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Alipio Freire: “Sorria, você está sendo filmado”


11/09/2011 - 08h53

por Alipio Freire, em Brasil de Fato

Segundo Jean-Paul Sartre, não é o torturador que faz a tortura, mas a prática da tortura que faz o torturador. Concordando, afirmamos: não é o fascista que faz o fascismo. São as práticas fascistas que fazem os fascistas.

Outrora temíamos a volta do fascismo. Hoje, vivemos às vésperas da lei de Gerson ser erigida (oficialmente) em capítulo primeiro das constituições de “estados democráticos”, e da impunidade das elites e dos agentes do seu Estado ser transformada em jurisprudência. Oficiosamente, o Mundo já parece funcionar assim.

A naturalização dos massacres dos mais pobres por agentes do Estado ou milícias privadas; a convivência promíscua com a corrupção; a flexibilização do conceito de tortura e definição de “circunstâncias” em que ela pode/deve ser utilizada; os poderes das Repúblicas controlados e exercidos pelos dossiês (chantagens); a delação premiada como estatuto legal; o medo e o pânico como alavancas da paz social; mecanismos de controle dos indivíduos em nome da sua segurança pessoal, como câmeras e gravadores espalhados por toda parte, muitas vezes com o apelo cínico e patético: “sorria, você está sendo filmado” (e muitos sorriem); a valorização das pessoas pelo que são capazes de consumir; a vida pública e a vida privada mercantilizadas como espetáculo; a substituição do conceito de autodeterminação dos povos pelo de “soberania relativa”, implicando invasões, guerras e destruições de povos em nome da democracia e da paz internacional; o acobertamento das disputas de mercados e de classes, por “guerras religiosas”; o moralismo cada vez mais torto e hipócrita a serviço de escândalos capazes de vender jornais, revistas, programas de tv, rádio, etc.; o silêncio da grande maioria dos que mais sabem; enfim, a banalização do mal.

A lista é infinita.

Ou seja, as práticas fascistas estão instaladas no dia a dia.

Agora, só falta um pouco mais de prática intensiva desses valores para que os quadros do fascismo emirjam viçosos e despojados de qualquer conveniência.

E eles estão se formando: na direita e na esquerda.

Alipio Freire, jornalista e escritor, integra o Conselho Editorial do Brasil de Fato e da Editora Expressão Popular.

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24 comentários

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francisco.latorre

12 de setembro de 2011 às 11h47

essa conversa de que é tudo igual.

vai e volta com uma regularidade entediante.

..

alô.. amigos..

não adianta rede se a pauta é a deles.

..

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Operante Livre

12 de setembro de 2011 às 09h01

Prefiro ficar com a síntese de seu texto, com o qual o inicia. O resto me é desnecessário.

" Segundo Jean-Paul Sartre, não é o torturador que faz a tortura, mas a prática da tortura que faz o torturador. Concordando, afirmamos: não é o fascista que faz o fascismo. São as práticas fascistas que fazem os fascistas."

Responder

arimatéia

12 de setembro de 2011 às 08h13

A pergunta é: como pode a esquerda governar um pais estruturalmente de direita, sem nada mudar? É o que vem fazendo o PT desde que assumiu o poder. Com a preocupação de não se deixar levar pelo "chavismo" o governo petista só faz a alegria da direita e assume as consequencias advindas. Pelo menos o Chavez teve a coragem de mudar a configuração do Estado Venezuelano para praticar a teoria socialista, enquanto o PT não foi capaz disso. Por isso não se consegue distinguir no Brasil onde está a direita ou a esquerda.

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    Mário SF Alves

    26 de setembro de 2011 às 18h12

    É, companheiro, desculpe aí pelo aparte, mas, por acaso, seria o Brasil igual a Venezuela? Refiro-me à complexidade política.
    Abs.,
    Mário.

Dinha

11 de setembro de 2011 às 19h12

O mal ronda a terra , título sábio esse do Tony Judt.

Responder

Wilson Ferreira

11 de setembro de 2011 às 18h59

Na verdade as práticas proto-fascistae atuais possuem uma característcia de farsa, parafraseando Karl Marx (na História dos eventos ocorrem primeiro como tragédia e depois como farsa).
Se o fascismo clássico foi uma reação à depresssão econômica e a humilhação do nacionalismo, o Retrofascismo atual é uma formação reativa contra a "bomba tecnológica"
Veja: http://cinegnose.blogspot.com/2011/03/retrofascis
e http://cinegnose.blogspot.com/2011/04/retrofascis

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Regina Braga

11 de setembro de 2011 às 16h43

Nada mais é o que aparenta…O pigcamaleão se transformou em apolítico,moralista e ético…Dentro de uns dias, vc não vai ser visto…Mas estamos filmando,então sorria!

Responder

À espera da pílula do bom consumidor | Viomundo - O que você não vê na mídia

11 de setembro de 2011 às 16h27

[…] apontou Alípio Freire, aqui, as manifestações do fascismo estão por toda […]

Responder

cronopio

11 de setembro de 2011 às 15h55

Acho que nem todas as práticas elencadas estão diretamente relacionadas ao fascismo. Parece-me que o ponto em comum entre elas é o fato de todas colocarem em risco práticas democráticas. São praticas totalitárias, resumidamente, algumas rementem claramente a atitudes tomadas pelo governo petista, tais como "a valorização das pessoas pelo que são capazes de consumir" (a inclusão promovida pelo governo atual foi principalmente uma inclusão no consumo, ressalva que toda pessoa de esquerda precisa fazer, mesmo aquelas que, como eu, ainda votam no PT) e a "convivência com a corrupção" (embora esse seja apenas um sintoma de um problema estrutural bem mais amplo que tem sido reduzido a um dilema moral pela direita oportunista). O mais curioso é que essas práticas tenham sido criadas dentro da própria democracia, e hoje estejam corroendo-a por dentro, como os vermes de um queijo Casu Marzu. Na França, por exemplo, proíbem as crianças muçulmanas de usarem véus nas escolas, sob a alegação da “laicidade” do ensino, um dos pressupostos da democracia. É claro que a intenção verdadeira não é essa, ou seriam proibidos os símbolos cristãos , como os crucifixos que muitas crianças francesas usam no peito. Trata-se de uma maneira de utilizar o discurso democrático contra si próprio, pervertendo-o. "Sejamos tolerantes com os tolerantes, mas aprendamos a ser intolerantes com a intolerância. Não podemos ser tolerantes com os intolerantes", afirmou Geert wilders, então candidato ao cargo de Primeiro Ministro da Holanda. No Rio de Janeiro, a invasão das favelas para a preparação da festa multicultural da Copa do Mundo desrespeita os direitos civis mais fundamentais de qualquer democracia, ali o exército invade residências sem mandatos, efetua prisões arbitrárias, saques e execuções sumárias. Não é tão diferente do que Israel faz na palestina. Explico-me: em todos esses casos (inclusive com os imigrantes "ilegais" na Europa e os terroristas potenciais nos EUA), um determinado grupo de pessoas é excluído de todos os direitos civis, um pouco como acontecia com o "homo sacer" romano. De um modo geral, penso que as contradições que colocam em xeque a democracia atual são intrínsecas ao desenvolvimento capitalista. Ao contrário do que afirma o bom-senso neoliberal hegemônico, o capitalismo não é um sistema avesso a administrações totalitárias. O exemplo de Friedman como ministro de Pinochet é apenas a evidência de uma afinidade eletiva de longa data entre capitalismo e totalitarismo. O atual crescimento chinês, no qual pegamos carona, é a prova cabal de que o capitalismo não precisa da democracia e pode muito bem descartá-la quando o mercado exigir, como está fazendo na Europa, onde a população esperneia inutilmente diante do fim do estado de bem-estar. Talvez seja o momento de levarmos a sério a necessidade de transformar o mundo para a qual nos adverte Hobsbawm em seu livro mais recente.

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11 de setembro de 2011 às 15h41

Tempos difíceis. E adivinhe surpreso Alipio, vai piorar.

Responder

Ronaldo Braga

11 de setembro de 2011 às 15h09

Pessoal,
O Eduardo Guimarães (através do Movimento dos Sem Mídia) está convocando (http://www.blogcidadania.com.br/2011/09/ato-contra-corrupcao-da-midia/) um ato contra a corrupção da mídia.
Local: no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Dia e hora: às 14 horas de 17 de setembro próximo.
Para aderir ao evento no Facebook, vá ao endereço http://www.facebook.com/event.php?eid=17213332286

Responder

Polengo

11 de setembro de 2011 às 14h56

"Senhor, informo que esta ligação está sendo gravada para sua segurança…"

Responder

Marat

11 de setembro de 2011 às 14h42

Vejo nas ruas, pelas conversas dos populares, que a esquerda está nocauteada e não tenta reagir. Fico triste e constrangido ao ver defensores do capital, do capitalismo e do canibalismo social que se nos apresenta!!!

Responder

Marat

11 de setembro de 2011 às 14h40

Uma forma de se lidar com isso seria uma efetiva democratização dos meios de comunicação. Canais de TV, rádios, revistas etc., para dar contrapontos ao neoliberalismo e neoconservadorismo, e ajudar a aclarar as idéias de nossos jovens.

Responder

dukrai

11 de setembro de 2011 às 13h34

desculpe, mas desta lista de naturalizações fascistas não vi uma sequer que se aproxime da prática de esquerda.

Responder

    vinteculturaesociedade

    11 de setembro de 2011 às 14h10

    Ok! Mas quando a esquerda se cala e/ou se omite "confortavelmente", transmite a perigosa idéia de que concorda com tais fatos.

    Saudações respeitosas,

    Dusdédit R Morais

    dukrai

    11 de setembro de 2011 às 21h14

    bão, pela omissão estamos de acordo e em última instância somos cúmplices dessas práticas.

    francisco.latorre

    12 de setembro de 2011 às 11h45

    e não?..

    ..

    dukrai

    12 de setembro de 2011 às 14h13

    axiomático

FrancoAtirador

11 de setembro de 2011 às 12h25

.
.
QUEM MATOU TONINHO DO PT, EX-PREFEITO DE CAMPINAS?

ATÉ HOJE, ESSA PERGUNTA NÃO FOI RESPONDIDA.

A família do prefeito de Campinas Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, assassinado há dez anos, prepara um ato público em nome da resistência contra a omissão no caso.

Após ir a Brasília na última terça-feira, 6, para tentar a federalização das investigações sobre o assassinato, a viúva do político, Roseana Garcia, informou que, caso não haja desdobramento na esfera federal, ela e seu advogado recorrerão à comissão de direitos humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). A viúva diz não ter dúvidas de que o crime foi político. Até hoje não se sabe quem matou Toninho.

O prefeito eleito em 2000 foi atingido com um tiro na noite de 10 de setembro de 2001, após sair do Shopping Iguatemi. Toninho foi encontrado morto dentro de seu carro, um Palio, na Avenida Mackenzie. O prefeito não utilizava carros oficiais fora do expediente e não tinha seguranças.

Investigações reabertas

O caso passou pela Polícia Civil de Campinas e pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo. O Ministério Público Estadual em Campinas chegou a apontar a quadrilha do sequestrador Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, como responsável pelo assassinato, mas o juiz José Henrique Torres não aceitou a denúncia. Os promotores recorreram da decisão do juiz no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que manteve a sentença de Torres. No fim do ano passado, as investigações foram reabertas pela Justiça.

Em sua viagem a Brasília na última terça-feira, a viúva solicitou ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a entrada da Polícia Federal do caso. Roseana e o advogado da família também pediram ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, a federalização das investigações. "A PF pode cooperar no caso, mas como estamos em uma República, deve haver uma conversa com o governador do Estado de São Paulo. Pedimos que o ministro tivesse essa conversa", disse Roseana. "O procurador-geral precisa enviar o pedido de federalização ao Superior Tribunal de Justiça. E sabemos que só houve um caso de federalização, o do Manoel Mattos (advogado pernambucano morto em 2009 e cujo crime foi o primeiro a sair da jurisdição de um estado para ser julgado pela União), mas o caso do Antonio é emblemático, é um atentado contra a democracia."

http://www.brasil247.com.br/pt/247/brasil/14682/D

Responder

    Thiago M Silva

    11 de setembro de 2011 às 14h31

    Seria legal o Alipio Freire citar nomes dos que estão à esquerda. É muito triste ainda não terem esclarecido o assassinato do Toninho do PT. A federalização do caso deveria ter ocorrido de imediato!! Mesma coisa da juíza do RJ, recentemente. Mas é impressionante a exploração que a direita midiática faz disso.

    Achar que tem questão partidária envolvida?…Eu duvido muito! Se tivesse, a polícia do Estado de São Paulo já teria criminalizado gente do PT faz tempo! Isso sim mancharia o nome de muita gente do partido e o próprio partido para SEMPRE!! Mas, sim…não esclarecer sua morte faz parte das práticas fascistas…

Mário SF Alves

11 de setembro de 2011 às 12h17

Pois é. É por essas e por outras que chego a cogitar se é, de fato, possível ser de esquerda sem ser radical. A propósito, que jogo tem jogado essa esquerda não radical? Refiro-me ao Brasil. O que conquistamos até agora? Conseguimos o quê? Gerenciar a dinâmica do capitalismo de modo menos convencional, com redução do grau de apartheid local? Seria essa a cunha capaz de abrir definitivamente a brecha essencial para o desenvolvimento sócio-economico do Brasil?
P…! E eu que acreditava que ser democrata num país como o nosso já seria agir politicamente à esquerda.

Responder

O_Brasileiro

11 de setembro de 2011 às 10h58

"A vida é bela"…

Responder

josaphat

11 de setembro de 2011 às 09h08

Muito triste e bonito por verdadeiro. Mas, outrossim, não nos esqueçamos da ascensão dos movimentos sociais. É o 'mal de braços e abraços com o bem no juízo final'.

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