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Sakamoto: Enchentes? Não adianta “terceirizar” para o plano superior


05/01/2013 - 22h27

por Leonardo Sakamoto, no seu blog

Com exceção dos fanáticos religiosos que enxergam sinais da primeira ou da segunda vinda do messias (dependendo da religião em questão), apenas os mais míopes não percebem que o planeta está dando o troco. Não estou falando apenas do aquecimento global e das já irreversíveis mudanças climáticas que vão gratinar a Terra nos próximos séculos, mas também dos crimes ambientais que fomos acumulando debaixo do tapete e que, agora, tornaram-se uma montanha pronta a nos soterrar.

Muitos falam de tragédias em Xerém, Santa Catarina, Angra dos Reis, Blumenau, Ilha Grande, Alagoas, São Luiz do Paraitinga, Jardim Pantanal, como se fossem situações desconectadas da ação humana, resultados da fúria divina e só. Um prefeito de uma cidade atingida, anos atrás, disse que só restava a ele rezar para Deus controlar as águas. Coitada da população que votou nele e viu o administrador do município “terceirizando” o trabalho para o plano superior, provavelmente dando continuidade ao que foi feito pelos que vieram antes dele.

A declaração é da mesma escola daquela de um assessor de George W. Bush quando questionado sobre a herança deixada às próximas gerações pelos gases geradores de efeito estufa da indústria norte-americana. Não me lembro da frase exata, porque lá se vão anos, mas foi algo do tipo: “não será um problema, porque Cristo voltará antes disso”. Virgem Maria…

Um renomado cientista declarou pouco antes da cúpula do clima em Copenhague que era melhor deixar os fatos tomarem seu curso natural, o mundo aquecer, refugiados ambientais quadruplicarem, cidades nos países ricos serem invadidas pelo mar, a fome surgir no centro do mundo. Só assim pessoas e países tomariam atitudes reais. Situação que, no Brasil, é vulgarmente conhecida como “a hora em que a água bate na bunda”. O problema é que, se nada for feito até lá, quando chegarmos nesse ponto, talvez não haja mais bunda para salvar. Apenas lamentar. E rezar.

O fato é que ocupação irregular, planejamento, plano diretor, reforma urbana são expressões ouvidas apenas no tempo das chuvas. Na seca, elas evaporam do léxico não só dos mandatários, mas também de pobres e ricos, que continuam construindo, desmatando e poluindo. Suas razões são diferentes, uns lucram com isso e outros são empurrados pela falta de condições materiais. Mas o efeito é o mesmo.

Vale lembrar que tudo o que foi dito aí em cima não gera um voto, pelo contrário: quem é o doador que vai ficar feliz por ter a construção de sua casa em uma área de preservação ambiental embargada? Ou qual o famoso apresentador de TV, que teve sua pousada de luxo removida de um paraíso ecológico cercado de água por todos os lados por estar em local impróprio, toparia fazer campanha de graça para o político que atuou firmemente para a referida pousada ir ao beleléu?

Considerando que quando há um problema urbano os mais pobres são expulsos do lugar onde estavam para um lugar perto da esquina entre o “não me encha o saco” com o “não me importa aonde”, é de se esperar também que a remoção deles de áreas de risco e de locais inundáveis também seja precedida de grandes protestos que irão reverberar nas urnas. Então, ninguém faz nada, só promete e faz cara de preocupado e de entendido. Afinal, é de palavras vazias que vive nossa política.

Todas essas considerações já foram ditas neste espaço. Qualquer solução eficaz adotada vai passar por mudanças no comportamento de todos nós. Como diria Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência, “todos querem a liberdade, mas quem por ela trabalha?” No Brasil, muito poucos. A maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência e o resto que se dane. Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria o “American Way of Life” que importamos, apenas reciclar latinhas de alumínio e dar três descargas a menos no vaso sanitário por dia. E seguem respondendo de boca cheia que fariam de tudo para ajudar o meio ambiente.

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12 comentários

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lm_rj

06 de janeiro de 2013 às 22h18

Sakamoto
veja este texto q interessante e crítico qto a jogos/copa no brasil:
disponivel aqui:

http://www.tribunadaimprensa.com.br/?p=56623

Sediar Copa ou Olimpíada só traz prejuízo e frustração
Robert Silva

A mídia tem informado aos seus leitores que existe inquérito do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro sobre irregularidades (suposto superfaturamento) na licitação da obra de reforma do Maracanã, acrescentando que uma investigação dessa natureza pode gerar ações de ressarcimento ao erário e/ou de improbidade administrativa.

Como brasileiro gostaria de saber o andamento do referido inquéito no MPF/RJ. O dinheiro que financia as obras é nosso, é do povão, e depois na hora da Copa vamos ver um estádio voltado para os ricos: estacionamento caríssimo; ingressos idem. Ou seja, o povão financia, mas não vai usufruir, porque o Brasil é um país de trouxas.

Se Copa/Olimpíadas fossem boas para os países-sede, não teríamos esta situação: Itália Copa 90) – semiquebrada; Espanha (Jogos 92) – semiquebrada; França (Copa 98) – à beira da recessão; Japão (Copa 2002) – à beira da recessão; Grécia (Jogos 2004) – quebrada; África do Sul (Copa 2010) – com graves problemas sociais e imerso em dívidas dos elefantes brancos construídos.

Portanto, porque as pessoas têm ideia de que sediar Copa e Jogos Olímpicos seja uma coisa boa? Fatos provam o contrário!

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Robert Silva tem toda razão. Não há garantia de retorno financeiro na promoção de grandes eventos, tipo Copa do Mundo ou Olimpíada. Exemplos: em Montreal, Atlanta e Atenas, os Jogos Olímpicos deram prejuízo. Na África do Sul, a realização da Copa do Mundo deixou como herança vários estádios que não têm utilização, são elefantes brancos, como se dizia antigamente. O mesmo fenômeno vai ocorrer no Brasil. Estão sendo construídos grandes estádios onde não há público nem times nos campeonatos A e B. É um inaceitável desperdício de recursos, sem possibilidade de retorno. E o estádio do Corinthians, quem está bancando as obras??? (C. N)

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    Pimon

    07 de janeiro de 2013 às 17h50

    Terceirizar… tudo é terceirizado.
    É a Dilma!
    E ela não tem NADA a ver com os mandos e desmandos de uma Prefeitura ou Estado.
    É Constitucional.
    Quanto ao artigo do Sakamoto, bom saber que a Tribuna faliu!

souza

06 de janeiro de 2013 às 14h54

mesmo com forte resistencia existe os que anonimamente luta a favor do povo e da natureza.
é por aí que devemos ir.
a luta continua.

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Cesar

06 de janeiro de 2013 às 13h39

É…e depois de alguns anos, pelo menos aqui em São Paulo, estragos que “antes” eram de responsabilidade de São Pedro e cia, vão voltar a ser culpa da prefeitura…
Mas algo me anima, pois em Dezembro a rua Oscar Freire ficou alagada!!!
É a democratização das enchentes!!

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trombeta

06 de janeiro de 2013 às 10h30

Notícia que você não vai ver no PIG:

Hijo de gobernador de San Pablo detenido en Punta del Este por riña en un boliche

Dos turistas extranjeros, uno de ellos hijo del gobernador de San Pablo, Geraldo Alckmin, fueron detenidos por un incidente que los enfrentó a la guardia de seguridad de un boliche nocturno en Punta del Este.

Los jóvenes concurrieron en la noche del jueves a un boliche nocturno como parte de su veraneo en Punta del Este. En una habitual movida de este tipo de negocios, los jóvenes quedaron enfrentados a un forcejeo con un guardia de seguridad.

El forcejeo se convirtió en una pelea a golpes de la que intervinieron otros guardias y el amigo de Alckmin, por lo que el incidente cobró otras proporciones.

La policía bajo cuya jurisdicción se encuentra el boliche fue advertida de lo ocurrido, y cuando llegó al local puso fin a la pelea con la detención de los dos jóvenes extranjeros. Los dos muchachos eran puestos a disposición judicial este viernes 4 de enero.

La información policial no señala si alguno de los guardias de seguridad fue detenido, o demorado por este incidente.

Montevideo, Uruguay
UNoticias
Fuente: FM Gente.
GG

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    Conceição Lemes

    06 de janeiro de 2013 às 14h46

    Trombeta, a notícia foi desmentida. abs

    Edson Augusto

    06 de janeiro de 2013 às 18h37

    Obrigado ao “trombeta” pela intenção e pesquisa e a Conceição Lemes pelo esmero ao avaliar o post. Abs

    Roberto Locatelli

    07 de janeiro de 2013 às 03h26

    Prezada Conceição, a notícia foi desmentida pelas fontes “oficiais”. No entanto, a mídia uruguaia ainda afirma que se trata do filho do governador. A conferir nas próximas semanas…

carlos dias

06 de janeiro de 2013 às 02h45

É um orgulho termos Sakamoto como crítico. Parabens!! A tragédia anunciada que Sakamoto desenha já é de conhecimento geral…. A inércia e o cinismo ainda vao por nossa civilizacao a perder….

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    genital lacerda

    06 de janeiro de 2013 às 15h13

    “nossa civilização’????????? onde? quando?? como?? me dá o endereço que quero ir pra lá…

denis dias ferreira

06 de janeiro de 2013 às 01h04

Eleições no Brasil deveriam ser realizadas em meados de janeiro!

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A homenagem de Stanley Burburinho a Zeca Pagodinho « Viomundo – O que você não vê na mídia

05 de janeiro de 2013 às 23h08

[…] Sakamoto: Enchentes? Não adianta “terceirizar” para o plano superior […]

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