do PIG.

O ladrão jose serra é definitivamente o maior babaca do Brasil. rsrs

Responder

Ramalho

27 de julho de 2012 às 11h49

Santayana, mesmo quando trata de assuntos desagradáveis como é o caso aqui, é um prazer de ser lido. Sustenta com brilhantismo o caminho de excelência aberto por colunistas como Castelo Branco, Alceu Amoroso Lima, Márcio Moreira Alves e poucos outros. E Santayna, também neste caso, tem toda razão.

Responder

Moacir Moreira

27 de julho de 2012 às 11h35

O raciocínio é simples: o pobre em geral não é gente e, portanto, só tem o direito de puxar carroça, como qualquer besta de carga que se preze.

Responder

Edson

27 de julho de 2012 às 11h13

Essa corja tem medo do povo. Vale lembrar de Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e o seu ¨AI-5 digital¨. Os únicos que podem ser ouvidos são os patrões deles do PIG.

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