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Fátima Oliveira: O feminismo brasileiro ficou menor


25/09/2012 - 00h42

Vanete Almeida e Maria Cecília  Gomes: “O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”

Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica – [email protected] @oliveirafatima_

Na semana passada, perdi duas amigas: Vanete Almeida, 69, no dia 9, em Recife, e Maria Cecília Magalhães Gomes, 66, no dia 10, em Belo Horizonte. O feminismo brasileiro ficou menor com a partida delas. Eram duas faces do feminismo: o rural e o urbano.

Fiquei num mutismo sem fim, pois nem bem introjetara que não mais veria Vanete sorrir, chega a notícia de que eu não me deliciaria mais com os “poréns” de Cecília. Inconformada com duas perdas, no decorrer da semana, fui acolhida por Guimarães Rosa: “O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Foi um alívio, pois rememorar a minha vida com Vanete e Cecília passou a ser um doce privilégio. Agora, elas vivem em minha memória.

Vanete Almeida, pernambucana, educadora popular e dona de um hectare de terra no sertão, conheci no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), entre 1999 e 2003. Virei fã ao ouvir sua apresentação às novas conselheiras. Tínhamos uma identidade ideológica grande, e eu adorava ouvi-la contar de suas labutas e apreciava suas gargalhadas cristalinas enormes…

Sobre ela, eu poderia escrever páginas e páginas, mas fiquemos com uma declaração que dei ao Viomundo:

Conheci Vanete quando fizemos parte do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Aprendi a admirá-la e a amá-la pelas convicções pelas quais pautou a sua vida, sobretudo a sua dedicação incondicional ao trabalho com a mulher camponesa e a sua compreensão da sua negritude. Ela gostava de dizer que, fora da esquerda, a luta dos oprimidos não encontraria o caminho da vitória, mas que, às vezes, insistir era muito cansativo, principalmente quando a esquerda escorregava… E ríamos muito porque pensávamos da mesma maneira…

Maria Cecília Magalhães Gomes, mineira, historiadora, inscreveu seu nome na história do movimento estudantil, no apoio ao jornal Movimento, junto com seu irmão Marcos Gomes, na luta contra a ditadura e pela anistia e na fundação do Movimento Popular da Mulher (Belo Horizonte-MG, 1983) e, desde então, esteve muito presente na luta pelos direitos da mulher em Minas Gerais. A Cecília devemos muito, sobretudo pela delicada preocupação com o bem-estar das mulheres em momentos de dificuldades e de desamparo.

É inesquecível o dia em que ela, há muitos anos, ao telefone, disse-me, em linhas gerais, o seguinte: “Fátima, andei fazendo umas pesquisas que acho que são cruciais para as mulheres. Não posso contar por telefone, vamos nos encontrar”.

Preocupada com a segurança das mulheres nas clínicas clandestinas de aborto, ela decidiu conferir in loco cada uma cujo endereço conseguiu, acho que umas oito. Marcava, pagava a consulta e, antes de ser consultada, pedia para conhecer a clínica e, assim, conferia as condições de higiene e esterilização…

Depois, dizia que queria pensar mais… E, assim, coletou informações preciosas que ajudaram inúmeras mulheres, pois quase a metade das clínicas não foi considerada segura, aliás, eram muito perigosas. Era o visionarismo ceciliano em ação, anos antes do estabelecimento do conceito de redução de danos.

Era assim a Cecília: meticulosa, dedicada e com um senso refinado de pesquisadora. A característica mais forte de sua personalidade era a dedicação às causas que abraçava. Recordo com carinho a animação em que ficava quando lia uma crônica minha sobre cavalos. Disse-me várias vezes que um dia iria cavalgar comigo… Não deu tempo. Ficam comigo os versos de sua irmã Clarinha: “Machões da vida,/ mexam-se,/ levantem-se,/ a gueixa pifou…”.

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7 comentários

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Letícia Ferreira Martins

26 de setembro de 2012 às 15h48

O Brasil perdeu duas valorosas mulheres. Duas mulheres que dedicaram suas vidas á solidariedade, á luta por um mundo de justiça, de direitos e de igualdade.
Lamentavelmente há pessoas que são sem noção nenhuma de civilidade, que não respeitam nem os mortos e assim demonstram que elas, as pessoas sem noção, não farão falta ao mundo porque são demasiadamente ordinárias. Só uma pessoa de baixo nível e ordinária escreve o que o Sr, Pedro Volpe, de Nova Odessa escreveu. É triste a gente ter de reconhecer que há seres humanos que não deveriam sequer ter nascido.

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Estela Porto

26 de setembro de 2012 às 09h33

Vanete e Maria Cecília viveram intensamente e com dedicação a luta pelos direitos das mulheres. Merecem respeitos desses bandidos misóginos. Cada pessoa deve seguir o que manda a sua consciência o modo como vai fazer de sua vida.

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Tetê

25 de setembro de 2012 às 21h46

Para Pedro Volpe · Nova Odessa
Sabia que é um verme? Verme causa doença.
Maria Cecília Magalhães Gomes e Vanete Almeida foram GENTE! Merecem homenagens

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Gerson Carneiro

25 de setembro de 2012 às 17h55

“Não desespere Quando a vida fere, fere
E nenhum mágico interferirá
Se a vida fere Com a sensação do brilho
De repente a gente brilhará
Realce!”

Realce – Gilberto Gil

“Levanta
Me serve um café
Que o mundo acabou.”

Nostradamus – Eduardo Dussek

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Mardones Ferreira

25 de setembro de 2012 às 16h01

Duas mulheres – que como tantas outras nesse Brasil – não estampam capas de revista, não são consultadas sobre as últimas da moda, da culinária e não são conhecidas do chamado grande público, mas nem por isso deixaram de viver sua verdade intensa.

Merecida homenagem.

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Alberto

25 de setembro de 2012 às 15h07

Duas guerreiras que se foram tão cedo. Bonita homenagem

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Joana Barbosa

25 de setembro de 2012 às 09h24

Pura emoção. Senti saudades e nem as conheci.

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